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Procuram-se profissionais de exatas

Pesquisa revelou que 90% das empresas brasileiras carecem de pessoal nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Segundo especialistas, falta incentivo ao interesse por essas disciplinas nas escolas

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postado em 27/03/2016 13:17 / atualizado em 27/03/2016 14:32

Paula Braga /Especial para o Correio

Minervino Junior

O Brasil enfrenta carência de profissionais nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês). O deficit foi percebido por empresas da área e apontado em pesquisa da multinacional de recursos humanos Randstad, que entrevistou 13,6 mil funcionários e chefes de 18 a 65 anos em companhias de 34 países. A nação verde e amarela é aquela em que os empregadores mais destacaram a necessidade de os estudantes se dedicarem a graduações na área de exatas — 90% dos brasileiros afirmaram perceber a insuficiência de pessoas com o perfil para atuar nesse segmento, enquanto a média global de participantes que admitiram a escassez foi de 71%.

Além do Brasil, a Índia, a Malásia e o México parecem enfrentar maus bocados para suprir a demanda de profissionais em exatas — os países ficaram empatados em segundo lugar no ranking, com 89% de respostas positivas ao serem questionados se mais estudantes deveriam focar em carreiras nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. O Chile (86%) ficou com a terceira colocação no quesito. “Nas nações que estão passando por um momento econômico mais crítico, a aceitação das pessoas com esse conhecimento no mercado é maior, principalmente nos que desejam modificar problemas sociais e sair do momento instável”, destaca Anna Melo, gerente da Randstad Professional (unidade da empresa responsável por ofertar soluções em recrutamento e seleção de profissionais de alta e média gerência).

Desde 1998 a empresa de tecnologia Mirante oferece soluções em tecnologia para clientes. Atualmente o quadro de funcionários da companhia conta com 290 pessoas, mas a empresa planeja uma expansão para o próximo ano e encontra dificuldades em preencher 60 vagas voltadas para a área de tecnologia da informação — com pessoal graduado em ciências da computação, sistemas de informação e engenharia de software.

“Poucos profissionais estão qualificados na área, então, temos esse gargalo nos recursos humanos. Algumas das alternativas que encontramos para resolver esse problema foram promover estágios internos e capacitar os funcionários com treinamentos sobre as plataformas”, destaca a gerente de Recursos Humanos da Mirante, Fernanda Teles Vieira.

Segundo especialistas que atuam nos segmentos, a ausência de estímulo e direcionamento de estudantes desde a educação básica para as áreas de exatas é um dos fatores que influenciam a redução de mão de obra nesse setor. “Em nível mundial, a falta de incentivo para esse tipo de conteúdo na formação básica ocasiona a perda desses profissionais no futuro. Geralmente, são disciplinas trabalhadas de maneira pouco lúdica, que não despertam interesse no aluno”, aponta Anna Melo.

 

 

 

Em alta e em baixa
A química é um dos campos de estudo que têm vivenciado a redução de egressos da escola entusiasmados com a disciplina.

Para se ter ideia, segundo o Censo da Educação Superior de 2014 do Ministério da Educação (MEC), o número de químicos formados em cursos superiores de bacharelado e licenciatura corresponde a pouco mais de 6,9 mil em um universo de mais de um milhão de graduados naquele ano no Brasil. “O que percebemos é que, cada vez mais, os estudantes procuram outras áreas em detrimento das voltadas para a ciência. A química é uma das que estão esquecidas, apesar de ser essencial para a indústria, por exemplo. Entre os possíveis motivos para a redução do interesse estão os baixos salários e a falta de informação sobre os setores de atuação”, cogita o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Cloro, Álcalis e Derivados (Abiclor), Martim Afonso Penna. “Nos últimos anos a indústria química não vem crescendo na velocidade que estava anteriormente, o que faz com que, no momento da escolha da graduação, apresente baixa competitividade em comparação a setores que estão em alta”, completa. A indústria de cloro-álcalis é uma das que estão em alta no setor: em 2015, os empregados da área receberam valor médio de R$ 5.876,05 por mês, equivalente a três vezes o salário médio pago por outros setores.

O baixo número de profissionais nas áreas pode representar oportunidade para quem deseja entrar no mercado de trabalho. Algumas das carreiras do setor de STEM devem continuar demandando mão de obra nos próximos anos e podem ser uma aposta para quem está escolhendo a carreira. O nicho de tecnologia, por exemplo, está aquecido desde 2015 e tende a continuar apresentando oportunidades com salários atraentes. Segundo o site brasileiro de classificados de emprego Catho, em maio do ano passado, o setor anunciou 10.867 vagas no portal.

“Há várias empresas procurando profissionais de tecnologia. Algumas estão com vagas abertas há muito tempo por falta de pessoal qualificado para preencher as oportunidades. É um mercado que está carente, vai sentir a falta de profissionais nos próximos anos e, quem tiver essa percepção poderá se aproveitar desse momento”, prevê Luciano Soares, coordenador da graduação em engenharia da computação do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Os salários devem ser um atrativo a mais: ainda segundo a Catho, a média de rendimentos para a vaga de diretor de TI (tecnologia da informação) durante o ano passado foi de R$ 17.784,03. “É uma área que pode ser uma aposta para quem está ingressando na universidade”, ressalta Luciano.

"Algumas das alternativas que encontramos para resolver esse problema foram promover estágios internos e capacitar os funcionários com treinamentos sobre as plataformas”
Fernanda Teles Vieira, gerente de RH da Mirante

O que é STEM?
A sigla de origem americana (formada pelas palavras science, technology, engineering and math) refere-se à área de exatas. “É um termo que está fazendo muito barulho nos EUA e que define um perfil de profissional capaz de resolver problemas, entregar um produto sem se limitar apenas à atividade de cientista. É desse tipo de trabalhador de que a indústria precisa”, explica o coordenador da graduação em engenharia da computação do Insper, Luciano Soares.

 

Resolvendo o problema na base


“O Brasil é um país com formação básica deficitária, o que dificulta o acesso às áreas de exatas. Além disso, há poucas escolas formadoras em alguns cursos, como biomedicina e engenharia mecatrônica, e nos ramos da ciência relacionados a saúde e educação”, destaca Anna Melo, da Randstad. Perante o desinteresse dos alunos pelos cursos de exatas e engenharia, algumas entidades visam estimular que mais jovens sigam essas carreiras.

No caso da química, por exemplo, instituições relacionadas ao estudo da disciplina se organizaram para promover a olimpíada brasileira da matéria. “Quando iniciamos o projeto, em 1994, muitos alunos que participavam da olimpíada decidiam ingressar no curso, mas o número de formados era baixo. Agora, temos vários olímpicos graduados e estudando na área, fortalecendo também a pós-graduação”, destaca o coordenador nacional da Olimpíada Brasileira de Química (OBQ), Sérgio Melo.

Voltada para jovens do ensino médio e das últimas séries do ensino fundamental, a OBQ procura reforçar a atração pelo conteúdo na fase de escolhas do curso superior. As olimpíadas ocorrem em escolas públicas e particulares e são organizadas em fases estaduais, regionais, nacionais e internacionais. O objetivo é promover ainda a interação da indústria com o estudante e com a academia. Na última edição, cerca de 310 mil adolescentes de todo o país participaram. A edição 2016 está na fase de disputas estaduais, e algumas unidades da federação ainda estão com inscrições abertas. Para participar, os estudantes devem procurar a direção da escola onde estudam. Os alunos mais bem colocados disputarão a etapa nacional, que ocorrerá em agosto. No DF, as inscrições ainda não começaram, mas a prova está prevista para 4 de junho. O edital será publicado nas próximas semanas no site www.petqui.wordpress.com (confira mais opções no quadro Competições).

Nos Estados Unidos, o termo STEM se refere também a programas educativos inseridos nas escolas e nas universidades com o objetivo de trabalhar as disciplinas do ramo e desenvolver mão de obra qualificada. No ensino superior, alunos de diversos cursos podem, por exemplo, participar de projetos em laboratórios ou tomar aulas de conteúdos fora da grade das graduações originais.

83%
Número de brasileiros que disseram que o empregador deve investir mais no desenvolvimento de habilidades digitais

 

Escolhendo uma nova carreira


Segundo a pesquisa da Randstad, 63% dos entrevistados em todo o mundo afirmaram que, caso pudessem retornar aos 18 anos, focariam em áreas de estudos em ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Os arrependidos no Brasil estão em porcentagem mais alta — 81% escolheriam esses ramos de atuação. Outro segmento que atraiu os olhos dos brasileiros foi o das profissões que atuam nos âmbitos digital / on-line: 86% dos que respondentes da pesquisa concordam que, caso tivessem acabado de alcançar a maioridade, escolheriam uma carreira ligada à internet.

O estudante Gustavo Henrique Reis Varela, 19 anos, não pretende engrossar a lista daqueles que desejam voltar atrás na escolha da graduação. Ele optou pela formação em jogos digitais e está no penúltimo semestre do curso (que dura dois anos e meio) no Centro Universitário Iesb. “Nas disciplinas, aprendemos a programar, modelar em 3D, processos de criação de arte em 2D, um pouco de linguagem. A partir do segundo semestre, também precisamos apresentar um jogo ao fim de cada período, com níveis de complexidade diferentes”, explica. Os profissionais qualificados na área podem trabalhar na indústria de jogos, webdesign, entre outras. “É uma carreira em tecnologia que, com certeza, vai ganhar mais destaque nos próximos anos. Brasília está se tornando um dos polos na área, assim como São Paulo e Rio Grande do Sul, que estão estabelecidos”, completa Gustavo.

Competições

Confira disputas abertas na área de exatas

Astronomia e astronáutica

A 19ª edição da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) está com as inscrições abertas até quinta-feira (31). As provas ocorrem em 13 de maio. A competição é voltada para estudantes dos ensinos fundamental e médio. Escolas públicas ou particulares que ainda não participam podem se cadastrar pelo site www.oba.org.br. O objetivo da OBA é levar a maior quantidade de informações sobre as ciências espaciais para a sala de aula, despertando o interesse nos jovens. Os mais bem classificados representarão o país nas olimpíadas internacional e latino-americana sobre o tema em 2017.

Raciocínio

A Olimpíada Internacional de Raciocínio (Mind Lab) reunirá mais de 280 equipes brasileiras em etapa on-line na edição deste ano. O torneio de jogos de raciocínio é disputado em diversos países em um evento que reúne alunos e educadores. Na final internacional, cada equipe é formada por quatro estudantes do 4º ao 7º ano do ensino fundamental, que competem em jogos diferentes, como damas, jogo Octi, jogo Bloqueio e o jogo Abalone. As inscrições estão encerradas, e a fase classificatória começa amanhã (28). Em 14 de maio ocorre a etapa nacional e, entre 12 e 15 de junho, a fase internacional. Informações: www.mindlab.com.br.

Matemática


O Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa) recebe, até sexta-feira (1º), as inscrições para a 12ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Podem participar alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e de todas as séries do ensino médio de todo o país. As instituições deverão inscrever os estudantes pelo site www.impa.br. A última edição contou com a participação de 47,5 mil escolas com 17,9 estudantes.


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