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Correio Braziliense

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Vencendo a exclusão dupla

As negras convivem com as desigualdades do racismo e da discriminação de gênero. Elas são mais suscetíveis ao desemprego e a ocupações precárias, e recebem menos que outros grupos

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postado em 10/04/2016 14:40 / atualizado em 10/04/2016 16:47

Ana Paula Lisboa

A diferença salarial entre gêneros diminuiu na última década, mas as mulheres ainda recebem 30% a menos que os homens. Os rendimentos médios das afrodescendentes são de R$ 946, o que representa menos de 40% do que faturam homens brancos (R$ 2.393). Os dados são da pesquisa Mulheres e trabalho: breve análise do período 2004-2014, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS), divulgada no mês passado. Além disso, 17,7% das negras são trabalhadoras domésticas, índice maior que o de brancas (10%). Assim como em outros ramos, elas estão em desvantagem quando o assunto é salário e ganham de 83% a 88% do que recebem as domésticas brancas.


As outras atividades desenvolvidas revelam problemas: 39,08% das pretas e pardas estão em relações precárias de trabalho.

No último ano da pesquisa, 10,2% das negras estavam fora do mercado de trabalho — enquanto no, caso dos homens brancos, o percentual era de 4,5%.


As disparidades também são visíveis no mesmo grupo étnico: em Brasília, entre os negros desempregados, 42,3% são mulheres, e 31,7% são homens segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego do Distrito Federal (PED-DF) de fevereiro.

 

Adalgiza Amaral, coordenadora do estudo, observa que os resultados não se diferenciam muito do que é encontrado no restante do país. “As negras começam a trabalhar mais cedo em atividades que não trazem chances de inserção, têm menos anos de estudo e se inserem em serviços com rendimentos menores. A mulher, em geral, recebe 70% do salário do homem, a negra recebe menos ainda”, lamenta.


“Se uma branca precisa estudar sete anos para ascender profissionalmente, uma negra terá que ter 12 anos de estudo”, compara Thirza Reis, psicóloga, master coach e especialista em inteligência relacional. A discriminação cruzada de gênero é complicada, perpassa vários setores da sociedade, e não será resolvida facilmente nem com rapidez. Por isso, depende de um esforço individual e coletivo. “Todo preconceito precisa ser combatido e exige dos envolvidos um profundo protagonismo.

 

A pessoa deve pensar: ‘ou eu me torno vítima ou faço diferente, tomo as rédeas da minha vida independentemente do racismo ou até por causa disso.’ É preciso fazer um trabalho de empoderamento, de autoestima — sozinha ou procurando ajuda”, diz Thirza Reis. “Precisamos de pessoas inspiradoras para que não tenhamos mais mártires”, conclui.


Gabriella Leal, 20 anos, estudante de direito, diz que o fato de ser mulher e negra nunca a privou de nada, sabe que o preconceito existe, mas espera um futuro com mais inclusão. “Acredito que meu esforço será suficiente para superar as barreiras e, se eu me dedicar, vou conseguir o que quiser”, diz.

 

Histórias inspiradoras

Conheça a trajetória de vida de duas mulheres que conquistaram cargos de destaque na administração pública

 

Representante do Brasil no exterior
“Eu sou de Aimorés (MG) e vim para Brasília com minha mãe, que foi minha grande incentivadora. Estudei no Centro de Ensino Médio Setor Leste e depois num colégio experimental da UnB (Universidade de Brasília). Quando fiz faculdade, nem existia o curso de relações internacionais aqui. Em 1976, entrei no Itamaraty como oficial de chancelaria, lá tive acesso a informações sobre a carreira diplomática, pois não fazia parte do meu cotidiano. Seis anos depois, tornei-me diplomata. O Brasil sempre teve uma atitude de tentar promover a nossa sociedade como democrática racialmente, então no meu trabalho, a questão mais difícil era ser mulher. Eu era uma das únicas, e era possível perceber que não contávamos da mesma forma. A cultura do Itamaraty mudou bastante; há um Comitê Gestor de Gênero e Raça, e o ministério teve papel estratégico para a aprovação da Década Internacional do Afrodescendente da ONU (Organização das Nações Unidas), iniciada em 2015.


Por questões sociológicas, nos cargos mais relevantes, a presença da mulher é menor e, quando isso se cruza com a questão étnica, menos representativo ainda. Sempre fico comovida de poder incentivar outros com a minha vida. Num evento em Salvador, acharam que eu era embaixadora de outro país no Brasil, e muitos jovens ficaram surpresos ao descobrirem que eu era brasileira, pois diziam que nunca tinham visto ninguém com meu biotipo na carreira. Dificilmente, o jovem negro tem um exemplo em seu cotidiano de indivíduos assim num alto cargo. Eles enxergam o afrodescendente como dançarino, modelo, jogador de futebol — esse é o núcleo forte da representação como profissional. Como alguém que trabalhou na Etiópia, acredito que é preciso despertar maior interesse dos jovens pela África, até para eliminar ideias preconcebidas.”

 

Marcelo Ferreira

 

Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert, 61 anos, formada em administração pela UnB, diplomata e embaixadora do Brasil na Sérvia desde dezembro de 2015, foi embaixadora na Etiópia por seis anos

 

Juíza no Rio de Janeiro
“Convivi como única negra entre meus colegas num colégio particular por muito tempo e tive acesso a um ensino de qualidade a que a maior parte das mulheres negras não têm no país. Crescer ouvindo que seu cabelo é ruim, que seus traços são feios, ver a história de seus ancestrais comprimida em meia hora de um currículo de anos e reduzida ao fato de que parte deles foi escravizada é extremamente perverso na construção de qualquer ser humano. Um professor, ao me ver rindo no recreio, perguntou que graça a vida podia ter para mim, já que eu era mulher, negra e tijucana. Minha família é a grande responsável pela minha trajetória. Meus pais me deram todas as condições necessárias para estudar com tranquilidade. Eles enfrentaram muitas dificuldades e, principalmente, meus avós. Minha bisavó, que nasceu no ano da abolição da escravatura, foi faxineira na Assembleia Legislativa da Bahia e repetia como um mantra que o estudo era o único caminho para pessoas como nós.


O Atlas da Violência 2016 informa que, enquanto o percentual de homicídios de não negros caiu 14,6%, o de negros e pardos aumentou 18,2%. Aos 21 anos, um jovem negro e pobre tem 147% mais chances de morrer assassinado do que o de qualquer outro grupo. Uma pessoa com apenas sete anos de estudo tem 15,9 mais chances de ser assassinada do que alguém com nível superior. O estudo para os negros é, para além de uma questão de ascensão social, uma questão literalmente de vida e morte. Falar em meritocracia neste país é extremamente perverso porque, enquanto alguns são moldados do berço para serem campeões, outros escutam o tempo todo que essa é uma festa para a qual não foram convidados. Vencer isso requer, em algumas situações, uma força superior. Ninguém deveria ter que ser herói para conquistar seu lugar ao sol.


Eu acho curioso quando leio ou ouço alguém afirmando que o preconceito está na cabeça de quem sofre, porque eu adoraria viver a minha vida em um mundo no qual eu pudesse passar sem pensar nesse assunto. Não há, no entanto, um só dia na minha vida, no qual ao longo do meu dia alguém, em algum momento, não me lembre de que eu sou negra e sou mulher. A ausência de representatividade desse grupo — que é quase 54% da população brasileira — nas instituições públicas e postos de poder informa, para mim, que os poucos que chegam lá são, na verdade, uma falha na matriz. Por tudo que vivi e vi outros ao meu redor viverem, penso que, se existe uma fórmula, ela é constituída de foco e resiliência, porque muitas situações surgem para nos desviar do caminho, e muita gente aparece para tentar deslegitimar nossas lutas. É preciso olhar a vida de frente sempre, cientes de que estamos onde estamos por esforço e por direito, não por favor.

 

Arquivo Pessoal
 

 

Adriana Cruz, 46 anos, graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), doutoranda em direito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), foi procuradora do Banco Central do Brasil em Salvador e em Brasília, tomou posse como juíza na Justiça Federal em Brasília em 1999 e, em 2001, foi atuar no Rio de Janeiro. Atualmente, é titular da 5ª Vara Federal Criminal da capital fluminense

 

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