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Proativos e conectados

A maior parte dos empreendedores nascidos depois de 1980 é formada por homens pertencentes à nova classe média, com ensino superior completo e mais de 25 anos. Pesquisa revela que esses donos de negócio têm senso de iniciativa e forte ligação com a internet

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postado em 10/04/2016 15:14 / atualizado em 11/04/2016 18:03

Hélio Montferre

Pesquisa feita com 5.060 entrevistados das 27 unidades da Federação mostra que 71% dos empreendedores brasileiros de 18 a 39 anos são homens; 34% têm de 26 a 30 anos de idade; 42% terminaram algum curso superior; e 54% têm renda familiar que vai de três a 10 salários-mínimos, fazendo parte das classes C e D — a chamada “nova classe média”. O estudo foi realizado pela Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje).


“Não temos dados suficientes para comparar como era esse perfil antigamente, mas acho que essas características prevaleceram por questões históricas. No caso dos gêneros, por exemplo, ambos empreendem, mas as mulheres demoram mais a assumir um projeto de liderança, porque esse não era um assunto feminino. Elas ainda sentem que precisam fazer uma escolha: ou a carreira, ou ser mãe. Já eles não têm nada a perder”, explica Amanda Carvalho, diretora de Projetos da Conaje.


A pesquisadora argumenta que, agora, as informações servirão para estimular políticas públicas que amparem melhor essas pessoas na hora de abrir uma empresa. “O que tem que ser feito a partir desse perfil é auxiliar no diálogo com os órgãos governamentais.”

Dificuldades

Gabriel Siqueira Rodrigues, 28 anos, precisava contratar um plano de saúde e teve dificuldades para entender e comparar os serviços das operadoras. “Era tudo muito burocrático. A lista de médicos que atendia cada convênio estava em ordem alfabética e não por especialidade. Além disso, eu sentia que o corretor oferecia o plano pelo qual tinha preferência. No fim, não era uma decisão totalmente minha”, lembra.


Ao conversar sobre o assunto com Marcos Godinho, 30, e Tales Porto, 27, amigos que conheceu no trabalho, Gabriel entendeu que ele não era o único com dificuldades na hora de contratar o serviço e teve a ideia que mais tarde virou a Rhases — empresa de tecnologia que centraliza e organiza informações sobre diversas operadoras de saúde. “Nós três tínhamos problemas com os convênios e queríamos uma experiência mais personalizada, na qual pudéssemos ver as informações e escolher o que realmente se encaixa no nosso perfil”, ilustra.


Formado em ciência da computação pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em gerenciamento de projetos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e cursando mestrado em informática na UnB, Gabriel, que até 2015 trabalhava em uma empresa de software, tinha o conhecimento necessário e o desejo de empreender. O próximo passo foi encontrar recursos. “Sempre quis ter um negócio próprio e, quando essa ideia surgiu, eu tinha a experiência necessária para criar meu produto. Procurando investimento, fiquei sabendo do edital do Fundo de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF)”, complementa.


Em dezembro de 2015, saiu o resultado positivo, e o negócio passou a existir oficialmente. “Temos o site rhases.com.br que funciona de maneira simples. O usuário entra na plataforma, insere informações básicas, pode marcar consultas on-line e ver uma lista com os melhores médicos”, explica. Gabriel se encaixa no grupo mais comum apontado pela pesquisa da Conaje entre empreendedores da juventude.


Como ele, 25% dos entrevistados sempre tiveram o desejo de empreender, outros 25% identificaram uma boa oportunidade de negócio, e 51% abriram uma microempresa. Segundo Valdir Oliveira, diretor-superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Sebrae-DF), a tendência é que cada vez mais indivíduos das novas gerações se encaixem nesse perfil.


“Com a crise, os donos de negócios tradicionais ficam mais acanhados, e ocorre uma mudança nos empreendedores. O jovem está muito mais disposto a correr riscos e antenado com as questões do momento. Além disso, o foco dos universitários em Brasília, antigamente, era o serviço público, mas agora essa fonte está se esgotando. Então eles encontram outras saídas, como abrir o próprio negócio”, afirma.

 

Rompendo barreiras
Tatiana Moura, 34 anos, é dona da Prospecting Marketing e Comunicação desde os 22. Abrir uma empresa tão jovem não foi fácil. “Meus pais me criticaram, tentaram me convencer a ser funcionária pública, mas eu estava decidida a ser diferente”, conta. Em 2004, nos últimos períodos do curso de propaganda e marketing, a empresária conheceu a incubadora Casulo, que foi o pontapé para o início da carreira empresarial. “Durante os três anos em que fiquei incubada, pude ganhar experiência e amadurecer minha ideia”, diz.


Ela percebe que a participação feminina no ramo de negócios vem crescendo ao longo dos anos. “Foi durante a graduação em propaganda e marketing no UniCeub (Centro Universitário do Distrito Federal), que comecei a desejar fazer algo diferente, mas sempre quis ser empresária”, diz. Ela acredita que todos podem ser empreendedores, é apenas “questão de estímulo”. Tatiana agora pensa em empreender de novo em um novo ramo. “Quero abrir um negócio voltado para moda infantil”, revela. Como ela, 52% dos participantes da pesquisa do Conaje querem iniciar um novo empreendimento em um ramo diferente.

 

Questão e geração

 

Ana Rayssa
 

Para Guilherme Françoline, formado em comunicação social na Universidade de São Paulo (USP) sócio-fundador da Santo Caos — empresa de consultoria em relacionamento entre marcas, consumidores, funcionários e fornecedores — o perfil divulgado pela Conaje foi fortemente influenciado pelo contexto em que os milleniuns (ou seja indivíduos da geração Y) cresceram. Além disso, eles são hiperconectados: 62,8% começaram a pensar em empreender depois de ler e pesquisar sobre o assunto em sites e redes sociais.

 

“Considero como parte dessa geração todos os que nasceram depois dos anos 1980, e eles estão cercados de fatores que os tornaram mais independentes e dispostos a arriscar que os antecessores. Foi a partir daquela década, por exemplo, que a maioria das mães não estava mais em casa porque trabalhava fora. Isso faz com que eles contestem e tenham mais facilidade para arriscar. Tudo isso se reflete no mercado de trabalho”, conta.


Outro fator relevante é o maior acesso dessa geração à universidade. “Essas pessoas têm muito mais oportunidade e iniciativa, procuram na internet e correm atrás. Se um empreendedor precisa de empréstimo, vai buscar conhecimento de forma mais independente para conseguir”, explica.

Caminho independente
Entre os respondentes do estudo, 66% afirmaram não fazer parte de uma empresa familiar. Filho de um empresário do ramo de cobrança, Guilherme Junger, 28, não se contentou em cuidar do negócio da família e abriu empreendimentos próprios não continuaram em uma empresa familiar. Ele é dono de uma corretora de imóveis, sócio de uma agência de publicidade e de uma empresa de consultoria financeira, de planejamento e processos. O fato de ter sido proprietário de uma farmácia e de uma loja de acessórios femininos, que foram vendidas após endividamento e baixo faturamento, respectivamente, nunca o desestimulou.


“Eu me considero empreendedor desde os 12 anos. Naquela época, comprava balinhas no atacado e vendia na escola para os colegas”, conta. Assim como Guilherme, formado em administração e mestre em inovação para o serviço pela Universidade de Brasília, 42% dos jovens empresários chegaram ao ensino superior e outros 57% têm pós-graduação.
Guilherme afirma que buscar conhecimento é muito importante, mas não só dentro da academia. “Nunca pensei em parar de estudar, mas minha melhor escola foi a AD&M, empresa júnior de administração da UnB, da qual fui presidente em 2009”, acrescenta.

 

» Universidade de Stanford
Curso para nteressados m negócios

A Universidade de Stanford promove o Stanford Ignite, curso com foco em inovação e empreendedorismo. Estudantes matriculados em cursos de pós-graduação e profissionais com experiência técnica, desde que sem relação com a área de negócios, podem se inscrever pelo site www.gsb.stanford.edu até 21 de abril. As aulas serão ministradas de 5 de agosto a 16 de outubro, na sede da Microsoft, em São Paulo. O curso conta com 100 horas na modalidade semipresencial, abordando temáticas de marketing, contabilidade, finanças, operações e estratégia. Os participantes terão de se reunir por sete fins de semana não consecutivos, nas noites de sexta-feira e aos sábados e domingos, para o desenvolvimento de um projeto e o programa será conduzido em inglês. O investimento é de US$ 10 mil, mas há possibilidade de se inscrever para uma das bolsas de 50% oferecidas pela universidade.

 

Palavra de specialista

Dicas para erenciar
Falta de preparação para o mercado pode atrapalhar o empreendedor jovem. Se não souber como agir durante a crise, por exemplo, vai à falência. É preciso começar com cuidado para evitar o superendividamento.
Não dá para ser otimista. Esta é a maior recessão desde 1930. É preciso focar em conseguir novos e clientes e, especialmente, manter os que existem. Se o jovem iniciou o negócio, deve prestar atenção ao fluxo de caixa e evitar pegar empréstimos.


Entretanto, também existem oportunidades na crise. Essa geração usa a internet o tempo todo. Nos negócios, esses meios entram como apoio para adquirir conhecimento e como estratégia de marketing.

 

Miguel Bacic, professor de conomia da Universidade stadual de Campinas (Unicamp) e doutor em administração

 


 

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