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Os desafios da população negra

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postado em 10/04/2016 16:40 / atualizado em 10/04/2016 17:07

Ana Paula Lisboa

Eles são 53,6% da população, representam 76% dos brasileiros mais pobres (três em cada quatro negros está no grupo dos 10% com menor renda no Brasil, de até R$ 130 por pessoa) e apenas 17,4% da parcela mais rica do povo (domicílios cujos ganhos mensais médios são de R$ 11,6 mil por habitante) segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2015, pretos e pardos ganhavam 59,2% do rendimento dos brancos. Em 2003, o percentual era de 48,4%.


Aos poucos, porém, há mudanças: os salários dessa parcela da população cresceram 52,6% entre 2003 e 2015 — entre brancos, o crescimento foi de 25%. As informações são da pesquisa Retrato do mercado de trabalho, do IBGE, divulgada em janeiro, que levou em conta seis regiões metropolitanas. Apesar de pretos e pardos serem mais da metade da população, frei David, diretor-executivo da Educafro, defende que essa parece merece medidas específicas. “Os negros foram vítimas ontem, continuam sendo hoje e seguirão assim amanhã. Ações afirmativas não precisam ser para minorias — elas devem ser para excluídos.”

Desocupação
Entre os desempregados, a quantidade de negros é mais elevada: 6,5% dos homens estavam desocupados, e 8,9% das mulheres. No caso dos brancos, 5,5% dos trabalhadores e 6,9% das trabalhadoras estavam fora do mercado. Situação que pode ser agravada com a crise. “Nas áreas em que são feitos cortes, somos os primeiros a serem mandados embora”, observa frei David. Adalgiza Amaral, coordenadora da Pesquisa de Emprego e Desemprego no DF, pensa diferente: “Isso afeta todo mundo.”
No último boletim que analisou essa parcela da população em  Brasília, de 2013, esse grupo racial representava 68,8% da população economicamente ativa, mas eram 74% dos desempregados. Em fevereiro de 2016, 17,3% desses trabalhadores estavam desocupados — num quadro total de 265 mil pessoas sem trabalho no DF. Entre brancos, o índice é ligeiramente mais baixo:17,1%.

 

Exceções em um sistema de exclusão

 

Negros que se sobressaíram ao trabalharem com educação revelam suas dificuldades e conquistas

 

Professor doutor numa universidade sem cotas

“Sempre estudei tendo, no máximo, dois ou três colegas negros. Não sei quantos professores doutores trabalham na USP, mas, sou um dos poucos. Desenvolvi resiliência para lidar com a discriminação: ouço, mas não assimilo — e isso não quer dizer que não cause sofrimento. Sei das minhas capacidades. Minha família me incentivou muito, e eu alfabetizei a minha avó, que nunca tinha entrado numa sala de aula. Não percebo aumento no número de alunos negros na USP, até porque ela não adota cotas. Quando se fala em cotas — para universidades, instituições públicas, bancos ou outros espaços —, há tanta polêmica e resistência porque, no Brasil, os donos dos espaços significativos foram construídos historicamente, e os negros não são vistos como donos de nenhum deles. Não adianta falar que pretos e pardos são iguais perante a lei e deixá-los na lona, em funções subalternas. Cabe ao estado tomar medidas — afinal, o Brasil nunca vai ser desenvolvido enquanto colocar na sarjeta mais da metade de sua população. Então, acredito que isso vai se alterar — só não sei em quanto tempo.”

 

Rodrigo Nunes
 


Ivan Siqueira, 47 anos, professor-doutor na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), doutor e mestre em teoria literária e literatura comparada

 

Diretor de televisões educativas

 

“Meu pai morreu quando eu tinha 13 anos, então fui criado pela minha mãe. Os homens morrem mais rápido por questões de saúde ou porque são mortos pelo genocídio da violência contra afrodescendentes no Brasil. As negras são o baluarte de sobrevivência dos pretos e pardos.


Trabalhei com formulação de políticas públicas, fui secretário da Comissão de Direitos Humanos no Senado; e coordenei a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (Secadi/MEC). O conselho e organização da Roquette Pinto queria imprimir um caráter de diversidade e de eficiência à instituição, então cheguei a esse posto. Fui o diretor negro mais jovem da Esplanada dos Ministérios fora da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Muitas vezes, fui confundido com um segurança. Ninguém pensa que ocupo essa função. É muito difícil, fico triste, choro. Eu sempre preciso mostrar que sou duas vezes melhor.


Estamos há mais de 500 anos esperando ações voluntárias, por isso medidas como as defendidas pela Educafro são necessárias.”

 

Hélio Montferre
 

 

Thiago Thobias, 36 anos, diretor da Associação Roquette Pinto, responsável pela TV Escola e pela TVINES, voltada para surdos, graduado em direito e mestrando em gestão de políticas públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV)

 

 

 

 

 

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