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Correio Braziliense

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TERCEIRO SETOR »

Por uma via humanitária de carreira

Quem deseja trabalhar com um propósito pode encontrar em instituições sociais uma forma de satisfazer o engajamento em uma causa, sem deixar de se consolidar profissionalmente. Ramo emprega mais de 4 milhões de pessoas no Brasil

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postado em 17/04/2016 14:02 / atualizado em 17/04/2016 14:08

Edy Amaro

Os dois maiores geradores de empregos no país são as empresas particulares e o serviço público. No entanto, é possível escolher uma via alternativa para trilhar a carreira: organizações que prestam serviços de interesse público e social. Trata-se do terceiro setor da economia, que se contrapõe ao primeiro (o Estado) e ao segundo (o mercado privado). O ramo oferece oportunidades a profissionais de diversas áreas e, além dos benefícios de qualquer trabalho, recompensa os funcionários com o sentimento de poder fazer o bem.


Mark Woerde, fundador da Letsheal, consultoria da relação entre consumidores e marcas, fez o levantamento How advertising will heal the world and your business, cujo objetivo era mostrar como marcas podem assumir um novo comportamento e trazer impacto social positivo ao mundo. Mais de 24 mil pessoas de 16 países responderam à pesquisa. Aproveitar a vida (81%), ajudar os outros (74%) e contribuir com algo que seja maior que elas mesmas (73%) são os principais sentidos da existência humana de acordo com o questionário; 94% dos brasileiros desejam viver com um propósito. Unir essa missão ao trabalho pode ser proveitoso.


O mentor vocacional americano Rick Jarow, autor do livro Criando o trabalho que você ama (editora Mauad X; 232 páginas; R$ 37,90), acredita que as respostas encontradas na pesquisa de Woerde são resultado das novas tecnologias, que interligaram as pessoas em nível global e permitem novas formas de comunicação e de solução de problemas. “O objetivo, hoje, é usar a liberdade criativa para desenvolver novas formas de servir a sociedade e o planeta como um todo”, afirma. Cada vez mais, as pessoas percebem que podem ser a solução para problemas sociais e que viver por uma causa, ou várias, é uma estratégia viável de carreira.


Para Rick Jarow, trabalhar no terceiro setor não exige nenhum tipo de aptidão. “Trabalhar para uma causa ou propósito específico não envolve vocação. O importante não é o que você faz ou para quem, mas como faz”, diz. Sérgio Loyola, coordenador de Projetos Sociais da Fundação Salvador Arena, entidade de assistência social em São Paulo, concorda. “Não é necessário ter feito um curso específico: a ideia é identificar como encaixar suas habilidades para ajudar a organização escolhida”, completa. Para os interessados em desenvolver carreira no terceiro setor, Sérgio indica começar sendo voluntário em uma causa que lhe agrade para, depois, se preciso, realizar cursos específicos sobre gestão e outras temáticas.
Conhecimentos de legislação, relacionamento humano, marketing, negociação e planejamento, além das habilidades de criatividade e agilidade são desenvolvidos ao atuar no ramo, segundo Loyola.


Há quem relacione a área com a graduação  em serviço social, mas Ivanete Boschetti, professora de teoria da política social e cidadania do curso na Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora de pós-graduação, explica que a formação para o terceiro setor é pequena. Segundo ela, 90% dos graduados trabalham no setor público após a formatura. “O curso prepara para formulação e implantação de políticas públicas sociais e a defesa de direitos no Poder Executivo por meio de prejetos”, finaliza.

Experiência completa
Tânia Santos, 45 anos, pedagoga, atuou nos três setores da economia: foi servidora pública da Secretaria de Educação; trabalhou em uma empresa de consultoria para o terceiro setor, planejando e implementando serviços de telemarketing; e, hoje, é coordenadora central de Doações na Abrace — organização não governamental de assistência social para crianças e adolescentes com câncer e doenças do sangue. Há 16 anos no posto, é apaixonada pelo que faz e pela instituição. “Não penso em sair daqui, pretendo ficar enquanto me quiserem”, diz. “O serviço público tem uma característica de monotonia. É uma insatisfação velada. Você não sente aquele brilho no olho, a vontade de que as coisas prosperem. A empresa privada é mais produtiva e competitiva: você é incentivado a ser melhor, mas é um objetivo individual, e a postura é muito comercial”, conta.


“Hoje, o trabalho que eu faço é o mesmo, mas quem é da instituição a coloca em primeiro plano — antes de seus interesses. Você também sente os resultados das atividades de forma muito mais palpável”, afirma Tânia, explicando que se sente realizada ao ver as crianças se recuperando e saber que faz parte dessa mudança. Outra diferença que ela reparou foi na relação com chefes e funcionários. “Quem está aqui se sente responsável pelo cumprimento da missão da instituição: as crianças são o nosso foco. Toda vez que tem uma reunião ou uma conversa, é essa a mentalidade”, explica.

 

Radiografia

»De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2010, existiam cerca de 290 mil organizações da sociedade civil — das quais 4.371 ficam no DF — e 556 mil entidades religiosas — 10.016 em Brasília — compondo o terceiro setor. As instituições do primeiro tipo empregam 2,12 milhões de pessoas no Brasil, e as da segunda classificação contam com 2,89 milhões de funcionários. Na capital federal, a proporção muda para 49.470 e para 71.298 contratados respectivamente. O IBGE não sabe informar o número de voluntários das instituições do ramo, mas a quantidade deve ser alta, pois, entre as organizações da sociedade civil, mais de 210 mil não contam com funcionários assalariados.


» O número médio de pessoas contratada por instituição é de 7,32. Apenas 638 delas empregam mais de 500 pessoas. Nessas associações, as principais áreas de atuação são educação (26%), saúde (27%) e assistência social (15%). Em 2010, os trabalhadores dessas organizações ganhavam, em média, 3,3 salários mínimos por mês. Pesquisa do Hay Group, demonstra que o ramo é atrativo financeiramente: um diretor executivo receber cerca de R$ 22.500, enquanto um profissional sênior ganha por volta de R$ 4,2 mil ao mês.

 

Carreira no exterior
O mercado internacional do terceiro setor pode ser dividido em três grandes áreas: ONGs internacionais e o sistema da Organização das Nações Unidas (ONU) — saiba mais em careers.un.org —; agências governamentais de promoção do desenvolvimento; e fundações privadas internacionais. O domínio do inglês é um requisito básico para qualquer um dos nichos. Formação em universidade de ponta faz diferença. “Na Inglaterra, a competição é acirrada, e tem muita gente boa na área”, diz Daniela Barone Soares, 45.


Arquivo Pessoal
Economista pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com mestrado em economia pela Universidade de Harvard e CEO da Impetus Trust, focada em ajudar jovens de 11 a 24 anos na vida escolar e profissional, ela venceu o Charity Awards, prêmio de reconhecimento por trabalho em caridade, em 2008. A paulista passou 10 anos encarregada de ampliar as operações do BankBoston na Europa, mas percebeu que não estava feliz. “Faltava fazer a diferença no mundo”, conta. Daniela procurava alguma atividade alinhada aos próprios valores e conseguiu se realizar profissionalmente ao ingressar no terceiro setor. “Quando estou frustrada, vou visitar um dos projetos com os quais trabalho ou trabalhei, com ex-presidiários e pequenos agricultores, por exemplo. Ver a diferença que aquilo faz na vida das pessoas é incrível e me energiza na hora.”

 

Quer estudar?

Confira opções de cursos e especializações para quem deseja construir uma carreira no terceiro setor:

 

No Brasil
Escola Aberta do Terceiro Setor

Os cursos gratuitos disponíveis pela internet são de captação de recursos, aspectos financeiros do terceiro setor, aspectos jurídicos do terceiro setor, parcerias do Estado, gestão e contabilidade. Além disso, há um minicurso de como ser um bom voluntário. Informações: escolaaberta3setor.org.br.

Fundação Getulio Vargas (FGV-SP)
A pós-graduação em gestão de organizações do terceiro não está com matrículas abertas no momento, mas interessados podem ficar atentos ao site pec.fgv.br. Preço: R$ 4.544.

Centro Universitário Cesumar
Oferece graduação em gestão das organizações do terceiro. São 1.800 horas divididas em dois anos. Preço: R$ 314, 45. Informações: www.ead.cesumar.br.

Associação Brasileira de Formação e Desenvolvimento Social (Abrafordes)
O curso on-line de serviço social e terceiro setor é gratuito e consiste em uma apresentação do que é ramo, conceitos básicos da área, configuração histórica, desafios e a atuação do assistente social no contexto do setor. O curso emite certificado de 45 horas-aula. Informações: cursosabrafordes.com.br.

Rede Claretiano
A pós-graduação a distância em gestão do terceiro setor busca capacitar profissionais em gestão de projetos sociais de organizações não governamentais, empresas privadas e fundações. Preço:
R$ 2.900. Informações: claretiano.edu.br.

No exterior
Center on Philanthropy and Civil Society da Universidade da Cidade de Nova York
O centro de pesquisa é focado em estudar voluntarismo, doações e empreendedorismo sem fins lucrativos a partir de doadores individuais, fundações e corporações. Informações: www.philanthropy.org.

 

Outra opção para fazer o bem

Especialista em negócios pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Érika Lisboa é orientadora de monografias sobre empreendedorismo e observa que uma nova modalidade de atividade bem intencionada tem ganhado força no país. “São os negócios de impacto social, que não estão diretamente ligados ao terceiro setor, mas buscam cobrir as lacunas que o governo não resolve”, diz. Empreendimentos sociais comercializam produtos e serviços, pagam os empegados e não dependem de doações, mas o retorno financeiro é voltado totalmente para uma causa social. Segundo a especialista, a atividade social em Brasília “é muito parada”, mas o interesse de profissionais pelo ramo está aumentando.

Representação do setor
A Federação Nacional das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público do Brasil (Fenoscip) é a primeira tentativa de unidade representativa do terceiro setor e tem como objetivo reunir as 400 mil entidades sem fins lucrativos registradas. A Fenoscip foi fundada em 2002, mas, desde 2011, está sem endereço físico e conta com uma equipe de cinco pessoas, que buscam uma reestruturação do projeto. O presidente, Raul Miranda, 53 anos, explica que mandou um ofício à Presidência da República pedindo uma reunião. “Até tinham marcado uma data, mas, com essa confusão toda na política, foi desmarcada”, conta. Interessados em ajudar podem entrar em contato pelo telefone 8151-6454.

Voluntariado
Procuram-se profissionais de saúde


A Vara da Infância e da Juventude do DF procura profissionais de fisioterapia e fonoaudiologia para atender uma criança com quadro de traqueostomia e gastrostomia. Ela passou mais da metade da vida internada no Hospital Regional de Planaltina (HRP) e, desde o mês passado, está em uma entidade de acolhimento em Ceilândia. Para se voluntariar, contacte: 3103-3285/3103-3259 / anjosdoamanha@tjdft.jus.br.

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