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Dilemas das poderosas

Presidentes executivas são minoria, mas a proporção está aumentando: em 2015, 12,1% dos novos CEOs admitidos nas maiores companhias de Brasil, Argentina e Chile eram mulheres. Elas ainda precisam lidar com a discriminação

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postado em 01/05/2016 18:50 / atualizado em 03/05/2016 14:05

Ana Paula Lisboa , Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Mulheres que ocupam altos postos em diversas organizações são símbolos de coragem e exemplos de resistência. Tiveram de vencer a percepção cultural de que elas não são apropriadas para essas posições. A proporção de trabalhadoras em cargos de liderança no geral é menor que a de homens; mas, quando se trata de cargos estratégicos, a participação feminina é ainda mais baixa. A boa notícia é que o cenário está mudando, mesmo que lentamente.


No ano passado, 12,1% dos CEOs nomeados nas maiores empresas brasileiras, argentinas e chilenas eram mulheres, revela estudo das consultorias Strategy& e PwC (saiba mais em Exclusão de gênero no topo). O número equivale à maior taxa dos últimos quatro anos. A média de idade de presidentes executivos em geral é de 51 anos e, normalmente, essas pessoas acumulam 15 anos de trabalho na mesma empresa antes de assumir o cargo de CEO.


No caso das mulheres que alcançam essa posição, é mais comum que elas venham de fora da organização (32%, contra 23% dos homens nos países em questão) porque, apesar de existirem trabalhadoras qualificadas para esse posto-chave, ainda é preciso despender um esforço maior para encontrá-las. “Começamos a analisar a participação feminina há três anos e vemos um resultado positivo: o constante aumento de mulheres nos níveis gerenciais e de alta gestão e, consequentemente, em cargos de CEO. Isso mostra que as empresas estão olhando para as competências e os resultados, em vez de se aterem a preconceitos e visões ultrapassadas”, observa Carlos Eduardo Gondim, sócio da Strategy&. E elas vieram para ficar. “A taxa de entrada de mulheres em presidência executiva é maior que a de saída. Estamos superando uma defasagem. Primeiro, haverá um aumento nos cargos de liderança em geral, depois nos de alta gestão e por último nos de CEO”, prevê.


É perceptível que a inclusão feminina está aumentando, mas não no ritmo ideal, informa Rita Ritz, especialista em desenvolvimento organizacional e professora do Institute of Businesss Education — Fundação Getulio Vargas (IBE-FGV). “O cenário não é tão ruim quanto 10 anos atrás, mas é muito atrasado. Evoluímos nos cargos de liderança em geral, mas a desigualdade é gritante nos cargos mais altos. Em níveis estratégicos, é mais comum ter mulheres em negócios familiares, em instituições abertas por elas e em pequenas e médias empresas. Nas grandes, é raro”, observa.

 

Filhos e carreira
Balancear maternidade e trabalho é um dos desafios para a inserção feminina. “Um cargo de gestão alta demanda muito tempo de dedicação e viagens. É improvável não abrir mão de um pouco da vida pessoal”, diz Sérgio Gomes, sócio da consultoria de gestão Ockam. Ele percebe que casos de discriminação estão diminuindo, mas nem sempre por uma mudança de mentalidade. “Quem duvida da capacidade da mulher não pode falar isso abertamente hoje porque seria malvisto, mas, há 20 anos, era comum ouvir comentários.”


Ele observa que as mulheres “conquistam credibilidade e aceitação ao entregarem resultados acima da média”. É nisso que aposta Marília Lopes de Miranda, 26 anos. Executiva de contas da Global Travel Assistance (GTA) em Brasília, ela almeja se tornar gestora ou presidente. “Algumas pessoas acham que não somos suficientemente capacitadas para trabalhar com certas áreas, mas os dois gêneros precisam investir em formação da mesma forma”, acredita.

 

Fatores de atraso

Motivos para uma empresa preterir uma mulher em um cargo estratégico, mesmo que ela tenha competência técnica para ocupá-lo:

» Preconceito ao achar que ela não é dotada da mesma capacidade de pensamento que o homem

» Insatisfação velada com a licença-maternidade, o que é uma visão de curto prazo em relação aos resultados que a profissional pode entregar ao longo dos anos

» A visão de que a mulher está sujeita a uma dupla jornada e não poderá se dedicar tanto à função quanto um homem


Razões pelas quais as próprias mulheres optam
por não ocupar posições de alta liderança:

» Imposição de ter de executar muito mais tarefas domésticas

» Sabotagem familiar ou do parceiro para que não deixe de se dedicar à casa

» A baixa quantidade de presidentes executivas oferece poucos modelos de inspiração para que as profissionais acreditem que podem chegar lá

Fonte: Rita Ritz, especialista em desenvolvimento organizacional e professora do IBE-FGV

 

Elas dominam

 

 

De trainee a presidente
“Entrei na empresa em 1999 como trainee. Como a instituição foi fundada por duas mulheres, tem alma feminina. Nunca sofri discriminação lá dentro, mas, em fóruns de discussão e congressos, percebo um clima diferente. Isso nunca me intimidou porque sempre tive firmeza e conhecimento das minhas habilidades, estou sempre me atualizando, o que traz auto confiança. O maior conselho que posso deixar para uma jovemé buscar capacitação e acreditar no próprio potencial. Sou casada e tenho um filho de 8 anos. Quando assumi a presidência, ele tinha 6 e, na época em que me tornei superintendente técnica, apenas 2. Continuar cuidando dele ao ganhar mais responsabilidades é um desafio—como temos laboratórios em oito estados, há muitas viagens —, mas invisto em tempo de qualidade com minha família, que é minha prioridade.”

 

 

Predestinada aos negócios
“Ainda na escola, durante as férias, trabalhava no Magazine Luiza, fundado pelos meus tios, em Franca (SP). Passei por todos os departamentos: da cobrança à gerência, das vendas à direção comercial. Em 1991, quando houve a abertura de capital da empresa, tornei-me superintendente e, posteriormente, assumi a presidência, cargo que ocupei de 2008 até o fim de 2015, quando passei a presidir o Conselho de Administração da rede. As mulheres têm ganhado espaço no mercado de trabalho e estão aptas a ocuparem lugares em conselhos. Sou favorável às cotas, que são necessárias para corrigir uma distorção e permitir o alcance de um patamar de participação adequada. Minha vida profissional sempre caminhou com a pessoal, por isso enfrentei dificuldades, como toda mãe, para conciliar as tarefas, mas nunca abri mão de nada por isso.

 

 

Legado mundial
“O setor automotivo é eminentemente masculino, e eu me tornei pioneira em bastante coisa na empresa: fui a primeira mulher presidente da Peugeut na Eslovênia e, agora, no Brasil. Isso gera surpresa em muitos momentos. Essa carreira requer da mulher certa audácia de se propor a subir hierarquicamente e, para isso, não dá para ser passiva. Muitas têm competência técnica, mas não demostram ambição por serem mais reservadas (é um traço nosso), mas precisamos mudar e deixar claro aonde queremos chegar e ter noção do nosso potencial. A melhor retribuição para mim é saber que deixei um legado por onde passei. Tenho dois filhos, de 11 e de 9 anos, mas nunca interrompi minha carreira. Exerço meu papel de mãe de maneira mais qualitativa do que quantitativa. Se eu fico em casa, eles até se surpreendem e perguntam se eu não vou trabalhar.”

 

 

A favor das cotas
“Nos anos 1970, havia poucos modelos de mulheres de sucesso combinando vida profissional e familiar. Acompanhei uma mudançamuito grande da participação feminina no mercado de trabalho. Não existe uma bala de prata para alcançar o sucesso, mas meu esposo sempre me apoiou, tive dois mentores que me ajudaram ao longo da carreira e empresas que acreditaram em mim, alémdo meu esforço. Tenho um filho que nasceu no Brasil e isso foi uma sorte, porque pude tirar licença-maternidade. No setor público, vejo mais mulheres em cargos de liderança do que na área privada, por isso sou a favor de cotas nos conselhos das empresas. A Boeing, como outras companhias, não é um mundo ideal, mas temposições inte- comressantes com figuras femininas à frente. Em vez de programas com boa intenção e pouco impacto, promovemos capacitações para moças emSTEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática,  na sigla em inglês).”

 

 

Escolhas que fazem a diferença
“No início da carreira, passei por uma empresa em que recebia menos e tinha menos oportunidades de crescimento que os colegas homens. A primeira coisa que fiz quando percebi a discrepância foi tentar falar com a chefia, mas acabei em uma situação um pouco constrangedora. Criaram um cargo exclusivamente para me promover, mas ainda em um patamar mais baixo que os postos masculinos. Depois de algum tempo, mudei de empresa e segui minha vida. Acho que hoje há mais oportunidades para as mulheres porque fomos à luta e mudamos nossa percepção sobre o trabalho. As mulheres de agora estão menos culpadas em relação ao desejo de ter uma carreira, mas ainda persistem algumas preocupações causadas por essa escolha, como para aquelas que querem ser mães. O que ajuda é comressantes partilhar a experiência com pessoas que têm objetivos e desafios parecidos. Não são questões novas. Minha mãe trabalhou até os 76 anos e criou os filhos. O que faço, como mulher, é procurar ser solidária com as profissionais que trabalham comigo e enfrentam esses desafios movidas pela vontade de crescer.”

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