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Correio Braziliense

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>> Entrevista Kelly Aguilar

Profissão: lobista - com ética!

Segundo a presidente do Instituto de Relações Governamentais, a defesa de interesses perante políticos é um campo promissor. A baixa reputação de profissionais do ramo deve se elevar com o amadurecimento da democracia brasileira

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postado em 05/06/2016 17:44 / atualizado em 05/06/2016 18:15

Eduardo Sousa
A Pesquisa de Reputação do Profissional de Relações Governamentais mensurou o nível de conhecimento sobre o profissional, conhecido como lobista, e a relevância dada a ele na esfera corporativa por meio de entrevistas com 71 executivos — 33% dos quais são CEOs ou vice-presidentes de grandes empresas. “As descobertas foram excelentes. Primeiro porque vimos que 80% dos entrevistados percebem a atividade como legítima, segundo porque 90% deles dizem que é possível que a relação entre empresas e o governo seja transparente”, comenta Kelly Aguilar, presidente interina do Instituto de Relações Governamentais (Irelgov), responsável pelo estudo.

Aos 47 anos e formada em tradução — inglês e direito e especialista em direito processual civil e propriedade intelectual, Kelly observa que a imagem do setor está se elevando. “Apesar de 74% dos respondentes afirmarem que a articulação das empresas junto ao governo em defesa de direitos próprios não é bem-vista pela opinião pública, 56% consideram que a reputação do lobista vem mudando para melhor nos últimos anos”, comemora.

Outro achado positivo é que o profissional de relações governamentais é visto como estrategista (38%), ético (28%) e um negociador eficiente (25%) por chefes e pares. Entre os motivos para a má reputação de quem trabalha com o ramo, estão a falta de clareza sobre seus objetivos e as regras que segue, por isso, a presidente interina do Irelgov defende que as empresas estabeleçam práticas de compliance (normas organizacionais) e códigos de conduta e que os trabalhadores, por sua vez, atuem dentro da legalidade e com boas práticas. “Isso traz transparência”, observa.

Como você começou a trabalhar com relações governamentais?
Construí minha carreira em grandes empresas de capital estrangeiro e, por ser advogada, estive muito próxima às áreas de compliance e relações governamentais. Vinte anos atrás, as estruturas do ramo eram diferentes: o departamento jurídico ficava responsável por tudo o que dizia respeito a governo. Comecei a aprender como trabalhar com isso na prática, sem nem entender direito o que a função representava. Hoje, as organizações de capital estrangeiro no Brasil capacitam os profissionais de relações governamentais, proporcionam experiências no exterior e outras oportunidades, tudo para que possamos nos preparar e atuar da melhor forma. Essa, porém, não é a realidade em grande parte das empresas locais.

Qual é a importância desse trabalhador no Brasil e no mundo?
Ele é fundamental em toda sociedade democrática e defende interesses — legítimos e legais — de grupos, empresas, ONGs, associações, bairros, municípios, estados. Quem trabalha na área leva aos congressistas demandas sociais e informações que colaborem para o melhor entendimento de determinados assuntos.

Qual a origem da profissão?

A versão mais comentada sugere que a prática surgiu durante o mandato (1869-1877) do então presidente norte-americano Ulysses Grant, que tinha o hábito de fumar charutos e beber conhaque no lobby do Hotel Willard. Os que sabiam disso iam até lá fazer reivindicações ao presidente, que se referia a eles como “lobistas”.

O modo como esse profissional é encarado no nosso país é diferente da visão existente no exterior?
O Brasil ainda é um país democraticamente muito jovem. Em democracias mais antigas, o lobby é muito mais bem entendido pela sociedade. Por ainda estarmos engatinhando na área, muitos nem sabem que esse profissional existe. Quando falta informação, sobram mal-entendidos sobre a profissão, comumente divulgada de forma pejorativa. Lobista não é criminoso como ainda alguns insistem em confundir.

Você acha que uma formação específica na área é importante?
É ideal, mas não fundamental. O Brasil ainda não oferece graduação (algo comum na Europa e nos Estados Unidos), e outros cursos — de MBA, intensivos, entre outros — ainda têm uma oferta limitada: calculamos que sejam em torno de 11 em todo o país. No entanto, existe uma demanda reprimida, pois precisamos de mais profissionais na área.

O mercado de trabalho do ramo é promissor?
Muito! Há excelentes profissionais na área, e a demanda é grande, mas não conseguimos ainda suprir o mercado totalmente. Somos novos no exercício pleno da democracia e, quanto mais experiência tivermos, maior será a procura. O campo de trabalho tem aumentado consideravelmente em Brasília, mas também em vários estados e municípios. Depois de termos passado por operações como mensalão, petrolão e lava-jato, as empresas entendem mais a necessidade de serem representadas por profissionais éticos e comprometidos. Não há mais espaço para curiosos ou pessoas que pensam em obter vantagens pessoais ou para a companhia.

Que características são importantes para um bom profissional de relações governamentais?

Integridade, bom caráter e ética são fundamentais. Educação, conhecimento sobre o tema que representa, sensibilidade e boa comunicação complementam o perfil desejado. Graduação em áreas como direito, ciência política, relações internacionais e comunicação é bem-vinda. Gostar e se interessar por política, estar sempre muito bem informado são atitudes essenciais. O melhor profissional de relações governamentais entende que o trabalho dele traz avanços para a sociedade. Os que falam somente em “eu e você” não defendem interesses de todos ou de grupos, mas os que focam em “eu, você e como a maioria se beneficia” deixam o legado de um trabalho benfeito em relações governamentais.

Para consolidar a área


O Instituto de Relações Governamentais (irelgov.com.br) foi criado há dois anos para elevar o profissionalismo e a ética dos profissionais do ramo. Tem 50 sócios-fundadores, 17 empresas associadas e 77 associados individuais.

“Por ainda estarmos engatinhando na área, muitos nem sabem que esse profissional existe. Quando falta informação, sobram mal-entendidos sobre a profissão”

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