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A palavra de ordem é equilíbrio

Com planejamento, é possível conseguir tempo para ser um profissional dedicado sem deixar de lado seus relacionamentos e o tempo para lazer. A boa notícia é que essa medida certa não é incompatível com bons ganhos financeiros

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postado em 12/06/2016 13:31 / atualizado em 13/06/2016 17:51

Ana Paula Lisboa

 

Se enxergarmos cada pessoa como um mosaico, as várias pecinhas coloridas poderiam representar aspetos da vida  como carreira, relacionamentos, lazer e outros interesses. Se só há pedras de determinada cor, é sinal de problemas. A beleza está justamente em construir uma miscelânea com pastilhas de diversos pigmentos e equilibrar, com maestria, atividades distintas. Então, no dilema entre priorizar a carreira ou a vida pessoal, a balança não pode pender demais para um lado ou outro. “Em momentos determinantes  como no caso de ter um familiar doente, passar por um divórcio ou uma crise na empresa , você pode se dedicar mais a uma área do que a outra, mas, para ter uma existência plena, é preciso se acostumar a focar tanto no trabalho quanto na vida pessoal”, observa a administradora com MBA em RH e especialização em orientação de carreira Alessandra Paulelli.


Consultor organizacional, especialista em desenvolvimento das competências de liderança e presidente do instituto que leva seu nome, Eduardo Shinyashiki acredita que, em geral, “as pessoas se atentam mais ao lado profissional movidos por medo de fracassar, autocrítica e auto-exigência excessivas.” Pode ser que essa tendência, no entanto, seja minimizada, pelo menos quando se trata dos mais jovens. Jacob Rosenbloom, CEO da Emprego Ligado, site de empregos via geolocalização, observa que a importância dada a carreira, dinheiro e qualidade de vida varia conforme a idade. “A geração X valoriza mais estabilidade e ganhos financeiro. Já as pessoas da Geração Y prestigiam a satisfação pessoal e o sentimento de ‘agregar’ algo ao trabalho.”

Alto preço
O resultado de focar demais na profissão é uma agitação interior. “Vive-se mais a preocupação do que a ocupação em si. Em vez de se concentrar no que está fazendo, o indivíduo fica inquieto com atividades que ainda terá que fazer. Por isso, a produtividade cai e o nível de retrabalho é altíssimo. Quando chega em casa, também não passará tempo de qualidade ali, pois não estará focado”, diagnostica Shinyashiki. “Com o estresse, o ser humano fica desvitalizado e não rende. O sono não adianta para recuperar essa energia, pois o remédio para isso é rir, trocar afeto, ter prazer, reunir-se com amigos.

 

Arranjam-se tantas justificativas para não se dedicar ao lazer sem perceber que não é feito na vida pessoal vai sobrecarregá-lo na vida profissional”, descreve. Segundo o palestrante, muitos transformam a vida pessoal na lata de lixo da vida profissional — por exemplo, recusando-se a interagir com familiares, amigos e o parceiro e descontando frustrações neles.


“Cria-se o hábito de acreditar que não se engajar em atividades de lazer é o que vai dar mais disposição para dar um passo em direção ao sucesso profissional e esquece-se que a vida pessoal também é um espaço de realização”, critica. Sócia da Projeto de Carreira, Alessandra Paulelli diz que não é possível dissociar de uma pessoa suas diversas facetas. “Se algo te deixou chateado, no trabalho ou em casa, você vai levar essa emoção para o outro lugar; não tem jeito. O importante é aprender a lidar com isso. Arranje uma metodologia que te ajude, como dar uma volta, fazer respiração cachorrinho, se exercitar”, diz.


Organização
“O tempo no ambiente laboral é um dos maiores da sua agenda, por isso é importante se planejar para conseguir se entregar a outras atividades. Isso é algo que, em linhas gerais, o brasileiro não faz, pois acha que não é necessário ou que vai perder tempo com esse tipo de organização”, diz Alessandra Paulelli. Com uma boa logística, é possível economizar minutos e horas, tanto na empresa quando em casa.


“Algo com que se perde muito tempo é responder e-mails o tempo inteiro. Reserve um momento do dia para ler as mensagens eletrônicas. Além disso, as reuniões precisam ser pragmáticas e controladas, com hora para começar e terminar”, exemplifica.


Também é possível tentar eliminar distrações e desperdícios de tempo de outras maneiras. “Ao residir próximo ao trabalho, o profissional gasta menos tempo em deslocamentos e consegue ter mais tempo para si”, explica Jacob Rosenbloom. Foi nisso que apostou o chef Leandro Nunes, 30 anos. Formado em hotelaria, ele estudou na renomada escola de gastronomia Le Cordon Bleu, em Paris, e estagiou no Noma, restaurante dinamarquês eleito quatro vezes o melhor do mundo pela revista britânica Restaurant.


No Brasil, passou por hotéis, bufês e restaurantes até abrir, há 1 ano e 10 meses, o Jambu, na Vila Planalto. A erva picante nativa da Região Norte dá nome à casa cujo cardápio homenageia as raízes de Leandro, que é paraense. “Em empregos anteriores, fui aconselhado a ser chef executivo, mas não dono, pois, nessa função, perde-se a vida pessoal. Mas eu queria fazer alta gastronomia com pratos do Pará, algo que eu só poderia ter num restaurante próprio”, lembra.


Apesar de estar ciente de que um estabelecimento desse tipo demanda muito esforço, Leandro não temeu o desafio e achou soluções para não deixar a vida pessoal de lado: ele se mudou para uma casa perto do restaurante, e o trajeto a pé dura três minutos. “Quando eu morava no Guará e no Jardim Botânico, não conseguia me desligar do trabalho quando ía para casa, então tinha que estar sempre presente. Agora, caso algo urgente aconteça, estou pertinho, à disposição. Isso me dá tranquilidade.” Além disso, o paraense criado em Brasília não abre a casa aos domingos e às segundas-feiras.


“Na segunda, cuido da parte burocrática, então, ficava sem nenhuma folga. Por isso, optei por não ter expediente em mais um dia”, explica o chef, que conta com 13 funcionários e recebe 300 clientes por semana. No tempo livre, ele gosta de ir a eventos de choro e samba, escalar, jogar videogame e, claro, se dedicar à noiva. Leandro tira férias anuais, quando dá descanso coletivo à equipe, no fim do ano. Ele não se arrepende das escolhas. “Eu gosto do que faço, sou feliz e não tenho nenhuma pretensão de ser rico.”

 

O caminho certo

 

Antes de tomar qualquer decisão importante, é preciso analisar como aquilo impactará a vida pessoal e a profissional. “As escolhas precisam ser conscientes. Quando alguém resolve ser empresário, precisa saber que terá menos tempo para a família. Se a mulher decide dar uma pausa na carreira para cuidar dos filhos pequenos, deve ter em mente que isso pode atrasar o desenvolvimento dela como trabalhadora”, define Alessandra Paulelli, que é exemplo desse tipo de escolha. “Fui executiva e workaholic durante muito tempo. Quando resolvi virar consultora, paguei alguns preços, como ganhar menos, mas posso cuidar mais da educação do meu filho e mandar nos meus horários. Foi uma opção que vale a pena”, garante ela, que foi diretora de RH em empresas como Siemens, Microsoft, Telefônica e grupo RBS de Comunicação.


Os ganhos financeiros impactam os caminhos selecionados, mas é preciso ponderar prioridades. “Quando você se acostuma com um estilo de vida mais alto, é difícil diminuir, mas é preciso perceber que é possível viver bem com menos”, analisa. “O importante é que o profissional seja o protagonista da sua vida em qualquer um dos temas. Não se faça de refém de nenhuma empresa e pare de arrumar desculpas para a sua falta de planejamento. As instituições não querem que você fique no trabalho o tempo todo, o que importa é a entrega de resultados. Se não for o caso, você pode se planejar e buscar outro lugar”, ensina. Autor de livros, como Transforme seus sonhos em vida (R$ 19,70), Eduardo Shinyashiki observa que um dos maiores mires mitos é a crença de que é preciso escolher entre ser feliz e ganhar dinheiro. “As pessoas não acreditam que isso é possível e acabam focando muito em uma única área da vida, mas somos capazes de criar realização profissional e pessoal”, defende.

 

Gabriela Studart


A enfermeira Marília Fernandes Ferreira, 54 anos, é exemplo de equilíbrio entre os aspectos da vida. Servidora pública da Secretaria de Saúde e mãe de dois rapazes de 29 e 26 anos e de uma moça de 24, ela trabalha 20 horas semanais, concentradas em dois dias da semana. Quando ingressou na rede pública, no início dos anos 19990, a carga horária mínima era de 30 horas e ela comemorou a opção de redução, que veio com a proporcional diminuição do salário. “Diversos chefes me ofereceram e convidaram para cumprir 40 horas, algo que eu fiz durante um ano e pouco, em 2002, mas não vale a pena; mesmo que eu tenha rendimentos em dobro”, acredita. “Quando os meninos eram pequenos, eu tive tempo de ajudá-los em tarefa de casa, levar na catequese e ser presente. Não tenho parentes em Brasília e não queria deixá-los nas mãos de empregadas, então, foi uma escolha consciente”, revela a maranhense. Agora, com filhos crescidos, um deles até casado, Marília não pensa em aumentar o expediente. “Eu malho, viajo, cuido da casa, visito e me reúno com amigas, tenho tempo para mim.”

 

Papel da empresa
De acordo com Shinyashiki, quando as companhias se dão conta de que um funcionário realizado pessoalmente rende mais frutos passam a investir e estimular isso. “É o caso do Google e dos Laboratórios Aché, por exemplo, que criam espaços para que os empregados tenham prazer.” As firmas que realmente investem nisso são minoria, e o nível de cobrança tende a ser muito alto, algo que tem a ver com a nossa cultura. “Em algumas empresas alemãs, sair do escritório às 17h30 é sinal de competência, pois fazer horas extras é resultado de não ser capaz de fazer o que precisava dentro do expediente. No Brasil, a ideia é de que os competentes ficam além do horário”, compara.


Para o mestre em neuropsicologia, é possível construir outra ideia de como correr atrás do sucesso lembrando que o funcionário é o grande responsável por equilibrar os pesos. “O que se passa na sua vida pessoal e profissional não depende da empresa ou das pessoas com quem você convive, mas de você”, enfatiza. Tomar as rédeas significa, inclusive, dizer não. “Quando a pessoa se compromete em agradar aos outros, mesmo que isso desagrade a si mesmo, é sinal de baixa autoestima e de não saber dar limites. E, quando isso acontece, você passa por cima dos seus valores e, para agradar o chefe, por exemplo, abre mão de tempo com a família ou o parceiro. No entanto, isso tem mais a ver com a postura individual dessa pessoa do que com a pressão da empresa.”


Depois de se dar o devido valor, o profissional pode repensar se a companhia em que está inserido serve para ele. “Se o trabalho fere sua ética ou se você se sente desrespeitado, é hora de preparar a transição para conseguir outro lugar, mas sem deixar de desenvolver suas atividades com qualidade. Enquanto a nova vaga não chega, em vez de ficar se queixando de que o lugar é horrível, de que o chefe é psicopata, ditador e paranoico, foque em ser ainda mais competente e talentoso e, chegando em casa, valorize ainda mais as pessoas que te amam. Mantenha, acima de tudo, o compromisso não com o local em que você está, mas com o que você quer fazer da sua vida”, finaliza.

 

Arquivo Pessoal
 Três perguntas para 

 

Jacob Rosenbloom, CEO da Emprego Ligado.

 

Para alcançar a satisfação, o que uma pessoa deve priorizar: vida pessoal ou trabalho?
O profissional de sucesso sempre busca o equilíbrio entre vida pessoal e carreira. Quando temos equilíbrio, somos mais felizes, o que nos leva a maior satisfação pessoal e maior produtividade no trabalho.

Como conciliar qualidade de vida e ganhos financeiros?
O profissional deve buscar trabalhar na carreira de que gosta e na qual se sente bem; isso garante satisfação pessoal e melhor desempenho e, consequentemente, reconhecimento financeiro.

O que as empresas consideram mais importante: um workaholic ou alguém que saiba balancear as áreas da vida?
Depende do mercado e dos valores da companhia, mas tenho notado uma valorização cada vez mais maior de um equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. As empresas estão começando a perceber que o funcionário que encontra esse meio-termo é mais engajado e motivado, o que resulta em maior produtividade.

 

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