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Desligamento sem trauma

Tanto gestores quanto liderados podem cometer erros na hora dessa conversa. A fim de que o momento seja menos complicado, aposte em inteligência emocional e sinceridade. Confira dicas para evitar atritos

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postado em 19/06/2016 13:17 / atualizado em 20/06/2016 18:40

Ana Paula Lisboa

Andre Violatti

Diferentemente do que possa parecer, a demissão, um dos momentos mais delicados e temidos nas relações de trabalho, é difícil não só para o funcionário: o gestor também sofre ao ter que lidar com esse tipo de momento. Nessa hora, sentimentos ficam à flor da pele para ambos os lados, mas é preciso ter inteligência emocional para evitar que a situação se torne ainda mais complicada. Um processo de desligamento mal resolvido termina com mágoas mútuas, e as consequências só podem ser ruins.

O empregado desgostoso, especialmente caso tenha se sentido ofendido, pode queimar o filme do chefe e da empresa, além de processar a instituição. Quando o contratado demonstre um comportamento inadequado na saída, deve ficar sem uma boa carta de recomendação e também ter sua imagem desacreditada perante o mercado. Para piorar, toda a equipe é abalada por um afastamento conturbado e sem transparência: há chances de os empregados remanescentes se voltarem contra o chefe e espalharem um clima de negatividade no restante da instituição. Por mais chata que a ocasião seja, é possível encerrar a relação de trabalho de modo humano e respeitoso.

“Mesmo que seja um corte por desempenho, o chefe deve focar mais no que ela trouxe de positivo do que no negativo”, ensina a consultora da Véli RH, psicóloga com MBA em gestão estratégia de RH, formação em coaching, e consultora em recolocação e gestão de carreira.

Se o processo de demissão não for amigável ou adequado, “a pessoa tende a dar o troco, inclusive na Justiça, seja por motivos válidos, como assédio, seja pelo fato de o desligado procurar pelo em ovo, inclusive com denúncias falsas. Tudo que a empresa fez de errado, como hora extra não paga, trabalho em situação de risco ou outros problemas, pode vir à tona nesse momento”, como observa José Augusto Minarelli, diretor presidente da empresa de outplacement e transição de carreira para executivos Lens & Minarelli

Visão de líder
Professor de squash na Academia Headway, Rubens Martins da Cunha, 34, ocupa a posição de gerente há nove meses. Na instituição, fundada há 20 anos no Lago Norte, ele está à frente de 26 empregados e 1,2 mil alunos. Durante esse período, ele teve que demitir seis pessoas por problemas comportamentais. A primeira vez foi a mais traumática. “Era um professor que não aparecia nas reuniões da equipe, tinha uma postura de descaso com a academia, além de ser estúpido: brigava com colegas e não respeitava o pessoal da manutenção”, lembra. “Na hora da conversa, ele não aceitou, disse que era um excelente professor. Mas eu fui para esse momento embasado em fatos: mostrei as mais de 20 reclamações sobre a grosseria dele deixadas por alunos na caixinha de sugestões”, relata.

“Meu método é conversar num local separado, falar os motivos verdadeiros da saída. Geralmente, dá certo: tanto é que vários não trabalham mais aqui e continuamos amigos”, conta. Em todos os casos, a notícia da dispensa não era surpresa. “O último que demiti mesmo, quando pedi para conversar com ele, até falou ‘pode me dar aí a rescisão que eu assino’. Então não pego ninguém de sobressalto.” Além de sempre deixar claro o que é esperado dos funcionários, Rubens dá constante retorno sobre a atuação da equipe. “Sempre que alguém faz algo errado, dou uma advertência verbal; se ela não se corrigir, entrego uma por escrito. Nas reuniões, também converso sobre o desempenho”, diz.  Para que a equipe não seja afetada, Rubens sempre explica sobre a saída e mantém um clima de união. “Na última semana mesmo, tivemos uma reunião com um bom ânimo até porque, apesar da crise, a academia está crescendo a todo vapor.”

Por um caminho equilibrado
Vários dos passos adotados por Rubens estão entre os mais indicados para que a transição de um ex-empregado seja mais fácil de encarar, segundo José Augusto Minarelli. Entre os acertos estão clareza de expectativas, feedback constante com chance para que o trabalhador mude de atitude, conversa sobre a rescisão numa sala reservada explicando os reais motivos, mas embasado em fatos. Segundo o consultor, o jeito de demitir faz toda a diferença, e cuidado e respeito são importantes. “Se, depois de ser demitido, o diretor vai pegar as coisas dele ou guardar arquivos pessoais que tinha no computador, e encontra a sala trancada e o computador bloqueado, a pessoa fica possessa. Entendo que a empresa quer se precaver, por segurança, mas o indicado seria então pedir alguém para acompanhar o funcionário nesses momentos finais”, exemplifica.

O motivo alegado para a demissão é crucial. “Quando a causa não é justa ou quando o chefe não foi claro sobre o pretexto, as pessoas ficam indignadas.” Mentir também não é uma boa saída. “O gestor diz que a empresa está passando por dificuldades e vai suprimir o cargo do contratado; 15 dias depois, o indivíduo fica sabendo, por meio de colegas, que um substituto está na vaga. Casos assim geram revolta, não só no trabalhador, mas em toda a equipe.” Assim como num término de namoro, é chato ter de explicar os porquês do desligamento, e o brasileiro tende a inventar desculpas, como a clássica: “não é você, sou eu.” No entanto, ser sincero demais também não é bem-visto. A saída é encontrar um meio-termo. “Diga a verdade, com jeito. Quando o gestor afirma que o funcionário é ótimo, em vez de expor os problemas, deixa de dar a ele a chance de aprender. Bons chefes entendem a função pedagógica desse momento; os malformados e arrogantes tendem a sair pela tangente”, declara Minarelli.

Carlos Vieira

 

A designer de joias e microempreendedora invidiual Luciene Regner, 37 anos, fugiu desse objetivo, mas percebeu o erro. Este ano, ela contratou sua primeira empregada, para vender peças num salão de beleza, e a experiência não deu muito certo. “Além do salário, a vendedora ganhava comissão por bater metas, mas acabou se acomodando, fazia só o mínimo necessário. Então, o momento da demissão foi tranquilo, porque acho que ela estava esperando. Eu falei para ela pensar positivo e seguir em frente.” Luciene admite que poderia ter agido melhor na hora. “Eu ia fechar o ponto de venda no salão, porque estou abrindo um quiosque no Gilberto Salomão, então disse que era por causa do fechamento, mas eu poderia ter falado sobre o desempenho dela para que ela atue melhor nos próximos empregos. Se ela pedir alguma referência, vou ter que abrir o jogo”, revela a dona da Soulu Atelier desde 2013 que, agora, procura outro vendedor mais qualificado.

"O momento da demissão foi tranquilo, porque acho que a funcionária estava esperando pelos sinais que dei”
Luciene Oliveira, designer de joias, dona da Soulu Atelier

 

Como reagir após ser desativado?


Auxiliar de escritório numa empresa de venda e manutenção de equipamentos odontológicos, Layane Vasco, 19, está cumprindo aviso-prévio em seu primeiro emprego com carteira assinada. A experiência durou um ano e acabou por conta da crise. “Comigo, outro colega foi dispensado. Nosso chefe nos chamou para almoçar e deu a notícia. Ele disse que a empresa estava no vermelho desde o início do ano e que teria que nos dispensar, pois éramos os dois funcionários com os maiores salários”, conta. O momento foi delicado. “Nosso gestor, que é também o dono da empresa, chorou. Fui pega de surpresa porque não moro mais na casa dos meus pais, eu me casei e tenho contas para pagar”, diz. No entanto, ela entendeu os motivos do superior e sente gratidão.

“A situação do país está crítica. Sou muito grata por tudo que ele fez por mim. Com uma carta de recomendação e todos os direitos pagos, estou procurando uma nova colocação”, conta ela que, por conta das novas regras da seguridade social, não terá direito ao seguro-desemprego. A reação de Layane está entre as mais comuns após uma demissão. “Emocionar-se e lamentar é a regra, chorar e tentar convencer o chefe é a exceção”, percebe Minarelli. “De modo geral, as pessoas intuem que há algo errado porque o chefe não sorri mais, não o convida para reuniões ou vê outros indícios”, diz. “As pessoas ficam mais revoltadas quando são demitidas por um problema comportamental. Se é por conta da crise, todo mundo se abraça”, observa Catia Moreira Wanderley, consultora de RH.

Revoltar-se é muito perigoso. “O melhor é manter as portas abertas e abusar do autocontrole. O maior beneficiado disso é você: o modo como você encerra a relação de trabalho influencia as chances de recolocação. O antigo chefe é a grande referência adotada por muitas empresas”, observa. A conversa de desligamento não é hora de lavar a roupa suja. “Se o gestor der abertura para um feedback, fale, com polidez; caso contrário, não é o momento de falar o que ficou entalado até ali, nem despejar verdades sobre o chefe e os colegas. Mas você pode pedir que ele avalia você.” Tentar apelar para as dificuldades financeiras a fim de reverter a demissão não é efetivo.

Seguindo em frente

Depois de passar muito tempo em temporada numa peça, um ator precisa ensaiar bastante, pois estava acostumado a um papel e terá que se preparar para outro, num elenco diferente e num palco novo. Assim também é a transição de carreira: é necessário tempo para mudar de papel. José Augusto Minarelli, da Lens & Minarelli, orienta que a primeira atitude que um profissional deve tomar após ser demitido é reservar um período para si. “Não ceda ao ímpeto de pegar sua lista de contatos e disparar o currículo. Antes, recomponha-se e defina o que deseja para a próxima etapa da sua carreira”, diz. Depois de um desligamento, as pessoas são encaradas com três perguntas que não podem ser evitadas, mas podem ser respondidas com mais cuidado: como você está, o que aconteceu na empresa, e o que você está fazendo.

“A resposta ao primeiro questionamento deve ser curta: ninguém está interessado numa longa história sobre seus problemas”, observa Minarelli. “A segunda pergunta deve ser respondida de forma breve, mas verdadeira; muita gente usa o demitido como fonte de informações sobre a empresa, então não perca muito tempo falando da falecida e não suje a imagem dela, pois faz parte da sua trajetória. Se não for por conta da crise, mas por uma falha sua, você precisa ser honesto com os empregadores; com outras pessoas, não entre em detalhes — diga que  houve uma reorganização”, recomenda. Por fim, para o terceiro questionamento, a dica é assumir a procura por trabalho como prioridade. “Diga qual cargo está buscando e o que está fazendo para alcançá-lo. Saiba que a vitimização não ajuda em nada”, conclui.


"O melhor é manter as portas abertas e abusar do autocontrole. o maior beneficiado disso é você: o modo como você encerra a relação de trabalho influencia a recolocação”
Catia Wanderley, consultora de RH

 

Dúvidas legais

 

Arquivo Pessoal
 

 

Leonardo Passafaro, especialista em relações do trabalho e sócio do Capano Passafaro Advogados Associados, fala sobre as questões jurídicas envolvidas no processo de desligamento

Quais são os direitos de uma pessoa demitida?
Aviso-prévio, multa de 40% sobre o total depositado no FGTS, férias vencidas, férias proporcionais, 13º salário proporcional aos meses trabalhados. Além desses, podem existir outros previstos na convenção coletiva de trabalho da categoria.

Que tipo de cuidados devem ser tomado na hora de demitir?
A empresa deve se atentar para não ferir a honra e a dignidade do empregado que, antes de tudo, é um ser humano. Entre os erros mais comuns cometidos pelo chefe estão demitir na frente de outras pessoas e denegrir o funcionário — imputando-lhe a pecha de incompetente, lerdo, burro, folgado, entre outros adjetivos negativos.

Quais são os erros que o empregado pode cometer ao receber a notícia de que será demitido?
Ele deve manter o respeito com o superior e os demais colegas, mesmo que se sinta injustiçado. Uma vez que toma alguma medida impensada, como dirigir xingamentos ao superior, gritar ou algo do gênero, poderá ser dispensado com a aplicação da “justa causa”, perdendo os direitos ao recebimento da multa de 40% sobre FGTS, aviso-prévio, férias proporcionais, entre outros. Além disso, se for ofensivo, ainda poderá ter que indenizar o chefe.

É comum que as pessoas resolvam entrar com ações contra a empresa que trabalhavam depois de serem demitidas?
Sim, basta ver o número absurdo de reclamações trabalhistas em curso no Brasil se compararmos a outros países. Os motivos são vários, desde uma legislação que é considerada “paternalista” com o empregado, com regras nem sempre claras, até a crise econômica, que está minando a capacidade das empresas de honrar compromissos com os funcionários.

Rescisão planejada

Confira os 10 mandamentos da demissão para não errar na hora de demitir:

1 Hora certa
Comunique a demissão no início do dia, entre segunda e quarta-feira. Desligar na sexta no fim do expediente é ruim porque a pessoa fica o fim de semana só pensando nisso. Também não é adequado deixar esse momento para o dia em que a pessoa volta de férias.

2 Dê uma chance
Antes de dispensar, sinalize os problemas e dê oportunidade de melhoria quando a razão da demissão são falhas. Se o feedback faz parte da rotina da empresa e é feito embasado em fatos, a demissão não pega ninguém de surpresa.

3 Não banalize

Demissão é um recurso extremo e impacta quem sai e quem fica: só use em último caso.

4 Trate bem
Seja respeitoso e entenda a reação emocional do desligado. Se não forem bem tratadas, as pessoas que saem podem ser informantes para o mercado sobre os problemas da empresa e do chefe.

5 Aposte na privacidade

Demitir alguém na frente dos outros é uma falta grave. É preciso fazer uma reunião numa sala fechada apenas com o chefe e, no máximo, alguém do RH presente. As pessoas podem ter as mais diferentes reações, inclusive discutir, chorar, implorar para não ser demitido, falar verdades e cobrar coerência do chefe.

6Motivos
Se o chefe citar um erro do ano passado, ele também tem culpa, pois poderia ter resolvido a questão antes. Comparar o desempenho da pessoa com o de colegas também não é bom. Posturas pessoais que não comprometem o trabalho — como introversão — não devem servir de justificativas.

7 Sigilo
A equipe ou outras pessoas não devem saber da demissão antes da própria pessoa.

8 Dispense o aviso-prévio
É muito constrangedor ter que passar mais um mês na empresa. É melhor pagar a indenização e se livrar do problema.

9 Tempo de assimilação
Em casos de vagas sigilosas, normalmente para substituição, às vezes, o empregado sai na sexta-feira, e o novo contratado entra na segunda. No entanto, é importante dar um intervalo para que a equipe assimile a saída.

10 O cuidado com quem fica
A empatia da equipe é para com a pessoa demitida e não com o chefe. Um dos passos da gestão da saída é reunir quem permaneceu, tranquilizar e pedir colaboração.

Fonte: José Augusto Minarelli e Catia Wanderley


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