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Correio Braziliense

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Mulheres lutam por mais oportunidades de trabalho nas ciências exatas

A equidade, a inserção de trabalhadoras em carreiras de exatas e direitos femininos ainda precisam motivar debates e a mobilização da sociedade

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postado em 03/07/2016 09:37 / atualizado em 03/07/2016 19:19

Ana Paula Lisboa

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

No mercado de trabalho e nas faculdades, mulheres ainda representam minoria em contextos em que se trabalha com matérias exatas. Nas últimas décadas, a composição da mão de obra e do corpo discente tem se alterado, mas elas ainda decidem menos seguir uma trajetória profissional nesses campos. A escolha de carreira é permeada, claro, por afinidade, mas não recai apenas nisso. O contexto cultural determina os papeis esperados para cada gênero e, até hoje, afasta as meninas desses conhecimentos. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2013, 77% das matrículas nos cursos de saúde e bem-estar são feitas por mulheres; em educação, elas ocupam 73% dos bancos das faculdades; e somente 31% das universitárias estudam as áreas de ciências, matemática e computação.

A realidade nas universidades é afetada pelo desempenho e pelo engajamento de meninas com as disciplinas bem antes, na fase escolar, em que brasileiras têm notas mais baixas que meninos nas matérias exatas, problema que se acentua no ensino médio. Segundo levantamento do Movimento Todos pela Educação, as estudantes abandonam menos a escola e têm melhores notas em língua portuguesa, mas apresentam desempenho inferior em matemática ao fim do ensino médio. As últimas séries da educação básica são as mais críticas, já que no quinto ano do ensino fundamental a distância entre alunos e alunas na disciplina é de 1,8 ponto; enquanto no terceiro ano do ensino médio, a diferença é de 5,2 pontos.

 

Simone Marinho/Instituto Unibanco

 

Pensando em discutir a importância da escola para incentivar meninas a se interessarem por disciplinas como física, química e matemática, foi promovido no Rio de Janeiro, nas últimas segunda e terça-feira (27 e 28), o segundo Diálogo Elas nas Exatas. O evento é fruto de parceria entre o Instituto Unibanco, o Elas - Fundo de Investimento Social e a Fundação Carlos Chagas (FCC) e reuniu representantes dos 10 projetos apoiados pelas três instituições por meio do edital Elas nas Exatas, lançado em 2015 para vigência em 2016, cujo objetivo não é impor que meninas sigam carreira em profissões que envolvam cálculos, mas mostrar, por meio dos programas apoiados, que elas podem fazer essa opção. O encontro contou também com a presença de ativistas, pesquisadores e outras interessadas no tema.

Ganharam coro relatos como o de Thamiles Melo, engenheira eletricista, mestranda em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e uma das responsáveis pelo Engenheiras da Borborema, projeto de extensão apoiado pelo Elas nas Exatas. “Em algumas etapas da pesquisa, eu tinha que me sujar toda de graxa. Por isso, sempre andava de luvas e roupas protetoras. Então, um dia, um colega perguntou se eu estava fazendo limpeza. Eu respondi que estava fazendo ciência”, contou com orgulho. Amalia Fischer, socióloga, doutora em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), idealizadora e coordenadora geral do Elas, observou que “a escola é um lugar fundamental para a transformação social” e defendeu a erradicação de ideias predeterminadas do que seria adequado para meninas.

Responsável pela área de Fomento do Instituto Unibanco, Denise Hirao, advogada, mestre em direito internacional dos direitos humanos pela Universidade de Notre Dame, defende uma luta para humanizar as ciências. “Gênero faz parte da vida de meninas e meninos, não afeta apenas as mulheres. Tem garotos indo para o tráfico por causa da expectativa de que sejam provedores das famílias. É um desafio criar soluções de escala para mudar essa realidade, mas temos que tentar.”

*A jornalista viajou a convite do Instituto Unibanco

 

Cientistas do Brasil

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press
 

 

Vanessa Carvalho de Andrade, 43 anosProfessora do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB), graduada pela Universidade de São Paulo (USP), doutora e pós-doutora em física pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), com estágio no Observatório de Paris-Meudon (França)

 


Os principais trabalhos da paulistana são focados em gravitação e relatividade, e a trajetória dela foi marcada por momentos em que a questão de gênero fez toda a diferença, nem sempre para melhor. “Quando engravidei, eu estava fazendo o pós-doutorado na França. Em 2000, não havia licença-maternidade para pesquisadoras. De volta ao Brasil, 40 dias após o parto, eu estava de volta ao trabalho. Às vezes, precisava levar minha filha à universidade e escutava uma série de reclamações, porque neném chora”, lembra.

O resultado do transtorno foi que Vanessa acabou perdendo a bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) pela queda na produção. Além dessa dificuldade, ela teve que lidar com comentários machistas. “Quando regressei de Paris, outra professora também tinha retornado de lá, e o diretor do instituto perguntou em tom irônico se ela não tinha voltado grávida também.”

Na segunda gravidez, em 2005, a professora estava na Universidade de Brasília, teve quatro meses de licença e pôde cuidar da família com mais tempo. Mesmo hoje, Vanessa observa que a gestação é complicada para alunas. “Não vejo meninas grávidas na UnB, pois elas tendem a trancar, e a instituição não tem creche. Apesar de as pesquisadoras contarem com um ano a mais para apresentarem a tese ou dissertação, sei de um caso recente em que a estudante foi convidada a sair do mestrado no Instituto de Física por causa disso”, critica.

Para Vanessa, é por isso que, nos mais altos graus da carreira científica, há menos mulheres. No entanto, outros fatores entram no jogo. “O comitê que avalia essas progressões é predominantemente masculino, de mais idade e não consegue reconhecer as dificuldades da mulher. A Sociedade Brasileira de Física, por exemplo, tinha um grupo de defesa feminino que foi extinto porque a comunidade da área não o achava importante.”

A chave para mudar o contexto, para Vanessa, deve vir cedo. “O problema inicia na família, que cria meninos e meninas de maneira diferente. Também precisamos mudar essa indústria de brinquedos que coloca panelinhas para meninas. Por fim, faltam expoentes e referências, inclusive na mídia, para que as garotas percebam que podem trilhar carreira nas exatas.” O projeto com recursos da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP-DF) Atraindo meninas e jovens mulheres do DF para a carreira de física: primeiros estudos, integrado pela professora, tem feito sua parte nesse sentido e sensibiliza meninas de escolas públicas.

"O problema inicia na família, que cria meninos e meninas diferentemente. Também faltam referências para que garotas percebam que podem trilhar carreiras exatas”

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press
 

 

Chang Chung Yu Dorea, 70 anos
Professora do Departamento de Matemática da (UnB), engenheira eletricista pela USP, mestra em estatística e doutora em matemática pela University of Massachusetts Amherst, pós-doutora pela Iowa State University

A chinesa de 70 anos se mudou para o Brasil com a família aos 4, país em que se naturalizou brasileira. Durante a vida escolar, sempre se destacou em cálculo. “Sempre fui uma excelente aluna em matemática, a primeira da turma”, revela. Ao longo da carreira, Dorea conta que nunca sofreu discriminação pela questão de gênero. “Acho que este é um país bastante aberto e, no meio acadêmico, há muitas mulheres. Quando eu fiz engenharia, entre 1964 e 1968, o número era bem diferente, poucas escolhiam essa área, mas houve uma mudança.”

Para a professora, não existe restrição para que as alunas se saiam bem em qualquer área. “Medicina é uma das carreiras mais difíceis e chega a ter mais mulheres do que homens. Não é questão de dificuldade”, diz. Mãe de dois engenheiros e avó de três netos, Dorea acredita que a gravidez pode atrasar o desenvolvimento profissional. “Tem uma fase da maternidade em que a mulher não tem tanta disponibilidade para se dedicar à carreira e acumula uma jornada dupla. As que vencem essa etapa são heroínas, mas a gestação é uma opção da mulher. Nas gerações de agora, em que os homens se envolvem mais com os trabalhos domésticos, essa dificuldade pode diminuir”, espera.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press
 

 

Dianne Magalhães Viana, 52 anos
Professora do Departamento de Engenharia Mecânica da UnB, engenheira mecânica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro, mestra em engenharia mecânica pelo Instituto Militar de Engenharia, doutora em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

O interesse por engenharia surgiu porque o pai de Dianne trabalhava com engenheiros civis, e ela escolheu a área de mecânica perto da época do vestibular. “Eu fiz uma pesquisa sobre os cursos, e o que me motivou foi a curiosidade de entender como as máquinas funcionam”, conta. “Antes de entrar para o curso, não me passava pela cabeça que haveria tão poucas mulheres na área. Logo no primeiro dia de aula, foi um choque só ver alunos na sala. As outras três meninas da turma, de 60, não tinham ido”, recorda a cearense. Nesses contextos, a professora percebe que jovens tendem a ser “cavalheiros” com as colegas. “Eles buscam água, pegam cadeira, têm um grande cuidado, mas a gente não quer ser tratada de forma diferente. Também não deixam de existir piadinhas”, revela. A discriminação ficou nítida também no mercado de trabalho. “Numa seleção de estágio, a empregadora me disse que achava o trabalho mais indicado para homens, porque havia muitos operários.”

Apesar dos preconceitos, Dianne percebe uma mudança sutil na área. Para incentivar que o número de trabalhadoras na área aumente, a docente coordena o projeto de extensão da UnB Meninas velozes, em que alunas de ensino médio desenvolvem atividades de conhecimento científico associadas a conceitos de automóveis de competição. A professora tem um filho de 16 e um de 12 e nota diferenças na dedicação que pais e mães podem dar ao trabalho. “O homem pode trabalhar até tarde, a mulher precisa voltar pelos filhos”, compara.

 

Pesquisadoras de destaque

 

Simone Marinho/Instituto Unibanco

 

Elas construíram uma carreira de sucesso em ciência e se tornaram referência para várias outras mulheres de diferentes regiões do país. Conheça as opiniões de pioneiras e experts em suas áreas de atuação 

 

Sonia Guimarães, 60 anos
Professora da Divisão de Ciências Fundamentais do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), graduada em licenciatura em ciências e mestra em física aplicada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), PhD em física da matéria condensada pela University of Manchester, foi a 1ª doutora em física afro-brasileira

“Somos 50% da população mundial, e é estúpido impedir o acesso”, diz Sonia sobre a falta de estímulo para que meninas cursem engenharia, física e outras graduações afins. Para a família de Sonia, a escolha da carreira não foi óbvia. “Minha avó aprendeu a ler no Mobral. Quando terminei o doutorado em física, ela disse que eu não era doutora, pois só médico é”, lembra.

Se as mulheres são minoria nas áreas exatas;numa escola militar que só permitiu que meninas concorressem ao vestibular em 1996, elas são uma exceção ainda mais rara, da qual Sonia faz parte. “Sempre é difícil, há dúvidas sobre a nossa capacidade, mas não desisto e provo que sou capaz”, resume sobre sua rotina.

No dia a dia de professora, também é preciso tentar apaziguar atritos entre alunos por causa da discriminação. “Quando as meninas tiram notas melhores, os rapazes ficam zangados, chegam a dizer que eu dei a pontuação por favoritismo de gênero. Então, eu os convido a olhar o trabalho das colegas e, claro, eles percebem o motivo da média: as garotas são capazes”, exalta.

Para alcançar mudanças quanto à equidade, ela observa que é importante empreender. “Daqui para a frente, independentemente de governo, o mercado de trabalho será mais complicado. Já não vai ter emprego para todos mesmo, e as jovens podem abrir negócios. É preciso ver oportunidades e agarrar”, diz. E, sendo empresárias, as mulheres podem ditar as próprias regras nas companhias e promover mudanças.

 

Simone Marinho/Instituto Unibanco
 

 

Débora Foguel, 51 anos
Professora do Instituto de Bioquímica Médica e pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em que se graduou em biologia e fez mestrado e doutorado em bioquímica. É membro da Academia Brasileira de Ciências e Comendadora pela Ordem do Mérito

“As notas do Brasil no Pisa (Programme for International Student Assessment) em matemática revelam diferenças entre alunos e alunas, mas é algo mínimo, de uma ou duas questões. A conclusão é que meninos e meninas são igualmente capazes”, percebe. Para ela, o que afasta as meninas de fazer ciência é um contexto cultural que afeta desde a tênue infância até a vida adulta. “Desde os brinquedos, define-se o que é esperado delas. Tem uma boneca Barbie que diz ‘I hate math’. Se você der um kit de engenheiro para uma menina, até vai causar estranhamento”, exemplifica. “A educação básica também tem um peso enorme nisso. Eu fiz biologia porque tive um ótimo professor na disciplina. Os educadores precisam trabalhar mais essas possibilidades”, comenta.

Sobre a discriminação que permeia a vida de mulheres que trabalham com ciência, Débora cita uma frase de Albert Einstein: “É mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito”. No entanto, ela reforça que há saída, e é importante que as profissionais se engajem em busca de equidade. “Não é preciso escolher entre ser mãe ou ter carreira. Dá para ser mãe e todo o resto”, diz ela, que tem quatro filhos. Débora acredita que houve uma progressão nos diretos conquistados com relação à licença-maternidade e o que falta agora é que os pais sejam mais envolvidos na questão. “É preciso refletir mais sobre isso. Enquanto não fizermos isso, os efeitos da gestação vão impactar apenas a carreira da mulher.”

 

Simone Marinho/Instituto Unibanco
 

 

Katemari Rosa, 38 anos
Professora do Departamento de Física da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), licenciada em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em ensino, filosofia e história das ciências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestra em science education pelo Teachers College e doutora em science education pela Columbia University

“Não se preocupem com a questão financeira. Em toda área, há dificuldades. Vão até lá e façam. Eu vim por esse caminho e vivo com certo conforto. Às vezes, se tivesse feito algo só pensado em dinheiro, talvez não teria isso.” Esse é o conselho que Katemari deixa para jovens meninas que estão em dúvida sobre trilhar ou não uma carreira científica. A dificuldade com matemática não deve ser um impedimento. “Eu reprovei em cálculo 1, mas não desisti. Lá na frente, isso não vai impactar sua carreira. O importante é persistir.”

O preconceito de gênero, associado ao étnico, sempre esteve presente na vida dela. “Acontece o tempo todo. Está até em pequenas coisas, como alguém chegar à minha sala e perguntar pela professora, como se eu não pudesse ser uma”, conta. Para mudar ideias preconcebidas, Katemari aposta na importância de mudar a educação básica. “A lei (nº 10.639/2003) estabelece a obrigatoriedade de incluir história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares, mas os trabalhos nesse sentido são pouco expressivos. Precisamos investir na formação de professores — pois, se eles têm preconceitos, passarão isso para os alunos — e contar histórias de sucesso de negros e negras”, conta ela que decidiu não ter filhos. Com relação ao mercado de trabalho, a mudança com relação à discriminação racial deve vir por outro caminho. “Precisamos ter empregadores e empregadoras negros.”

 

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press

 

Marcia Barbosa, 55 anos
Professora e diretora do Instituto de Física da UFRGS, onde fez graduação, mestrado e doutorado em física; pós-doutora pela UFRGS, pela University of Maryland e pela Boston University. Membro da Academia Brasileira de Ciência, ganhadora dos prêmios L’Oréal-Unesco e Nicholson Medal da American Physical Society

“Fico triste ao ouvir que alguém não gosta de física”, diz a professora que demonstra brilho nos olhos quando fala da disciplina. Ela vê como um mito a afirmação de que mulheres não gostam de ciência. “Elas gostam, mas não chegam no topo no fim de uma carreira na área.” Marcia denuncia um problema na profissão de cientista. “Quando olhamos os mais altos graus de cargos de pesquisa, em exatas, as mulheres estão em minoria. Às vezes, professoras no nível intermediário têm muito mais trabalhos publicados, mesmo assim, não evoluem”, reclama.

Para que as profissionais ganhem visibilidade, ela destaca a importância de prêmios.“Muitas vezes, as pesquisadoras nem se inscrevem porque acham que não têm chances. Com o prêmio da L’Oréal, por exemplo, há uma possibilidade de estar em evidência que não costuma ser normal na nossa área, e isso é importante para mostrar referências às jovens, para que vejam é que elas também podem ser cientistas”, analisa.

Além de haver poucos exemplos de físicas, engenheiras e outras trabalhadoras da área de exatas em que meninas possam se inspirar, Marcia detecta um problema na imagem que costuma ser transmitida pela mídia, em filmes por exemplo. “Normalmente, mostram uma pessoa esquisita, mas somos normais como quaisquer outros profissionais, somos mulheres comuns”, define.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

 

Cátia Regina Gonçalves, 52 anos
Professora e chefe do Departamento de Matemática da UnB, graduada em licenciatura em matemática pela Unesp, com mestrado e doutorado em matemática pela UnB

Ela foi a primeira mulher a obter o título de doutora em matemática na Universidade de Brasília, em 1995, orientada pela professora Chang Chung Yu Dorea. O cenário mudou desde então, e há mais equilíbrio entre a quantidade de homens e mulheres na área (na UnB, um terço das alunas da graduação e a mesma quantidade do corpo de docentes em matemática é composta por trabalhadoras). Ela vê no Departamento de Matemática da instituição uma grande concentração de mulheres fortes. “Quando entrei, havia professoras em postos elevados. Isso estimula jovens a seguirem a carreira”, afirma. Cátia sentiu um tratamento diferente quando assumiu a chefia do departamento. “Senti resistência em determinados servidores ao fato de serem liderados por uma mulher.”

 

Palavra de especialista

 

Simone Marinho/Instituto Unibanco

 

Evolução e atraso

Não vivemos, no Brasil, um momento nem de avanço nem de retrocessos no que diz respeito à equidade de gênero. Nos últimos 20 anos, houve progressos nas conquistas femininas — desde delegacias especializadas, passando pela Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006), a Lei do Feminicídio (nº 13.104/2015) e as mudanças para as empregadas domésticas. Temos um movimento de mulheres forte que ultrapassa gerações.

No entanto, as bancadas do Senado e da Câmara dos Deputados têm em sua composição 90% de homens. Por ser predominantemente masculino, o Poder Legislativo não enxerga as brasileiras como deveria nem luta por garantir direitos para elas — um exemplo é a proposta de criminalizar o aborto e dificultá-lo em caso de estupro  (Projeto de Lei nº 5069/2013)

Os direitos femininos não são conquistados para sempre, é preciso estar constantemente lutando por eles. No mercado de trabalho, o preconceito de gênero — com agravantes em caso de lésbicas e negras, que enfrentam homofobia e racismo — atrapalha. Há um ideal de como a profissional deve aparentar: maquiada, de salto; pois a aparência natural dela não é vista como adequada.

K.K. Verdade, formada em gestão pública, mestra em ciências sociais, coordenadora executiva do Elas - Fundo de Investimento So cial, idealizadora da Parada Lésbica do Distrito Federal
 

 

 

 

 

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