PERFIS DE SUCESSO - VALESKA SAVARINI »

Empresária perseverante

Uma camaleoa dos negócios, ela vendeu salgados no Sul e sanduíches no DF, onde teve um quiosque e um restaurante. Desde 2010, serve almoços leves e caseiros num self-service no Setor de Autarquias Sul

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 10/07/2016 15:25

Marcelo Ferreira

O self-service Leka — Saladas e grelhados express, que funciona de segunda a sexta-feira, das 11h às 18h, na Quadra 4 do Setor de Autarquias Sul, é comandado por Valeska Savarini, 49 anos. O atrativo é uma comida leve e caseira. “Nossa cozinha é de ponta, usamos um forno combinado, então todas as preparações são assadas. Não tem nada frito! Até o que parece que é fritura, como batata e pastéis, foi assado. Com esse sistema, reduzimos o uso de óleo em 80%”, compara a empresária cujo apelido dá nome ao estabelecimento. “O cliente não se sente desconfortável de tarde, não tem azia”, observa. Uma das estrelas da casa, que completará 19 anos em setembro, é o balcão de saladas, com 3 metros e meio de comprimento e 50 itens. “É tudo fresquinho. Tenho muitos clientes de academia e, se a pessoa quiser, pode comer só isso.”

Marcelo Ferreira

Os pratos leves são o destaque, mas Leka explica que há opções para todos os gostos. “Tem rabada, dobradinha, vaca atolada, polenta com ragu.” A gaúcha serve pratos típicos da região dela e de outras. “Tenho costelão e chuletão gaúcho; mas também ofereço comidas maranhenses e mineiras. Tem preparações de fora, como yakisoba. O cardápio é bem variado e está sempre mudando”, conta. Os únicos itens fixos são a bacalhoada, servida às quartas-feiras; e a feijoada, às sextas-feiras. Leka também serve lanche da tarde. O balcão de sobremesas fabricadas na casa, como bolo, torta, quindão, brigadeiro de colher e outros quitutes, depois do almoço, recebe os doces e é complementado com opções como tapioca e sanduíches. “O bolo de chocolate recheado com creme de manteiga faz muito sucesso, assim como o pudim.”

A agilidade é uma vantagem do local, que tem 200m². “O restaurante tem ‘express’ no nome porque temos um sistema de atendimento muito rápido. Às vezes, a pessoa só tem 30 minutos para o almoço, e aqui não terá problemas”, explica. “São de 350 a 360 clientes por dia, a maioria vem da Caixa Econômica, da Justiça Federal, do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e da Receita Federal”, diz a empresária. No entanto, o movimento era maior antes da crise, quando a casa recebia cerca de 480 pessoas por dia. Para driblar a recessão, a dona adota estratégias, como o cartão fidelidade. “Antes, a pessoa ganhava gratuidade na 11ª refeição. Agora, recebe cortesia na terceira, na sétima e na 11ª visita”, explica.

Para a empresária, a honestidade é um dos motivos para a sólida trajetória. “Sempre tive em mente que é preciso fazer tudo certinho para ter sucesso.” Além do caráter, entra em jogo um fator essencial: muito trabalho. “Passo mais de 12 horas por dia no restaurante”, diz. A vontade de se aperfeiçoar completa a fórmula. “Descobri que meu público gosta muito de omelete, então a cada semana, estou melhorando a receita, descobrindo novos produtos”, exemplifica Valeska, que tem 13 funcionários e a ajuda de um filho publicitário, que prepara publicações para as redes sociais e cuida da parte financeira.

Memória do negócio
A história empreendedora de Valeska Savarini começou como uma forma de reagir à crise desencadeada pela Era Collor. “Eu era dona de casa, meu filho (hoje com 25 anos) e minha filha (agora com 33) eram pequenos, e meu marido, engenheiro, trabalhava na construção civil. Da noite para o dia, ficamos sem recursos porque os clientes não tinham dinheiro”, lembra. A saída foi apostar em culinária. “Minha mãe era chef de cozinha no restaurante do Sesc (Serviço Social do Comércio) em Porto Alegre, em que servia 4 mil refeições por dia, então isso estava na minha vida. Minha tia trabalhava com confeitaria e me deu uma aula.” Foi assim que Leka passou a produzir e vender bolinhos de batata e, posteriormente, salgados e tortas na rua.

“Em julho de 1992, nos mudamos para Brasília com zero recurso. Eu e meu marido abrimos uma pizzaria no Guará. Em algum momento, decidimos que não queríamos mais aquilo para não ter de trabalhar à noite.” A cozinheira de mão cheia resolveu montar sanduíches naturais — desses encontrados em lanchonetes e lojas de conveniência — em casa e, em 1997, abriu uma lojinha no Sudoeste, onde o negócio funcionou até 2000. “Cheguei a ser a terceira maior distribuidora desse produto no DF; produzia 450 por dia. Nessa época, uma marca de fora entrou forte em Brasília, mas eu recuei e decidi abrir uma loja num shopping, a Leka Express”, relata. No antigo Free Park, Valeska teve de mudar de rotina. “Antes eu tinha autonomia, produzia os sanduíches, mas não precisava ficar todo o horário comercial no trabalho. Foi uma escolha errada, mas trouxe aprendizado.” Foi no quiosque que Leka diversificou o cardápio.

“O público diminuiu muito depois que o shopping passou a enfrentar problemas e não investia mais em propaganda. Os sanduíches não estavam pagando as contas, então abri um pequeno self-service com refeições leves, saladinhas e grelhados”, esclarece. O bufê estava dando certo, mas a empresária percebeu que precisava mudar de ponto para crescer. Nascia então, em 2005, o primeiro restaurante de rua da empresária, na Quadra 101 do Sudoeste. “Ali operei a grande virada da Leka. Ninguém acha que negócio em subsolo dá certo, mas atendíamos 300 clientes por dia. A grande atração, além do self-service, era o nosso balcão de saladas”, assegura. A fórmula dava certo e ainda contava com um ingrediente de peso: funcionárias que montavam e temperavam saladas de acordo com o gosto de cada freguês na hora.

“Eu estava plenamente realizada e faturando bem, mas abria a casa sete dias por semana. Isso gerava descontentamento, e eu queria algo em que pudesse trabalhar apenas cinco dias e continuar com boa renda”, recorda. Leka abandonou o ponto e lançou um novo restaurante, no edifício Vitória Office, do Setor de Autarquias Sul, em 2010. A escolha não poderia ter sido mais acertada: o local é rodeado por prédios onde atuam servidores públicos e outros trabalhadores, que formam o público da casa. “Hoje, funciono somente de segunda a sexta e ganho mais do que quando abria a semana inteira no Sudoeste”, comemora.