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Brasileirinha em encontro do G20

Feminista, apaixonada por robótica, estudante de direito da USP e futura aluna de Stanford, jovem de 18 anos representará o país em reunião de líderes mundiais focada em empoderamento feminino

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postado em 17/07/2016 14:00 / atualizado em 18/07/2016 14:46

Hanna Guimarães

Leonardo Augusto

Aos 18 anos, a paulista Ana Carolina Queiroz foi escolhida para representar o Brasil no G(irls)20, iniciativa dos países do G20 criada em 2011 para aumentar a presença de mulheres em áreas como economia e política. O congresso segue o mesmo padrão do encontro mundial de líderes e reúne 24 representantes (uma menina de cada país do bloco e outras quatro de África e Oriente Médio) para discutir engajamento econômico feminino. Este ano será na China, para onde a jovem embarca em agosto.


Em dois dias, Ana Carolina participará de workshops e debates. Por fim, as participantes produzirão um documento que será entregue aos líderes do G20. Até lá, a menina está lendo e estudando bastante. “Na reunião, cada participante se compromete a desenvolver um projeto no próprio país, com a ajuda deles, para empoderar mulheres economicamente. O meu envolve robótica e feminismo”, conta a paulista, que apresentará uma plataforma on-line que disponibiliza materiais de estudo sobre os temas voltados para meninas de 10 a 14 anos que se interessem pelo estudo de computadores e robôs. A ideia se baseia em mentoria e ensina que a temática também é para mulheres.


“Eu me engajei em atividades de robótica por 10 anos, vi o que foi mais positivo na minha experiência e tentei adaptar para as garotas mais novas. A ideia está na fase inicial, estou fazendo quase tudo sozinha, só chamei alguns amigos para ajudar, porque meus conhecimentos de programação são básicos”, explica a estudante do terceiro semestre de direito da Universidade de São Paulo (USP) que, em setembro, se mudará para os Estados Unidos, para estudar na Universidade Stanford, a mesma em que está matriculada a paquistanesa Malala Yousafzai.


Na renomada instituição, pretende cursar matérias de economia, ciência política e programação. “Não gosto da divisão entre ciências exatas e humanas porque me identifico com as duas áreas. Eu me envolvi com robótica, questões sociais e outros assuntos. Acredito que será interessante estudar política pela possibilidade de me envolver com políticas públicas ao voltar ao Brasil”, revela.

Ana Carolina acumula outras conquistas acadêmicas: competiu em torneios de robótica — como a olimpíada brasileira no tema e a First Lego League, em que representou o país no Canadá e na África do Sul e conquistou prêmios de primeiro lugar. Durante o ensino médio, foi líder de uma equipe de robótica no Colégio Dante Alighieri, em que desenvolveu um aplicativo que alertava a população de São Luiz do Paraitinga (SP) sobre inundações e o projeto TPM — Tempo Para Mudanças, que promovia palestras para ensinar meninas da escola e da periferia a conhecerem e amarem o próprio corpo.


A jovem também criou o grupo Gursl da High School, em que mais de 300 meninas debatiam maneiras de diminuir as disparidades de gênero. Não à toa, recebeu elogios da American Psychological Association por meio de um certificado, além de ter ganhado uma bolsa de iniciação científica júnior. “Eu me interessei por robótica quando vi uma máquina que fazia aparecer uma bala. Achei muito legal e, quando entrei para o grupo, aprendi sobre motores e conteúdos teóricos. Então descobri que adoro pesquisar”, revela.

“Durante os primeiros anos, eu era a única menina da sala envolvida com robótica. Eu tinha que trabalhar muito mais para ser reconhecida. Quando colegas contavam experiências, eu tentava compartilhar alguma e era menosprezada. Sempre fazia os trabalhos sozinha porque ninguém queria fazer comigo”, relata. “Eu nem sabia o que era machismo, mas algo ali me incomodava”, completa. No 8º ano do ensino fundamental, Ana Carolina pensou em desistir da área e só não largou a atividade por conta do incentivo de uma coordenadora. “Ela mandou me buscar em sala de aula e pediu para que eu não parasse. Mais velha, passei por situações de discriminação de gênero, mas aprendi a brigar pelo meu espaço”, declara ela que integra o coletivo feminista Dandarta na Faculdade de Direito da USP.

Feminismo
O processo seletivo do G20 consistia em uma série de perguntas sobre experiências pessoais com feminismo e em um vídeo que explicasse o que era empoderamento. “Acabei escrevendo 11 páginas”, revela. A representante brasileira acredita que o principal problema a ser combatido pelo feminismo é a objetificação, fator que, segundo Ana Carolina, gera todos os casos de desigualdade e violência. “A sociedade não nos enxerga como seres humanos mas como algo que satisfaz o homem”, critica.


Ana Carolina acredita que a internet facilitou o acesso a textos e pensamentos feministas, mas que esses conteúdos ainda não chegam às comunidades de baixa renda. “No Brasil, o feminismo é muito branco, e é algo que a gente tem que mudar”, declara. A menina prodígio defende que o engajamento seja aplicado com outros objetivos. “Hoje, o feminismo é usado apenas contra as coisas. As ativistas não defendem uma pauta própria, só tentam evitar que algo aconteça. Faltam causas definidas para formar um novo projeto de sociedade”, defende. Ela acrescenta que o empoderamento feminino não pode ser individual, mas coletivo e depende de cada um. “Não adianta bater no peito e falar que não pisa na cozinha e ter uma mulher lá cozinhando para você”, exemplifica.

 

Reunião na China

O evento será em Beijing entre 8 e 9 de agosto. É possível conferir o perfil de todas as participantes pelo site.

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