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Tecnologia e educação de mãos dadas

Diretor da área digital e de novos produtos no departamento responsável pelo renomado teste de inglês da Universidade de Cambridge esteve em Brasília para falar sobre como aliar recursos inovadores e aprendizado

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postado em 31/07/2016 15:20 / atualizado em 31/07/2016 15:23

Gabriela Studart

Em sua primeira visita ao Brasil, para participar da 1ª Braz-Tesol conferência internacional de educação voltada para professores e universitários , Geoff Stead, 47 anos, teve muito o que compartilhar. Sul-africano, formado em ciência da computação pela Universidade da Cidade do Cabo, com especialização em administração pela Henley Business School, é o diretor de Digital e Novos Produtos no Cambridge English Language Assessment. O departamento é responsável pela avaliação da língua inglesa na Universidade de Cambridge e promove testes e certificações no idioma há mais de 100 anos. Por ano, a divisão concede cerca de 5 milhões de certificados em 130 países. Apaixonado por inovação e educação, ele combina os dois elementos em seu trabalho há 23 anos.


Na prestigiada instituição de ensino do Reino Unido, experimenta formas de aplicação de novidades científicas nas avaliações e na educação. Anteriormente, foi diretor-sênior de Aprendizado Mobile da Qualcomm, multinacional que produz chips de celular. No Brasil, Geoff Stead comandou um painel sobre ensino mobile, no qual discursou sobre como utilizar a tecnologia móvel para o aprendizado, sua especialidade. O congresso ocorreu entre 14 e 17 de julho no Colégio Seriös, na 902 Sul.

Como o inglês e plataformas digitais ajudam um profissional?
O inglês abre portas. Acredito no potencial que o conhecimento do idioma e a tecnologia têm de empoderar a pessoa no mercado de trabalho. Crescer num ambiente em que você aprende a usar ferramentas tecnológicas te faz um ser mais global, pois você pode se comunicar com pessoas que usam as mesmas ferramentas do outro lado do mundo.

Que dicas você daria para quem está estudando ou quer começar a estudar a língua inglesa?
Você precisa estar entusiasmado quanto a isso. Iniciar o aprendizado a partir de um livro de gramática é o pior jeito. Comece seguindo páginas que se relacionam com o que você gosta em inglês, assistindo a filmes no idioma. Parta do que te inspira.

Como a avaliação de inglês pode mudar com ferramentas digitais?
A tecnologia pode ser muito útil para exames, porque ela não diferencia se você é mulher ou homem, rico ou pobre. No futuro, você colocará fones, e o sistema reconhecerá sua voz, saberá dizer se tem ou não sotaque. Em certas fases, você precisa de uma pessoa escutando, mas estamos trabalhando muito para que o computador possa ouvir e analisar; assim, as pessoas poderão avaliar a si mesmas durante o processo. Imagine que cenário horrível: você estuda por um ano inteiro e faz o exame para só então descobrir que você foi mal. Seria melhor fazer microtestes e ter indicadores de performance pelo caminho. Isso sairia caro, mas, com a tecnologia, pode ser acessível.

Que mensagem você deixou sobre aprendizagem mobile durante a conferência em Brasília?
Meu recado principal é que a tecnologia realmente pode fazer uma grande diferença, mas é precisa utilizá-la apenas no que ela pode ser útil. Existem casos em que as pessoas tentam aplicá-la em tudo, frequentemente, sem sucesso. Professores, escolas, editoras e organizações ainda não sabem exatamente como lidar com os novos recursos porque eles são complexos. Se você quer se beneficiar de determinada ferramenta, é preciso entendê-la e mergulhar na complexidade dela. Sou muito interessado em acompanhar de que forma inovações podem transformar o modo como o aprendizado se dá, em vez de apenas acelerar ou tornar mais eficiente o que ocorre atualmente. Não se trata apenas de usar e-book: a tecnologia pode promover algo completamente diferente. Você poder colocar um fone e, de repente, estar em Nova York, onde sente que está falando com pessoas reais, viajando e tendo uma experiência imersiva. Nesses momentos em que você é forçado a agir num ambiente distinto — é que você aprende, e muito mais rápido.


Qual o futuro da educação?
Estou muito otimista quanto à aplicação das novas ferramentas para o aprendizado, mas as coisas mais interessantes ocorrem fora dos limites predispostos. Grandes colégios, editoras e instituições têm dificuldades em inovar. O sistema educacional perfeito não seria tão rígido. As matérias seriam mais misturadas, e seria possível o aluno progredir mais rápido em algumas, e de forma mais lenta em outras. Em um sistema assim, a avaliação poderia ser digital e contínua. Seria possível utilizar portfólios, que são evidências do que você produziu, e avaliação de habilidades, para a qual a tecnologia é ótimo canal.

Os livros de papel entrarão em desuso?
Não acho que livros de papel nem professores serão trocados por inovações. Mas os docentes que não usam esses instrumentos acabarão sendo substituídos por aqueles que usam. A tecnologia faz parte da vida de todos de forma tão primordial que se os educadores não puderem auxiliar os estudantes a utilizar inovações digitais para o bem, eles se tornarão menos pertinentes em seu ofício.

Como os docentes podem captar a atenção de estudantes inseridos numa realidade em que somos bombardeados por informação?
A resposta é transformar o aprendizado em algo relevante. Não se trata apenas de utilizar meios digitais, é questão de se manter significativo. Se o professor não entende o mundo em que o estudante vive, fica difícil permanecer pertinente. É necessário se colocar no lugar do aluno, e isso implica absorver inovações. De repente, estamos introduzindo ferramentas na sala de aula que os estudantes dominam mais que os educadores. Então existe uma mudança na balança de poder entre eles. É necessário que o professor seja confiante para assumir fraquezas e colaborar com os alunos, em vez de ser uma figura de imposição que concentra o saber.

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