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Saúde mental e carreira

Se falar em transtornos psicológicos é complicado na vida privada, é ainda mais delicado no ambiente de trabalho. Empresas, gestores e funcionários têm de encontrar uma saída para conviver com o problema e evitar agravá-lo

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postado em 07/08/2016 14:19 / atualizado em 07/08/2016 15:58

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Gabriela Studart

Falar em saúde mental ainda é um tabu. Muitas pessoas sentem vergonha, medo de serem julgadas ou ainda não aceitaram bem o diagnóstico que receberam. Em alguns casos, a situação se complica quando adicionamos a essa equação o fator trabalho. Falar ou não para o chefe? Os colegas precisam ser informados? O que pensarão quando eu precisar de um atestado ou quando tomar um remédio que deixa o raciocínio mais lento? Essas são algumas indagações que permeiam a rotina de pessoas com algum problema psiquiátrico — como depressão, ansiedade, transtorno afetivo bipolar ou o transtorno obsessivo-compulsivo.


 As perturbações mentais são mais comuns do que se imagina — em janeiro a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou levantamento no qual estima que 33% da população do mundo sofre de ansiedade — e compõem a terceira maior causa de afastamentos do trabalhador brasileiro. Segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social, as doenças de ordem psicológica só ficam atrás das do sistema osteomuscular, como a lesão por esforço repetitivo (LER); e das lesões traumáticas, que incluem ferimentos súbitos como torções, lacerações, estiramentos ou ossos quebrados. (Saiba mais em Longe da firma).


Depois de observar um aumento de 1964% nos casos de licença médica por problemas de ordem psíquica, o Programa Trabalho Seguro do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) decidiu eleger como tema de discussão “transtornos mentais e relacionados ao trabalho”, para tentar entender a questão e orientar empresas e funcionários a fim de diminuir o número de afastamentos. Uma das explicações para os dados pode estar no modo de vida e no nível de exigência passado aos funcionários, segundo o desembargador Sebastião Oliveira, membro do Comitê Gestor Nacional do Programa Trabalho Seguro da Justiça do Trabalho.


“É bem difícil tanto para a pessoa que está doente quanto para o médico delimitar quando o transtorno está diretamente relacionado à atividade laboral, então é preciso criar um ambiente corporativo saudável para que o trabalhador esteja menos exposto às doenças. O trabalho está cada vez mais denso, tenso e intenso”, observa. A solução deve partir das empresas, uma vez que os empregados, normalmente, não se sentem à vontade para falar sobre o assunto. “O mais comum é o funcionário procurar mascarar a situação e incorrer em duas situações: o absenteísmo, aquele que tira inúmeras licenças e tem muitas faltas; e o presenteísmo, quando a pessoa comparece mesmo não estando bem e, por isso, tem o rendimento prejudicado”, observa. Segundo Oliveira, as empresas precisam ter uma equipe de recursos humanos bem preparada, um bom médico do trabalho e espaços de diálogo em que o colaborador sinta que realmente pode tratar de problemas de qualquer natureza.


O desembargador reconhece que empresas com tais recursos são minoria. “Quando não há espaço no local de trabalho, o empregado deve buscar apoio junto ao sindicato, ao Ministério Público do Trabalho ou até, em casos mais graves, na Justiça do Trabalho”, explica. Quando a doença é ocupacional, ou seja, está diretamente ligada à função, os empregados têm direito à estabilidade durante o tratamento. Para as demais situações, não há garantias de que o emprego será mantido. “Por isso, é preciso conscientizar os chefes de que o problema é real e quebrar o estigma das doenças mentais”, comenta.

Um jeito de lidar

Um gestor compreensivo e metas de trabalho flexíveis têm ajudado a bibliotecária Marcella Ludmila de Oliveira Rodrigues, 28 anos, a lidar com o transtorno de ansiedade. “Dei um pouco de sorte porque o ritmo de trabalho aqui não é tão puxado, então, mesmo quando estou mal, consigo cumprir minhas tarefas dentro do prazo. Além disso, quando não consigo entregar as coisas no tempo certo, meu chefe não se exaspera. Ele me dá uma bronca leve, mas é compreensivo”, conta. Marcella diz que não sentiu a necessidade de explicar ao líder o porquê dos atrasos. “Eu digo que é por outras coisas, falo que me distraí, mas acho que não preciso contar sobre o que estou passando. Isso é mais uma coisa minha, mesmo”, explica ela que, desde março, é auxiliar administrativa num órgão federal que não permitiu que a reportagem fotografasse Marcella no local de trabalho até o fechamento desta edição.


Por isso, a bibliotecária prefere não divulgar o nome da instituição em que é funcionária. Ela se formou na Universidade de Brasília em 2013 e desenvolveu o problema há um ano e meio, enquanto estudava para concursos. “A situação era desagradável. Cada vez que via outras pessoas indo trabalhar ou indo para a aula, sentia-me muito mal. Ficava pensando por que minha vez não chegava nunca. Era como se minha vida não estivesse andando”, conta.


“Esse sentimento de impotência se acumulou ao ponto de, em uma prova, eu preencher meu nome errado no gabarito e, em seguida, ter uma crise de choro e pânico na frente de todo mundo. Foi horrível”, lembra. Apesar de ter melhorado, não alcançou estabilidade emocional. “De vez em quando, ainda preciso tomar um remédio para dormir e, no meio do dia, começo a ficar perdida em pensamentos ruins sobre o futuro e acabo não dando conta de terminar minhas tarefas”, revela.

 

Soluções para conviver melhor

 

Viviane é engenheira civil e foi diagnosticada com transtorno bipolar em 2001
 

Independentemente do problema, uma característica que costuma se repetir é que o indivíduo com algum transtorno passa a ter dificuldade de interação, como explica Lia Silvia Kunzler, psiquiatra da Coordenadoria de Perícia Oficial de Saúde da Diretoria de Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho da Universidade de Brasília (DSQVT/UnB/Unidade SIASS). “O mais comum é a pessoa começar a se retrair, ficar com medo de se expor e dos comentários dos colegas, mesmo que esses comentários não existam. Isso acaba dificultando a relação com as pessoas e minando os relacionamentos entre a equipe”, esclarece. Mas nem sempre expor a situação à equipe é uma boa saída. “Na UnB, lidamos com uma situação bem perto do ideal. São servidores públicos federais que não precisam ter medo de ser demitidos. Nas empresas privadas, não é possível garantir que o chefe não vá ter preconceito ou que os colegas vão entender. Por isso, não posso dizer para todos conversarem diretamente sobre esse assunto com o chefe”, comenta.


Na visão de Lia, é melhor que o próprio trabalhador reestruture a maneira com que pensa o tratamento e o transtorno. “É preciso aceitar a situação e focar em resoluções que não dependam de mudar o comportamento dos outros. Se você necessita de um atestado, tudo bem, é a resolução mais fácil em muitos casos. Mas o que fazer quando voltar?”, explica. Uma saída que desafoga qualquer pessoa, especialmente quem tem que lidar com uma desordem psicológica, é resolver cada problema na sua hora. “Como hoje estamos muito conectados, acabamos falando de tudo o tempo todo. O ideal é só pensar em problemas do trabalho quando estiver no serviço; e nas questões de casa, fora do expediente”, descreve.


Da parte das empresas, um exemplo que pode ser seguido é o da Coordenadoria de Atenção à Saúde e Qualidade de Vida da UnB. A divisão está implantando um serviço com foco nas contrariedades geradas pelo trabalho. Uma das ações, que pode ser feita pelo setor de RH de uma instituição privada, por exemplo, é um grupo de escuta ativa. “É uma reunião com toda a equipe em que são tratados os problemas de socialização do setor, mas com o objetivo de encontrar propostas de soluções”, explica Jane Pereira Araújo, psicóloga da coordenadoria.


São intervenções curtas, com no máximo 17 sessões, em que todos falam e escutam igualmente. “Não é uma sessão de terapia em grupo, uma vez que só são tratadas as questões relacionadas ao ambiente laboral.” Ela informa que os resultados desse tipo de iniciativa são excelentes, uma vez que previnem o aparecimento de transtornos e que o emprego agrave a situação de pessoas com doenças psiquiátricas de outras naturezas.

Ajuda necessária
Outro auxílio pode vir de grupos de apoio como o Apta — Núcleo de Mútua Ajuda a Transtornos Afetivos que funciona na Universidade de Brasília (UnB). Os participantes chegam, se apresentam e são convidados a contar a própria história, mas, caso queiram, podem apenas ouvir os outros. Dois psicólogos voluntários participam de cada sessão para fazer a mediação. No último sábado de cada mês, um psiquiatra voluntário tira dúvidas sobre o tratamento com medicamentos. “Além do auxílio da família, que é fundamental, os grupos são muito importantes para o tratamento. Quando você recebe um diagnóstico, seja de depressão seja de bipolaridade, você acha que é o único no mundo e se sente a pessoa mais excluída de todas.

 

Parece que a sua dor e a sua luta são as mais difíceis. Entretanto, quando a experiência é compartilhada, é possível ver pessoas. Isso é um grande reforço para o tratamento”, argumenta a engenheira civil Viviane de Carvalho, 35 anos.


 

Ela foi diagnosticada com transtorno bipolar em 2001, passou por muitos grupos e tratamentos desde então e conheceu o Apta em 2010, logo que o grupo foi fundado. Quando chegou ao mercado de trabalho, em 2008, a engenheira tinha conseguido conter as crises, por isso, não enfrentou problemas com chefes e colegas. “Acho que a opção de contar ou não vem de cada um, mas o importante é falar sobre sua condição quando você estiver bem. No meu último emprego, antes de abrir meu escritório, esperei alguns meses, revelei para minha gestora, e ela ficou surpresa. Como eu não estava em um período crítico, ninguém poderia imaginar. Em geral, as pessoas deixam para dizer apenas quando estão em crise. Aí, o primeiro contato que as pessoas têm com a doença é muito ruim. Então, a minha dica é expor a condição em um momento equilibrado para que todos vejam que dá para levar uma vida normal, seguindo todos os tratamentos”, aconselha.


Para ela, os piores anos em relação ao tratamento ocorreram durante a faculdade. “Regularmente, a faculdade de engenharia civil demora cinco anos, fiz em oito, mas valeu a pena”, lembra. Atualmente, ela comanda um escritório de engenharia civil ao lado do irmão em Planaltina e tem uma segunda jornada como coach. “A medicação é responsável por apenas 50% do equilíbrio. O resto vem de ter uma vida saudável”, explica.

 

Palavra de especialista

 

Sociedade doente

A forma como as empresas estão organizadas, o grande nível de exigências e cobranças, as metas inatingíveis, tudo cria um ambiente nocivo à saúde mental. Se mesmo um computador trava quando exigimos o máximo dele, imagine os seres humanos! As empresas pedem rendimento máximo o tempo todo, mas o resultado é justamente o contrário. Os ambientes corporativos são fortes agravantes à má qualidade da saúde mental. Uma medida que pode ser tomada é fortalecer o vínculo entre a equipe, em vez de estimular uma competição desenfreada.


Uma pessoa que não está afastada, mas tem parte de sua aptidão alterada pode ser mal vista pelo empregador. É o caso de alguém que toma um remédio que o deixa sonolento ou disperso. Muitas vezes, o funcionário é demitido. Quando a discriminação pode ser provada por meio de e-mails, testemunhas ou gravações, o trabalhador pode entrar na Justiça e pedir reparações.


Janilda Guimarães de Lima, procuradora-chefe do Ministério Público do Trabalho em Goiás (MPT-GO)

 

Longe da firma

Confira dados sobre afastamentos ocasionados por questões de saúde mental

» Desde 2008, as ausências por questões psiquiátricas estão em terceiro lugar entre as causas mais apontadas para se distanciar do local de trabalho.

» Entre 2011 e 2015, o Brasil teve cerca de 850 mil afastamentos ocasionados por transtornos mentais, especialmente no caso de mulheres na faixa etária entre 30 e 39 anos.

» Na iniciativa privada, os setores com maior número de licenças foram: atendimento hospitalar, comércio varejista, construção civil, transporte rodoviário, bancos e teleatendimento.

» A frequência foi maior para episódios depressivos (225 mil casos), seguidos de transtornos ansiosos (120 mil casos), e transtorno depressivo recorrente (91 mil casos). Os números se referem tanto aos beneficiários que receberam auxílio-doença comum, quanto aos que recebem o benefício por acidente de trabalho ou doença ocupacional.

» Quando o transtorno psíquico está declaradamente relacionado ao trabalho, as ocupações em que o trabalhador mais se afasta são: bancos, transporte rodoviário, atendimento hospitalar, correios e comércio varejista.

Fonte: Dados do Anuário Estatístico da Previdência Social de 2015, com explicações da procuradora-chefe do Ministério Público do Trabalho em Goiás (MPT-GO) Janilda Guimarães de Lima.

 

Conheça o Apta – Núcleo de Mútua Ajuda a Transtornos Afetivos

Grupo de apoio com reuniões gratuitas e abertas todos os sábados, das 15h às 16h30, na sala AC 111 da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, no câmpus Darcy Ribeiro (Asa Norte). Contato pelo e-mail: apta.apta@gmail.com ou pela página www.goo.gl/3Vv3hf.

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