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Veteranos em serviço

As histórias das empresas e de vida deles se confundem. Segundo especialistas, para quem passa vários anos no mesmo local de trabalho, o melhor é circular por várias áreas ou assumir desafios diferentes

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postado em 14/08/2016 14:55 / atualizado em 14/08/2016 15:06

Ana Paula Lisboa

Gabriela Studart

 

Gabriela Studart
 

Localizado na 511 Sul, o Restaurante Roma é apegado a tradições: os pratos são os mesmos desde a abertura, há 55 anos, os móveis não são trocados há 24 anos e, quando se trata da equipe, vários funcionários se tornaram patrimônio imaterial do restaurante. Lá são chamados de novatos os que ainda não completaram cinco anos de casa. O chef, Otávio Nunes da Silva, 73 anos, trabalha ali há quase cinco décadas. Hoje, de bengala na mão, supervisiona tudo o que se passa na cozinha e garante que o sabor de todas as preparações seja o de sempre. “Esse foi meu segundo emprego, entrei como ajudante de cozinheiro. Nunca quis sair: ficar mudando de empresa em empresa é ruim. Entrei solteiro e criei minha família tendo a segurança do emprego. O bom é que aqui temos união entre os colegas. Qualquer discussão é superada mais rapidamente”, percebe o cearense, pai de dois filhos e avô de um menino.


O gerente-geral Israel Simplicio, 56, está na casa há 35 anos e define o vínculo entre os colaboradores como o de “uma grande família”. A maior vantagem é a sincronia. “Com tantos anos de convivência, temos um foco em comum, cada um fazendo sua parte para servir o melhor ao cliente”, comenta. O motivo para tantos terem permanecido no restaurante, segundo Israel, é o fato de a empresa respeitar os colaboradores. “Pagamos tudo em dia e valorizamos o trabalhador, pois é ele o responsável por manter isso aqui de pé. Tendo certa ‘estabilidade’, eles preferem ficar. E, como têm certeza de que o restaurante estará por aí por muitos anos, não se desmotivam.”

 

Gabriela Studart
 

O paraibano Manoel Leite da Silva, 62, entrou no Roma como pizzaiolo em 1972; depois, foi cumim (ajudante de garçom)  por cinco anos, até ser promovido a garçom. “Quando isso aconteceu, eu pensei: é aqui que eu vou ficar para o resto da vida. Estou fazendo isso. Atender o cliente é muito bom, gosto do que eu faço”, conta o pai de duas filhas. Otávio, Israel e Manoel são exemplos de profissionais que acumulam décadas numa mesma instituição e estão satisfeitos. Para a empresa e para o colaborador, há várias vantagens de manter um vínculo duradouro. Especialista em comportamento no trabalho, professora de cursos de MBA da área de gestão de pessoas e coach de carreira, Daniela do Lago elenca a confiança mútua como o principal benefício. “Essa relação é impagável e muito legal. O profissional conquistou seu espaço ao demonstrar sua capacidade por meio dos serviços. Além disso, quanto mais trabalha ali, mais o empregado conhece e entende a organização. A empresa sabe o que esperar do contratado e compreende os dilemas pelos quais ele passa. Cria-se um vínculo diferente e mais profundo”, diz a autora do livro Despertar profissional (editora Integrare, 232 páginas, R$ 37,90).

Cumplicidade
Inaugurado há 21 anos em Taguatinga, o Hospital Anchieta conta, entre os 1.066 funcionários, com alguns que estão na casa desde o início. É o caso de Ricardo Dias Porto, 46, gerente de Tecnologia da Informação. “Entrei, como digitador, no Hospital Geral e Materno Infantil (HGMIT), em 1986, que depois se transformou no Anchieta. Depois, fiz faculdade em processamento de dados e passei para a área de TI. Minha vida profissional começou aqui, e o hospital foi onde conheci minha esposa”, recorda. “Gosto de fazer parte dessa história: é um sonho de fazer algo pelo outro. Sei que meu trabalho impacta o todo: se o sistema de dados demora, afeta o paciente e o médico”, conta ele, que sabe de cor valores da empresa, como amor à vida, busca da felicidade, ética e sonho compartilhado. A enfermeira Eliana Pereira, 45, trabalha no local há cerca de 20 anos e, hoje, está à frente da UTI neonatal e pediátrica.


“Entrei como estagiária e depois fui contratada. O que mais gosto é do fato de não ter rotina, cada dia é uma história, um caso diferente; e é gratificante ver o paciente sair melhor do que entrou. O trabalho não é um fardo para mim”, conta. “Tudo mudou muito, desde os equipamentos até o prédio. Quando entrei, eram só três enfermeiras, hoje são 60. Sou um legado vivo”, brinca. Diretora executiva do Anchieta há 11 anos, Lorena Porto só tem a agradecer a empregados com muito tempo de casa. “A instituição não é feita de paredes, mas de pessoas. A retenção é muito valiosa”, explica. Para garantir a permanência, a instituição investe em programas de capacitação, estabelece metas e oferece bônus financeiro caso os propósitos sejam alcançados.

 

Em movimento

 

Gabriela Studart
 

Apesar dos pontos positivos para ambos os lados, Daniela do Lago alerta que o longo tempo de casa só é proveitoso realmente caso o contratado esteja em constante mudança. “O risco é de a pessoa se acomodar — pois todos a conhecem e ela não precisa mais mostrar serviço —, não perceber o que se passa no mercado e não se atualizar. Ela precisa ter networking fora da empresa também, por isso é bom ter outros círculos de contato, por exemplo, se engajando em trabalho voluntário”, recomenda. “Quem tem 20 anos na empresa, mas ficou num lugar só e sempre fez a mesma coisa, na verdade, tem um ano de experiência e 19 de repetição”, compara. “É construtivo mudar de setor, experimentar outras coisas. Não existe chance de promoção para todo mundo, por isso trocar de área é melhor. Assim, você aprende coisas novas, está em constante evolução. Isso pode partir da proatividade do funcionário também”, ensina.

 

Há 42 anos no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Distrito Federal (Senai-DF), Romerito Carneiro de Lima, 61, passou por diversos departamentos. “Fui aluno do Senai em Anápolis, quando tinha 15 anos e fiz curso de dois anos em mecânica geral, na modalidade de aprendizagem. Terminei o ensino médio depois”, lembra. Em 1975, quando soube de uma seleção para instrutores de tornearia, Romerito se inscreveu e foi aprovado. “Desde 11 de agosto daquele ano, sou funcionário daqui. Comecei na unidade do Gama, em que fiquei até 1983. Passei então por Departamento Regional, Diretoria de Educação, Departamento Nacional — em que atuou nas olimpíadas do conhecimento —, Sesi (Serviço Social da Indústria) e, hoje, estou de volta ao Regional.”


Além das mudanças, a trajetória de Romerito foi impulsionada pela atualização profissional: ele se formou em pedagogia há 25 anos e, hoje, é analista de educação na instituição. “Em qualquer emprego, para ficar muito tempo, não tem como ficar parado num lugar só. É preciso ir se renovando, melhorando. Nunca pensei em sair do Senai porque ele me basta, até pelas oportunidades fantásticas que me deu, como conhecer outros nove países, em que falei sobre educação e pedagogia social”, conta ele, que representou a organização em nações como Estados Unidos, México, Argélia e Índia.


“Se você vai ficar num lugar por vários anos apenas pelos ganhos financeiros, não vale a pena, nem para você, nem para a empresa, pois é mais fácil enjoar. Eu não me cansei. Tenho momentos mais e menos motivados, mas eu tenho gosto pelo que faço. Chego em casa e dá vontade de voltar no outro dia”, afirma, realizado. “O trabalho se mistura com a vida. Não sei mais ficar quieto. Não me imagino acordando e não ter para onde ir”, diz o pai de um biólogo e de uma jornalista e marido de uma estilista. “É interessante ter passado tanto tempo na organização, porque se cria uma ligação, uma sinergia, algo artesanal que não é concreto, são as relações. Sou visto como referência pelos outros e sou capaz de propor soluções, pois continuei me renovando”, relata. Apaixonado pela instituição em que trabalha, Romerito se aposentou há sete anos, mas não pretende parar de trabalhar.

 

Vínculo emocional

Essa sinergia a que se refere Romerito é benéfica. No entanto, quando o laço é forte e pessoal demais, pode ser negativo. “Se uma pessoa com vínculo emocional e anos de trabalho é cortada do quadro, por conta de uma crise ou reorganização, pode se ferir muito mais. As demissões, porém, fazem parte do jogo do mercado. É humanamente impossível não ter conexão nenhuma, mas é preciso saber desapegar”, diz a coach de carreira Daniela do Lago. Mestre em ciência, gestão e tecnologia da informação e professor de formação de gestores no Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getulio Vargas (Isae/FGV), Marcus Garcia de Almeida alerta que os empregados mais experientes não estão imunes ao desemprego. “Em organizações grandes, se vão cortar muita gente, prioriza-se dispensar as pessoas com mais tempo de casa porque, normalmente, ganham maior salário e têm mais benefícios a receber. Ele será poupado se estiver num posto muito estratégico e se o prejuízo de dispensá-lo for maior.”
Um erro comum de empregados mais experimentados é achar que está tarde demais para sair de uma companhia, por exemplo, porque falta pouco para se aposentar. “Esse lance de aposentadoria está ultrapassado: é ridículo uma pessoa parar de trabalhar com 55 anos. A expectativa de vida do brasileiro aumentou muito. Independentemente da idade, o mercado sempre terá lugar para quem está com as competências em dia e se mantém compatível com as exigências do mercado”, observa Daniela do Lago. Para Marcus Garcia de Almeida, o caminho é não se acomodar. “Quem está numa zona de conforto e não está produzindo muito pode ser pego de surpresa com uma demissão faltando dois ou três anos para se aposentar. Mas, se continuar ativo e sendo importante, terá menos chances de passar por isso”, diz.

Afinal, o que é melhor?
“Não tem nada de errado em ficar muitos ou poucos anos numa empresa: tudo depende da sua estratégia de carreira”, analisa Daniela do Lago. “Se você estiver sempre aprendendo e fazendo algo novo, será ótimo ficar bastante. Mas tem quem mude de emprego várias vezes e apenas continue fazendo a mesma atividade em locais diferentes. Assim, não se desenvolve”, observa.


São importantes as responsabilidades assumidas. “Entenda que tempo de casa não quer dizer necessariamente que você vai assumir um cargo alto. Às vezes, um novato vai ser seu chefe. Contudo, todos devem entender que o veterano é um arquivo vivo, tem um histórico e serve de exemplo.”

 

Relação ganha-ganha

O que se obtém com muitos anos de trabalho?

Lado da empresa
Confiança no funcionário: a companhia conhece o empregado, pode contar com ele, algo muito importante nos dias de hoje.

 

Fidelização: assim é possível ter um colaborador engajado com o negócio, que tem o DNA da companhia empregnado em si e serve como disseminador da cultura organizacional.


Conhecimento interno: o veterano entende os processos da empresa, tanto operacionais quanto táticos. Assim, ele consegue ajudar o pessoal de gestão ao olhar para as fragilidades da instituição que precisam ser melhoradas.

Lado do empregado

Bom ambiente: o que mantém uma pessoa trabalhando na mesma empresa tanto tempo é o fato de ter encontrado uma identificação com ela e se sentir bem ali.


Tranquilidade: o funcionário tem certa quietude e estabilidade (há menos riscos de ser dispensado da noite para o dia) que os profissionais que mudam muito de empresa não têm. Não é apenas ele que está na organização há muito tempo: a instituição também aceitou e quis que ele ficasse ali.


Reputação: estando ali há muito tempo, o colaborador será respeitado e reconhecido pelos colegas e todos os níveis da organização, além de ser visto como referência, mesmo que não ocupe cargo de gestão.

Fonte: Marcus Garcia de Almeida

 

 

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