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Conforto também gera economia

Investir no ambiente de trabalho e evitar problemas ocupacionais reduz gastos com funcionários afastados, explicam especialistas. Além disso, pesquisa aponta que trabalhadores satisfeitos com as condições físicas do escritório são mais comprometidos com a firma

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postado em 04/09/2016 09:04 / atualizado em 29/09/2016 17:31

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Gabriela Studart

Em tempos de reforma da previdência, evitar doenças trabalhistas é essencial. As causas campeãs de afastamento são relacionadas à ergonomia, ou seja, relação entre o funcionário e o ambiente físico no qual ele trabalha. Em um ano, as lesões por esforço repetitivo (LER) e as doenças osteoarticulares relacionadas ao trabalho (Dort) afastaram mais de 100 mil pessoas do emprego, segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social, divulgado em março deste ano. “Em geral, esses problemas são resolvidos de maneira simples, como, por exemplo, ao trocar cadeiras defeituosas, alinhar o monitor ou fazer pequenas pausas depois de longos períodos em atividade. Acontece que as empresas deixam de fazer esses reparos ou têm metas muito abusivas, o que impede que os intervalos sejam feitos”, explica a engenheira em segurança do trabalho Marcia Ramazzini.


Segundo ela, um dos motivos para que as empresas tenham pouco cuidado com a saúde dos trabalhadores é o fato de a previdência social absorver os gastos com o funcionário afastado em um período maior que 15 dias e a falta de incentivo aos programas de qualidade de vida por parte do governo. “Até existem alguns programas de incentivo fiscal, mas eles dão benefícios muito pequenos. É preciso que haja uma maior conscientização, uma vez que o problema é bem sério e pode ser bem difícil de encontrar a causa raiz”, explica.


Apesar disso, a pesquisadora é otimista e acredita que as empresas, atualmente, estão muito mais preparadas para lidar com o problema. “A questão ergonômica teve um ápice entre as décadas de 1980 e 1990. Depois disso, foram criadas uma série de normas técnicas que definiram a altura de bancadas, a regulagem de cadeiras, as distâncias adequadas entre os olhos e o computador, a quantidade de luz natural e artificial em um ambiente, entre outras coisas. Tudo isso contribuiu bastante para melhorar as condições de trabalho”, lembra. Porém, Marcia chama atenção para questões relacionadas ao conforto, que, apesar de não lesionarem e afastarem o empregado, podem reduzir a produtividade. “Um exemplo é trabalhar com o ar-condicionado quebrado. Em um país como o nosso, o ambiente fica muito ruim. O rendimento da equipe cai bastante, e o profissional termina o expediente muito mais cansado”, alerta.

Bom exemplo

O grupo brasiliense Gravia, da área de produção de insumos para a construção civil, tem boas experiências com a adaptação do local de trabalho para promover o bem-estar dos funcionários. Além de seguir as normas técnicas, os gestores da empresa se preocuparam em oferecer um ambiente agradável. Um exemplo é a formatação dos escritórios, que são uma mistura das amplas repartições dos anos 1990 e dos gabinetes individuais que eram tradição até então. Funciona assim: todos os componentes de uma mesma equipe dividem uma sala, que tem divisórias de vidro e pequenas janelas — que facilitam as informações e trocas de documentos com outros grupos. Além disso, os grupos que têm assuntos afins são agrupados por andar.


“Antes de vir para cá, trabalhei em empresas em que cada um ficava em um cômodo, e isso, às vezes, era um problema. Um exemplo é quando tinha que resolver algum assunto e a outra pessoa estava a portas fechadas, nunca sabia se podia ou não interromper. As salas amplas são melhores, por isso, facilitam a interação com a equipe. Elas também têm problemas, como a conversa, por exemplo, e a falta de privacidade para reuniões e assuntos sigilosos. Mas, aqui, isso foi resolvido com salas separadas que podemos usar nesses casos”, lembra a analista da qualidade, Carla Adriana Barbosa, 42 anos.


Outra medida tomada pela empresa foi buscar certificações de segurança e medicina do trabalho, como o selo OHSAS 18001:2007, certificado internacional concedido a empresas cujas práticas funcionais e processos operacionais atendem requisitos específicos, conquistado em 2012. Para o feito, foi preciso dar treinamentos a todos os trabalhadores, substituir algumas máquinas da fábrica e parte da mobília dos escritórios, e, como resultado, constataram uma melhora geral no desempenho. “Essas normas e certificados compreendem o bem-estar, a saúde e a segurança de todos, desde a hora em que entram na fábrica, passando pelo escritório e impactando até o contato com os clientes e parceiros”, explica Anair Martins Filho, técnico em segurança do trabalho.


Para a analista de recursos humanos, Cláudia Almeida Lopes, 37, existem iniciativas importantes para diminuir os afastamentos por lesões ocupacionais e também os números de acidentes de trabalho e, tudo isso, deve ser parte da cultura da empresa. “Para quem está na fábrica, por exemplo, temos 15 minutos de ginástica laboral todos os dias. São exercícios feitos especificamente para quem pega no pesado. Como a equipe do administrativo é menor, não avaliamos a necessidade de ter esse tipo de trabalho conosco, mas até que não seria má ideia”, brinca. Ela ressalta que, como digita bastante e passa muito tempo sentada, aproveita momentos em que o fluxo de trabalho é menor para fazer pequenas pausas durante o dia.

Na contramão
No extremo oposto em relação ao cuidado com o bem-estar do empregado, está o setor de telemarketing. Um dos exemplos mais recentes é a ação movida pelo Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do Distrito Federal (Sinttel-DF) contra a CTIS, empresa do ramo de varejo digital, ajuizada em janeiro de 2015, cujo desfecho foi publicado em junho deste ano. O motivo do processo foi a demissão sem justa causa de uma operadora de telemarketing que havia adquirido um problema na voz durante o  tempo em que trabalhava na empresa. O juiz do Trabalho, Mauro Santos de Oliveira Góis, concluiu na sentença que, “como houve doença ocupacional, de conformidade com o que restou definido no item anterior, a reclamante possuía direito à estabilidade provisória no emprego” e sentenciou a empresa a pagar um valor aproximado de R$ 600 mil de indenização por danos morais e materiais, além de uma pensão vitalicia mensal, correspondente a 51,1 anos de salário.


Para o diretor do Sinttel-DF, Geraldo Estevão Coan, o caso é apenas uma das amostras das condições precárias na qual atuam os profissionais do ramo. “São pessoas socialmente vulneráveis – a maioria é mulher, jovem, ainda no primeiro emprego e, muitas vezes, arrimo de família. Isso faz com que demorem a buscar ajuda e não consigam buscar oportunidades melhores no mercado de trabalho”, explica. Para ele, a precariedade começa com a terceirização, e o problema pode reduzir em casos que as empresas contratantes são corresponsabilizadas pelas irregularidades cometidas por parte das contratadas.


“Na parte de mobiliário, por exemplo, você tem uma pessoa com altura de 1,8 metro e peso de 90 kg sentada na mesma cadeira que alguém com 1,6 metro que pesa 50 kg. Isso certamente causa problemas ergonômicos. Sem falar nas metas irreais que, além de causarem estresse e outros problemas, chegam ao cúmulo de induzirem o trabalhador a não parar para ir ao banheiro ou comer. As pausas obrigatórias são feitas por grande parte da empresa, mas elas não são suficientes para suprir as necessidades fisiológicas das pessoas. E a falta de intervalos também acaba levando a doenças”, explica Geraldo.

 

Ele afirma que, para dificultar a produção de provas contra as condições irregulares, algumas firmas chegam a recolher celulares e objetos eletrônicos dos colaboradores na entrada e só devolver depois da saída. “As instituições são um reduto de doenças e não se preocupam com isso porque a rotatividade do mercado é muito alta, então sempre há mão de obra. Além disso, os funcionários doentes são jogados nas costas do INSS sem poder provar que a causa do problema é laboral. Muitas vezes, a única evidência que se tem é o testemunho de colegas, acontece que eles acabam coagidos pelo medo do desemprego e desistem de depor”, comenta.

 

Empenho  conforto

 

A pesquisa Engagement and the Global Workplace (Engajamento e os locais de trabalho globais, em tradução livre) encomendada pela multinacional Steelcase, do ramo de mobiliário corporativo, avaliou a relação entre a satisfação dos profissionais com o local de trabalho e o compromisso deles com a empresa em que atuam. O resultado mostrou que, quanto maior a sensação de bem-estar e segurança dentro da companhia, maior o rendimento e o compromisso do empregado. “O espaço está diretamente ligado ao bem-estar de cada pessoa. Quantas vezes por dia você perde a concentração por que se distrai com o barulho dos colegas de sala? Por isso, o mais recomendável é que se tenha espaços mistos, com áreas para reuniões, locais de trabalho individuais e as salas amplas com várias mesas e estações de trabalho. Além disso, a mobília apropriada também é uma grande influência. Nisso, as grandes empresas nacionais perdem para as pequenas”, comenta Flávio Batel, diretor geral das operações da Steelcase no Brasil.


O estudo ouviu 12.480 colaboradores de diferentes empresas em 17 países, e mostrou que o Brasil tem pontos favoráveis e outros desfavoráveis em relação às outras nações. “Uma coisa que é beneficiada pela nossa cultura é o convívio entre as pessoas e a colaboração das equipes. O reflexo disso está na abundância de espaços coletivos”. Entretanto, por aqui, a média de colaboradores que se sentem motivados é 6% menor que em outros países. “Isso se deve à grande burocracia para solucionar as questões ambientais. Um exemplo é a opção de o funcionário trabalhar de casa em alguns dias, prática ainda incipiente por aqui, que poderia resolver as questões de privacidade”, argumenta.

 

Palavra de especialista 

Por uma visão completa

A preocupação das indústrias em ter ambientes saudáveis se deve ao fato de proporcionar melhor qualidade de vida aos trabalhadores e aumentar a produtividade. Tradicionalmente, elas adotam medidas para proteger os trabalhadores de acidentes e doenças por meio da escolha de tipos adequados de mobiliário, piso, iluminação, ventilação. Entretanto, as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil estão relacionadas aos acidentes e às doenças músculo-esqueléticas.


Por isso, além das medidas tradicionais, é importante que as firmas promovam programas que estimulem hábitos saudáveis. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o ambiente de trabalho saudável considera outras dimensões além da física, como a segurança psicossocial, que inclui questões organizacionais e da cultura da empresa como pressão por prazos, excesso de trabalho e problemas de comunicação.

Emmanuel Lacerda, gerente-executivo de qualidade de Vida do Serviço Social da Indústria (Sesi).

 

 

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