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Nova era, novos deslizes

Nascidos em criados em meio ao ambiente digital, os millennials trazem consigo características únicas e algumas delas são bastante prejudiciais no mercado de trabalho

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postado em 11/09/2016 14:05 / atualizado em 13/09/2016 15:36

Gabriela Studart

Natália Aquino, 26 anos, é engenheira eletricista na empresa Smart LY, voltada à energia fotovoltaica, e enfrenta a dificuldade de concentração e rendimento no escritório. “Trabalho com o computador toda hora e, quando percebo, estou em um site nada a ver ou respondendo mensagens de amigos”, admite. Além disso, ela diz sofrer para chegar ao trabalho no horário. “Tenho muita sorte porque meus chefes são muito compreensivos.” Segundo a engenheira, os comportamentos afetam bastante a produção e a angustiam. “Para a autoestima, é ruim porque você se sente incapaz de completar a própria vida e a função”, pondera a jovem que faz acompanhamento psicológico como estratégia para  mudar de comportamento.


 

As atitudes problemáticas relatadas por Natália são comuns entre outros trabalhadores da geração Y ou millennials como são chamados os nascidos entre os anos 1980 e 1990. Em tempos de crise, em que o índice de desemprego nacional atingiu 11,6% em julho deste ano, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é necessário que os jovens se atentem a atitudes inadequadas para evitar entrar para as estatísticas de demissão.


Independentemente da área, os comportamentos profissionais mais mal vistos costumam envolver procrastinar, descumprir prazos e metas, desinteresse, desleixo com a aparência (ao usar peças informais, como shorts, chinelos, regatas e roupas curtas, decotadas e justas), não saber trabalhar em equipe, incapacidade de lidar com pressão, se comunicar de forma negativa e não se organizar. Os erros são mais comuns entre os que estão adentrando o mercado de trabalho, segundo Lucia Costa, diretora geral da Stato, consultoria em gestão de carreira. São pessoas com experiência profissional escassa, menos desenvolvimento pessoal e uma peculiaridade: o fato de terem crescido em era digital.

 

Gabriela Studart

Os millennials agregam, a esse pacote de maus hábitos, especificidades da geração, como dispersão, dificuldade ao lidar com hierarquia e ao separar vida pessoal e profissional. Segundo pesquisa da PwC Brasil e da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Easp/FGV), a faixa etária que domina o mercado de trabalho vai de 18 a 35 anos e é responsável por 61% das vagas. Acostumados ao intenso estímulo de informações, jovens carregam  singularidades da realidade fugaz: têm, à sua disposição, um mundo de conhecimento e informações, estabelecem relações dinâmicas e horizontais.


Os traços dos “filhos da era digital” impactam o mercado de trabalho. “Houve um aumento de atitudes mais dispersas, não apenas pela geração em si, mas por causa da internet, acesso à informação e o fato de os profissionais terem crescido nesse ambiente. Anos atrás, havia outros ritmos, forma de trabalhar e relação com prazo e mudanças. O mundo ficou mais rápido, e essas condutas aumentaram nas empresas”, pondera Lucia Costa. Para Felipe Maluf, sócio-fundador da Y Coach, a dispersão é uma das principais questões comportamentais dos jovens. “Há uma dificuldade de concentração, de terminar atividades muito grandes. Tarefas não só do trabalho, mas do dia a dia. Por exemplo, é raro encontrar jovens que leiam um livro de forma espontânea, que não seja obrigação da faculdade”, relata.


Além disso, é possível perceber que a mudança das dinâmicas da informação e de relações on-line — como estabelecer vínculos relacionais digitais de forma mais fácil que quando estritamente presenciais — influencia o comportamento de profissionais de pouca idade dentro do escritório. Segundo Diego Marra, coordenador de Recursos Humanos da consultoria Spot, respeitar hierarquia também se torna um problema. “Um hábito comum é contestar tudo de forma aberta com colegas de trabalho quando essas questões podem ser levadas adiante em salas reservadas.”


Faltam ainda objetivos definidos no que tange carreira, o que deriva da fartura de alternativas. “Muitos não têm ideia do que buscam ou almejam. Existe uma falta grande de referência para jovens porque eles não se espelham em seus gestores por não se identificarem com o estilo de vida deles. Se não há modelo, isso se reflete nos comportamentos e na habilidade para traçar planos e ideais.” Estabelecer barreiras entre os âmbitos profissional e pessoal é um desafio para membros das novas gerações, segundo Diego Marra. É comum que pessoas criadas em meio a diversas ferramentas tecnológicas não tenham discernimento sobre as diferenças de comportamentos necessárias dentro e fora da firma. “Uma coisa é estar com amigos, outra é replicar a atitude no trabalho. Por mais que os colegas sejam íntimos, deve-se manter atitudes profissionais”, ensina.

O que eu quero é ser feliz
Segundo pesquisa realizada, em 2013, pelo Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos-PUC/RS) sobre o comportamento do jovem brasileiro, feito com pessoas de 18 a 34 anos em todas as regiões do Brasil, trata-se de uma geração interessada em ser feliz no trabalho, conhecer o mundo e formar família. Diferentemente de grupos geracionais anteriores, focados no individualismo, os jovens de agora não estão tão interessados em acumular patrimônio, não têm foco exclusivo no sucesso e buscam dividir opiniões e experiências. É importante que o mercado se adapte a esse profissional que ocupará, em breve, boa parte dos cargos executivos e de diretoria — muitos, inclusive, estão em postos de liderança. Para Lucia Costa, diretora geral da Stato, “cada empresa se adapta a essa realidade de forma diferente, mas é essencial que o profissional tenha consciência das próprias atitudes para não ter comportamentos inadequados e se tornar improdutivo”.

 

Como lidar com os millennials

 

Gabriela Studart

GGilberto Franzoni, 48 anos, diretor da escola de educação profissional Best Minds, localizada em Taguatinga, descreve como é liderar equipes de trabalhadores sempre conectados a smartphones. Para ele, a relação íntima que os jovens mantêm com a tecnologia acarreta no uso dessas ferramentas mais para prazer do que para gerar produtividade, levando o profissional a perder o foco. “E gestores que proíbem o acesso à tecnologia são taxadas como pessoas fora da realidade”, diz. Para ele, no entanto, a questão é cultural, e o que chefe deve fazer é se comunicar frequentemente com os colaboradores para deixar claras as atribuições.


“O feedback deve ser feito individualmente, mas o superior tem que relatar os problemas pontuais de desempenho. Trabalhar bem com a geração Y é questão de combinar com clareza as regras do jogo e monitorar para que elas sejam cumpridas”, percebe Gilberto. Rita Brum, mestre em psicologia, master coach e sócia-diretora da consultoria Rhaiz, enfatiza que é fundamental estabelecer as competências esperadas do profissional para minimizar desvios na conduta do empregado.
“Se ele tem demonstrado falta de interesse, pouca produtividade, não cumpre horário, aí a empresa tem que avaliar o comportamento e capacitar o funcionário. Mas a firma só consegue fazer isso se conhece o perfil do cargo e do funcionário. O que geralmente gera mau comportamento é a pessoa não saber exatamente para que foi contratada”, explica.

 

Qual o limite?
A tolerância das empresas varia de acordo com segmento, gestão, porte e metas. Cada instituição tem regulamento próprio que estabelece os regimentos, a forma de avaliação e acompanhamento dos funcionários, e as medidas a serem tomadas ao lidar com condutas inadequadas, como advertências e demissão. As formas de avaliação variam desde análise de satisfação do cliente a relatórios de colegas e superiores para avaliação de desempenho. “Em média, a tolerância da empresa vai até o ponto em que esse hábito ou essa forma de se conectar ao mundo não comece a prejudicar a produtividade”, revela Lucia Costa, consultora da Stato. Caso seja promovido um acompanhamento do desenvolvimento do profissional e não haja indicação de melhoras, a demissão pode ser a conclusão daquele processo.


Arquivo Pessoal

Em caso de dispensa devido a erros de conduta, é primordial que o profissional se esforce para alterar seu modus operandi. “Muitas pessoas veem uma experiência negativa como aprendizado. Outras não, se rebelam e têm atitudes negativas. Ver o que aconteceu no passado e ver o que pode tirar de positivo daquilo é fundamental”, avisa a coach Rita Brum. Na hora de buscar recolocação no mercado, referências e indicações são relevantes e podem prejudicar o candidato caso ele tenha histórico de má conduta. Assim, é importante articular bem o que falar, mas sem mentir para os recrutadores. “A pessoa tem que administrar o que fala e preparar os entrevistados, contando o porquê de ter saído.”


Mesmo que não chegue ao extremo da demissão, um funcionário com comportamentos inadequados sempre chama a atenção de forma negativa. É necessário ficar atento para isso e cuidar da própria reputação. Para Felipe Maluf, é importante que os jovens entendam que existem regras e modo de operar estabelecidos. “Se a pessoa quer desafiar o mercado, imprimir uma nova dinâmica e não estar disponível para flexibilizar, com vontades muito próprias, pode levar muita porrada na carreira”, adverte.

 

Vantagens
A geração Y não é só problema. Por serem multitarefa, capazes de se interessar por uma pluralidade de tópicos ao mesmo tempo, os integrantes dessa faixa etária se tornam profissionais bastante engajados. “A informação está trazendo muita consciência para o jovem. Ele tem noção de que, se ele não mudar o mundo agora e não interferir, teremos um planeta não tão bom quanto o nosso e o dos nossos pais. Isso traz um sentimento de pertencimento e necessidade de ação muito grande”, afirma Felipe Maluf, da Y Coach.


Além disso, para aqueles que utilizam a abundância de conhecimento disponível pela internet para estudar, o resultado é muito positivo. “Há profissionais que se especializam, mas o nível de conhecimento que ele adquire fora da própria área de atuação de forma espontânea e gratuita é altíssimo. São pessoas muito completas profissionalmente, que conseguem conectar pontos, porque sabem aproveitar as informações disponíveis.”

 

Mudança em curso

 

Daniela Derani

Uma boa notícia para a geração Y é que sempre há tempo de mudar de comportamento. Foi esse o caminho buscado por Débora Santana, 32 anos, formada em gestão de recursos humanos. Em 2015, ela foi promotora do projeto de marketing nas campanhas de Dia das Mães e dos Namorados de um shopping de Brasília, e no ano seguinte, ganhou o cargo de promotora líder, no qual geria a equipe de atendimento. A transição foi complicada devido às novas responsabilidades, e Débora precisou alterar a própria conduta. Ela aprendeu a controlar a ansiedade, a afobação (ou preciptação) e o tom da voz para lidar melhor com outros funcionários. Para tanto, foi acompanhada de perto por uma equipe de recursos humanos que orientou o desenvolvimento profissional da gestora. “Sempre que eu conversava com meu chefe, ele estava pronto para ajudar, indicava os pontos negativos e positivos, e eu pedia orientações de como agir, porque eu via que tinham coisas que não estavam ao meu alcance”, destaca.

 

A psicóloga e coach Rita Brum realça o autoconhecimento como etapa crucial para o desenvolvimento dos jovens. “Quando o funcionário é contratado, é importante que ele identifique se os valores da empresa estão de acordo com os dele. Se não estiverem, isso vai gerar uma insatisfação por parte dele e da companhia e desencadear comportamento inadequados.” Além da identificação, é importante admitir desvios de conduta. A partir daí, existem diversas opções para aqueles que visam uma mudança de hábitos. No entanto, segundo Felipe Maluf, da Y Coach, o processo é profundo e penoso. “São hábitos de uma vida”, adverte. Segundo Lucia Costa, diretora da Stato, formas de lidar com os problemas de conduta são: buscar aconselhamentos de especialistas, como terapia, mentoring e coaching e cursos e técnicas destinados ao desenvolvimento profissional. Para Felipe Maluf, outra dica é se aproximar e se espelhar em profissionais modelo, na vida real ou até em páginas de redes sociais.

 

Cursos

Existem muitos métodos para combater comportamentos prejudiciais para carreira. Confira cursos on-line que podem ajudar:

Coursera
Mais eficiência, menos trabalho: gestão do tempo e a melhora da produtividade pessoal e profissional
Disponível em www.coursera.org/learn/work-smarter-not-harder
Duração: de quatro horas a oito horas de vídeos, leituras e questionários
Valor: gratuito

Learn Cafe
Técnicas de aprendizagem acelerada
Disponível em www.learncafe.com/cursos-gratis/auto-ajuda/desenvolvimento-pessoal
Duração: 10 horas
Valor: gratuito

Prime Cursos
Treinamento e desenvolvimento
Disponível em www.primecursos.com.br/treinamento-e-desenvolvimento
Duração: 40 horas
Valor: gratuito

Instituto Monitor
Curso de motivação pessoal
Disponível em www.institutomonitor.com.br/curso-motivacao-pessoal.aspx
Duração: 10 horas
Valor: R$ 144

Escola Afpesp
Aprenda a administrar o seu tempo
Disponível em www.escola.afpesp.org.br/site/curso-online-detalhe.aspx?idCurso=144
Duração: duas horas
Valor: R$ 34,90

 

Livros

 

Por que fazemos o que fazemos?
O filósofo e escritor Mario Sergio Cortella desvenda as principais preocupações com relação ao trabalho. Aborda a importância de ter uma vida com propósito, motivação em tempos difíceis, os valores e a lealdade — a si e ao emprego. Recheado de ensinamentos como “Paciência na turbulência, sabedoria na travessia”, é uma obra destinada a quem sonha com realização profissional sem abrir mão da vida pessoal.
Autor: Mario Sergio Cortella
Editora: Planeta do Brasil
176 páginas
R$ 20,80

 

 

Vida e Carreira — um equilíbrio possível?
Cortella e Mandelli defendem que conciliar vida pessoal e carreira não se trata de nenhuma espécie de delírio, mas lembram ao leitor de que nem mesmo é possível separar a vida pessoal da profissional. Diversos temas são perpassados na obra como a construção da carreira, as conexões entre estabilidade e segurança, valores e felicidade, e a contribuição da tecnologia.
Autores: Mario Sergio Cortella e Pedro Mandelli
Editora: Papirus 7 Mares
112 páginas
R$ 28,20

 

 

 

Foco & Atenção

A obra traz 100 perguntas para estimular o cérebro na tarefa de se concentrar. Segundo a obra, o mundo em que vivemos nos distrai o tempo inteiro: “você começa uma tarefa e para porque recebeu um e-mail. Recomeça o que tinha parado e dá outra parada para ver o Whatsapp. Quando chega o final do dia, é comum aquela sensação de não ter produzido nada, com um cansaço de quem trabalhou dobrado”.
Autora: Flávia Lippi
Editora: Matrix
100 páginas
R$ 32

 

Código Y: decifrando a geração que está mudando o país
A chamada Geração Y (nascidos entre 1980 e 1995) começa a assumir cargos de maior responsabilidade e decisão. No Brasil, diferem muito das gerações anteriores. Entender essa geração é entender o futuro e o modo como as instituições precisam mudar. A obra aborda como esses jovens se comportam e decifra a geração que está mudando o Brasil.
Autores: Marcos Calliari e Alfredo Motta
Editora: Évora
192 páginas
R$ 64,90

 

 

 

Carreira: o começo certo em um futuro incerto
Será possível registrar um conceito de carreira em um único livro? Com estrutura de pensamento coerente e simples, o autor demonstra que é possível refletir sobre carreira a partir de um posicionamento pessoal que exige protagonismo. Com exemplo e conselhos, a leitura conduz a reflexões muitas vezes óbvias, mas que acabamos esquecendo por pura falta de foco.
Autor: Felipe Maluf
Editora: Integrare
168 páginas
R$ 37,90

 

 

 

 

 

 

 

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