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REALIZAÇÃO DO SONHO

Mineira que custeou faculdade de direito vendendo churros se forma

Maria Odete é famosa na Rodoviária do Plano Piloto, onde comercializa o doce todos os dias. A próxima etapa é a aprovação no exame da OAB, e ela sonha se tornar promotora de Justiça. A bacharel quer ser inspiração para todos que desejam seguir seus sonhos

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postado em 14/09/2016 17:41 / atualizado em 14/09/2016 18:50

Gabriela Studart/ Especial para o CB/ D.A. Press

 

Quem passa pela plataforma inferior da Rodoviária do Plano Piloto diariamente deve ter avistado o carrinho com o letreiro Churros da Odete. A venda da sobremesa frita e crocante, além de servir de ganha-pão, possibilitou que Maria Odete da Silva, 47 anos, bancasse escola particular para os filhos, de 16 e 17 anos, e pagasse o próprio curso superior em direito. A colação de grau da mineira de Araçuaí foi na última terça-feira (13) na Faculdade Processus, na 708/907 Sul. “O evento foi maravilhoso. Todos estavam muito animados e eu também. Ontem senti que finalmente consegui o que queria graças ao meu esforço e dedicação. Eu digo sempre às pessoas: o grande vencedor não é aquele que ganha e sim aquele que nunca desiste dos seus sonhos”, diz. Ela não participou da festa de formatura por problemas financeiros, mas isso não tirou o brilho da comemoração.


Durante os cinco anos de curso, ela conciliava livros, apostilas e aulas com o preparo e a comercialização dos quitutes, e os trabalhos domésticos em casa. “Devo a realização do meu sonho a cada uma das pessoas que compraram meus churros. Elas nem sabiam, mas aquele R$ 1 era muito importante para mim. Agradeço a todos que contribuíram para a minha vitória”, declarou após pegar o diploma. Antes de entrar no nível superior, Odete concluiu o ensino médio por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Serviço Social do Comércio (Sesc). O ensino fundamental foi feito na juventude e, aos 39 anos, a mulher voltou às salas de aula, logo após se mudar para Brasília.

Odete conta que teve dificuldades para acompanhar as aulas por causa das vendas, mas a ajuda do irmão Ronaldo, 43, foi essencial. “Muitas vezes eu tinha que sair da aula e vir trabalhar, porque esse é o meu sustento e chegava a perder conteúdo por isso. Eu chegava aqui 7h15 da manhã, fritava uma cesta bem grande de churros e ía para a aula. Os vendedores da loja do meu irmão vendiam os churros para mim”.

Tornar-se bacharel é só a primeira etapa dos sonhos de Odete, que se prepara para prestar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A grande meta, agora, é conquistar um posto de promotora de Justiça, por gostar de "estudar, implementar e fiscalizar leis". A vinda para Brasília foi motivada pelos cuidados com a saúde do filho. Marcos Júnior, 16, sofria com problemas respiratórios onde a família morava, em São Paulo - capital. Então a mãe resolveu se mudar para a capital federal, onde um irmão dela tem uma loja de calçados, a R&D, também localizada na Rodoviária do Plano Piloto. No começo, em 2008, Odete trabalhou no estabelecimento do parente, até passar a vender churros e fazer o investimento em educação que mudaria sua vida. Ela escolheu estudar direito por se tratar de uma profissão com um mercado amplo e sem exigências de faixa etária.

Na graduação, o incentivo da comunidade acadêmica foi essencial. “A faculdade me acolheu muito, agradeço aos professores que me ajudaram e me motivaram a nunca desistir. Eles sabiam da minha luta”, explica Odete. A bacharel também criou um vínculo com colegas de turma. “Uma vez, a chuva molhou todo o meu material escolar, e a turma me emprestou de tudo", relata. O auxílio da família também foi essencial. "Tenho uma funcionária no carrinho de churros, mas meu marido e meus filhos me ajudam muito”, conta.

 

Gabriela Studart/ Especial para o CB/ D.A. Press


Inspiração

A história de Maria Odete serve de inspiração para adultos que desejam concluir os estudos e têm dificuldades para conciliar o sonho com as obrigações diárias e tem gerado efeitos: Odete conheceu mais de uma pessoa que se sentiu encorajada a estudar por causa dela. “Foi muito gratificante falar com gente que se espelhou em mim. Uma senhora passou aqui (no carrinho de churros) com a matrícula no EJA feita e me contou que se matriculou depois de ver a matéria no Correio Braziliense no fim do ano passado sobre a minha história”, conta.

“A minha mensagem para quem parou de estudar é: se eu posso, você também”, afirma ela, que também é um exemplo dentro de casa. “Eu falo para os meus filhos: a única coisa que a mãe pode dar para vocês é o estudo. É a herança que eu vou deixar, então se dediquem e estudem para realizar seus sonhos”, explica.

Ela é um orgulho para os filhos, que participaram da colação na noite de terça-feira para ver o sucesso da mãe. “Eles estão muito felizes assim como eu, porque acompanharam tudo que eu passei e acreditaram em mim”, conta Odete.

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