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PARA SUPERAR O DESEMPREGO »

Tempos bicudos

Trabalhos de fim de ano são a chance de recolocação profissional esperada por muita gente. Contudo, as previsões para 2016 apresentam redução em comparação com 2015. Por isso, é preciso ainda mais dedicação e empenho para conseguir entrar e se fixar no mercado

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postado em 25/09/2016 16:09 / atualizado em 27/09/2016 18:04

Gabriela Studart/Esp C.B./D.A Press

Luiz Eduardo Lessa, 27 anos, é auxiliar de vendas da Livraria Cultura do Iguatemi Brasília e, após um período afastado para cuidar da família, retornou ao mercado de trabalho como colaborador temporário em novembro do ano passado. Durante os primeiros meses de contrato, ele se destacou em uma competição de vendas. O bom resultado foi um diferencial para que Luiz Eduardo fosse efetivado antes mesmo de terminar o período como provisório. Ele avalia a oportunidade como essencial para quem quer entrar ou retornar ao mercado de trabalho. “É o momento de mostrar quem você é como profissional. Se estiver motivado, com vontade de aprender e tiver proatividade, com certeza, você vai se destacar”, afirma.


Os cargos temporários são regidos pela Lei nº 6.019/1974 (saiba mais em Conheça os seus direitos). Segundo dados da Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem), funcionários sazonais são contratados para atender a duas demandas — a primeira é a de substituição de pessoal permanente, como por exemplo cobrir licença -maternidade, afastamento por doença ou outros problemas; a segunda existe por causa do acréscimo extraordinário de tarefas em períodos como Natal, Páscoa e Dia das Mães. Entretanto, a tendência é que histórias como a de Luiz Eduardo sejam mais raras por enquanto. O mercado sofre uma retração, que leva os índices de vagas temporárias a uma redução progressiva. “A gente vê o quanto os investidores estão receosos. Hoje, os empresários estão mais preocupados em não fechar do que em expandir”, conta Thiago Jarjour, secretário-adjunto de Trabalho do Distrito Federal.


Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 135 mil temporários serão contratados até o Natal deste ano em todo o país. Se as previsões forem confirmadas, o número será 2,4% menor que em 2015. Os números da Confederação Internacional das Agências Privadas de Emprego (Ciett) — que calcula que existam 40,2 milhões de trabalhadores temporários pelo mundo — são maiores, mas também indicam retração: no Brasil, foram contratados 1,1 milhão de funcionários sazonais no ano passado; em 2014, a quantia era de 1,4 milhão, o que representa uma queda de 20%.

 

Gabriela Studart/Esp C.B./D.A Press
 

O cenário brasiliense acompanha o ritmo nacional. “Na capital federal, chegamos a ter de 8 mil a 10 mil contratações por temporada a cada ano. Desde o Natal de 2014, com a redução das atividades econômicas, a tendência é de queda. Em 2015, tivemos de 4 mil a 5 mil vagas preenchidas e, agora, esperamos a contratação de 2,5 mil ou 3 mil pessoas”, explica Adelmir Santana, presidente da Federação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio-DF). Para ele “a expectativa de contratações temporárias, por agora, é praticamente nula”. Para Fábio Bentes, economista sênior da CNC, quatro fatores explicam a retenção dos últimos anos: crise no mercado de trabalho, elevadas taxas de juros, inflação em alta e baixa confiança do consumidor na economia.


Apesar do cenário pessimista, nem todas as previsões são negativas. “Basicamente tudo vem atrapalhando o comércio, entretanto, a queda de 2014 para 2015 foi mais expressiva que do ano passado para cá, por isso, estamos um pouco mais otimistas. Em 2017, possivelmente, teremos um crescimento nas vendas”, afirma. Além das perspectivas de crescimento para o ano que vem, a taxa de desocupação na capital federal se manteve relativamente estável nos últimos meses e apresentou redução entre junho e julho, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED-DF). De acordo com o secretário adjunto de Trabalho, Thiago Jarjour, “houve uma regressão na quantidade de pessoas fora do mercado de trabalho no Distrito Federal nos últimos meses. Estamos esperando que esse cenário se perpetue a partir de agora, especialmente com as oportunidades do fim do ano”.

 

Oportunidade
A conjuntura ruim não desmotivou Cinthia de Almeida, 24 anos, que conseguiu o primeiro emprego depois de atuar como temporária numa franquia de produtos de beleza no Jardim Botânico Shopping, em 2009. Em todas as datas comemorativas do ano, a vendedora era chamada para atender ao aumento da demanda. Quando surgiu uma vaga efetiva na loja, a gerente não exitou em convocá-la. Depois de uma mudança na gerência da loja, Cinthia resolveu sair do estabelecimento e voltou a ficar de olho nas vagas temporárias, na esperança de voltar ao mercado. “Mesmo que você fique por pouco tempo, é uma experiência válida e uma coisa nova para acrescentar ao currículo”, afirma.


As oportunidades temporárias também são vantajosas para os varejistas, pois aliviam a carga de atividades em momentos de pico. A gerente da loja de bijuterias Morana do Boulevard Shopping, Clarisse Sena, 32, relata que os períodos de maior contratação são o Dia das Mães e o Natal, quando há um aumento expressivo nas vendas. Neste ano, a rede selecionará 20 funcionárias — 10 vendedoras e 10 empacotadoras — para as 10 filiais em Brasília. Clarisse conta que procura pessoas “éticas, proativas, ágeis e que tenham bom relacionamento interpessoal” para integrar a equipe. Esses atributos costumam ser cobrados na maioria dos anúncios do varejo. Sobre a possibilidade de efetivação num cargo permanente, ela garante que depende da conduta do empregado e da existência de vagas. “Se o temporário se destacar, mostrar que tem potencial e vontade de aprender, assim que surgir uma oportunidade ele terá boas chances”, assegura.

 

Chance de se efetivar


A taxa de absorção — que corresponde ao número de funcionários temporários que serão contratados —, costuma ser entre 20% e 30%, como relata a diretora regional da Asserttem do Distrito Federal, Mara Bonaser. “Essa oportunidade é essencial por ser a porta para o mercado. Se o funcionário fizer um bom trabalho, ele é automaticamente registrado e vira um contato futuro para a loja.” Na opinião do economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) Fábio Bentes, esse índice também pode sofrer um corte neste ano. “A absorção depende de um cenário positivo. Eu acredito que, em 2016, a taxa deve ser menor que a média histórica porque precisamos de uma confiança nas condições de consumo muito mais favoráveis que as atuais”, avalia.


Dalila Sales, 30, passou por duas contratações efetivas após o período temporário. A primeira, para cobrir uma demanda de fim de ano na livraria Saraiva no Brasília Shopping, em 2009, e a segunda para o local em que trabalha até hoje: a loja de vestuário Maria Moça, no Jardim Botânico — quando entrou para cobrir o período de férias de uma antiga funcionária. “Eu fazia o meu trabalho direito, chegava no horário combinado e não me importava em ajudar em outras áreas, acho que isso conta muito. Se você fizer sua parte, com certeza, eles te contratam, sempre estão precisando de funcionários”, afirma. Além das lojas, outras áreas exigem um contingente maior de funcionários. O Iguatemi Brasília, por exemplo, aumentará em 20% a equipe de limpeza. Além disso, a procura pelos cargos sazonais, como Papai e Mamãe Noel, aquecem o fim do ano. “Faz parte do calendário anual do shopping realizar eventos natalinos especiais”, relata o gerente-geral, Marco Garzin.

Hora de procurar
O comércio costuma procurar novos funcionários a partir de setembro, especialmente nas lojas que atendem à demanda do Dia das Crianças. Para os cargos direcionados ao Natal, o processo tem início em outubro. Adelmir Santana, da Fecomércio-DF, acredita que os lojistas prorrogarão as contratações ao máximo. “O varejo adiará até onde puder para não ter de arcar com custos por muito tempo. Acredito que a maioria dos novos contratos terá início por volta da segunda quinzena de novembro.” As ocupações não costumam exigir um nível de experiência elevado, segundo Fábio Bentes, da CNC. “Eles são uma grande oportunidade para os trabalhadores jovens, faixa etária que apresenta índice de desemprego de 20%, quase o dobro da taxa do país”, afirma. Mara Bonaser, da Asserttem, concorda. “É uma porta de entrada, eles conseguem experiência para colocar no currículo.”

 

Conheça os seus direitos

A lei nº 6.019/74 é a regulamentação específica acerca do trabalho temporário. Esses funcionários têm direito à remuneração equivalente aos empregados da mesma categoria na empresa — calculada de acordo com a carga horária e em consonância com o valor do salário-mínimo regional. A jornada de trabalho deve ser de oito horas, com remuneração devida para as horas extraordinárias — não excedentes de duas, com acréscimo de 20% —, além de férias proporcionais, repouso semanal remunerado e adicional por trabalho noturno. O trabalhador também tem direito à indenização — correspondente a 1/12 do pagamento recebido — no caso de dispensa sem justa causa antes do término normal do contrato, seguro acidente de trabalho e proteção previdenciária.

 

 

 

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