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Financiamento coletivo para negócios

A repercussão negativa da idealizada hamburgueria Zebeléo levanta a dúvida: é certo angariar recursos na internet para abrir uma empresa? Segundo especialistas, sim! No entanto, para funcionar, é preciso caprichar nas bonificações para contribuintes, ter uma boa ideia e investir na divulgação

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postado em 02/10/2016 13:14 / atualizado em 06/10/2016 20:19

A empreendedora Bel Pesce, 28 anos, está na boca do povo. Tudo começou com o projeto Zebeléo, hamburgueria gourmet idealizada por ela em parceria com Leonardo Young, 31, vencedor do Master Chef, programa exibido na Band; e com o blogueiro Zé Soares, 27, do site Do pão ao caviar. O plano foi considerado controverso por apelar para o crowdfunding (financiamento coletivo), tendo em vista que os empreendedores têm boas condições financeiras. Leonardo, por exemplo, tinha acabado de ganhar R$ 150 mil no reality show.


No site, apoiadores poderiam doar valores entre R$ 60 (que dava direito a um kit com adesivo e chaveiro e a chance de participar da inauguração da lanchonete) e R$ 10 mil (que oferecia como bônus uma viagem para Lima). A repercussão foi tão negativa que a campanha foi tirada do ar no dia seguinte, em 26 de agosto. A meta era arrecadar R$ 200 mil. Para a “menina do Vale”, ainda gerou especulações sobre a carreira dela.


Inicialmente, as plataformas de financiamento coletivo faziam uma curadoria do projeto. No entanto, essa etapa está deixando de ser adotada, assim, o único juiz é o público, e cabe aos empreendedores avaliar se vale a pena usar campanhas desse tipo. “Mesmo que o negócio seja lançado de fato, não será bem recebido depois dessa confusão”, avalia Vivian Rio Stella, pós-doutora em empreendedorismo.


A dúvida que fica é sobre a validade de usar o crowdfunding para empreender. Segundo Washington Barbosa, especialista em marketing e em direitos público e do trabalho e coordenador do Departamento de Cursos Jurídicos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-DF), isso não é condenável. “Longe de ser beneficente, cultural ou social, crowdfunding é um negócio.”


Segundo Candice Pascoal, presidente e fundadora da Kickante — plataforma pela qual o Zebeléo planejava se monetizar —, “o único limite é estar dentro da lei e de princípios éticos”. Diego Reeberg, sócio-fundador do Catarse, outro site brasileiro de financiamento coletivo, afirma que qualquer campanha legal é legítima, e cabe ao público decidir se o projeto merece dinheiro. “No Brasil, o crowdfunding tem sido mais usado para projetos culturais e sociais, mas existe espaço para empreendedores”, garante. É importante, porém, estabelecer limites. “O que não dá certo é querer usar o meio para tirar vantagem de alguém. Tem que ser algo para atrair pessoas que acreditam que aquilo seja importante”, completa.


“Faz sentido se os apoiadores forem recompensados; e isso pode ocorrer de duas maneiras: ou o envolvimento social é muito forte, ou a contrapartida é generosa.” No caso do Zebeléo, os prêmios oferecidos aos doadores poderiam ter sido melhor elaborados. Segundo ele, a maior parte das campanhas que extrapolam a meta estabelecida oferecem algum produto em troca. “É assim que o empreendedorismo funciona na rede e pode ser responsável por grandes captações”, afirma. De acordo com Candice Pascoal, 35% do total de campanhas da Kickante são de cunho social. “Existe uma preferência por apoiar causas até sem contrapartida em troca mas, quando se trata de projetos artísticos e inovações, os apoiadores querem receber recompensas relevantes: é como uma pré-venda”, analisa.


Outro grande erro no caso Zebeléo, para Candice Pascoal, foi o fato de os idealizadores não terem noção da audiência que teriam. Segundo Vivian Rio Stella, as chances de uma repercussão negativa são maiores quando os envolvidos têm grande inserção na mídia. “Minha opinião é que a Bel tomou um risco desnecessário”, explica a coach. Contactada, Bel Pesce preferiu não se manifestar.

 

Reprodução/Kickante
 

 

Dicas para ter sucesso
» Ter um projeto que seja
relevante para o público
» Expor a ideia de forma clara e evidenciar a importância dela
» Divulgar a proposta entre suas redes de contatos
» Estabelecer uma meta financeira realista
Fontes: Candice Pascoal e Diego Reeberg

 

Experiências com o modelo

 

Gabriela Studart
 

 

Eu consegui
Rubão Lima, 53 anos, historiador por formação, atua há 20 anos como músico, havia gravado dois CDs de forma artesanal quando decidiu, em 2014, realizar um projeto profissional. Lançou, então, uma campanha no Catarse para produzir o disco de reggae cristão A caminho do mar. Ele fez vídeos e fotos detalhando o projeto artístico e orçamento, e as contrapartidas oferecidas envolviam download antecipado do CD, direito a ganhar o álbum físico, camiseta, boina, ingressos para show de lançamento e até uma apresentação exclusiva para o apoiador, a depender do valor da contribuição. Rubão não só alcançou a meta de R$ 24 mil, como a superou e juntou R$ 27.897. O músico confere o êxito do projeto ao planejamento e, principalmente, à rede de conhecidos. “Você tem que analisar bem os gastos, pesquisar e programar como será a divulgação. Fizemos tudo o que podíamos fazer para ‘bombar’ a campanha nas redes sociais, e os amigos abraçaram a ideia”, relata.

 

Thaís Batalha
 

 

Não consegui
A advogada Carolina Valente, 30 anos, decidiu abrir o próprio negócio e tentou conseguir financiamento por meio da plataforma Kickante. A ideia era inaugurar um trailer que levaria serviços de manicure e pedicure até o lugar de preferência das clientes. O projeto Nail Truck, contudo, não obteve o ansiado subsídio. A meta — bastante ambiciosa — era angariar R$ 62 mil, mas ela ganhou apenas R$ 130, da madrinha e de uma amiga. A advogada atribuiu o fracasso ao fato de não ter se empenhado o suficiente na divulgação e à falta de apoio de pessoas próximas. “Eu larguei advocacia para fazer unha, e minha família não aprovou. Se nem os familiares acreditam na proposta, fica difícil”, relata. Para tornar o sonho possível, Carolina vendeu o carro e mandou confeccionar o trailer. O negócio funcionou bem durante um tempo: ela atendia, principalmente, servidores na Esplanada dos Ministérios. No entanto, a Agência de Fiscalização (Agefis) não liberou alvará de funcionamento, e ela teve que mudar de rumo. Atualmente, trabalha apenas em eventos, nos quais leva o salão de beleza móvel às pessoas. 

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