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Correio Braziliense

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>> Entrevista Vince Molinaro

O contrato da liderança

Autor de best-seller do New York Times apresenta o caminho para uma boa gestão

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postado em 16/10/2016 08:00

Lilian Comunica / Divulgação
O norte-americano Vince Molinaro é autor do best-seller The leadership contract, que entrou para a lista dos mais vendidos do jornal New York Times e traz dicas de gestão para chefes iniciantes e experientes. Em 12 de setembro, Molinaro esteve em São Paulo para lançar a versão brasileira da publicação: A liderança é um contrato. Formado em psicologia pela McMaster University, com mestrado em educação pela Universidade de Brock e Ph.D. na mesma área pela Universidade de Toronto, ele construiu carreira na Lee Hecht Harrison, empresa de desenvolvimento de carreiras e lideranças, na qual trabalha há mais de 25 anos. O psicólogo usou a experiência adquirida com administração, fusão e aquisições de negócios para escrever o livro.

De acordo com seu livro, são quatro as etapas para se tornar um líder: a decisão, a obrigação, o esforço e a comunidade. Você pode explicar essas fases?
Liderança é uma decisão e, se você sente que não pode atender às expectativas, deve dizer não a convites para cargos com esse tipo de posição. Muitas pessoas se tornam líderes porque sobressaem em alguma tarefa técnica — foram fortes engenheiros, vendedores, contadores —, mas a decisão que devemos fazer como líderes é a de nos definir pelos cargos de chefia. Além disso, liderança é uma obrigação porque traz responsabilidades. Estar em uma posição dessas também envolve trabalho duro. Muitos querem apenas as boas partes da liderança, mas o papel demanda, por vezes, tomar decisões impopulares, dar avaliações diretas a um colega, reprimir comportamentos improdutivos... Liderar pode ser um cargo fácil se você quiser ser medíocre. Muitos chefes ficam isolados, trabalhando em linhas cruzadas com seus semelhantes. Não adianta chefiar individualmente, é preciso ser um líder forte de forma coletiva.

Quais desses aspectos são mais difíceis de achar?
Por meio da experiência de meus clientes e nossas pesquisas, acredito que as organizações têm falta de todas as características. Nossa pesquisa revela que, no Brasil, 95% das companhias acreditam que a responsabilidade da liderança é uma questão crucial para os negócios. No entanto, apenas 32% estão satisfeitos com o nível de compromisso da liderança nas empresas. Nós escutamos que líderes não tomam a decisão, não enfrentam obrigações, evitam responsabilidades porque querem ser amados pelos subordinados e poucos lideram com a comunidade.

Qual a pior característica que um gestor pode ter?
Irresponsabilidade. Dados da pesquisa que utilizo em meu livro demonstram que 65% dos administradores americanos são desengajados e não se importam com o sucesso da empresa. Além disso, 65% dos trabalhadores prefeririam um bom chefe a um aumento no salário. Algumas pesquisas revelam que apenas 7% dos funcionários confiam nos chefes seniores. Não se pode ter sucesso assim.

Liderança pode ser desenvolvida ou é um dom natural?
Se acreditarmos que é um dom natural, nos limitamos. É melhor pensá-la como uma característica humana que todos temos. Obviamente, algumas pessoas são melhores que outras — entra aí o talento. Mas, como na maior parte das coisas na vida, se você está comprometido, pode se desenvolver. O problema é que algumas pessoas não têm a motivação ou a convicção de se tornarem melhores.

É possível conciliar o ponto de vista dos jovens com o contrato da liderança?
Liderança é algo crítico com a geração Y, os chamados Millenials. Membros dessa faixa etária chegam às empresas esperando trabalhar para um grande líder e, quando não conseguem isso, saem. Os trabalhadores da geração X, os Baby boomers, nunca tiveram essas expectativas: eles apenas suportavam lideranças ruins e ineficientes — por mais que quisessem ser liderados por grandes chefes, não saiam do trabalho por isso e permaneciam infelizes. Para mim, a geração Y tem uma visão mais integrada de vida pessoal e liderança, e isso é o que a difere. O contrato da liderança ainda se aplica porque, conforme eles assumem papéis de liderança, precisam se comprometer para inspirar confiança.

 

É fácil achar pessoas boas para liderar nas organizações?
Acho que é fácil achar pessoas que estejam interessadas, mas poucas que realmente entendam o que a posição requer e que estejam comprometidos para tanto. Primeiro, precisamos entender que nós construímos altas expectativas para qualquer um em um cargo de liderança, esteja ele liderando uma empresa, seja um líder político ou em outras áreas sociais. Nós esperamos mais de nossos líderes. Em segundo lugar, nós também precisamos apreciar que, quando nos propomos a um cargo de chefia, nos prontificamos a realizar algo muito importante, um contrato implícito. Muitos chefes não têm essa percepção clara. Para mim, a missão é entender as expectativas, se comprometer a ser um líder responsável e ter a convicção de que você deve deixar a empresa mais forte do que quando a encontrou.

Como você se interessou pela área de desenvolvimento de pessoas?
Uma experiência essencial aconteceu no começo da minha carreira, quando uma colega faleceu de câncer, uma doença que ela acreditava ter desenvolvido ao trabalhar em uma cultura de administração tóxica. Ela era uma ótima líder que teve grande influência em mim. Daquele momento em diante, percebi como liderança é importante não só para as organizações, mas também para os empregados. Além disso, identifiquei que havia poucos grandes líderes. Eu me comprometi a auxiliar o maior número de gestores que pudesse a serem tão competentes quanto possível porque precisamos de bons profissionais de liderança para tornar nossas companhias e países bem-sucedidos. A ideia do contrato surgiu à medida que via clientes investindo muito dinheiro para desenvolver líderes, mas não obtendo resultados positivos. Eu estava tentando solucionar um problema. Por que tão poucas pessoas em cargos de chefia realmente tomam as rédeas da situação? Essa pergunta alavancou minha investigação e guiou meu trabalho por muitos anos.

A sinopse brasileira de seu livro diz que um de suas primeiras reflexões foi se valia a pena morrer pela liderança. Qual o veredito?

Eu pensei muito sobre isso e eis o que aprendi: liderança é um papel importante para se desempenhar em uma organização ou na sociedade, mas não é fácil ser constantemente excelente nisso. O que também aprendi é que, às vezes, você precisa estar na situação propícia que te habilita a ser o melhor que você pode ser. Eu encarei isso cedo na minha carreira quando minha colega e mentora morreu de câncer. Percebi que eu devia deixar a organização porque subordinado à má liderança, eu nunca prosperaria como empregado ou líder. Se tivesse ficado, eu poderia não ter morrido literalmente, mas teria me tornado desengajado, teria apenas aparecido no trabalho pelo salário. Eu teria morrido em espírito e me tornado um zumbi. Para mim, a liderança não é para isso. É importante que líderes tenham certeza de que eles estão no ambiente certo para que possam liderar com destreza e não morrer em um ambiente tóxico ou desmotivador. 


Primavera Editorial / Divulgação
Leia
A liderança é um contrato
Editora: Primavera Editorial
Autor: Vince Molinaro
232 páginas
R$ 34,90

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