SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Sem medo da crise

O número de empreendedores no país aumentou 7 milhões entre 2014 e 2015, e a perspectiva é que continue crescendo em 2016. A receita para o sucesso inclui diminuir gastos, conquistar o cliente e identificar nichos e oportunidades de mercado

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/10/2016 11:42 / atualizado em 17/10/2016 12:02

Inflação, taxa de juros e de inadimplência, desemprego e número de empresas fechando crescentes são traços característicos da crise econômica. O cenário, de fato, assusta; mas, segundo especialistas, empreender em tempos de recessão não é uma loucura — desde que sejam tomados os passos necessários para abrir o negócio com assertividade e cautela. Estudar o comportamento do mercado e encontrar um nicho promissor fazem parte da trajetória. Some a isso coragem, resiliência e atenção às variáveis da firma para encontrar a receita da prosperidade. David Pinto, fundador da escola de empreendedorismo Longitude, lembra que empresas também fecham nos momentos em que a economia vai bem. “Passar por dificuldades é comum, especialmente nos primeiros meses”, diz.


“Com planejamento, a crise pode ser uma oportunidade de sobressair. Também é importante que o dono entenda de finanças, RH, direitos trabalhistas, marketing e estude tendências. Sai na frente quem se prepara melhor”, diz. De acordo com o diretor superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Distrito Fedral (Sebrae-DF), Valdir Oliveira, duas fases precedem o sucesso no mundo dos negócios. “Inicialmente, é preciso identificar uma vocação. Se não gosta de animais, não monte um petshop — por mais que esse ramo apresente oportunidades. Depois, é necessário entender o mercado em que está entrando, estudar a viabilidade de fornecedores, a existência de concorrentes e o perfil dos clientes”, elenca.

 

A crise não freou as taxas de abertura de novas firmas (veja o gráfico Empreendedorismo no Brasil). No ano passado, 52 milhões de brasileiros de 18 a 64 anos estavam envolvidos na criação ou na manutenção de algum negócio. A taxa de empreendedorismo ficou em 39,3% — referente à parcela da população que é dona de empresa. Em 2014, os valores eram de 45 milhões e 34%, respectivamente. É inegável, no entanto, que os momentos de desequilíbrio financeiro têm alterado o comportamento dos que decidem abrir uma empresa. Segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) em parceria com o Sebrae e a Fundação Getulio Vargas (FGV), entre 2014 e 2015, os empreendedores iniciais foram mais impulsionados pela necessidade do que pelo fator oportunidade.

 

Valdir Oliveira comenta que o aumento do número de empresas, nos últimos temos, é compatível com o cenário de estagnação do país. “Num primeiro instante, vem o desemprego. No segundo, as pessoas entram na informalidade para sobreviver. No terceiro, cresce a formalização de pequenos projetos. A pesquisa só confirma esse quadro.”

 

Apesar de seis em cada 10 empresas fecharem antes de completarem cinco anos, segundo dados divulgados no último mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Valdir afirma que o aspirante a empreendedor não deve ter medo de fracassar. “Quem monta um negócio está sujeito a quebrar. O segredo é dar a volta por cima e enxergar oportunidades onde os outros não veem”, aconselha.

 

 

Experiências de coragem

Empreendedores que começaram a dar os primeiros passos no mundo dos negócios contam suas histórias

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

Um brinde à ousadia

Os irmãos Raí Marcel Valadares, 24, e Rui César Valadares, 26, não se deixaram intimidar pela crise e abriram, há 10 dias, uma loja da franquia Mestre Cervejeiro na 109 Norte. O investimento para operar dentro da rede foi de R$ 25 mil, sem contar os gastos com estrutura e móveis, que passam de 150 mil. A dupla não tem experiência com o mundo dos negócios e apostou no formado de franquia para ter mais chances de sucesso. “Escolhi a Mestre Cervejeiro porque a cerveja especial está cada vez mais presente no gosto do público, principalmente daquele que gasta mais”, revela Rui, graduado em ciências contábeis que era cliente assíduo de cervejarias e usou a experiência como cliente para tocar o negócio. Já o caçula, médico veterinário, não gosta de beber, mas está entusiasmado com o segmento. “Apesar de não ter muito a ver com minha área de atuação, estou gostando. Encaro essa oportunidade como um desafio. O risco de não dar certo existe para todos, mas, se fizermos um trabalho bem-feito, divulgarmos corretamente, mantermos a qualidade no atendimento e cuidarmos da marca, fica difícil dar errado”, completa.

 

 

Arquivo Pessoal
 

Remédio para espantar a recessão

Os farmacêuticos Manoel Vieira, 26 anos, e Nelson Rodrigues, 51, pretendem abrir, em maio do ano que vem, a primeira clínica farmacêutica no DF — negócio em que profissionais do ramo atendem pacientes em consultório e dão orientações quanto a medicamos que não exigem prescrição médica. “Estamos nos cercando com advogado e contador e comparando serviços com profissionais que atuam no ramo em outras localidades”, esclarece Nelson sobre o período de planejamento. “Não acreditamos que seja um momento desfavorável, pois, com a crise, surgem novas e várias oportunidades de comércio. Para empreender no cenário atual, é preciso se planejar bem e tomar muito cuidado com as decisões”, analisa Manoel. Lidar com burocracia e impostos é a principal dificuldade encontrada pela dupla, que está animada. “A incerteza do que vem pela frente gera receio, mas temos uma proposta que pode melhorar a qualidade de vida das pessoas e estamos confiantes”, diz Nelson.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press
 

Ideia boa para cachorro

A estudante do 5º semestre de veterinária nas Faculdades Integradas Promove de Brasília (Icesp) e moradora de Águas Claras, Ana Carolina Borges presta serviço de banho e tosa de animais no domicílio dos clientes há sete meses. Ela juntou o maior conforto aos bichos, a abertura do mercado e a comodidade para os clientes às afinidades pessoais. “Sempre fui apaixonada por animais e trabalhei como voluntária em abrigo, resgatando gatos e cachorros”, conta a jovem, que fez um curso de estética, banho e tosa a fim de aperfeiçoar os serviços. Para abrir o negócio, chamado Fast Pet, ela não teve medo de pedir ajuda: conversou com colegas de faculdade, professores, empresários, consultores do Sebrae e com a família. Na opinião dela, a fórmula para seguir adiante, independentemente do período de crise, depende do esforço. “As pessoas desejam ganhar dinheiro, mas não querem se esforçar para isso ou não têm motivação. Não acho que tem como dar errado se você trabalha com amor, competência e dedicação”, ressalta ela, que investiu R$ 50 mil no negócio.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press
 

Um ajuste legal na malhação

O técnico em manutenção de equipamentos de academia Evanilson Sousa, 35 anos, se tornou microempreendedor individual (MEI) em setembro. Enquanto estava na informalidade, durante mais de três anos, ele perdia clientes porque não podia emitir nota fiscal por não ter Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Ele acredita que o empreendimento é uma saída para contornar a crise. “Só está ruim para quem não corre atrás das coisas. Eu me surpreendi, pois estou trabalhando mais ultimamente. Além disso, passei a oferecer serviços de reparos domésticos para pessoas que malham. Por meio de uma coisa, acabei na outra”, explica ele, que começou trabalhando com a limpeza em academias, em 2005, até passar a lidar com a manutenção. Desde então, fez cursos técnicos de eletricista, bombeiro hidráulico, vigilância e mecânica. Evanilson aposta na qualidade do trabalho e no atendimento educado para ganhar a confiança dos proprietários dos estabelecimentos e planeja abrir um espaço físico da Sousa Manutenção no Guará 1, em breve.



Receita clássica

Cássius Leal, presidente da consultoria para empresas Advys, ressalta que a falta de uma boa estruturação antes da abertura é a principal razão pela qual negócios não vão para a frente. Além disso, a receita para se manter de pé em meio às adversidades é clássica: focar no cliente.“A preocupação deve estar em ganhar o consumidor, pois ele vai indicar outros. O diferencial está em oferecer sempre mais. Se for fazer uma surpresa, que seja positiva. Entregue mais do que precisa, com prazo mais curto e qualidade maior. Dessa forma, você sempre vai ter clientes à sua porta”, aconselha.

 

Desburocratização

A carga tributária e a burocracia são grandes entraves a empreendedores. Para simplificar a abertura de empresas, o Governo do Distrito Federal (GDF) lançou, em junho deste ano, o sistema de Registro e Licenciamento de Empresas (RLE). Ainda em fase de teste, a iniciativa tem a missão de desburocratizar e acelerar o processo ao permitir a consulta de viabilidade da localização, abertura, licenciamento e baixa via internet. Informações: www.rle.empresasimples.gov.br.

 

Jovens querem empreender

A Mindminers e o Centro de Inteligência Padrão (CIP) promoveram, em julho, pesquisa com 1.330 nascidos entre 1985 e 1999 no Brasil. A conclusão é que 71% dos jovens pretendem mudar de emprego ou de atividade nos próximos dois ou cinco anos e que 51% desse total desejam empreender. David Pinto, fundador da escola de empreendedorismo Longitude, diz que o perfil empresarial é típico das novas gerações e dá dicas para esse grupo. “É preciso ser perseverante, estar disposto a cair e levantar, aprender com os erros e buscar o apoio de quem é mais experiente”, diz.

 

Três perguntas para

Júlio Vilela/Divulgação
Gustavo Cerbasi, autor de 14 livros com mais de 2 milhões de exemplares vendidos, mestre e graduado em administração

 

O que leva uma empresa a dar errado?

Há dois tipos de problemas nos negócios que fracassam. Algumas empresas nascem sem conhecimentos sobre público, criação de valor em uma marca, precificação e prestação de um bom serviço. Essas fracassam mesmo que tenham ótimo controle financeiro. Há também companhias que são um sucesso de vendas, marca, reconhecimento e crescimento, mas quebram porque o lucro nunca aparece, Curiosamente, a maioria das empresas com problemas financeiros nascem com esse tipo de falha e, quanto mais crescerem, maiores serão as dificuldades até chegar ao ponto em que fecharão as portas. Isso pode ser evitado com um plano de negócios.

 

Qual a função da educação financeira nos negócios?

Ela faz com que as finanças deixem de ser uma preocupação para o empreendedor, que poderá focar somente no que fortalece a marca e os negócios. No geral, a educação financeira não é um traço nos brasileiros: como boa parte das empresas nasce pela necessidade, e não pela oportunidade, muitos agem pelo senso de urgência e queimam etapas.

 

Numa conjuntura desfavorável, pode-se dizer que há um funil de seleção no mercado?

Não acredito nessa ideia. Crise é um cenário de renovação, como uma queimada na mata que traz uma nova vegetação mais viçosa e saudável. Nas recessões, muitas empresas fecham as portas, mas por teimosia de empresários que insistem em manter estratégias que não funcionam. Quando alguns negócios fecham, abre-se espaço para novos empreendedores com estratégias renovadas, adequadas aos hábitos de consumo decorrentes da crise. Não há cenário ruim para negócios, mas sim estratégias adequadas e inadequadas. Com boa gestão financeira, empreendedores se tornam experts em saber a hora de retirar o time de campo.

 

Leia

Empreendedores inteligentes enriquecem mais

Autor: Gustavo Cerbasi

Editora: Sextante 208 páginas

R$ 34,90 / R$ 21 (e-book)

publicidade

publicidade