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Muito além do conteúdo do específico

A boa educação não se restringe a disciplinas focadas na área de formação: é preciso estimular o desenvolvimento de habilidades, como senso crítico e trabalho em equipe. Isso também é válido nos cursos profissionalizantes, e a Escola Técnica de Ceilândia é exemplo de experiência positiva nesse sentido

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postado em 17/10/2016 12:14 / atualizado em 17/10/2016 15:42

Ana Paula Lisboa , Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

 

Todo período de educação deve ir além dos conteúdos específicos. Isso vale para educação básica, ensino superior e também técnico. Só assim é possível desenvolver habilidades fundamentais para o exercício da cidadania e a vivência no mundo profissional, como trabalho em equipe, criatividade e senso crítico. Esse tipo de competência não é aprendido apenas em sala de aula: trata-se de uma receita com vários ingredientes, incluindo o convívio com a família e experiências de trabalho. As formações profissionalizantes, por vezes, são criticadas por serem extremamente tecnicistas, mas há instituições que provam ser possível fornecer ambas as abordagens. É o caso da Escola Técnica de Ceilândia (ETC). Lá, os alunos cursam matérias que fogem da área específica. São disciplinas como cidadania, ética, empreendedorismo, direito trabalhista, português e informática básica.


“Em escola técnica, não se aprende apenas a apertar parafuso. Trabalhamos educação para a vida. Ao longo das formações, os estudantes desenvolvem disciplina, relações humanas, trabalho em grupo — habilidades importantes para o mundo do trabalho”, afirma o diretor da instituição, Joubert Almada Corrêa. Na opinião dele, a alta procura baliza o trabalho da ETC: no último processo classificatório para ingresso na escola, houve 5.156 inscritos para 920 vagas. Os estudantes são estimulados nas disciplinas e de outras maneiras, como relata Wanderson Ferreira, 19 anos, aluno do terceiro módulo do curso técnico em administração. “Eu tenho certeza de que desenvolvi minhas habilidades de relacionamento interpessoal e liderança, por meio da matéria de cidadania, ao ser representante da minha turma e durante a prática”, conta.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

 

Outra experiência interessante foi o estágio de seis meses na Advocacia-Geral da União (AGU), interrompido porque o jovem começou a graduação em direito. O sonho dele é conciliar as duas formações e trabalhar como analista administrativo. Fundada em 1982, a ETC tem 188 funcionários e 2.420 alunos nos cursos técnicos em informática, administração e logísticas. Integram o corpo discente da instituição também pessoas com deficiência. Lorrane Keise Almeida da Silva, 21, é uma dos 10 surdos matriculados ali. Ela terminou a educação básica no Centro de Ensino Médio 2 de Ceilândia em 2014. À tarde,Lorrane é aluna do segundo módulo do curso técnico em informática e, pela manhã, do terceiro módulo do curso técnico em administração. Ela conta com o acompanhamento da intérprete de libras Luciana Rodrigues Pereira durante as aulas, o que lhe permite participar de todas as atividades normalmente.

 

“Aqui, eu me desenvolvi muito. A parte lógica do curso de informática era muito difícil no começo, mas consegui melhorar. A escola e os professores são muito bons, o curso técnico é muito importante. É tudo 100%”, afirmou, por meio de libras. A jovem ainda não sabe com o que deseja trabalhar, mas está animada com as possibilidades abertas pelas formações. Mônica Leite Araújo, 33 anos, é ex-aluna e professora da Escola Técnica de Ceilândia. Em 2001, finalizou a formação técnica em sistemas de informação na instituição e, no ano passado, retornou como professora do curso técnico em informática. “Aqui, eu aprendi a ser profissional. A escola prepara para o mercado, ajuda a pensar em sociedade, a desenvolver liderança, trabalho em equipe e comunicação”, conta Mônica, que é também graduada em sistemas da informação.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press


Papel da educação

 

Henrique Vailati Neto, diretor do Colégio da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), acredita que o ensino escolar clássico, em geral, é muito limitador, pois foca em conteúdos enciclopédicos, mas deixa de lado o desenvolvimento de habilidades. “No entanto, seria necessário investir em ensinar a interpretar, dominar fundamentos de matemática e competências como liderança, trabalho em grupo e criatividade.” A coordenadora de Educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, na sigla em inglês) no Brasil, Rebeca Otero, ressalta que as habilidades socioemocionais costumam ser negligenciadas no ensino. “É preciso ter cuidado com essa questão em todos os níveis, desde a educação infantil até o ensino superior.”

 

Ela destaca também que é preciso reconhecer competências desenvolvidas em outros espaços que não a educação formal. É o caso de capacidade de trabalhar em equipe, de usar bem a internet e a tecnologia e qualquer outra inteligência que possa ser adquirida em ambientes extracurriculares. “Isso significa dar espaço para que esses saberes sejam desenvolvidos e aproveitados tanto no ambiente educacional quanto no mercado de trabalho”, comenta. Para a diretora, a amplificação dessas aptidões deve ser incentivada por vias oficiais, para garantir que um número cada vez maior de pessoas esteja preparado para exercer profissões. “Qualquer política pública diretamente relacionada, por exemplo, à aquisição de alfabetização digital é voltada ao desenvolvimento de habilidades. Educação financeira e estímulo ao empreendedorismo também são importantes”, argumenta.

 

Na visão do coordenador do Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza, da rede estadual de São Paulo, Almério Melquíades Araújo, “quando o ensino é voltado a habilidades, formam-se pessoas mais competitivas e interessadas, o que é uma vantagem no mercado de trabalho”. Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), também defende estímulos nesse sentido. “Estamos numa indústria 4.0, e as atribuições do profissional técnico também mudaram: envolvem trabalho em equipe, capacidade analítica, raciocínio lógico, senso crítico”, observa.

 

Estude em Ceilândia

 

A Escola Técnica de Ceilândia abrirá o período de inscrições para cursos em 2017 na próxima quarta-feira (19). O prazo se estenderá até 3 de novembro. Serão ofertadas 270 vagas para o curso técnico em administração, 270 para o curso técnico em informática e 60 para o curso técnico em logística. Na modalidade a distância, são 320 vagas para os cursos técnicos administração e em informática integrados à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Nos períodos matutino e vespertino, 40% das oportunidades são reservadas a estudantes da rede pública do DF que estejam cursando o ensino médio em 2016. Todas as formações são gratuitas, e a classificação se dá por meio de sorteio. Confira o edital e informações em: www.etcdf.com.br / 3901-6927 / 7545.

 

Inscrições abertas no IFB e no IFG

 

As inscrições para os cursos técnicos gratuitos do Instituto Federal de Brasília (IFB) estão abertas até 24 de outubro pelo site www.processoseletivo.ifb.edu.br. São 1.950 vagas distribuídas entre os câmpus Brasília, Ceilândia, Estrutural, Gama, Planaltina, Riacho Fundo, Samambaia, São Sebastião, Taguatinga e Taguatinga Centro. O Instituto Federal de Goiás (IFG) também oferece 1.260 vagas — 300 delas no Entorno — pelo site www.ifg.edu.br/selecao. A taxa de inscrição é R$ 30. Os cursos são gratuitos.

 

 

 

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