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Obsessão por acertar

Os perfeccionistas não querem errar, mas estar sempre certo é impossível. O importante é saber equilibrar o cuidado com a qualidade e a produtividade para não se prejudicar

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postado em 23/10/2016 12:39 / atualizado em 24/10/2016 18:55

Ana Paula Lisboa

Minervino Junior

Qualidade ou defeito?

Dizem que a pressa é inimiga da perfeição. E é exatamente no fator tempo que recai o maior problema do perfeccionismo. Pessoas com esse traço tendem a ser detalhistas e, por vezes, metódicas. Assim, costumam empregar alto nível de excelência a tudo o que fazem. Para isso, no entanto, podem demorar mais tempo do que outros profissionais. Além disso, os perfeccionistas têm dificuldades em cumprir prazos, por dificilmente ficarem satisfeitos com a qualidade de um trabalho ou projeto. Tudo isso impacta a produtividade, e é por esse motivo que o perfeccionismo tem sido considerado, cada vez mais, um hábito em baixa no mundo corporativo.


Minervino Junior

Segundo Paulo Dias, diretor de Recrutamento da consultoria Stato, o comportamento saiu da lista de atributos positivos a serem observados pelos líderes, já que as empresas passaram a valorizar mais a entrega do trabalho dentro do prazo, mesmo que com pequenas imperfeições, em vez de atrasar um projeto buscando um grau de esmero inalcançável. “Antes, o perfeccionismo era tido como qualidade em quase 100% dos casos. O problema do perfeccionista de carteirinha é que ele é tão detalhista que prefere não entregar algo a apresentar um trabalho com algum erro. Esse perfil está caindo em desuso porque implica em perda de eficiência”, observa. E pior: “em processos seletivos, pode ser preterido”.

 

O motivo para a mudança, na opinião do diretor, é a era da informação, que prioriza a velocidade. Christian Barbosa, especialista em administração de tempo e produtividade e CEO da TriadPS, multinacional especializada na área, analisa que o comportamento pode ser ruim se não houver equilíbrio. “O aspecto ruim é o descontrole do tempo, ao gastar energia com detalhes desnecessários.” A mudança na avaliação do perfeccionismo no mercado não diminui a cobrança por qualidade. “Um bom trabalho é suficiente. No entanto, não significa entregar algo ruim”, alerta Christian Barbosa. De acordo com ele, o traço afeta mais a vida pessoal do que a profissional.


Gabriela Studart

 

 Bruna Emily Pontes Feitosa, 22 anos, tecnóloga em RH e servidora da Universidade de Brasília (UnB), é exemplo disso. “Acabo cobrando mais das pessoas com as quais convivo em casa. Se algum colega é desleixado, isso me incomoda, mas consigo viver”, revela. “Nas minhas tarefas, sempre sou mais lenta — seja no trabalho, seja na vida pessoal”, percebe. “Eu me apego a detalhes nem sempre necessários. Num banco de dados, eu coloco uma formatação que outras pessoas nem sempre aplicam”, observa ela que, há pouco tempo, foi diagnosticada com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e fez três sessões de terapia.
“Acho que isso influencia meu perfeccionismo, principalmente na organização. No serviço, arrumo minha mesa, passo álcool nas coisas, limpo  e-mails, organizo processos para, então, começar a trabalhar.”

Gestor detalhista
Segundo Paulo Dias, diretor de Recrutamento da Stato, quando o chefe é perfeccionista, o problema pode estar em impor a busca excessiva pela excelência aos colaboradores. “Ele vai se apegar a erros pequenos — como um acento que o profissional deixou de colocar numa palavra — em vez de valorizar o que foi feito, mesmo que o nível esteja muito bom. Assim, parece que o gestor nunca gosta do trabalho, e a equipe se desmotiva”, comenta.


O empresário e atual prefeito de São Paulo João Dóoria Júnior é um exemplo de líder perfeccionista: ele é obcecado por detalhes. “Eu o entrevistei para escrever meu último livro e posso dizer que ele busca o perfeito sempre, mas é um perfeccionista diferente, pois consegue atingir produtividade por ser muito disciplinado”, comenta Christian Barbosa.


Arquiteto há 35 anos e dono do escritório Arquitecnika, Lutero Leme, 57 anos, diz ser exigente com os cinco empregados. “Tem funcionário que reclama. Eu sou detalhista, cobro a busca pela perfeição. Só o bom não basta.” No entanto, ele combina isso com a busca por resultados. “No mundo moderno, precisamos aprender a trabalhar sob pressão”, comenta. Apesar disso, ele admite ter tido problemas com prazos. “Às vezes, o cliente topa te dar mais tempo para que você entregue algo melhor. Se não aceitam prolongar o combinado, damos um jeito”, afirma. Na hora de selecionar empregados, procura pessoas que saibam aliar a atenção aos detalhes com velocidade.

 

Como fica a equipe

 

“Quando se fala em trabalho em equipe, o perfeccionista apresenta dificuldades, pois nem todos os colegas entregarão o mesmo nível de excelência, e esse profissional acaba se frustrando. O resultado é que, por vezes, acaba não se dando bem com o time”, percebe Paulo Dias, diretor de Recrutamento da Stato. De acordo com ele, não é necessariamente negativo ter pessoas com esse perfil na equipe. “Uma opção é colocar esse funcionário numa função de auditar o trabalho do time”, exemplifica.


O especialista em produtividade Christian Barbosa observa que o colaborador com esse traço pode complementar as habilidades dos demais. “Há gestores que gostam de ter pelo menos um perfeccionista na equipe, pois é alguém que não vai deixar passar nenhum erro, mesmo que se mate de trabalhar”, comenta. Quando o esmero passar da conta, o chefe precisa ter coragem de conversar com o funcionário. “Primeiramente, parabenize o trabalhador pela qualidade do trabalho; mas lembre-o de que o tempo que se leva para fazer algo também importa e, juntos, achem maneiras de chegar a um meio termo”, ensina.

 

Perfeccionismo: aqui, sim!

Apesar de ser considerada uma habilidade defasada por especialistas em RH, esse traço nunca deixará de ser importante em algumas áreas e funções. É o caso de medicina, enfermagem e outras especialidades de saúde, engenharia de obras, finanças e contabilidade. “No caso da construção civil, uma planta mal projetada ou mal orçada pode gerar um prejuízo e um risco muito grandes. No ramo financeiro, é preciso estar atento a todas as contas que serão lançadas”, exemplifica Paulo Dias, diretor de Recrutamento da Stato.


“Ramos de mercado que exigem longo tempo de maturação precisam de pessoas perfeccionistas, é o caso da indústria aeronáutica — em que se leva anos para desenvolver um avião — e a área de alimentos — em que não é possível ter tolerância a erros”, afirma Jairo Martins, presidente-executivo da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ).

 

 

Gabriela Studart

 


A neurologista Letícia Costa Rebello, 33 anos, trabalha na Brasília Neuro Clínica desde 2014 e desenvolveu o perfeccionismo durante as residências em neurologia, em neurologia vascular e em pesquisa clínica em AVC, feitas no Brasil e nos EUA. “Na minha profissão é muito importante: trabalho com vidas. Qualquer erro traz impactos aos pacientes. E, em pesquisa, uma vírgula pode fazer todo o trabalho ir por água abaixo”, diz. “É preciso ter perfeccionismo mesmo na emergência. Para tratar o AVC, o tempo é nosso inimigo. Quando estou lidando com exames e consultórios, posso ser cuidadosa com mais conforto”, compara.

 

Ligue o cronômetro

Para não ter problemas de produtividade com o perfeccionismo, a dica de Christian Barbosa é limitar o tempo gasto em cada atividade e encerrar quando o limite for atingido, para evitar o processo de ficar eternamente tentando melhorar. Se parecer impossível estipular a hora certa de parar, peça ajuda a outras pessoas.

 


 

 

 

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