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Correio Braziliense

Qualificação para subir na vida

Os estudos possibilitam melhores condições de emprego e renda. Diferentemente do que sinaliza o senso comum, isso não precisa se dar por meio do ensino superior: os cursos técnicos abrem oportunidades. Tanto que um estudo do Senai revela que, até 2020, o Brasil precisará formar, para ocupações industriais, 5,1 milhões de técnicos e apenas 625,4 mil bacharéis

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postado em 23/10/2016 12:54 / atualizado em 25/10/2016 18:40

Arquivo Pessoal

A última reportagem da série Reforma no Ensino aborda a importância da capacitação profissional para uma inserção efetiva no mercado de trabalho. O debate mais importante nesse sentido é identificar que tipo de qualificação garante uma vida melhor. Vale fazer qualquer curso — seja ele de qualificação ou técnico seja ele superior — apenas para conseguir um certificado? Se o objetivo for conseguir uma carreira de sucesso, a resposta é não. “Valorizar mais as graduações é um traço cultural do Brasil, o que faz com que muitas pessoas procurem os bancos das universidades apenas pelo diploma e, depois de formadas, acabem não conseguindo emprego na área. Em alguns países, como no norte da Europa, essa questão não existe, e as vagas em cursos técnicos têm alta concorrência”, explica o professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Ramos, pós-doutor na área pela Universidade de Paris e  pesquisador, principalmente, questões ligadas ao mercado de trabalho.


“O mercado de alguns cursos de nível superior, como administração e pedagogia, está saturado. Por isso, é possível que um profissional de nível técnico de áreas específicas tenha salário e perspectiva de carreira maior do que alguém formado em uma desses ramos”, afirma o professor. Ele aponta as carreiras ligadas à tecnologia como as mais promissoras. “São profissões que, mesmo durante a crise, continuaram gerando empregos”, complementa. Outro campo interessante é o da construção civil, com a ressalva de que os empregos desse setor devem voltar a surgir com a melhora do cenário econômico brasileiro. “É preciso que as pessoas aproveitem esse momento de retração para buscar qualificação e ficar prontas para as vagas que devem ser abertas”, comenta. As impressões do especialista vão ao encontro dos dados do Mapa do trabalho industrial 2017-20120, divulgado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) na última quarta-feira (19).

 

 

 

Há vagas
Segundo o relatório, serão necessários 13 milhões de profissionais capacitados, em formações industriais — apesar disso, iss não quer dizer que os profissionais trabalharão na indústria — até 2020 para atender à demanda do mercado brasileiro. “Isso não quer dizer que serão criadas 13 milhões de vagas, se não o problema do desemprego estaria resolvido. Do total, 28% serão novas vagas; e 72% a requalificações”, brincou o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi. Ele explicou que estão incluídos nesse número postos de trabalho existentes, mas que exigirão que os empregados façam uma atualização, por exemplo. A pesquisa concluiu que serão necessários 7,1 milhões de trabalhadores com ensino básico e 5,1 milhões com ensino técnico. A carência por profissionais de nível superior é de apenas 625,4 mil. A disparidade entre os números demonstra como é importante que as pessoas valorizem e procurem mais as formações profissionais — que, no fim das contas, geram mais emprego que os bacharelados.


“É natural que a demanda seja diferente em função da natureza dos postos de trabalho. O técnico é uma pessoa que tem uma formação específica, enquanto o bacharel é um generalista. É uma tendência geral. Além disso, 5 milhões parece muito, mas o cenário brasileiro é de cerca de 100 milhões de postos de trabalho, logo, o número representa 5% do mercado nacional”, explica o professor da UnB Carlos Alberto Ramos.


“A educação profissional é uma oportunidade importante para que o jovem entre mais cedo no mercado de trabalho e não impede, de maneira alguma, que ele continue sua formação em um curso superior”, explica Lucchesi. O diretor do Senai lembra que melhores salários e as carreiras mais promissoras estão intrinsicamente ligados à qualificação do profissional e ao alinhamento dos estudos com as exigências do mercado. De acordo com Carlos Alberto Ramos, professor da UnB, existem ferramentas que permitem às pessoas observar as exigências do mundo profissional.


“Em teoria, o Sine (Sistema Nacional de Emprego, do Ministério do Trabalho) é o instrumento que dá orientação ao cidadão. Ele tem o papel de fazer essa consulta ao mercado e dizer quais áreas têm maior carência e precisam de mais trabalhadores.” Em nível técnico, os ramos mais saturados estão ligadas ao setor de serviços, como cabeleireiro.

 

Oportunidades à vista
Roberto Nascimento de Araújo Oliveira, 31 anos, veio para Brasília há 10 anos em busca de oportunidades melhores. Ele nasceu no Rio Grande do Norte, mas morava na Paraíba e era montador de móveis em empresas do varejo. Aqui, fez o curso de técnico em móveis do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB), no câmpus Samambaia. Ele terminou a capacitação, de 1.450 horas, no fim de 2015.


Desde então, saiu da empresa em que trabalhava para montar um negócio próprio ao lado do irmão: a JR Design e Móveis Planejados. “A primeira vantagem do curso foi o conhecimento da tecnologia. Antes eu não conseguia fazer demostrações para os clientes porque não tinha ferramentas”, explica. Outro ponto positivo foi aprender sobre empreendedorismo, o que baseou a criação da empresa.


“O melhor de tudo é: quando alguém pergunta qual a minha qualificação, respondo que fiz o curso técnico e sou um profissional capacitado. Ganhei em autoestima, e as pessoas passaram a confiar mais no meu trabalho.” A oficina, que fica no terreno da casa dele, no Recanto das Emas, fornece móveis para todo o DF. “Meu padrão de renda melhorou porque, como oferecemos produtos de qualidade, podemos cobrar um preço mais alto”, diz.

 

Em busca de conhecimento

 

Gabriela Studart
 

O administrador Admilson Bispo dos Santos, 39 anos, prova que é possível vencer as adversidades e se qualificar para conseguir uma colocação melhor no mercado. Baiano de Camamu, aos 18 anos, tinha estudado apenas até a 5ª série do ensino fundamental e se mudou para Brasília com o irmão em busca de completar os estudos.


Na capital federal, conciliou o emprego no departamento de limpeza de uma distribuidora de alimentos para hospitais com o curso supletivo e terminou o ensino fundamental. Depois, foi promovido ao cargo de copeiro e, paralelamente, terminou o ensino médio em uma escola regular.  “Eu queria parar de trabalhar na iniciativa privada para ter uma renda melhor e ajudar minha mãe. Comecei o segundo grau no supletivo, mas achei melhor frequentar uma escola regular para aprender mais”, lembra.


Saiu da iniciativa privada em 2006, quando foi aprovado em um concurso de nível médio no Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Logo depois, iniciou a faculdade de administração no Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e se formou em 2012, um ano depois de ser convocado para um cargo no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).

 

Em 2016, terminou a pós-graduação em administração pública no Centro Universitário Iesb. “A principal habilidade que desenvolvi depois que voltei para a escola foi a curiosidade, a preocupação com o conhecimento”, diz.

 

Por empregos decentes

 

Rafael  Hildebrand
 

Segundo Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, na sigla em inglês) no Brasil, uma infinidade de pesquisas comprova a importância da qualidade e da continuidade dos estudos para garantir “empregos decentes e empreendedorismo” entre a população adulta. A relevância do assunto é tanta que motivou duas metas no Relatório de Monitoramento Global da Educação, lançado pela Unesco em 6 de setembro deste ano.


“O jovem precisa estar preparado para o mundo do trabalho e, a partir daí, melhorar a própria qualidade de vida, ganhar o próprio sustento e de sua família, adquirir recursos para comprar uma casa… Isso também está diretamente relacionado com o desenvolvimento do país”, argumenta. Segundo ela, o primeiro passo para chegar lá é orientar a oferta de formação profissional em relação às demandas do mercado, seja em nível superior seja em cursos técnicos. “Temos um percentual muito baixo de formação profissionalizante no país, então é preciso expandir, ofertar mais cursos que casem com as necessidades das empresas.

 

Atualmente, 70% dos cursos ofertados no âmbito da educação profissional são na modalidade administrativa, ou seja, de secretariado, por exemplo. Será que é disso que o mercado está precisando?”, indaga.