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Correio Braziliense

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Rumo à equidade de gênero

O mercado de trabalho é um dos campos de luta das mulheres, e há muito a avançar para alcançar a isonomia. O progresso nesse sentido, segundo especialistas, ainda é travado por uma tradição cultural que prioriza demasiadamente os homens

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postado em 30/10/2016 16:21 / atualizado em 13/11/2016 10:19

Ana Paula Lisboa

Breno Fortes

O debate sobre as disparidades a que estão submetidas as mulheres e a importância de promover condições para o desenvolvimento equiparado nos estudos e na carreira foi reaquecido pela divulgação de dois levantamentos globais nos últimos dias: o relatório Situação da população mundial 2016, do Fundo de População das Nações Unidas, que analisou como garantir os direitos de meninas a partir dos 10 anos — idade chave para construir um futuro promissor; e o Relatório de Desigualdade Global de Gênero 2016 do Fórum Econômico Mundial (FEM). Nesse levantamento, o Brasil ficou na 91ª posição entre 144 países no quesito desigualdade econômica.


Breno Fortes

O Brasil teve um resultado ainda pior no desequilíbrio salarial para trabalhos iguais: ficou na 129ª posição — atrás de povos em que as mulheres têm menos liberdades, como Paquistão, Arábia Saudita, Iêmen e Irã. O problema é considerado, por 43% das trabalhadoras do país, um dos maiores desafios para a carreira, de acordo com pesquisa de 2015 do instituto de pesquisas Ipsos Mori, que entrevistou 9,5 mil adultas do G20. A advogada Amanda Moreira Andrade, 25 anos, vivenciou a diferença de remuneração. “Eu fazia o mesmo trabalho que um advogado, e ele ganhava muito mais. Isso não era revelado pelo escritório”, lembra.


Para a promover a discussão sobre esse e outros desafios das mulheres, o Trabalho & Formação Profissional começa hoje a série de reportagens Empoderamento feminino. Além do desequilíbrio salarial, as outras quatro principais dificuldades enfrentadas pelo gênero segundo a pesquisa da Ipsos Mori são equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, igualdade de oportunidades e assédio.


“Não se pode generalizar, mas, de fato, as mulheres encaram mais dificuldades para progredir na carreira”, analisa Tânia Fontenele, economista especializada em gênero e coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada à Mulher. Segundo ela, as trabalhadoras sofrem discriminação, não pela capacidade, que é reconhecida pelo mérito, mas por outros motivos. “Um deles é que os postos mais altos das organizações são ocupados por homens, que tendem a escolher outros homens para posições de liderança, mesmo que as mulheres estudem mais”, afirma a doutoranda em história cultural.

Liderança
Autora do livro Mulheres no topo de carreira — flexibilidade e persistência, Tânia observa que, mesmo no serviço público — um ambiente em que não há discriminação para entrar, por causa da meritocracia do concurso —, as servidoras aparecem menos em posições estratégicas de liderança. “Apesar disso, há instituições que as valorizam, pois entendem capacidades importantes diferentes nelas”, exemplifica.


À frente de uma equipe de 16 homens e quatro mulheres, a gerente de Vendas da companhia de bebidas Ambev em Brasília, Bruna de Oliveira Tassinari, 26 anos, percebe que poderá crescer na empresa. Ela entrou na organização há cinco anos, como estagiária. Após se formar em marketing, foi supervisora de Marketing, supervisora de Vendas, gerente de Marketing até chegar ao cargo atual. “Tenho esse estilo de mandar. Aqui, não existe diferença salarial entre gêneros na mesma função. Se tivesse, sairia”, diz. Daqui cinco anos, Bruna deseja ocupar a posição de gerente comercial e sócia da firma. Quando trabalhou com marketing da Ambev em bares de Manaus, lidou com piadinhas e cantadas de clientes.

 

Crise no meio da carreira
A consultoria estratégica Oliver Wyman lançou a segunda edição da pesquisa que analisa a presença de mulheres no setor financeiro em 32 países. Segundo o estudo, apesar de as profissionais terem os mesmos níveis de ambição e disposição para fazer sacrifícios dos homens, a proporção de mulheres cai à medida que se sobe a hierarquia. Globalmente, elas têm representação de 16% nos comitês executivos do ramo — no Brasil, não passa dos 10%. As trabalhadoras enfrentam — especialmente dos 30 anos aos 40 anos — um conflito de carreira e têm maiores chances de deixar o emprego. “É nessa fase que crescem as expectativas sociais de cuidado com a família. Outro motivo é que as mulheres percebem que, mesmo que continuem na empresa, ganharão e crescerão menos que os homens”, diz Laura Maconi, gerente de setor financeiro da Oliver Wyman.


“Quando a família decide que alguém do casal precisa deixar o emprego para cuidar dos filhos, isso sobra para a mulher, que tende a ganhar menos”, comenta. Embora algumas empresas adotem políticas de flexibilidade para mães — no Brasil, isso é bem limitado, na opinião dela —, Laura percebe que existe certa barreira cultural ao utilizá-las. “Nenhum homem usa. Se a mulher fizer isso, será vista como diferente.” A coach de carreiras Daniela do Lago percebe que, em geral, há um julgamento desigual com relação à maternidade e à paternidade no mundo do trabalho. “Se um homem sai mais cedo para buscar o filho na escola, a equipe o vê como um pai exemplar. Se é uma mulher, acham que é falta de comprometimento”, compara.

 

Constrangimento comum

 

Paulo Ayres
 

6A advogada Amanda Moreira Andrade, 25 anos, sofreu assédio por parte de colegas durante estágios e empregos. “Esse foi um dos motivos para eu ter decidido abrir meu escritório; além da diferença salarial”, revela. “Um chefe comprava bebida, queria que eu trabalhasse sozinha com ele. Outro disse que sabia me reconhecer pelo formato do bumbum. Havia também os que davam uma olhada constrangedora quando eu passava ou faziam piadinhas. As pessoas acham que é normal, que é elogio, mas tudo isso é assédio”, define a jovem, que cursa pós-graduação em direito do trabalho. Num dos casos mais graves, Amanda denunciou a situação à instância superior.


Hoje, ela orienta clientes que precisam entrar na Justiça por causa do problema a deixarem claro que não têm interesse na investida do companheiro de trabalho e registrar a impertinência, por e-mail, gravação de som ou até mensagens em WhatsApp. O assédio foi relatado por 36% das brasileiras entrevistadas pela Ipsos Mori — das quais apenas 10% denunciaram o problema. “Às vezes, as mulheres deixam para lá por receio e por pensarem que terão vantagem na carreira se ficarem caladas”, analisa a pesquisadora de gênero Tânia Fontenele.

 

Cultura machista atrasa desenvolvimento

 

Breno Fortes
 

Elvira Maciel, 43 anos, é especialista em Prevenção de Perdas na Ambev e trabalha na companhia há 18 anos. Mãe de uma menina de 10 anos, ela se divorciou quando a filha tinha dois anos. “Minha prioridade é ela. Até me dedico mais no trabalho, por causa dessa responsabilidade.” Formar-se como analista de sistemas não foi simples. Elvira foi criada num sítio no Entorno, e não havia estímulo para estudar. “Como eu era a filha mais velha, e meus pais são separados desde meus 13 anos, virei a dona da casa e ajudava a tocar a fazenda. Para o meu pai, terminar o segundo grau era muito. Quando falava que queria fazer faculdade, ele não entendia”, lembra.


Aos 23 anos, ela fez o vestibular escondido. “Quando contei que ia estudar, meu pai não concordou, mas eu disse que ele precisava entender que eu tinha sonhos.” A resistência para que Elvira buscasse a educação superior é apenas um dos muitos indícios da cultura patriarcal. “Nosso país é muito machista. O patriarcado é tão entranhado que há situações de discriminação que as pessoas nem percebem”, comenta a economista Tânia Fontenele.


Laura Maconi, da consultoria estratégica Oliver Wyman, observa que falta muito para chegar à igualdade. “Nem todos os líderes e organizações estão cientes da importância das mulheres.” Também da Oliver Wyman, Nuno Monteiro diz que as novas gerações têm menos amarras de machismo, mas só isso não mudará a realidade. “As organizações precisam estar dispostas a acolher uma nova mentalidade. Ninguém melhor que os trabalhadores para cobrar isso delas.”

 

 

 

 

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