SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Mães que trabalham

Cada vez mais, a sociedade passa a entender que cuidar da família e da casa não deve ser uma atribuição exclusivamente feminina. No entanto, as trabalhadoras com filhos ainda enfrentam desafios no mundo corporativo

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 06/11/2016 17:18 / atualizado em 13/11/2016 10:17

Ana Paula Lisboa

Gabriela Studart
Segundo levantamento do instituto de pesquisas internacionais Ipsos Mori, o Brasil foi o país do G20 em que ser mãe apresentou menos relevância como um desafio para a trajetória profissional: 74% das mulheres daqui estão confiantes de que é possível ter uma família sem afetar a carreira. Economista especializada em gênero, Tânia Fontenele vê nisso algo positivo.
 
“Antes, muitas deixavam de se inserir no mercado por causa da questão familiar. O percentual mostra que elas estão gerenciando melhor essa questão e priorizando a carreira, independentemente dos filhos”, comenta. Ela acredita que o avanço se deve ao fato de, aos poucos, o sistema de escola e creche ter melhorado. Também contribuiu a disseminação da consciência de que cuidar dos filhos não é uma missão exclusiva da mãe, pois também cabe ao pai.
 
Gabriela Studart
Para Talita Frisoli, coach de mães na empresa Posture Coach, mais pessoas passaram a ter essa noção, mas isso ainda é insuficiente. “Existe uma ação das feministas muito forte em relação à divisão de tarefas, mas vejo também uma mudança por parte das mulheres que não têm princípios feministas: elas entendem que precisam dar conta da casa sozinhas e de trabalhar fora. É o que muitas querem, inclusive. Há certa mudança de pensamento, mas ainda temos muito a avançar com relação a compartilhamento de tarefas”, analisa a consultora. Para isso, é necessário maiores esforços e iniciativas que busquem a equidade de gênero. “É uma questão da comunidade como um todo: precisamos de políticas públicas, iniciativa por parte das empresas e das próprias mulheres”, diz a coach.
 
Desafios
Tânia Fontenele, mestre em psicologia social e do trabalho pela Universidade de Brasília (UnB), ressalta que as dificuldades de conciliar maternidade e carreira são muitas. “As trabalhadoras pagam um preço alto — especialmente as que são provedoras da casa e não têm com quem compartilhar o cuidado com os filhos e a casa. Muitas adoecem pelo excesso de trabalho.” Vânia Silva, 32 anos, sabe o peso da carga de ser “mãe solo”. Ela é auxiliar de odontologia e tem quatro filhos, de 16, 12, 8 e 3 anos. Vânia se separou do pai das crianças no começo do ano e, como o ex-marido não mora mais em Brasília, as atribuições ficaram restritas a ela. “Ele sempre foi de ajudar muito. Mesmo assim, com a licença-maternidade de quatro meses, no começo, é muito difícil. Quando tive que voltar ao trabalho, eles acabaram parando de mamar no peito”, conta.
 
A auxiliar de odontologia acredita que as mulheres sempre têm mais dificuldades para crescer na carreira por causa da tripla jornada que envolve carreira; cuidados familiares e domésticos; e vida pessoal. “Depois do expediente, a gente tem que se dedicar aos filhos e à casa. Enquanto os homens têm mais tempo para investir no trabalho e fazer algum curso, por exemplo”, compara. “Minha sogra chegou a me dizer que, para ganhar pouco, não compensa trabalhar fora, mas sempre fiz questão de ter minha carreira. Meu primeiro emprego foi aos 14 anos”, conta ela, que ainda encontra tempo para fazer academia e cursos de atualização e sonha em fazer faculdade de enfermagem. Vânia revela que a maternidade demanda também abertura dos empregadores. “Às vezes, é difícil, pois uma reunião de colégio pode se chocar com o horário de uma cirurgia na clínica. Por sorte, estou na mesma empresa há cinco anos, e meus chefes são bastante flexíveis.”
 
Gestão do tempo
Geni da Silva Souza de Araújo, 30 anos, é vigilante e cumpre um turno de 12 horas dia sim, dia não. Mãe de três filhos — Lauana, 10, Miguel, 5 anos, e César Augusto, 4 meses —, ela tem com quem compartilhar tarefas. “Meu marido é parceirão. É ele quem faz a comida, por exemplo”, diz. “Com minha escala de horário, tento me organizar para fazer qualquer atividade relacionada às crianças durante minha folga. Se houver alguma eventualidade, tenho um chefe muito bom que entende”, revela.
 
 
No entanto, a flexibilidade ainda costuma ser ausente na maioria das empresas. “Os horários tendem a ser fixos e com baixa tolerância para ausências”, observa Talita Frisoli, coach de mães. Outras dificuldades incluem questões inerentes à maternidade. “A partir do momento em que a mulher se torna mãe, muita coisa deixa de fazer sentido, como trabalhar 14 horas por dia”, diz. “Por fim, tem a questão da culpa materna, de sentir que precisa trabalhar, mas não querer terceirizar a educação.”
 
Todos esses desafios fazem com que parte das mulheres abandone a carreira. É o caso de Carmen Regina Pinto Barreto, 52, ex-digitadora do Itamaraty e mãe de filhos de 30, 21, 19 e 14. Ela parou de trabalhar em 1999 devido à dificuldade que tinha de arranjar empregada. Depois que os filhos cresceram, voltou a procurar emprego, mas não conseguiu. “Acho que foi por causa da idade e também por causa do horário. Queriam alguém que trabalhasse sábados, domingos e feriados”, relata ela, que não aceitou a exigência. Embora financeiramente faça falta, Carmen alega que a educação dada aos filhos compensou o sacrifício. Atualmente, ela produz artigos caseiros, como sabonetes, velas e biscoitos, como hobbie e forma de ganhar uma grana extra. 
 
Organização é tudo 
 
Minervino Junior
 
A podóloga Ray Ibiapina, 39 anos, dominou a arte de administrar os deveres profissionais e os cuidados com os sete filhos: Felipe, 23, Júnio, 22, Joyce, 19, Eduardo, 16, Raissa, 14, Camila, 11, e Daniel, 7 anos. Antes de abrir o próprio negócio, a clínica especializada em podologia Doutor dos Pés na 313 Norte, com a qual conseguiu maior flexibilidade de horário, enfrentou uma longa jornada. Foram muitos revezes, desde horários que não comportavam a rotina familiar a comentários desagradáveis de colegas de trabalho sobre a quantidade de filhos. Ray tentou diversas manobras, como morar perto do trabalho e até deixar de trabalhar por um tempo. No entanto, percebeu que se sentia mais realizada inserida no mundo profissional. “Gosto do contato com o público e não ia conseguir ficar sem trabalhar. Claro que tem o lado da necessidade, mas também tem o da satisfação pessoal. O trabalho é muito positivo: faz bem para a autoestima e os aspectos físico e psicológico”, afirma.
 
Antonio Cunha
Há bastante flexibilidade com relação aos horários em que há clientes na clínica. “Foi um dos motivos pelos quais eu quis empreender. Às vezes, eu preparo café da manhã antes de trabalhar. Às vezes, não, mas eles se viram. Não há rotina”, revela. Até conquistar esse estágio, teve que superar barreiras na família: o marido não queria que Ray trabalhasse, mas, hoje, divide os afazeres com ela. “Agora, muitas vezes, ele faz almoço e traz para mim. Com compartilhamento de tarefas, tudo fica bem melhor; mas acho que muita coisa ainda pesa mais para a mãe.”
 
Para a coach de mães Talita Frisoli, equilíbrio de papéis e estratégias de organização e produtividade são fundamentais para que seja possível conciliar tarefas e apaziguar a sobrecarga. “O segredo é equilibrar os vários papéis: mãe, empresária, profissional, esposa, amiga, irmã. Primeiro, a mulher tem que fazer uma escolha e saber o que quer, com quem ela pode contar e, a partir daí, estipular uma agenda. É necessário montar uma rotina, verificar quais atividades são importantes e quais podem ser eliminadas ou delegadas para outras pessoas”, recomenda a consultora.
 
Pesquisa 
Elas estão desmotivadas
Num contexto de desigualdade e de uma carga de atividades domésticas que pesa mais para a mulher, talvez não seja de se estranhar o fato de elas serem a parcela de trabalhadores mais desanimada. Pesquisa feita com 1.659 pessoas pelo site Vagas.com e finalizada em outubro mostra que 41% das profissionais estão desmotivadas ou extremamente desmotivadas. Entre os homens, 40% estão motivados ou extremamente motivados.
 
Rafael Urbano, analista de negócios do Vagas.com, observa que entre os motivos para o descontentamento geral da mão de obra estão sobrecarga de trabalho, desequilíbrio entre vida profissional e pessoal, arrocho salarial e sentimento de insegurança por conta da crise. “Uma hipótese é que, no caso da mulher, além desses fatores, acaba pesando o fato de que, depois que ela vai para casa, tem que cuidar do aspecto familiar”, percebe. 
 
“Assédio e discriminação são outras barreiras que elas acabam vivenciando, pois há ainda resquícios de machismo na sociedade que podem interferir na produtividade e na motivação”, comenta.
 
Coach de carreira, professora de gestão de pessoas, comportamento organizacional e outras disciplinas em MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), Daniela do Lago observa que motivação tem a ver com uma necessidade que impulsione a pessoa — o que é indiferente a gênero. 
 
“No entanto, acredito que a mulher fica mais desmotivada por ter mais papéis a desempenhar. O foco do homem é o trabalho e, por mais que seja considerado um superpai ou marido, deixa a responsabilidade pela casa para a esposa. Acredito que as trabalhadoras se sentem cansadas e atribuem isso ao trabalho”, cogita.
Ela defende que as próprias mulheres se julguem e se critiquem menos e, em segundo lugar, estabeleçam prioridades, pois não dá para ter tudo ao mesmo tempo. “Se você entra em todas as brigas, isso te desgasta muito. Saiba as brigas que você compra e o nível que dedicará a elas”, diz. 
 
“Estamos a cada dia derrubando obstáculos, mas, por enquanto, não chegamos lá. O jogo no trabalho ainda é masculino — eles têm mais liberdade e oportunidades. A mulher tem que lutar mais para alcançar coisas especiais, é mais difícil. Não precisamos aceitar essa situação, mas entender e lutar como mulheres.” 
 
Para acabar com o estigma
Mulheres que criam os filhos sozinhas têm sido chamadas de “mães solo”, termo criado em substituição a “mães solteiras”, numa tentativa de eliminar o teor pejorativo. “Afinal, mãe não é estado civil! É um movimento recente”, ressalta a coach de mães Talita Frisoli. “Esse título abrange solteiras, viúvas, divorciadas, mulheres que adotaram ou fizeram inseminação artificial sozinhas”, explica. O termo é defendido por personalidades da internet, como Helen Ramos, youtuber brasiliense conhecida como Hel Mother.
 

publicidade

publicidade