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A barreira da deficiência

Apesar de existirem em maior número, as mulheres com deficiência apresentam

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postado em 13/11/2016 08:06

Ana Paula Lisboa

Os desafios enfrentados por mulheres são agravados quando a questão de gênero é cruzada com outros fatores, como limitações físicas ou intelectuais. Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres correspondem a 56% da população com algum tipo de deficiência. No Distrito Federal, elas também são maioria entre as pessoas com deficiência. Mesmo assim, entre trabalhadores com limitações, elas não estão em maior número: 59,8% desse tipo de mão de obra é masculina, segundo a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (veja o gráfico Radiografia do mercado).


“A deficiência é uma barreira e, acrescentando o desafio de gênero, a situação fica mais difícil”, afirma a doutora em engenharia de produção Donária Coelho Duarte, professora da Faculdade de Planaltina e do Centro de Excelência de Turismo (CET) da Universidade de Brasília (UnB). Co-autora de um levantamento sobre a atuação de mulheres com deficiência no setor hoteleiro de Brasília, publicado no ano passado, ela observa que a menor participação também é perceptível nessa área.


“As questões de gênero são potencializadas para a pessoa com deficiência. Se, para o homem com deficiência, é difícil, para a mulher, é ainda mais”, observa Teresa Amaral, superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD). “Imaginar uma mulher com limitação produzindo é mais custoso para a população, e, mesmo na parcela com deficiência, há mais homens em posições-chave.”
Já Nadja Nara Quadros, presidente do Instituto Ápice Down, acredita que a exclusão não se dá por esse fator. “Em relação à questão de gênero, eu acho que não existe muita discriminação. As trabalhadoras enfrentam preconceito por terem filhos, por terem menor força, mas, quando se trata de vagas para pessoas com deficiência, isso não tem grande impacto”, rebate. Segundo Teresa Amaral, o primeiro desafio enfrentado por essa parcela da população é a visão da sociedade. “Olha-se a pessoa com deficiência pelo que ela tem de negativo. Não percebem que ali tem alguém com potencial para ser um excelente profissional.”
Legislação

A existência da Lei de Cotas (nº 8.213/1991), que estabelece reserva de vagas em companhias a partir 100 funcionários, não é garantia de inserção profissional. “A lei é fundamental, mas, infelizmente, em muitos casos, não é respeitada”, ressalta Teresa Amaral. Seguundo a presidente do Instituto Ápice Down, Nadja Nara Quadros, um grande entrave é que, para cumprir a cota, há companhias que se limitam a contratar pessoas cujas limitações não requeiram adaptações estruturais e dispêndios financeiros. “Como as empresas têm um conhecimento diminuto da questão, terminam recrutando profissionais com deficiências que consideram leves em cargos baixos, de apoio administrativo. Cegos, cadeirantes e surdos, por exemplo, têm mais dificuldade”, analisa Teresa. Ela acredita que falta um entendimento de que deficiência não resulta em ineficiência. “A capacidade de superação e adaptação é tão grande que a pessoa pode desempenhar qualquer papel, desde que tenha acesso a educação, meios de chegar ao trabalho e lá encontrar acolhimento.” É necessário também que haja incentivo maior à contratação. “As pequenas empresas são as que mais empregam no Brasil e não são submetidas às cotas”, afirma Teresa Amaral.

 

Histórias de superação

Conheça moradoras da capital federal e os percalços enfrentado para se inserirem no mercado de trabalho

 

Ajuda necessária
Para Natália de Sousa Sena, 28 anos, secretária na empresa EPC Construções, as associações de atendimento a pessoas com deficiência são fundamentais para inserção no mercado de trabalho. A cearense com deficiência intelectual conseguiu o atual emprego com auxílio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), em que fez cursos de informática, serviços administrativos e auxiliar de cozinha, além de receber orientações para o mercado de trabalho. “A atuação da Apae é muito importante: as professoras orientam muito sobre o que fazer”, conta ela, que mora com um irmão. Atualmente, ela está satisfeita com o ambiente de trabalho, no qual relata que todos a tratam bem, sem preconceitos. No entanto, em experiências anteriores, não era assim. “Os colegas me diziam que eu não sabia trabalhar, criticavam tudo o que eu fazia por conta da minha deficiência.” 

 

Difícil inserção
A dificuldade de encontrar uma  vaga destinada a profissionais com maior qualificação foi um obstáculo para Camila Góes, 37 anos, psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), que trabalha, desde 2009, como secretária-executiva no Comitê Paralímpico Brasileiro. Ela se tornou cadeirante devido a um erro médico cometido quando tinha um ano e dois meses: Camila passou por uma cirurgia para retirar um cisto benigno entre as vértebras, e o médico deixou 15cm de gaze na coluna dela. O problema demorou a ser descoberto e gerou infecção e lesão medular. Natural do Rio de Janeiro, ela trabalhava no Hospital de Saúde Mental da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e veio a Brasília em 2008 passar por uma cirurgia, que acabou não dando certo e, no ano seguinte, começou a trabalhar no Comitê Paralímpico, onde enfrentava dificuldades de locomoção. “Eu dirijo, mas, a princípio, não tinha onde estacionar e passava por rampas malfeitas. Ainda hoje, quase todo dia, tenho problema com gente usando a vaga de deficiente irregularmente ou moto parada na faixa listrada, destinada aos cadeirantes. É um problema social gravíssimo”, relata.


Ela gosta de onde trabalha, mas a inserção empregatícia não foi fácil. “A gente encontra muita dificuldade porque, por mais que você seja qualificada, é difícil conseguir um cargo legal. Quando contratam, é para subemprego. É muito difícil conseguir, de cara, uma boa vaga. Nunca analisam pela qualificação. É como se fosse um favor, não há muita perspectiva de crescimento”, percebe. “Tem muitas coisas que as pessoas julgam que eu não sou capaz de fazer por ter uma deficiência. Há um tempo, por exemplo, tentei trabalhar na área de eventos, de que gosto muito, e o cargo sempre me foi negado. Questionavam como uma deficiente trabalharia ali, mas a organização de eventos compreende muito mais logística do que esforço braçal.” Na visão de Camila, as pessoas com deficiência precisam se preparar muito mais, com estudo e esforço, para compensar a desigualdade.

 

Estudar para poder trabalhar

 

As irmãs Maria da Conceição Pereira Silva, 56 anos, Ana Márcia Pereira dos Santos, 49, Alessandra dos Santos Lopes, 43, e Vera Regina Pereira dos Santos, 46, trabalham em diferentes órgãos públicos da capital federal. As três primeiras são mães e servidoras, e a última é terceirizada. Elas fazem parte de um total de 11 irmãos e, além delas, um dos homens da família é cego, além de ter deficiência intelectual. A rotina corrida, conciliando trabalho e vida pessoal, é como a de qualquer outra pessoa, mas a dificuldade é intensificada pelo fato de elas serem cegas de nascença.


Diagnosticadas com retinose pigmentar, uma doença hereditária, as tocantinenses sempre foram estimuladas pelos pais a estudar. “Minha mãe sempre nos estimulou a estudar e trabalhar para ser alguém na vida. Eu sempre tive vontade disso e, graças a Deus, procurando e me dedicando, eu consegui. O emprego é fundamental, é com ele que me mantenho, pago por minha moradia”, conta Vera, que é casada e sem filhos. Ela trabalha como revisora de braille terceirizada há nove anos na gráfica do Senado Federal, onde examina legislações e livros, ao lado de dois colegas cegos.


Até conseguir o emprego, trabalhou em serviços temporários, como exposições e conferências na mesma função. Ela conseguiu todas as oportunidades por meio da Associação Brasiliense de Deficientes Visuais (ABDV). “É difícil conseguir emprego. Dependendo do lugar, a empresa tem que fazer muitas adaptações e prefere não chamar um deficiente”, conta ela que fez curso de telemarketing, mas nunca conseguiu emprego na área.


Conceição sofreu grave discriminação no trabalho. Mãe de dois filhos, ela é auxiliar operacional de serviços diversos em radiologia da Secretaria de Saúde do DF e atua no Hospital Regional de Ceilândia. “Em 1996, fui movida da Regional de Ceilândia para a de Taguatinga sem minha autorização. O funcionário que me transferiu alegou que deficiente visual só rendia 70% de uma pessoa normal e disse que não me queria lá”, conta ela, que produz e vende artigos de tricô para complementar a renda. Felizmente, a violação foi revertida após 22 dias, depois que ela entrou com recurso.


Mãe de três filhos, Ana Márcia, formada em letras português-inglês pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), é servidora da Secretaria de Saúde há 31 anos. Embora esteja lotada como telefonista, não exerce mais a função, uma vez que o cargo se tornou obsoleto. “Tenho me sentido improdutiva porque não tem serviço para mim. As salas de telefonia acabaram: fico lá para dar uma ou outra informação, o telefone não toca muito”, revela Ana Márcia.


Na opinião dela, o Estado deveria oferecer capacitação ao funcionário em vez de deixá-lo ocioso. “Muita coisa pode ser feita, principalmente na parte de informática. Se colocarem as pessoas com deficiência visual para aprender a mexer no sistema, a gente vai poder fazer o trabalho que todo mundo do administrativo faz.” Além do cargo público, ela é revendedora de produtos da empresa Amway.


Servidora da Secretaria de Educação, lotada no Centro de Ensino Especial 1 do Gama desde 1998, Alessandra é professora de atividades de início de escolarização, como português e matemática, por meio do braille e soroban, instrumento de cálculo. Pedagoga pela Universidade de Brasília (UnB), somente há dois anos passou a conseguir exercer a função para a qual é concursada, alfabetizando crianças. Anteriormente, se ocupou dando aulas de música no órgão.


Atualmente, ela relata que as principais dificuldades incluem lidar com a percepção das pessoas de que ela não é capaz do trabalho. “Na minha casa, sou uma pessoa normal: sou uma dona de casa, casada, com três filhos, mas, aqui, pensam que não posso contribuir com nada. Não existe pessoa que não possa contribuir com algo no ambiente de trabalho”, argumenta. “Para a pessoa que não conhece, não sabe como lidar com a questão específica da pessoa com deficiência visual, o meu conselho é que fique ali observando. Não pergunte, não duvide, não faça comentários.”

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa

 

 

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