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PRIMEIRA INFÂNCIA »

Para trabalhar com desenvolvimento infantil

Pesquisadoras discutem a formação necessária para trabalhar com crianças de até seis anos de idade. A área deve ser estudada não só por professores, mas também por trabalhadores de saúde, assistência social, direito, arquitetura e engenharia

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postado em 13/11/2016 09:41

Ana Paula Lisboa

Quando se fala em formação de pessoas para trabalhar com a primeira infância — período que compreende de zero a seis anos de idade —, é comum fazer uma associação com professores. No entanto, a gama de trabalhadores que deveriam receber capacitação a fim de atuar para garantir que crianças nessa faixa etária — considerada essencial para garantir o pleno desenvolvimento de um indivíduo — cresçam saudáveis, seguras e com a chance de adquirir todas as competências necessárias é muito maior. Médicos, enfermeiros, dentistas, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos e outros trabalhadores da saúde, assistentes sociais, advogados e juristas, agentes de segurança, designers, arquitetos e engenheiros entram nesse rol, na visão de Sara Barros Araújo, coordenadora do mestrado em educação pré-escolar do Instituto Politécnico do Porto, em Portugal; Patrícia Almeida, pesquisadora de formação de professores e didática na Fundação Carlos Chagas (FCC); e Anna Chiesa, professora de enfermagem e saúde pública da Universidade de São Paulo (USP).


As três participaram do 6º Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, entre as últimas segunda e terça, em Recife (PE), onde falaram a cerca de 480 pessoas sobre a formação de profissionais para a primeira infância. “Há alguns cursos em que, inicialmente, poderíamos não perceber a associação com o tema. É o caso de arquitetura, urbanismo e engenharia, mas profissionais desses ramos são essenciais para gerar cidades amigas da criança”, comenta Sara Barros Araújo, mestre em psicologia e doutora em estudos da criança pela Universidade do Minho. “Inclusive, isso é importante para que se construam escolas e creches adequadas”, complementa Patrícia Almeida, pedagoga, mestre e doutora em educação e pós-doutora em psicologia da educação.


Anna Chiesa, graduada, mestre e doutora em enfermagem e saúde pública e pós-doutora pela Florence Nightingale School of Nursing and Midwifery, em Londres, defende que seja feita uma reforma nas formações de profissionais que afetam o desenvolvimento infantil. Além de incluir conteúdos sobre o tema no currículo, as graduações devem dedicar uma abordagem sistêmica e multidisciplinar à temática. “Na saúde, por exemplo, os cursos têm conteúdos sobre criança, mas o foco está na patologia — não se pensa no desenvolvimento integral. O resultado é que os profissionais não sabem se comunicar com a família. Quando um paciente chega a um consultório, é praxe perguntar com o que ele trabalha; mas, ao atender uma criança, muitos não perguntam o que ela faz, se brinca, com o que brinca...”, observa. “A reforma no ensino superior é necessária não em ampliação de carga horária, mas na maneira como o conteúdo é abordado.”
Ela acredita que a mudança nas graduações deve ser incentivada por organizações mobilizadas pela causa, como a Rede Nacional da Primeira Infância.


Patrícia pondera que não existe impedimento para que o tema seja melhor trabalhado: a carência está em priorizar. “Do ponto da legislação, a possibilidade existe. As diretrizes da educação superior no Brasil têm caráter bastante aberto: não se define quais disciplinas devem ser ministradas, e as instituições têm possibilidade de desenhar currículos diferenciados. É um avanço, mas boa parte das universidades não se apropriou disso ainda. No caso específico da formação de professores, acredito que é preciso ter uma reformulação geral, porque o ensino é muito pulverizado, e a educação infantil acaba sendo deixada de lado.”


Na opinião de Anna Chiesa, professora da USP, uma opção para abordar conteúdos sobre crianças de até seis anos em diversos cursos é investir em extensão universitária, aliada à pesquisa, com um foco multidisciplinar. A docente alerta que é fundamental que a educação universitária se atente a essa temática para possibilizar uma sociedade que cumpre a legislação. “O Marco Legal da Primeira Infância — lei nº 13.257/2016, sancionada em março, que cria iniciativas voltadas à promoção do desenvolvimento integral das crianças do nascimento aos seis anos — não se viabiliza se não trabalharmos a formação. Não adianta ter uma lei sem profissionais preparados para aplicar.”


A preparação para isso, no entanto, não deve se limitar às faculdades. “Nem tudo pode ser feito na formação inicial. É preciso ter educação continuada para todos os profissionais”, destaca Sara, do Instituto Politécnico do Porto. “Isso deve ser estimulado inclusive pelos locais de trabalho, algo que não acontece hoje”, pondera Anna Chiesa. Entre as características desejáveis entre quem construir uma carreira que afete a primeira infância estão curiosidade, empatia, engajamento pessoal e profissional e intersetorialidade.

 

Planejamento urbano
A Iniciativa Internacional Cidades Amigas da Criança (CFCI) foi lançada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 1996 para promover a resolução aprovada na segunda Conferência das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (Habitat II), que transforma as cidades em locais habitáveis por todos e que ajudem a promover o respeito aos direitos de meninos e meninas. Saiba mais em: www.unicef.org.

 

Falta valorização

Um problema para atuar em primeira infância é que esse tema sofre certa depreciação. “A docência, em geral, é desvalorizada, mas a de educação infantil é ainda mais”, percebe Patrícia Almeida. Anna Chiesa acredita que, na saúde, a desvalorização ocorre com relação à atenção básica. “A área mais visada é a que envolve mais tecnologia, como UTI. Poucos querem ser médicos de família. Mas atenção básica é a que pode lidar mais com o desenvolvimento da criança”, acrescenta.

 

* A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

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