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Exclusão de gênero e de raça

Para que a inserção de trabalhadoras negras no mundo laboral seja mais qualificada, não basta esperar mudanças espontâneas: especialistas defendem políticas públicas voltadas a empresas

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postado em 20/11/2016 14:15 / atualizado em 28/11/2016 18:18

O prejuízo do racismo

 

Gabriela Studart
 

No Dia da Consciência Negra, a série “Empoderamento feminino” traz à tona dificuldades vivenciadas por mulheres pretas e pardas. Relatório do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que não há muito a comemorar e afirma que as afrodescendentes “enfrentam uma dupla discriminação no mercado de trabalho, de raça e de gênero”. Entre essas mulheres, na capital federal, a taxa de desemprego é a mais elevada, e o valor pago por hora trabalhada é o mais baixo (saiba mais em A dimensão da disparidade no DF). A exclusão se repete nos demais locais avaliados pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED): Fortaleza, Porto Alegre, São Paulo e Salvador.


Os números foram divulgados na última semana, mas eram esperados. “A negra é a maior vítima do mercado de trabalho”, pondera frei David Santos, diretor executivo da organização não governamental Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes). Na visão dele, essa realidade é fruto dos quase 400 anos de escravidão de negros no Brasil e do fato de, mundialmente, a mulher ser mais oprimida. O diretor da ONG vê poucos avanços sociais e avalia que, em muitos casos, a escravidão apenas mudou de formato.


“Não tem dois anos que as empregadas domésticas — em maioria, negras — foram igualadas a outros trabalhadores”, comenta. No DF, 14% das negras e 9,7% das não negras são domésticas. Mesmo entre as profissionais pretas e pardas que tiveram acesso a boa educação e ocupam posições de melhor remuneração, o racismo afeta o dia a dia. “Estive com uma dentista negra que, volta e meia, é tratada como assistente, e houve  pacientes que se recusaram a ser tratados por ela”, exemplifica.


Professora de comunicação e serviço social da Universidade Católica de Brasília (UCB), a doutora em comunicação e pesquisadora de raça e gênero Isabel Clavelin observa que as negras se encontram na base da pirâmide social. “Nas relações de trabalho, isso afeta objetivamente o ingresso, o acesso a promoções, a permanência, o salário... Elas se deparam ainda com outras dificuldades, como assédio sexual e moral.” Essa estrutura é perpetuada, na opinião da pesquisadora, por uma conivência das empresas com o racismo. “As companhias sabem da situação, mas pouco fazem”, diz. Exemplo disso é que as negras são apenas 0,4% das executivas do país, segundo dados do Instituto Ethos sobre as 500 maiores empresas do país.


Dione Moura, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), analisa que profissionais pretas e pardas enfrentam diversos obstáculos — o primeiro deles, socioeconômico, que leva a piores condições de educação. “Existe ainda uma visão de que elas são menos capazes para o trabalho”, diz a doutora em ciências da informação.

Estética
O racismo o perpassa, inclusive, aspectos estéticos. Em muitos casos, as próprias pretas e pardas têm em mente um ideal de beleza europeu e, em outros, há cobranças para que elas se sujeitem a ele. “Quando a primeira desembargadora negra do Rio de Janeiro — Ivone Caetano — foi tomar posse, um desembargador perguntou se ela participaria da cerimônia com aquele cabelo”, exemplifica frei David Santos.


“O preconceito não é causado pelo cabelo, pelo turbante ou pela roupa, mas pelo que as pessoas acham que isso significa. O brasileiro tem dificuldade de lembrar o período de escravidão, então optou por negar os elementos africanos. Há uma fuga em reconhecer a identidade negra, e as dívidas decorrentes dela. É uma tentativa de apagar essa ancestralidade que foi injustiçada. O mesmo acontece com os indígenas”, analisa Dione Moura.


Essa tentativa de eliminar o débito social também poderia explicar a rejeição às religiões de matriz africana. “Os escravos foram impedidos de cultuar deuses próprios. Até hoje, esses ritos são considerados, por muitos, como inapropriados”, comenta Isabel Clavelin. “Isso também afeta o mundo do trabalho, pois pessoas dessas religiosidades são julgadas como macumbeiras. É mais uma discriminação”, diz.

Soluções
“A humilhação que a mulher negra passa, desde o período colonial, só será vencida com o trabalho conjunto da sociedade e com boas políticas públicas”, propõe o frei David Santos, da Educafro. As pesquisadoras Dione Moura e Isabel Clavelin concordam. “Precisamos de medidas que responsabilizem as empresas. Não dá para o mercado se regular. Iniciativas de adesão voluntária — como o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, do governo federal — têm pouca adesão. É preciso criar sanções”, defende Isabel. Para ela, como as organizações, em geral, não enxergam a falta de inserção de trabalhadoras negras como um problema, cabe ao governo trabalhar essa questão de cima para baixo.


Opções que se mostraram positivas, na visão da professora Dione Moura, são a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade de temas sobre a história e a cultura afro-brasileiras no ensino básico, e as cotas raciais no ensino superior público, para  aumentar o número de profissionais graduados negros. No entanto, é preciso ter mais políticas públicas efetivas para o mercado de trabalho. Ela cita os Estados Unidos como a nação com ações mais fortes com relação a isso. “Esse país desenhou o perfil das empresas para perceber se elas são inclusivas ou não. Mesmo lá, a solução não foi definitiva (já que essas medidas não acabam com o racismo, mas garantem acesso a melhores condições socioeconômicas): há poucos dias, a primeira-dama Michelle Obama foi alvo de racismo, e isso teve consequências.”

 

Mão de obra negra 

 

Gabriela Studart

 

Confira relatos de trabalhadoras que enfrentaram obstáculos por conta da cor da pele

 

Luto transformado em luta

Conhecida como Daniblack, a administradora Danielle Morais, 28 anos, é terapeuta comunitária do Jovem de expressão, projeto social da Caixa Seguros, que visa afastar jovens de Ceilândia e Sobradinho da violência e contribuir para o desenvolvimento deles, por meio de oficinas profissionalizantes e culturais. Além da atuação no projeto, Daniblack é microempresária, responsável pela Coroa Abayomi, por meio da qual visita escolas, ONGs e outros espaços promovendo conversas sobre raça e gênero, além de oficinas de turbante.


 

A jovem, que trabalhou como auxiliar administrativa e vendedora, se engajou no movimento negro e o transformou em profissão depois de um episódio traumático. “Meu irmão sofreu violência policial e foi assassinado por arma de fogo. Antes, eu não tinha noção da importância de ser como uma pessoa preta da periferia. Transformei meu luto e minha dor em luta”, revela. Outra fonte de sofrimento que ela reverteu foi o racismo. “Sempre me discriminaram por ser preta, sempre fui a negra da turma, sofri bullying”, conta ela, que defende a bandeira LGBT.


“Sexualmente, eu me considero livre de rótulos. Posso me apaixonar por um homem, por uma mulher, por um drag. As pessoas têm muito preconceito contra isso também”, percebe. “No mercado de trabalho, passei por situações de discriminação em entrevistas de emprego por usar rastafári e turbante. Perguntavam se eu usaria aquele cabelo quando fosse trabalhar ali. Antes de me verem, eu ia bem nos processos seletivos, mas, cara a cara, diziam que eu não tinha o perfil procurado”, recorda. “Se eu tivesse me rebaixado aos padrões cobrados, alisando o cabelo, talvez tivesse sido empregada, mas não estaria realizada como me sinto hoje, num lugar que me contratou por eu ser como sou.” No Jovem de Expressão, Daniblack promove diálogos com jovens sobre racismo, cotas, gênero, intolerância religiosa e outras temáticas. Quando adolescente, ela foi beneficiada pelo projeto que a ajudou a ganhar consciência de gênero e raça. “Isso me empoderou.”

 

Preconceito persistente

 

Gabriela Studart
 

 

Graduada em biblioteconomia pela Universidade de Brasília (UnB), Dandara Baçã, 29 anos, é servidora pública do Ministério da Saúde há dois anos e percebe ter sofrido situações de preconceito tanto lá quanto na esfera privada. “Trabalhei pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) na UnB, na Faculdade Anhanguera e na Unip (Universidade Paulista) e foram oportunidades difíceis de conseguir, pois, em diversos processos seletivos, os empregadores perdiam qualquer pressa em contratar quando me viam e sempre diziam que iam deixar para preencher a vaga depois. Numa seleção para trabalhar com um software com o qual eu tinha experiência, preferiram contratar uma pessoa recém-formada, branca, por exemplo”, recorda.


“A consciência racial é nova para mim, então, em muitos casos, só percebi que tinha sido discriminada depois. Em todos os espaços, vejo que eu sempre preciso demonstrar mais resultado, estudar mais, citar vários autores quando for dar meu parecer técnico — e a pessoa branca não precisa desse respaldo”, conta. Uma mensagem que ela deixa para jovens negras é a de não se sujeitar a empregos que não respeitam direitos trabalhistas. “É melhor se dedicar a estudar até encontrar algo melhor do que ficar num trabalho que é similar a escravidão”, garante.


O racismo a acompanha desde cedo. “No ensino fundamental, num caso concreto, um menino me chamou de macaca. Fiquei bem triste”, lembra. No entanto, os casos de exclusão são mais amplos. “Nunca fui par de ninguém na quadrilha da escola, nunca fui cotada para ser rainha da pipoca. Diziam que meu cabelo era de bombril, de piaçava. Eu não percebia isso como racismo porque eu também o achava ruim na época”, diz ela, que parou de alisar as madeixas e assumiu um vistoso black power. “Foi uma desconstrução muito grande para mim, pois meu ideal de beleza era o cabelo liso.”

 

Leia  
 O livro dos negros
O nome da obra é o título de um documento histórico mantido por oficiais navais britânicos. Aqueles que não tinham o nome no livro não conseguiam liberdade. Aminata Diallo, sequestrada ainda criança na França e vendida como escrava na Carolina do Sul, percorre uma longa trajetória para conquistar o direito de ser livre. A protagonista é fictícia, mas representa a situação das negras que viveram esse período.


Autor: Lawrende Hill
Editora: Primavera Editorial
408 páginas
R$ 39,90

 

Desbalanço no topo

A pesquisa O perfil social e racial das 500 maiores empresas do país, do Instituto Ethos, mostra que as mulheres - independentemente de raça — estão sujeitas a desigualdades, que aumentam conforme o nível do cargo: elas são 58 dos estagiários, 55% dos aprendizes e apenas 13,6% das executivas e 11% dos membros dos conselhos de administração. Já as negras aparecem com ainda mais desvantagem: elas são somente 0,4% do quadro executivo. Na edição anterior do estudo, o valor era de 0,6%, o que revela piora na inclusão.

Trabalhadores em
cargos executivos
correspondem a

86,4%
dos homens em geral

13,6%
das mulheres em geral

0,4%
das mulheres negras

 

 

 

>> ENTREVISTA LUISLINDA VALOIS »

 

A cara da luta pela igualdade

 

Luis Alves
 

A secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial acredita que um dos piores problemas do país é o mito da democracia racial. Ela estimula jovens negras a investirem nos estudos 

 

Aos 75 anos, a baiana Luislinda Valois está à frente da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) desde julho de 2016. Desembargadora aposentada do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJBA), foi a primeira juíza negra do Brasil. Ela ingressou na carreira da magistratura em 1984. Em 2012, tomou posse na Academia de Letras José de Alencar, em Curitiba (PR). Antes de atuar como magistrada, foi professora do Colégio Militar do Exército no Paraná, advogada militante do Estado da Bahia e procuradora autárquica do Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (DNER). Membro da Soberana Ordem da Sociedade Intercontinental de Ciências Humanas e do Instituto Geográfico Histórico da Bahia, recebeu o título de embaixadora da Paz da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2012. Ela tem um filho, que é promotor de Justiça em Sergipe. Confira a entrevista com ela:

O que podemos esperar da sua gestão na Seppir?

Estamos trabalhando pela inclusão da mulher negra nos três poderes e na iniciativa privada,  não apenas em atividades de execução: mas de assessoramento, chefia e comando. Na política, estamos tentando fazer alguma coisa para que a negra não apenas se candidate, mas para que a própria mulher negra vote na mulher negra. Com relação ao Poder Judiciário, estamos pedindo cotas para negros no quinto constitucional — dispositivo que prevê que um quinto dos membros de tribunais superiores e estaduais sejam composto por advogados e membros do Ministério Público em lugar de juízes de carreira.

A solução para que a sociedade brasileira seja mais inclusiva deve
partir de políticas públicas?

Sim,  mas também precisamos dar a elas a oportunidade de demonstrar seu potencial. Nas políticas públicas, podemos ter medidas punitivas, mas também de estímulo, além de comunicar melhor a situação do negro no país, em que o pior problema é o mito da igualdade racial.

Como o fato de ser mulher e negra trouxe obstáculos para você?
A minha vida foi e continua repleta de desafios. Só pelo fato de eu ter sido a primeira juíza negra, dá para ter uma ideia do meu sofrer. Sempre transpus os desafios e até parece que não passei por eles. Mas eles estão aí. Chegar a ser desembargadora foi o momento mais crucial da minha vida. Era um sonho. Eu era a juíza mais antiga do estado, mesmo assim, ninguém oficializava o meu pedido. Tive que tomar atitude, recorri ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e tive ganho de causa, mas o estado da Bahia entrou com mandado de segurança para que eu não tomasse posse. Depois, o tribunal, até me concedeu moção de aplauso, mas não esqueço o que passei. Sou negra, de origem pobre, candomblecista, divorciada, nordestina, cabelo rastafári e não abro mão dos meus direitos.

Você pode citar alguma situação de discriminação que passou?
Trabalhando como juíza, quando voltei do toalete, encontrei uma advogada sentada na minha cadeira. Pedi: “doutora, me dê licença que quero trabalhar”. Ela disse: “essa cadeira é do juiz”. Ela sabia quem eu era, pois eu estava de toga e tudo. Ela só saiu quando viu que eu estava chamando o policial. O país é machista e branco, e as pessoas não estão acostumadas a ver negras nos tribunais.

Como foi a sua criação?
Minha mãe era professora, mas não conseguiu ser nomeada, por ser bem pretinha, então se tornou lavadeira. Meu pai era motoreiro de bonde. Éramos muito pobres, mas minha família sempre foi orientada no sentido de disciplina rígida, de estudar bastante e cumprir as obrigações na forma da lei. Essa disciplina eu apliquei também porque, quando eu tinha 14 anos, minha mãe faleceu e tive que ajudar a criar meus três irmãos. A criação do meu filho foi do mesmo jeito. Ele é um negão e eu dizia sempre: “não deixe ninguém lhe pisar, você é um cidadão brasileiro”.

Desde a sua infância, como você avalia os avanços no sentido de promoção da igualdade racial para a mulher negra?
Mudou, claro, porque a sociedade evolui, mas foi pouco. Nós precisamos de muitas mulheres negras nos tribunais, como magistradas, deputadas, senadoras, governadoras... Por que não enegrecer este país, no bom sentido? Nós não temos oportunidades e precisamos fazer acontecer as oportunidades para nós, se não, continuaremos sendo bons eleitores, excelentes contribuintes e nada mais.

Quem mensagem você pode deixar a jovens negras?
Estudem bastante e persigam seus sonhos. Não queiram somente a vassoura e o pano de chão, queiram as canetas para decidir os seus destinos e os do país.

 

Mão de obra negra 

 

Gabriela Studart
 

 

Confira relatos de trabalhadoras que enfrentaram obstáculos por conta da cor da pele

 

Quando os fatores de raça e gênero são perpassados por outros problemas, a discriminação pode ser ainda maior. Marivânia Xavier dos Santos, 39 anos, sofre com epilepsia desde os 14 anos. “Na adolescência, nem eu acreditava em mim. A medida que amadureci, vi que a doença não te impede: quem mais te impede é você mesmo e quem está próximo por causa de estimas e crenças de que você não é capaz de fazer nada”, afirma. “É um problema de saúde que qualquer um pode ter e que traz limitações, sim. Antes, eu aprendia algo só de ouvir falar; com a doença, passei a ter mais dificuldades.”


Apostando no esforço para superar os desafios, ela fez faculdade de teologia assim que terminou o ensino médio e embarcou numa missão de dois anos em Moçambique. “Tive crises no exterior, mas fui bem supervisionada porque meus colegas sabiam do problema.” No período, ela atuou como voluntária num posto de saúde e, assim, se interessou pela área. Agora, está prestes a terminar a segunda graduação, em enfermagem. O preconceito racial sempre fez parte da vida dela.


“Uma colega de curso disse que, agora que vou me tornar enfermeira, preciso alisar ele para poder trabalhar num hospital ou clínica. Mas o cabelo faz parte da minha identidade, e isso não deve ser tirado de ninguém. A cor da pele ou o jeito do cabelo não deveriam importar, o que deve valer é o profissionalismo da pessoa”, desabafa ela, que acredita que o racismo é um problema que persiste na sociedade brasileira. “É um pensamento medíocre. Se for pela cor da pele, ainda hoje, o negro não entra em lugar nenhum. Vencemos na sociedade por conta da nossa garra. Em entrevistas de emprego, sei que tenho menos chances de ser escolhida, ainda mais que os empregadores costumam pedir currículo com foto”, lamenta. Antes da faculdade de enfermagem, Marivânia trabalhou em empresas terceirizadas como secretária e apoio administrativo em que constatou o problema, mas está confiante para vencer qualquer desafio.

 

Sempre minoria

 

Breno Fortes
 

 

Juliana Menezes, 37 anos, é filha de pai negro e mãe branca, nasceu e cresceu na Asa Sul. “Meu pai, falecido, teve carreira no serviço público, então tive acesso a espaços privilegiados. Nas escolas particulares e nas boas públicas em que estudei, não sofri racismo assumido, mas eu sempre era minoria”, conta. No mercado de trabalho, a discriminação mostrou sua cara. Como servidora do Ministério da Educação (MEC) de 2005 a 2011, Juliana revela ter passado por situações de exclusão. “Apesar de ter trabalhado lá durante um governo de esquerda, que tem uma série de bandeiras e ações afirmativas importantes, o discurso para fora é um e porta adentro é outro. Eu vi machismo, racismo e homofobia muito presentes”, recorda a jornalista.


“Quando você quer galgar mais espaços, percebe que não é vista como uma figura de direito. Existe uma dificuldade de enxergar a mulher negra — que está no piso da pirâmide social — nos espaços de poder. Sofri assédio moral e cheguei a ser ofendida por uma chefe”, recorda. Por conta disso, ela protocolou um processo administrativo interno. “Foi algo bem desgastante. Fui hostilizada e passei a não ser convidada para participar de reuniões.” Juliana retirou a queixa no órgão para pensar em recorrer judicialmente, mas, após deixar o MEC e ter começado a trabalhar como servidora em segurança pública em outra instituição, deixou para lá. “Apesar de ser uma área majoritariamente masculina, não sofri preconceito.”


A brasiliense teme retrocessos na luta por igualdade com o aumento da onda de conservadorismo mundo afora e acredita que o ativismo e políticas afirmativas — como as cotas — são importantes para ajudar a sanar lacunas da desigualdade. “Mas temos que ter cuidado para que o ativismo não seja intolerante contra brancos, por exemplo. Temos que lutar por igualdade para todos”, defende. Hoje, Juliana faz questão de estampar a identidade negra em todos os aspectos da vida. “Cheguei a alisar o cabelo e, hoje, assumo não só o cabelo, mas também características físicas e acessórios de estilo africano”, diz. “Além disso, digo de boca cheia que sou umbandista. As religiões de matriz africana não são algo para se envergonhar”, finaliza.