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O futuro do trabalho fala inglês

O DF é a unidade federativa com maior fluência na língua de Shakespeare. Mas a média brasileira deixa a desejar. É preciso investir no ensino do idioma para formar a mão de obra que o mercado necessita

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postado em 20/11/2016 15:22 / atualizado em 20/11/2016 15:30

Talita de Souza *

A sexta edição do Índice de Proficiência em Inglês, realizado pela Education Fist (EF), avaliou o desempenho de 950 mil adultos de 72 países no idioma e revelou que, no Brasil, o Distrito Federal (com 53,01 pontos) é a unidade federativa com maior fluência na língua. Entre as cidades, Brasília (com 53,48 pontos) foi a que teve melhor desempenho, classificando-se com proficiência moderada no exame. Os outros dois únicos municípios nesse nível foram São Paulo e Campinas. De acordo com Ariane Cienglisk, supervisora do curso de inglês da UnB Idiomas, o motivo para a média brasiliense está relacionado ao poder aquisitivo dos moradores e à necessidade do mercado.


“O ensino escolar é bem precário, uma piada. Porém, há vários cursos de inglês em Brasília, e aqueles que tiverem um bom padrão financeiro farão. Na capital, os cargos são de nível mais alto, e quem não souber o segundo idioma está fora”, decreta. Apesar de alunos da rede pública terem menos chances, ela acredita que a existência dos Centros Interescolares de Línguas (CILs) ajuda. “Não são instituições ideais, mas os estados que não os possuem estão em pior situação”, afirma.


A performance brasiliense coloca o quadradinho candango um grau acima da média nacional no teste: o Brasil foi classificado como território de proficiência baixa, no 40º lugar no ranking dos países. A pesquisa revela que o nível de fluência de uma nação aumenta de acordo com o grau de desenvolvimento: no topo, com proficiência muito alta, estejam Holanda, Dinamarca e Suécia. A renda média anual per capita líquida nesse nível é US$ 41.259. No grupo de proficiência muito baixa, os ganhos por ano são de US$ 5.280. No intervalo de proficiência baixa — em que se encontra o Brasil —, de US$ 7.616.


“Para que um país possa ter bom desempenho no mundo competitivo atual, precisa ser proficiente”, afirma Luciano Timm, vice-presidente de Relações Institucionais e Acadêmicas da EF. “Antes o inglês era usado por multinacionais, em posições técnicas. Hoje, o Brasil faz mais negócios com outros países. Por isso, não só executivos, mas também profissionais de base precisam ter proficiência na língua”, diz Daniela Verdugo, consultora da First RH Consulting.  “É importante estar preparado  e, assim, se tornar elegível para melhores oportunidades”, afirma.

 

Conhecimento necessário

Segundo Daniela Verdugo, da First RH Consulting, é provável que gestores escolham alguém não tão qualificado ou experiente na área de atuação, mas que tenham fluência em inglês, por considerarem o idioma como prioridade. O mesmo se repete em processos seletivos. “Conhecimentos na língua podem render ainda diferenças salariais”, afirma ela, que detecta urgência em mudar o contexto nacional com relação ao inglês. “Precisamos rever isso, pois, num futuro próximo, daqui cinco ou 10 anos, a maioria das vagas disponíveis no mercado exigirá bom nível de inglês, e não temos a formação necessária”, alerta.
Luciano Timm, da EF, observa que países que fizeram uma reforma no ensino médio e que têm o inglês como uma das matérias obrigatórias evoluíram mais do que o Brasil. “A Argentina tem um nível de inglês tão bom quanto o da Itália e, no caso da Colômbia, houve evolução na pontuação”, afirma. Segundo ele, o Brasil tem uma oportunidade de avançar com a Medida Provisória 746/2016, que prevê a reforma do ensino médio. “Além disso, é preciso que seja discutida metodologia inovadora e eficaz de ensinar. Não adianta querer que os alunos estudem inglês se a forma de passar o conteúdo estiver defasada”, conclui.


Para Ariane Cienglisk, da UnB Idiomas, apenas alterar o processo no ensino médio não será suficiente. “Isso precisa ser iniciado mais cedo, senão não adianta. Um dos maiores erros nas escolas é o fato de os professores darem aula em português: isso não traz vivência real, e os alunos acabam não aprendendo nada”, conclui.

 

Fez diferença / Conheça histórias de profissionais que tiveram saltos na carreira por conta dos conhecimentos em inglês

 

 

 

Portas abertas
Fernanda Mara Gomes, 34 anos, começou a estudar inglês aos seis anos, obrigada pelo pai, e continuou até obter o certificado de fluência, aos 16. Ela cursou o ensino médio nos Estados Unidos e se tornou professora de inglês. Quando decidiu cursar direito, achou que não poderia ter chances na carreira no exterior, mas, depois de formada, foi a única de Brasília selecionada para participar da edição de 2016 do intercâmbio jurídico The Law Society of England and Wales. “Quando concorri, era advogada há dois anos e três meses — quando o mínimo para participar do programa são dois — e concorri com gente muito mais experiente. Foi o inglês que fez diferença”, percebe. Após o intercâmbio de um mês, a advogada atuou como trainee e, após três meses, foi contratada por um escritório em Londres, onde trabalha desde o início do ano. “As pessoas acham que não conseguirão oportunidade no exterior, mas tem sim, e o inglês te leva até elas”, conta, animada.

 

Profissão proficiente

 

 

 

Segundo o sexto Índice de Proficiência em Inglês, os serviços de consultoria constituem o ramo mercadológico mais proficiente do mundo. A profissão de gerenciamento de projetos está incluída no setor e é a segunda com melhor desempenho. José Alves, 55 anos, gerente de projetos no Ministério da Fazenda, afirma que não há como atuar na função sem um bom conhecimento no idioma. “Eu estudei inglês na minha adolescência, porém percebi que não era suficiente quando fiz a prova de certificação para gerente de projetos, que, na época, era em inglês”, lembra o economista e especialista em administração. “O inglês de sobrevivência não é suficiente para a profissão, não é capaz de sustentar uma conversa de negócios, nem possibilitar que a pessoa se mantenha atualizada. Então os interessados da área precisam adquirir fluência e acredito que vem daí o sucesso da proficiência da profissão mostrada na pesquisa.”

 

Futuro promissor à vista

 

 

 

Aos 18 anos e aluna do 3º ano do ensino médio, Débora Braidotti é fluente em inglês. O interesse pelo idioma surgiu ao observar o pai, professor de inglês e missionário, conversar com amigos de outros países. Sempre interessada na língua, fez cursos e estudou sozinha até alcançar a excelência. No primeiro semestre de 2014, cursou parte do primeiro ano do ensino médio nos Estados Unidos. Nas férias, entre dezembro de 2015 e janeiro deste ano, voltou aos EUA para trabalhar como au-pair. “A experiência me deu um certificado que me coloca à frente por conta da minha proficiência em inglês, e conheci culturas completamente diferentes”, afirma. Hoje, a jovem percebe que viver em outro país com pessoas diferentes trouxe maturidade e paciência, além da fluência. Os planos dela incluem galgar posições no exterior e ela está certa de que, com o idioma, conseguirá chegar aonde deseja. “Quero fazer odontologia aqui e mestrado lá fora”, almeja.

 

Níveis de proficiência

 

Muito alta: permite leitura de textos complexos e negociar com um nativo
Alta: garante apresentação profissional e compreensão de programas de tevê
Moderada: o falante pode participar de reuniões em uma área específica
Baixa: nível básico para turista
Muito baixa: permite se apresentar e dar instruções básicas

 

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa

 

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