PERFIS DE SUCESSO - LURDES NUNES CARDOSO E CARLOS AUGUSTO CARDOSO »

As delícias da dona Lurdes

Com restaurantes no Guará e em Águas Claras, mãe e filho servem almoço para cerca de 900 pessoas por dia e cativam com temperos regionais e um jeitinho de "casa de vó"

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postado em 04/12/2016 15:47 / atualizado em 04/12/2016 16:04

Minervino Júnior

A mineira Lurdes Nunes Cardoso, 73 anos, cresceu na zona rural e aprendeu a cozinhar com a mãe, aos 11 anos. “Com ela, não aprendi a fazer comidas muito diferentes, mas sim o forte do dia a dia. Quando casei com fazendeiro e fui morar com a minha sogra, aí aprendi demais. Eu era a nora preferida dela e tenho muito orgulho disso até hoje, pois o que sei de cozinha quem me passou foi ela. Não esqueci de nada até hoje”, lembra. Os ensinamentos foram certeiros, e as receitas, de tão boas, são aprovadas pelas cerca de 900 pessoas que almoçam e pelas cerca de 400 que pedem marmita diariamente nos dois endereços do D’Lurdes Delícias de Minas. Nos fins de semana, o número de clientes que passam pelas casas aumenta para 1,5 mil em cada uma, e há filas para atendimento.


No total, são mais de 160 empregados e, este ano, a casa saiu da categoria Simples Nacional, regime de tributação em que o faturamento bruto anual não pode ultrapassar R$ 360 mil, para se tornar uma empresa média. Em geral, o negócio cresce 30% ao ano. Em 2016, por conta da crise, a taxa deve chegar a 10%. A primeira unidade, aberta há sete anos, está situada na QE 30 do Guará, onde ficava a casa da família.


A segunda, na Avenida Castanheiras de Águas Claras, começou a funcionar há um ano e quatro meses (saiba mais em www.dlurdes.com.br). Entre os destaques do cardápio estão feijoada e picanha com batata sauté. O negócio começou por necessidade. “Eu tinha uma empresa de distribuição de CDs e DVDs, mas era um mercado que estava chegando ao fim. Fui à falência e fiquei com uma dívida muito grande”, recorda Carlos Augusto Cardoso, 38, um dos seis filhos de Lurdes. Para ajudar a pagar as contas e o aluguel, surgiu a ideia de comercializar marmitas de feijoada, em casa mesmo. Para fazer a primeira leva, pegaram dinheiro emprestado. No primeiro sábado, venderam 50 quentinhas. No próximo, foram 100. De marmita em marmita, a iniciativa se tornou um restaurante.


“No começo, era só para o pessoal levar, mas as pessoas pediram para colocarmos mesinhas para comerem ali. Aí foi crescendo e foi vindo mais e mais gente”, revela Carlos. Com o dinheiro que ganhavam num dia, compravam os ingredientes para o próximo. Por um tempo, Lurdes comandou as panelas sozinha. Agora, cabe a ela a missão de atestar a qualidade de tudo o que é servido. “Eu ficava na cozinha. Hoje, estou mais gerenciando, porque andei caindo. Agora, venho todo dia e experimento a comida”, conta Lurdes, chamada carinhosamente de “vozinha” pela equipe. É por todo esse esforço que o filho a descreve, com olhar emocionado, como uma mulher “guerreira”.


Questionada sobre a fonte de tanta “garra”, ela diz que isso vem da vontade de ajudar. “Como meu filho estava precisando, eu encarei o desafio com ele. No começo, trabalhava desde cedo, ficava no fogão e na chapa — era um sufoco só, mas eu gostava. Quanto mais prato saía, mais eu queria”, recorda ela, que tem 11 netos e seis bisnetos. O D’Lurdes não é a primeira experiência da família com um restaurante. Quando morava em Belo Horizonte, Lurdes e o marido abriram um boteco. “Ficávamos perto da Ceasa, e os caminhoneiros desviavam da BR e entravam para dentro do bairro só para comer com a gente”, lembra Carlos.

Inovação e tradição

As raízes de Lurdes são, como ela diz, da roça — onde criou cinco dos seis filhos. Essa característica permaneceu no restaurante brasiliense, que serve desde pratos típicos de Minas Gerias, como tutu, feijão-tropeiro e galinha caipira, até preparações que foram “amineiradas”. É o caso da costelinha ao molho barbecue. “Trazemos novidades, mas sem perder nossa raiz, que é a simplicidade da comida mineira. Queremos conquistar Brasília e o Brasil sem deixar nossa origem”, define Carlos Augusto. “Eu gosto de inventar receita. Vou acrescentando coisas gostosas e melhorando”, conta Lurdes, que trabalhou como salgadeira no passado. O tempero das refeições é bastante simples — basicamente alho e sal — e o jeito mineiro de cozinhar é mantido.


No entanto, as inovações estão por toda a parte, inclusive no formato de produção da cozinha, que funciona no esquema de montagem de uma fábrica automobilística para conseguir eficiência. “Somos um espaço a la carte (com cinco opções diárias de pratos) em que o tempo médio de permanência das pessoas é de 20 minutos. Por mais cheio que o espaço esteja, conseguimos servir cada refeição em até cinco minutos. No primeiro ano, demorávamos de uma hora e meia a duas horas”, explica o empresário. Outra prova da vontade de fazer diferente é o rodízio de pizzas, massas e caldos, servido à noite.


Mesmo assim, o regionalismo não se perde. No começo, eram 15 sabores de pizza, hoje são 50 e incluem frango com quiabo, frango com pequi, rapadura com queijo minas e escondidinho de carne. Lurdes e o filho definem como ingredientes da receita de sucesso da empresa perseverança e insistência com a qualidade. Um dos desafios foi tornar uma iniciativa de fundo de quintal uma empresa.

 

Confira em vídeo relatos dos proprietários