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Como ficam os negócios em 2017?

Segundo especialistas, o novo ano é propício para abrir ou expandir empreendimentos, desde que sejam tomados cuidados necessários, que envolvem pesquisa e planejamento. Confira dicas para acertar!

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postado em 25/12/2016 15:01 / atualizado em 28/12/2016 13:57

Guia de empreendedorismo para 2017

 

Gabriela Studart

Recessão prolongada — a pior da história do país —, crise política, desemprego em alta, inflação ainda por se estabilizar... Esses e outros indicadores financeiros têm assustado empreendedores e aspirantes a empreendedores no que se refere ao futuro dos negócios em 2017. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê avanços reduzidos no próximo ano: a estimativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 0,5%, a indústria tenha expansão de 1,3% e os investimentos aumentem 2,3%. Já o Relatório Focus, do Banco Central, prevê crescimento do PIB de 0,7% — menor que o estimado em junho, de 1,36%. Tudo isso impacta as expectativas dos donos de empreendimentos com relação ao país: o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) recuou 3,7 pontos de novembro para dezembro, fechando em 48.

Os pequenos negócios tendem a ser os que mais sofrerão com a crise: segundo a Serasa Experian, o número de pedidos de recuperação judicial de empreendimentos, entre janeiro e outubro de 2016, (1,6 mil) bateu recorde em comparação com 2015, puxado, principalmente, pelas micro e pequenas empresas, responsáveis por 990 solicitações.

No entanto, o governo acabou de lançar o pacote de 10 medidas para estimular a economia e o emprego — que prevê flexibilização das regras de pagamento de cartão de crédito, cheque ou dinheiro, desburocratização dos negócios, renegociação de dívidas, expansão do crédito, estudo para reduzir os juros do cartão de crédito, entre outras propostas. Na última quinta-feira, anunciou projeto de lei que modificará 12 pontos da legislação trabalhista, medidas que agradam aos empresários. Algumas delas: a jornada de trabalho subirá para até 12 horas, a duração do contrato temporário passará de 90 para 120 dias e o crédito rotativo do cartão será limitado a 30 dias.

O diretor-superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Sebrae-DF), Valdir Oliveira, espera que essas medidaspossam mudar o panorama econômico. “A possível diminuição do prazo de repasse do cartão crédito para os lojistas, por exemplo, traria mais condições e flexibilidade para os empreendedores”, afirma. Porém, ele acredita que o momento econômico não é o principal a se levar em conta na hora de abrir um negócio. “O que o empreendedor precisa é entender como a crise afeta a área na qual ele quer investir e quais são as atuais necessidades do consumidor. Na recessão, também existem oportunidades”, garante.

Para Bruno Fernandes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), os negócios devem avançar em ritmo lento no ano que vem e tendem a melhora ra partir do segundo semestre. “O mercado de trabalho ainda está fraco, e a taxa de juros que os bancos cobram continua alta — isso impacta diretamente e negativamente os negócios”, explica. Mestre em economia. Fernandes afirma que este não é o melhor momento para empreender, mas pondera que é um período mais propício do que há dois anos.

Fundador e diretor da Consultoria Saad Branding Design, Lucas Saad observa que é preciso agir desde já. “A economia deve dar uma retomada, e não se pode esperar a crise passar para começar a pensar em abrir um negócio: é necessário se preparar desde cedo para que, quando o período de recessão acabar, o negócio esteja em rota de crescimento”, aconselha.

No entanto, para dar certo, qualquer trajetória empreendedora exige muita pesquisa e preparação. Diretora de Expansão da Franquia Exata, Nara Silveiro diz que “é um erro comum se precipitar no investimento sem analisar o mercado, os concorrentes e o consumidor, e calcular erroneamente o montante necessário para abrir a empresa”. A gerente da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia do Sebrae-DF, Flávia Firme, reitera que é de extrema importância fazer um planejamento estratégico. “Assim, a empresa consegue prevenir problemas, entender o cenário, reduzir custos, conhecer tecnologias, pensar em inovação e na captação de clientes”, explica.

Segundo Raphael Costa, fundador do Instituto Brasileiro Master Coaching, os planejamentos externo e interno ajudam a manter um negócio. A primeira dica consiste em pensar apenas nos passos a serem tomados pela empresa. A segunda engloba o autoconhecimento . “No Brasil, o planejamento interno é pouco explorado. Geralmente, as pessoas só pensam em gerar lucro, mas é preciso ser maduro para saber se quer e pode ser empresário”, afirma.

A quantidade de empresas que fecham as portas antes dos cinco anos de existência é grande, e isso não se deve só a um mercado ruim. “É necessário ter a consciência de que abrir uma empresa é sinônimo de abdicar de muitas coisas. Será que você está preparado para isso?”, indaga o mestre em comportamentalismo. Quem decide ser dono de um negócio precisa ainda buscar conhecimento, por meio de cursos de empreendedorismo sobre a área-fim da empresa.

 

Metas de empreendedores

 

Gabriela Studart
 

 

Um novo ramo em mente

Para não cometer o mesmo erro de quando abriu o restaurante de comida indiana Bhojana, em outubro de 2015, localizado na Cooperativa dos Artesãos Moradores do Lago Norte (Quituart), Rodrigo Aquino (foto), 30 anos, aposta em planejamento e em uma análise aprofundada de mercado. O empresário deseja abrir um bar de petiscos e cervejas especiais e artesanais no lugar do negócio atual em 2017. “O espaço em que fica meu empreendimento reúne muitos restaurantes de vários tipos. Quando abri, por não ter feito nenhum tipo de pesquisa, não pensei que isso poderia afetar os lucros”, lembra. “Pelo que tenho estudado, acho que minha nova proposta será mais vantajosa e encontrei alguém que entende do assunto para me ajudar: meu sócio, que é beersommelier”, conta. Formado em administração pública e em gastronomia, Rodrigo construiu, com a ajuda do Sebrae, um plano de negócios e uma pesquisa de mercado. “Tenho um pouco de receio da crise, mas estou confiante, pois, desta vez, me preparei”, garante.

 

Caminho para empreendedores


Assim como em casa, é comum fazer uma grande faxina para organizar o espaço e se livrar do que não precisa mais perto da virada do ano. Nos negócios não é diferente. Os dias que restam até o fim de dezembro podem ser um momento interessante para fazer um diagnóstico do cenário e da área em que o empreendedor atua. Segundo Salvatore Milanese, um dos autores do livro Reestruturação de empresas: como recuperar e reerguer negócios. A dica de Milanese para rever as finanças é separar o que é urgente e essencial para a firma do que não é. “Sempre tem alguma despesa que pode ser cortada por um período. Como 2017 é um ano incerto, é melhor diminuir todos os gastos possíveis”, aconselha o graduado em bancos e finanças pela Universidade de Messina, na Itália, e pós-graduado em liderança pela Fundação Dom Cabral. Ele alerta que isso não significa, necessariamente, demitir empregados. “Se uma função não parece mais útil, uma boa opção é realocar o funcionário em um departamento semelhante, assim ele pode produzir mais em uma posição um pouco diferente”, diz. 

 

 

Parceria de família

 

César Rebouças
 


A publicitária Monya Jarjour, 29 anos, e a mãe dela, que foi decoradora de eventos, Lúcia Lima, 60, abriram, há um ano e meio, a loja virtual Estampa de Mesa, especializada em enxoval de mesa. Elas vendem acessórios como capas em tecidos, jogos-americanos, porta-guardanapos e guardanapos. “Sempre gostamos de receber as pessoas com tudo arrumado. Começamos sem muitos planos, apesar de amigos falarem que tínhamos que investir nisso”, lembra Monya. A família da empresária também tem uma rede de postos de gasolina e uma indústria de água mineral, e Monya afirma que esses outros empreendimentos a ajudaram a ter a base necessária para começar outro negócio. “Tudo hoje em dia gira em torno da internet, então, nosso primeiro meio foi o Instagram e, há um mês, abrimos o site”, conta. Monya confessa que a crise afetou as vendas neste ano. “Sabemos que o que vendemos não é essencial na vida das pessoas, mas tem gente que gosta muito, principalmente porque é algo exclusivo e artesanal”, diz. Para 2017, a publicitária pretende aumentar a linha de produtos oferecidos. “Porém, não queremos aumentar os gastos. Pretendemos procurar outros fornecedores para ter mais opções”, diz.

 

Para ter um negócio

 

Gabriela Studart
 


Técnico em edificações, Lucas Kevin Macena, 22 anos, quer abrir, em 2017, uma empresa de reformas de casa e projetos arquitetônicos, hidráulicos, elétricos e estruturais. Está juntando dinheiro para isso. “O desemprego só cresce, essa área não está muito boa aqui em Brasília, e eu gostaria de ter algo meu para não depender dos outros. Penso em abrir um negócio no escritório da minha casa e, na medida em que crescer, ter uma loja física”, revela ele, que trabalha no estoque de uma papelaria e cursa o oitavo semestre de engenharia civil. A situação econômica o assusta e ele chegou a pensar em aprimorar os conhecimentos nos Estados Unidos, depois de terminar a faculdade. “Quero me aperfeiçoar mais na área, pois acho que isso dá mais credibilidade. Estou fazendo pesquisas sobre o mercado e juntando dinheiro para dar os próximos passos”, diz.

 

Leia

 

Empreenda sem fronteiras
Autor: Bruno Pinheiro
Editora: Gente
192 páginas
R$ 29,90

 

 

 

 

 

 

 

 

Reestruturação de empresas
Autores: Alexandre B. David, Antonio Bruno de Carvalho, Daniel A. Aniceto, Denis F. Madrigano, Marcelo Sacramone, Paulo Carnaúba, Salvatore Milanese e Teresa Simões
Editora: Matrix
168 páginas
R$ 32

 

 

 

 

 

 

Empreendedores inteligentes enriquecem mais
Autor: Gustavo Cerbasi
Editora: Sextante
208 páginas
R$ 34,90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mercado brasiliense

 

Em ranking que avalia as condições de abertura de negócios em diferentes cidades, o DF ficou na 16ª posição. Para especialistas, a capital federal ainda precisa desenvolver uma cultura empreendedora

 

No Índice de Cidades Empreendedoras do Brasil de 2016, elaborado pela organização de apoio ao empreendedorismo Endeavor, Brasília ficou na 16ª posição. O estudo analisou 32 cidades, incluindo 21 capitais, e levou em conta o ambiente regulatório, o mercado, o acesso a capital, a inovação, a cultura empreendedora e a mão de obra básica e qualificada. O objetivo do estudo é servir de base para que as cidades entendam como oferecer melhores condições para que os empreendedores possam crescer. Em 2015, o DF apareceu no 19º lugar. Na edição de 2014, que avaliou 14 cidades, a capital federal ficou na 5ª colocação. Diretor geral da Endeavor no Brasil, Juliano Seabra afirma que o resultado do DF não foi nem bom nem ruim. “Nenhuma das mudanças que Brasília teve de 2015 para 2016 foram significativas. A cidade tem muito potencial para crescer no empreendedorismo, pois tem boa mão de obra e um ente federativo a menos, o que facilita as políticas públicas e, consequentemente, gera menos burocracia”, explica.

Já o diretor-superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Distrito Federal (Sebrae-DF), Valdir Oliveira, vê no estudo um estímulo para os futuros e atuais empresários da capital. “Crescemos muito em vários aspectos, mas, principalmente, no ambiente regulatório, o que significa que Brasília é um solo fértil para criar um negócio”, garante. Oliveira ressalta que um aspecto no qual o DF precisa melhorar é a inovação. “Provavelmente por causa da crise, os empresários ficam com receio de investir em coisas diferentes para não ter gastos extras, quando, na verdade, inovar é o ponto-chave para começar ou continuar um negócio”, ressalta.

Com especialização em viabilidade econômica de projetos, o diretor diz que é normal esse tipo de comportamento. “Este ano foi muito difícil para os empreendedores e talvez 2017 também seja, por isso, o desespero para conseguir manter o negócio é constante”, comenta. Mestre em administração pública e governo, Juliano Seabra, da Endeavor, ressalta que o ponto mais fraco de Brasília é a cultura empreendedora que, por dois anos consecutivos, ficou na última posição no estudo. “Talvez por causa da força do funcionalismo público, as pessoas não enxerguem que ser empreendedor também é uma opção de profissão por aqui”, alerta.

Valdir Oliveira, do Sebrae-DF, concorda com Seabra: como Brasília é conhecida como a terra dos concursos públicos, as pessoas não ficam estimuladas a empreender. “Porém, acredito que isso deve mudar daqui a alguns anos, pois, uma hora, não vai ter mais como seguir só a carreira pública, as pessoas vão enxergar uma oportunidade para o empreendedorismo”, diz. O diretor ainda ressalta que, tanto para quem quer empreender, quanto para quem tem um negócio, é positivo começar ou continuar a investir em 2017. “Independentemente da área, estará em alta o empresário que conhece seu público-alvo, fornecedores e concorrentes, e, a partir disso, sabe quais são as necessidades dos consumidores”, completa.

E a crise?
Com MBA em gestão de estratégia da informação, Flávia Firme, gerente da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia (Uait) do Sebrae-DF, observa que há prós e contras de abrir ou manter um empreendimento no período atual. “Sem recessão, os negócios ficam estagnados: as empresas não buscam inovação, contam com a mesma clientela, não investem em qualificação e não prestam atenção aos gastos. Já, em um período como este, os empresários precisam se mexer, estar atentos à concorrência, buscar tecnologias e reduzir custos”, opina. Raphael Costa, fundador do Instituto Brasileiro Master Coaching, garante que a crise se torna mais difícil se o empresário não estiver disposto a mudar. “Não se pode tentar vender um produto do mesmo jeito que se vendia há um tempo. É importante observar os hábitos atuais do consumidor”, alerta.

Sobe e desce

Sobe e desce do mercado
“Os setores que podem estar em alta em 2017 são o de infraestrutura, pois o governo tem que fazer novas concessões de exploração mineral, porque o preço está se recuperando; e os relacionados à soja, pois a cotação está se mantendo no mercado, e açúcar, porque o preço está subindo. Já o do comércio deve continuar em baixa, pois os brasileiros são muito endividados e tendem a comprar menos”, diz Salvatore Milanese, que tem mais de 20 anos de experiência em gestão de crise de empresas, fusões, aquisições e estruturação de financiamentos. Com relação ao crescimento do setor de serviços, Salvatore afirma que depende muito da retomada da economia em 2017.

 

Qualidade e conhecimento

 

Gabriela Studart
 

 

Voldir Rodrigues, 56 anos, dono dos restaurantes Cantina de Roma em Águas Lindas e Taguatinga Norte, aposta na qualidade dos serviços prestados e em manter os preços para atravessar o período de crise. Ele admite que o momento é complicado e que tem tido de trabalhar mais do que antes para dar conta do serviço. “De 43 empregados, tive que demitir 11”, revela. Esta não é a primeira vez que o empresário enfrenta dificuldades. De 2006 a 2011, ele teve uma franquia da rede Tele Pizza de Roma e, sem ter conhecimentos sobre gastronomia, logo ficou endividado e chegou a dormir no automóvel com a esposa por não ter onde morar. “O escritório era o porta-malas do carro. Hoje em dia, eu não me arriscaria a abrir um negócio sem ter ciência daquilo que quero fazer e um profissional para me ajudar. Quem não está capacitado não tem vez”, conta ele, que fez cursos de manipulação de alimentos e gerenciamento de equipes. Em 2017, Voldir pensa em abrir uma nova unidade. “Ainda estou pesquisando qual é o melhor lugar e também fazendo um planejamento de tudo que será preciso”, diz.

"Em 2017, quero abrir uma nova unidade e ainda estou planejando e pesquisando onde”
Voldir Rodrigues, dono dos restaurantes Cantina de Roma

 

 

Tres perguntas para / Bruno Pinheiro

 

Arquivo Pessoal
 

 

Formado em publicidade e com MBA em branding, Bruno Pinheiro, 34 anos, morou em mais de 40 países com a esposa e os dois filhos para adquirir novas experiências. Hoje, ensina empreendedores a potencializarem resultados por meio das redes sociais. Especialista em marketing digital, ele é autor do livro Empreenda sem fronteiras.
 
Por que você decidiu escrever o livro?
90% das pessoas que começam um negócio não sabem o que querem, e isso é um ponto negativo, pois acabam escolhendo qualquer caminho. Há três anos, ajudo empreendedores a montar e aumentar empreendimentos on-line e quis compartilhar dicas que acho fundamentais para isso. Abro a cabeça dos empresários para o universo on-line, mostrando que ele é uma ótima opção na atualidade, pois, comparado aos meios tradicionais, tem um custo menor.
 
Que dicas você daria para aqueles que têm uma empresa em 2017?
Investir no meio digital produzindo bons conteúdos, e educar os clientes (oferecendo conteúdo de boa qualidade e adequado e direcionado às necessidades deles). Para isso, você precisa conhecer bem o público, saber os problemas e desejos dele e qual o benefício que o que você vende traz. Muitas pessoas se preocupam  com as especificações técnicas do produto, mas isso não é o mais importante.
 
Qual a dica para quem pretende montar um negócio?

É preciso definir a identidade da empresa, missão, visão, valores e posicionamento. Depois que descobrir isso, crie uma meta. As redes sociais são de extrema importância, mas é necessário ter autoridade e engajamento, que se consegue com um bom conteúdo. O acesso do seu público nas mídias sociais é o que pode manter e atrair novos clientes.

 


* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa