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DF ganha Uber dos flanelinhas

Aluno de pós-graduação do Iesb criou aplicativo que traz oportunidades a guardadores de carros e segurança a motoristas. A startup promete alavancar a profissão dos que ganham a vida nos estacionamentos

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postado em 25/12/2016 16:04 / atualizado em 25/12/2016 16:36

O mercado de startups brasilienses acaba de receber mais um membro: a StreetPark.me, que promete proporcionar interação direta e segura entre motoristas e guardadores de carros. A startup tem sido chamada de “Uber dos flanelinhas”, por ter funcionamento similar ao do aplicativo de transporte particular : é possível verificar os flanelinhas cadastrados perto da sua localidade, visualizar as fotos e o perfil deles, conversar com eles, escolher um e, na hora de ir embora, optar por um valor e pagar com cartão de crédito.  Há ainda a opção de visualizar o carro via satélite e ser informado se deixou o farol aceso ou vidros abertos.  Liberada ao público em 25 de novembro, a iniciativa conta com 120 flanelinhas cadastrados.

A solução foi criada por Ricardo Bernardes, 40 anos, administrador mineiro que cresceu em Brasília. A ideia pretende modernizar a profissão de guardador de carros, que existe há mais de 40 anos no Brasil e há 39 é regulamentada, pelo Decreto Federal nº 79.797/1977. A carreira sofre com a evolução dos meios de pagamento: como a população adere, cada vez mais, a cartões de crédito e débito, se torna mais difícil ter em mãos um trocado para remunerar flanelinhas. Ricardo Bernardes enxergou este cenário na época em que era dono de uma locadora de veículos ao observar um guardador de carros. “Percebi que ele perdia a chance de fazer muitas lavagens pelo fato de as pessoas não terem dinheiro na hora”, conta. O lucro no aplicativo vem de uma taxa cobrada sobre os ganhos dos flanelinhas.

Gabriela Studart
Ricardo demorou um ano para tirar a StreetPark.me do papel, e a semente para desenrolar a solução foi a pós-graduação em desenvolvimento de aplicativos para dispositivos móveis que cursa no Centro Universitário Iesb. Ele conseguiu colocar o projeto na incubadora de empresas da faculdade, o Iesb Lab, há três meses. Além do aplicativo para guardadores de carros, Ricardo Bernardes se ocupa da Startup.me, lançadora de startups incubada no mesmo lugar. “Temos 12 inciativas incubadas, e a StreetPark.me é uma das mais maduras, tanto que cresceu bastante e com sucesso”, afirma o professor de engenharia elétrica Alexandre Loureiro, coordenador técnico da incubadora Iesb Lab.

 “A startup identifica um problema na sociedade ou na economia e tenta trazer solução de baixo custo e, muitas vezes, gerando polêmica. A do Ricardo foi polêmica porque tem gente que tem rejeição a esses profissionais”, diz. O professor acredita que o empreendimento evidencia um mercado que tem grande potencial, uma vez que alguns guardadores chegam a faturar R$ 6 mil por mês. “Além disso, a Street Park.me tem o conceito de escalabilidade e pode ir para outros estados, pois a solução cabe em todos os cenários.”

Ingresso
Somente guardadores cadastrados na Secretaria de Trabalho do Distrito Federal podem participar do aplicativo. Para ter esse registro, é preciso comprovar que não tem ficha criminal. Muitos não sabem que o ofício é regularizado e trabalham na clandestinidade, outros, realmente, são ficha suja. Por isso, a certificação do Governo de Brasília é importante para garantir a segurança. O objetivo da empresa é alcançar cerca de 8 mil guardadores do Distrito Federal, dos quais 2,5 mil são registrados na Secretaria de Trabalho.

 

 

 

“Temos uma lista dos guardadores cadastrados no Sindicato dos Guardadores e Lavadores Autônomos de Veículos do DF (Sindiglav/DF)”, conta Ricardo. A empresa oferece treinamentos de vendas, atendimento, cidadania e combate às drogas, com apoio de professores do Centro Universitário Iesb e promete fornecer atualizações semestrais. Todos os guardadores registrados no aplicativo ganham um colete com o nome da empresa.

“Eu não tenho máquina de cartão. Se o cliente quer lavar o carro, mas não tem dinheiro em espécie, o que eu faço? Perco um bom dinheiro! Eu vendo limpador de para-brisas e, outro dia, um motorista precisava de um novo, mas só estava com cartão, e perdi a venda. Hoje não tenho mais esse problema, porque dá para pagar tudo com o aplicativo”, diz Lidiomar dos Santos, 43. Guardador de carros desde os 10 anos num estacionamento no Setor Comercial Sul, ele acha que a StreetPark.me renovará a profissão.

Depois que se cadastrou na StreetPark.me, os ganhos de Geraldo Rodrigues, 65, flanelinha há oito anos, aumentaram, e a maior diferença, segundo ele, é o colete da empresa, que ele passou a usar no trabalho. “Os clientes olham de maneira diferente, sabem que é alguém responsável, cadastrado, gente boa”, ressalta ele, que vigia carros em Ceilândia.

Polêmica
Professor de engenharia de tráfego no Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), mestre em engenharia de transportes e doutor em estudos de transportes, Paulo César Marques acredita que iniciativas como a StreetPark.me ajudam a resolver problemas cotidianos. Um exemplo é o tempo desperdiçado pelo motorista para localizar vagas, dificuldade que poderia ser resolvida com uma das funcionalidades do aplicativo: a localização dos carros via satélite. “Se a função for ajustada para mostrar as vagas livres, isso evitaria que o usuário ficasse rodando em busca delas”, diz.

Porém, o professor alerta para uma possível brecha: a comunicação entre o motorista e o guardador poderia ser usada para burlar fiscalizações. “O condutor que estaciona em local errado poderia utilizar o chat do aplicativo para ser avisado pelo flanelinha se o Departamento de Trânsito (Detran) estiver fiscalizando a região”, afirma. Questionado sobre essa possibilidade, o criador do aplicativo, Ricardo Bernardes, afirma que não há como impedir a situação totalmente, mas, para evitá-la, colocará a o aviso sobre a proibição de estacionar em locais inapropriados nos termos de uso do software e implementará sanções aos guardadores que a burlarem.

Do ponto de vista jurídico, a advogada dos ramos cível, trabalhista e direito do consumidor Thaís Maldonado acredita que a StreetPark.me está dentro das normas e não faz cobranças indevidas. Alguns podem dizer que o aplicativo lucra no espaço público, mas ela rebate ao afirmar que o ganho provém de atividades on-line. “A cobrança é em cima da lavagem e da observação do carro. A plataforma oferta as atividades para o motorista e cuida do pagamento, recebendo do condutor e repassando para o flanelinha”, analisa.

Ela alerta, porém, que a verificação do serviço pode ser um problema. “Quem fiscalizará para saber se o guardador fez o que foi combinado?”, questiona. Ricardo Bernardes, criador da StreetPark.me, lembra que o pagamento é feito só após o término do serviço e, caso o cliente não fique satisfeito, não precisa pagar. Além disso, há  a opção de avaliar o guardador e, em casos de reclamações graves, o flanelinha pode ser descadastrado do aplicativo.

Acesse
O aplicativo está disponível para download no Google Play para o sistema Android. Usuários do IOS poderão acessar, a partir de março de 2017, na Apple Store.

 


* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa