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O efeito dos benefícios

Na crise, vantagens oferecidas aos empregados podem ser a primeira opção para cortar gastos, mas, segundo especialistas, os adicionais devem ser preservados: com eles, a empresa ganha em motivação da equipe e na retenção dos bons funcionários

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postado em 01/01/2017 16:22 / atualizado em 01/01/2017 17:13

Gabriela Studart

Em tempos de crise, é de se imaginar que benefícios que vão além do que é estabelecido pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT)  ou por convenções coletivas de trabalho — em que sindicatos podem adicionar vantagens, como vale-alimentação e plano de saúde, às obrigações do empregador — estejam sob ameaça. Talvez por isso, o benefício mais valorizado por brasileiros seja o vale-transporte (apontado como prioridade por 62% dos respondentes), algo previsto na CLT.

O resultado é de pesquisa promovida pela Ticket, empresa do segmento de benefícios.
O gerente de Estratégia e Marketing de Produto da Ticket Transporte, Giuliano Cavazzani, diz que “isso se deve à necessidade diária que o trabalhador tem de se deslocar”. Ele observa que, com muita frequência, a quantia do vale-transporte é integrada como parte do salário, algo proibido por lei. “No entanto, quando o benefício vem separado, é possível visualizar o valor agregado, o que ajuda a obter maior controle sobre os gastos”, observa. O levantamento entrevistou 802 pessoas do país. Globalmente, foram ouvidos 14 mil trabalhadores.

Bruno Goytisolo, sócio-diretor da Véli RH, pondera que o transporte público é deficiente, mas é fundamental para boa parte dos trabalhadores. “Entendo que esse resultado da pesquisa se deve à preocupação com a renda, pois parte do orçamento é destinada ao deslocamento”, completa o administrador e especialista em finanças. Se fosse questionada sobre o benefício mais importante para ela, Driele Andrade, 28 anos, também responderia que é o vale-transporte. “Não me surpreendi com esse resultado, pois muita gente não tem como ir trabalhar sem isso”, diz.

Por isso, a estudante de letras-inglês se sentiu lesada quando a escola de idiomas em que ela trabalhava, no Núcleo Bandeirante, deixou de pagar o auxílio-transporte por três meses. Driele percorria cerca de 20km diariamente para ir e voltar da firma. Deixar de receber o valor (R$ 150) causou muitos transtornos, por isso ela entrou com uma ação na Justiça a fim de receber o que deixou de ser pago. “É um benefício fundamental porque minha casa é longe do local de onde ministrava as aulas”, conta a moradora de Santa Maria.

Escolha com sabedoria


Bruno Goytisolo, sócio-diretor da Véli RH, ressalta que, apesar de benefícios não serem condição para reter bons trabalhadores, funcionam como um ponto a mais. “Se o empregador pode trazer vantagens, isso pode contribuir para a felicidade e a satisfação no ambiente empresarial.” Para que a estratégia dê certo, no entanto, é preciso estudar bem as possibilidades, entender o que combina com o perfil do negócio e avaliar se vale a pena. Diretora técnica de Saúde da Aon Brasil, corretora de seguros e consultoria em gestão de riscos, benefícios e capital humano, Rafaella Matiolio salienta que o conjunto de benefícios é responsável pelo segundo maior custo das organizações (o primeiro é a folha de pagamento). De acordo com a executiva, por causa do atual momento do mercado, adicionais funcionam como os principais incentivos para os funcionários.

“Embora os benefícios tragam maior impacto financeiro, são mais bem-vistos pelos empregados, o que torna a empresa mais competitiva”, esclarece. A saída é oferecer um plano de vantagens que não prejudique a instituição e seja bom para os colaboradores. De acordo com Bruno Goytisolo, sócio-diretor da Véli RH, é muito arriscado eliminar adicionais depois que foram oferecidos, pois o empregado passará a ter despesas extra, o que pode gerar insatisfação e uma perda real no quadro dos funcionários e na motivação dos que permanecerem.

“Cortar benefícios traz um estresse muito grande. Não tem nada que impeça a eliminação de fatores não garantidos pela CLT, mas parar de oferecê-los é um tiro no pé.”Caso a empresa precise cortar gastos, Goytisolo lembra que há outras opções. “Tem outras coisas que podem ser avaliadas, como mudar para um espaço físico menor, não adquirir ou renovar equipamentos. Também é válido negociar preço de matérias-primas com fornecedores e taxas de juros em empréstimos”, aconselha.

A pesquisa da Ticket mostrou que auxílios para dieta equilibrada e atividades esportivas (ambos com 27% da preferência) têm menores índices de valorização entre os entrevistados. No entanto, para a coordenadora de Estratégia e Marketing de Produto da Ticket, Juliana Konevalik, ganha-se muito ao  incentivar bons hábitos de saúde. “Essas medidas reduzem despesas com planos de saúde e geram produtividade entre os colaboradores”, garante.

Palavra de especialista


O que é de direito e o que é regalia?


Se um benefício foi oferecido ao trabalhador por livre iniciativa da empresa, esse adicional adere ao contrato de trabalho e jamais poderá ser retirado sem o consentimento do trabalhador. Porém, se a vantagem foi pactuada por meio de acordo coletivo com o sindicato da categoria, existe, sim, a possibilidade de ser retirada dos trabalhadores, pois vale apenas para o período preestabelecido.

Ricardo Meneses dos Santos, advogado especialista em
direito processual do trabalho, compliance trabalhista e
gestão de pessoas

 

 

 

 

Investindo em bem-estar

 

 

Jhonatan Vieira
 

Plano de saúde e odontológico e vale-refeição são benefícios mais comuns no mundo corporativo. Mas há empresas que extrapolam o básico e oferecem outras condições. A CA Technologies, multinacional de tecnologia, por exemplo, dá um kit de boas-vindas aos filhos recém-nascidos de funcionários, plano médico e odontológico, check-up anual, previdência complementar, seguro de vida, auxílio-alimentação, convênio com academias de ginástica, além de possibilidade de jornada flexível e home-office e da oferta de iniciativas voltadas à qualidade de vida e a treinamentos. A empresa também implementou, em agosto de 2016, uma política que concede três dias de licença remunerada a quem adotar animais.

O diretor de Recursos Humanos da companhia na América Latina, Silvio Trindade, informa que 16 empregados foram beneficiados com o programa no país. Na América Latina esse número gira em torno de 30. Globalmente, a CA Technologies emprega 11 mil funcionários e, no Brasil, 278, em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador.

“Imaginamos que a quantidade crescerá.” O objetivo é diminuir o número de animais de rua e também valorizar o bem que o convívio com um bicho traz ao empregado. Na ocasião, o dono também recebe um kit de boas-vindas para o pet. Em caso de falecimento do bicho, o proprietário também recebe três dias de licença. A organização faz uma avaliação mais ampla ao medir impactos que esse tipo de iniciativa tem no bem-estar dos colaboradores. “Os trabalhadores se tornam mais felizes e engajados. Há também repercussão positiva, pois os beneficiários compartilham essas experiências também fora do ambiente laboral.”

De acordo com Bruno Goytisolo, sócio-diretor da Véli RH, empresas que optam por oferecer benefícios diferenciados dentro do espaço de trabalho — como área para soneca e lazer, massagem e até serviço de lavanderia —geralmente precisam incentivar a criatividade, visto que a quebra de rotina ajuda a espairecer e pensar diferente. É o caso de grupos de tecnologia, como Google, Apple e agências de publicidade. Para implementar benefícios do tipo, o especialista frisa que é necessário estabelecer uma relação madura de trabalho, na qual os subordinados tenham noção das obrigações e dos resultados que devem atingir. Já empresas tradicionais, que não têm a inovação como o principal objetivo, na visão de Goytisolo, apresentam resistência a políticas liberais, pois ainda enxergam o horário e a estrutura do local como fatores diretamente ligados à produtividade.

Trabalhador satisfeito

O estatístico Jhonatan Ferreira, 31, é consultor de Pré-vendas no SAS, multinacional especializada em softwares de análise de dados, e está satisfeito com o pacote de benefícios que recebe: plano de saúde e odontológico, acompanhamento nutricional, subsídio para cursos de línguas em espanhol ou inglês e para frequentar academia, assistência jurídica e financeira, bônus por desempenho, programa de participação em resultados, entre outros. Jhonatan pôde escolher ainda entre ganhar vaga na garagem, vale-transporte ou reembolso para uso de carro fretado. Por causa das dificuldades para estacionar no centro da capital, ele optou pela primeira alternativa. “Isso é um diferencial porque, além de não haver estacionamento público por perto, sai caro alugar uma vaga”, pondera. “Dentre os benefícios, o que mais priorizo é o plano de saúde, pois seria muito difícil depender da rede pública, e o custo da particular é muito alto”, diz.

“Só não recebo as vantagens para as quais não me enquadro, como subsídio para creche e educação de filhos”, diz. No espaço da companhia, ele ainda usufrui de comodidades como lanche sem custo e TV a cabo numa copa, espaço zen com cadeira de massagem e música relaxante. Outras regalias são horário de trabalho flexível e bonificação financeira por fazer cursos. “Esses benefícios conferem estabilidade e segurança e foram mantidos em tempos de crise. Sinto que a empresa se preocupa em deixar os funcionários tranquilos em relação às adversidades que o país passa. É uma forma de valorizar o profissional e de reter os melhores”, analisa Jhonatan. O escritório da companhia no DF conta com 14 funcionários; em todo o Brasil, são 193 empregados e, mundialmente, 14 mil.

Incentivo

O Programa Empresa Cidadã (Lei nº 11.770/2008) acrescenta dois meses aos quatro firmados para a licença maternidade e 15 dias a licença-paternidade, que passa a ser de 20 dias. A medida é adotada por empresas que aderirem ao programa. Em compensação, a instituição adepta poderá deduzir a remuneração paga nos dias de prorrogação das licenças do imposto com base no lucro real.

Pesquisa


A Aon está promovendo uma pesquisa para traçar o cenário de tendências de benefícios no país. Para participar, organizações com mais de 150 funcionários podem se inscrever até 18 de janeiro de 2017 pelo site www.pesquisadebeneficiosaon.com.br.

Assista!


Vai ao ar às terças (às 20h30) e às quintas-feiras (às 16h30) no Canal Futura o programa Almanaque Saúde, lançado em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi). A programação aborda bem-estar e qualidade de vida, sobretudo no trabalho.

 

* Estagiário sob supervisão
de Ana Paula Lisboa