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Desafios da liderança

Segundo especialistas, o líder ruim não sabe se comunicar, dar feedback, delegar e, em suma, não se preocupa ou valoriza os funcionários. No entanto, é possível mudar o jogo, buscando capacitação e se esforçando para melhorar

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postado em 29/01/2017 15:19 / atualizado em 29/01/2017 16:44

 

No mundo corporativo, é comum ouvir que funcionários não se desligam de empresas ruins, mas, sim, de chefes ruins. Talvez por isso, tanta gente reclame do gestor que tem. O líder tem um impacto muito grande sobre o clima da equipe, a motivação e a produtividade dos subordinados. Só de boas intenções não se forma um bom gerente: um arcabouço de habilidades e competências se faz necessário. Há pessoas que apresentam mais aptidão para liderar, o que fica claro não só no ambiente de trabalho, mas em outros espaços, como a escola, a faculdade, o grupo de amigos. São indivíduos que exercem uma influência espontânea. Para boa parte dos profissionais, porém, o poder de conduzir precisa ser conquistado por meio de capacitações e de um esforço constante. De qualquer maneira, chefiar não é tarefa fácil. Por isso não é raro encontrar gente despreparada nessa missão.


Segundo Alessandra Vieira, psicóloga pela Universidade de Brasília (UnB) com MBA em administração de recursos humanos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e executive coach pela Sociedade Brasileira de Coaching, os principais erros de um chefe envolvem falhas na comunicação, falta de planejamento e dificuldade em dar e receber feedback. “Esse tipo de comportamento atrapalha os resultados que a empresa precisa alcançar. Mesmo que os funcionários sejam qualificados, o líder não vai conseguir extrair o melhor deles”, afirma ela, que é sócia-proprietária da Consulta RH.

 

Ed Alves

CEO da consultoria Odgers Berndtson no Brasil, administrador pela FGV, pós-graduado em gestão pela Fundação Dom Cabral e pela escola de negócios francesa Insead e autor do livro Empreendedores brasileiros (volumes 1,2 e 3), Luiz Wever alerta que o fato de um líder não se comunicar, ser fechado a sugestões e desconhecer a área na qual atua pode trazer consequências catastróficas para a companhia. “O chefe assim perde a credibilidade com o pessoal e não consegue se posicionar. Isso fará com que ele afugente clientes e potenciais líderes que podem estar em volta dele, pois essas pessoas se afastarão”, diz o cidadão germânico-brasileiro, que tem experiência em posições de liderança em empresas de diversos setores, incluindo Whirlpool e Tec Toy.


Consultor de desenvolvimento organizacional e liderança da Leverage Coaching, Paulo Aziz garante que ser bom ou mau chefe independe da idade. “Sendo de uma geração antiga ou nova, o líder que se mantém atualizado se desenvolve e entende as necessidades dos funcionários e do mercado”, completa o coach certificado pelo Integral Coaching Canada, pelo Behavioral Coaching Institute (BCI) e pela International Coach Federation (ICF). Fábio Eltz, consultor da Integração Escola de Negócios, observa que, no passado, era usual a ideia de conquistar respeito por meio do grito. “Hoje em dia, existem muitos meios para conversar, e o líder precisa ouvir as pessoas”, alerta. Um hábito negativo destacado por Aline Marra, graduada em comunicação institucional e relações públicas e master coaching na Federação Brasileira de Coaching Integral Sistêmico (Febracis), é incriminar os funcionários. “O líder ruim também é aquele que não assume as responsabilidades e os resultados obtidos. Ele culpa os empregados e se esquece de que o gestor é o reflexo da situação, sendo ela boa ou ruim.”

 

A crise dificulta?

 

Gabriela Studart
 

Psicóloga e coach Alessandra Vieira acredita que a recessão econômica não é um fator que atrapalha o modo de liderar. “É muito comum culpar os momentos difíceis por resultados insatisfatórios, mas o grande problema é a falta de planejamento”, alerta. Fábio Eltz, consultor da Integração Escola de Negócios, observa que, durante a crise, as pessoas ficam mais sensíveis e inseguras. “São nos períodos mais difíceis que um chefe mostra que sabe liderar, porque quem se planejou consegue passar pelas dificuldades.”

 

 

 

Experiências de aprendizado

Confira histórias de líderes que identificaram pontos fracos e descubra o que eles fizeram para melhorar

 

O problema era eu

 

Gabriela Studart
 

Na primeira posição de chefia que a nutricionista Karina Lacerda, 33 anos, ocupou, como consultora de produção em uma empresa de alimentos, ela comandou 80 funcionários por um ano. “Foi muito difícil, pois eu lidava com pessoas de jeitos e graus de instrução diferentes. Minha comunicação não era boa, e meu lado emocional ficou abalado”, lembra. Insatisfeita com a situação, Karina deixou o posto e decidiu abrir uma clínica de nutrição, em Taguatinga Norte, em 2013, achando que tudo se resolveria. “Com apenas uma funcionária, percebi que o problema não era a quantidade de empregados, mas, sim, eu mesma. Entendi que meus subordinados não me viam como líder. Decidi me especializar, fazendo cursos e conversando com outros profissionais. A partir disso, aprendi a entender o perfil das pessoas, o que me ajudou a me comunicar melhor.”


A secretária de Karina, Valquíria Dias, 24, é só elogios para as mudanças no comportamento da gestora. “Minha chefe é muito tranquila e passa essa serenidade para mim. Ela confia muito no meu potencial e isso me ajuda a compreender melhor minhas atividades”, garante. A secretária compara o modelo atual com experiências anteriores e percebe a diferença. “Trabalhei em vários lugares e nunca conseguia me adaptar pelo jeito que os superiores falavam comigo. Muitas vezes, não por grosserias, mas porque eu não entendia direito o que era para fazer e ficava muito nervosa, o que atrapalhava o meu desempenho profissional. Hoje, com a Karina, não tenho mais problemas de comunicação”, conta.

 

É preciso aprender  se relacionar

 

Antônio Cunha
 

Educador físico pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Renato Borges, 38 anos, nunca pensou que se tornaria chefe, mas aproveitou as oportunidades que apareceram ao longo da vida. Ele foi gerente de lojas de vestuário e bicicletas e, hoje, é  coordenador técnico da academia Quattor, em Águas Claras. Pós-graduado em fisiologia do exercício, Renato acredita que a maior dificuldade na liderança está no relacionamento interpessoal. “Cada um tem um jeito e uma opinião. É preciso entender as pessoas e as necessidades delas e, assim, extrair o melhor de cada uma, mas não é fácil”, diz. À frente de uma equipe de 20 empregados, Renato participou de cursos de liderança para melhorar a gestão.


“Durante as aulas, conheci histórias de outros líderes e aprendi muito com eles. Faz toda diferença coordenar bem a equipe, isso muda o ambiente de trabalho”, percebe. Entre os aprendizados está a lição de que é preciso saber cobrar. “A gente não pode aceitar tudo e ser ‘bonzinho’, mas é importante proporcionar abertura para conversar e ouvir sugestões”, acredita. Jeferson Pereira, 35, é professor de musculação e personal trainer na academia há um ano e meio. Na opinião do educador físico, os principais pontos positivos do chefe são a boa comunicação e o fato de ele dividir os conhecimentos com a equipe. “O Renato é muito experiente e nos ajuda em tudo. Além disso, ele não tem medo de colocar a mão na massa”, elogia.

 

Excelência a gestão

 

 

 

Inspirar, motivar e encorajar pessoas são as características que compõem o papel do líder, segundo a coach Aline Marra. “Equipes que trabalham em ambientes felizes desempenham melhor as atividades, e o chefe é o principal responsável por isso”, ressalta. De acordo com ela, um bom gestor é essencial para o crescimento de qualquer empresa. “Uma pessoa que exerce bem as atividades de comando entende que não faz tudo sozinha e valoriza o trabalho dos empregados, o que é fundamental”, pontua. Além disso, é importante tecer um bom relacionamento com o time. “Um bom chefe sabe se comunicar e receber feedbacks, não é centralizador e tem uma visão estratégica”, ressalta Alessandra Vieira, da Consulta RH. Ela afirma que existem pessoas que nascem com o espírito de liderança, mesmo assim, isso precisa ser lapidado. “O chefe vai lidar com indivíduos diferentes em situações distintas. Então é preciso, além de conhecimento técnico, investir na própria capacitação”, completa. Para o consultor de desenvolvimento organizacional da Leverage Coaching Paulo Aziz, a liderança se constrói e se aprende com teoria e prática. “É importante lembrar que não é só a capacidade técnica que importa”, afirma. “Hoje, você desenvolve os funcionários sendo honesto e transparente”, finaliza.

 

Dicas de ouro

 

Experiências de aprendizado

 

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De paraquedas na chefia

 

Barbara Cabral
 

Cândida Morais, 33 anos, passou a ocupar um cargo de liderança numa unidade da rede de cosméticos O Boticário inesperadamente. Ela foi operadora de caixa por dois anos, gerente por três meses e multiplicadora (que envolve fazer cursos em diferentes locais do Brasil para treinar funcionários) por três anos. “Por isso, eu era muito próxima da minha supervisora e conhecia as atividades. Ela faleceu, e eu tive que assumir o posto, mas a ficha não tinha caído direito”, lembra ela, que trabalhou na função por oito meses. Formada em letras, Cândida teve dificuldade de aceitar a responsabilidade e os funcionários também. “Eu sabia o que tinha de fazer porque sempre fui muito racional, mas demorava muito para solucionar problemas”, conta. Há dois anos, ela mudou de empresa e é gerente na perfumaria e salão Lord, no Conjunto Nacional.


“Quando comecei no meu atual emprego, achei que teria dificuldade com os empregados e com os clientes, pois são pessoas de vários níveis e gêneros. Porém, sempre fui muito observadora e tentava enxergar a melhor habilidade de cada funcionário para investir nisso”, revela. O fato de a empresa ter oferecido cursos de técnicas e ferramentas de gestão ajudou. A cabeleireira Delmaria Pereira, 36, diz que a chefe sempre foi uma pessoa muito transparente e organizada. “Isso ajuda a tornar o ambiente de trabalho mais harmonioso. Nem sempre fazemos a coisa certa e, na hora da reclamação, ninguém gosta, mas depois vemos que é necessário para o melhor desempenho das atividades”, diz.

 

Em busca de resiliência

 

Ed Alves
 

Coordenador de RH no Ministério da Justiça e Cidadania, José de Albuquerque, 37 anos, está há um ano e seis meses no posto. Esta não é a primeira experiência do servidor como chefe. “Trabalhei em uma consultoria na qual eu precisava ter perfil de liderança e, desde então, percebi que deveria ser mais resiliente para lidar com tipos diferentes de pessoas”, lembra. Para trabalhar essa falha, o administrador e pós-graduado em gestão pública, aprendeu com o comportamento dos chefes que teve.


“Eles foram mentores que me ensinaram como agir. Também fiz um processo de coaching”, conta. Coordenando uma equipe de 83 servidores, José acredita que o autoconhecimento e o bom relacionamento com os funcionários são fundamentais. Assessora do coordenador, Suzana Modesto, 40, tece elogios ao superior. “Ele é muito dinâmico e criativo. Sempre busca maneiras de nos ajudar e de transmitir o conhecimento que tem”, diz.

 

Por que eles estão lá?
Se um gestor incompetente é tão negativo para a empresa e a equipe, a grande pergunta é: por que pessoas despreparadas estão nesses cargos? Na visão de Alessandra Vieira, da Consulta RH, é comum que um profissional assuma uma posição de liderança e, caso não dê conta de fazer o serviço, acione subordinados para ajudá-la — assim, outros indivíduos exercem o comando de fato.


Se a direção da companhia não estiver a par dessa situação, pode acreditar que está tudo bem, por não conhecer de perto o funcionamento de diferentes setores da organização. “Desse jeito, a equipe fica confusa porque não tem um espelho de chefia e só vai ser cada vez mais pressionada. Na inciativa privada, isso, normalmente, não dura muito tempo. No serviço público, é mais fácil que essa situação perdure”, completa.

 

 

 

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa