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Mi-mi-mi na repartição

Segundo especialistas, o profissional que reclama de tudo e de todos, além de denegrir a própria imagem, afasta pessoas, desequilibra o ambiente de trabalho e aniquila possíveis chances de promoção ou de contratação

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postado em 12/02/2017 15:22 / atualizado em 12/02/2017 16:38

 

Você provavelmente conhece ou é alguém que, constantemente, fala mal dos colegas, do chefe e da empresa, demonstra insatisfação com o clima, a cidade, o país, a família... Não é difícil encontrar pessoas assim no trabalho e em outros ambientes. Criticar é normal. O problema começa quando se torna algo compulsivo. Quando as reclamações são excessivas e infundadas, trazem apenas transtornos, tanto para quem se queixa constantemente quanto para quem precisa conviver com esse tipo de gente. No ambiente profissional, os lamentos são um repelente. A atitude isola o emissor, que é visto como chato, negativo, ingrato, difamador e incapaz de propor soluções. “É importante lembrar que, em meio às críticas, haverá algumas com fundamento: o problema é o exagero”, exemplifica Wilson Lima, gestor de RH da empresa de seguros Youse.


Ele chama de hater corporativo o profissional com esse perfil. “É aquele sujeito para quem nada está bom. Ele se indigna com o calor, mesmo tendo nascido numa região quente; ou com o ar-condicionado, que não funciona ou deixa o lugar frio demais; maldiz o chefe que, na visão dele, não trabalha tanto”, exemplifica o administrador. “Vejo tais reclamações como um vício. Reclamar e criticar é importante, desde que as queixas provenham de um motivo plausível”, pondera o pós-graduado em gestão estratégica de RH pela Universidade Presbiteriana


Mackenzie. “Esse tipo de pessoa se porta como vítima: na visão dela, sempre há alguém que a persegue ou prejudica e não hesita em constranger os demais se achar que foi atingida”, diz Larissa Souza, coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento de Carreiras do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), focado em recrutamento e treinamentos.


Por esses motivos, a pós-graduada em gestão pela Fundação Dom Cabral observa que não é surpresa ver reclamões com dificuldades em trabalhar em equipe. As queixas com relação a colegas podem virar fofocas, o que desencadeia uma série de comportamentos negativos, como intrigas, panelinhas ou exclusão de alguém. “O reclamão vira alguém chato de conviver, pois transforma problemas pequenos em grandes, além de tirar colegas do sério com lamentos contínuos e nunca se posicionar como agente de mudança”, avalia Nathana Sateles, psicóloga clínica e pós-graduada em sistêmica familiar pela Pontifícia Universidade Católica de Goiânia (PUC-GO).

 

Para não queimar meu nome

De acordo com Wilson Lima, murmurar está entre as atitudes que devem ser riscadas da rotina de quem deseja ganhar boa reputação, promoção ou chance de contratação. Na visão do executivo com 16 anos de experiência em RH, há poucas chances de que tais pessoas sejam indicadas para cargos mais altos ou vagas de emprego. “A credibilidade fica afetada. Mesmo que seja um bom profissional, provavelmente, será descartado porque será lembrado pelas reclamações”, conta. Larissa Souza, do IEL, concorda e avisa que quem reclama demais é reconhecido na hora da seleção e pode perder oportunidades.

 

“Recrutadores identificam isso a partir de perguntas específicas, ao pedir, por exemplo, que o candidato conte sobre um desafio enfrentado. Os reclamões sempre se colocam de fora da solução e não se responsabilizam pelo problema: sempre colocam a culpa nos outros”, revela. A promoção pode ser um sonho distante para esse tipo de profissional, visto que gestores observam como os subordinados reagem diante de problemas. “Muitos que reclamam não buscam soluções, e o chefe enxerga isso como um indício de que não há desejo de mudança ou avanço. A sensação é de que essa pessoa não está totalmente no emprego, está com um pé fora do barco, por isso, não está apta para se tornar capitã”, analisa Larissa Souza.

 

Palavra de especialista

Mau humor x Problema psicológico

 

A reclamação frequente, em alguns casos, pode caracterizar um transtorno de humor denominado distimia. As pessoas que sofrem desse mal não se sentem felizes com nenhum aspecto da vida. Elas não conseguem ver o lado bom dos acontecimentos, por isso, reclamam demais. A distimia pode ser considerada uma depressão crônica que acarreta problemas cognitivos — baixa estima, sentimento de inadequação e exclusão e diminuição de interesse pelas atividades profissionais e pessoais — e sintomas físicos, como perda ou ganho de peso muito rapidamente. A distimia pode ser acompanhada por outros transtornos, como síndrome do pânico e ansiedade. Quem for diagnosticado com o problema deve ser tratado pela equipe do trabalho como alguém que precisa da ajuda de um psicólogo ou de um psiquiatra e não como um reclamão. Quando o caso é grave, o psiquiatra entra em cena para passar uma medicação. O psicólogo, porém, é parte fundamental do tratamento.

Nathana Sales, psicóloga clínica e pós-graduada em sistêmica familiar pela Pontifícia Universidade Católica de Goiânia (PUC-GO).

 

Resolvi mudar

Conheça pessoas que perceberam que se queixavam muito e decidiram tomar atitude

 

Transformação que cura

 

Antonio Cunha

 

“Eu reclamava da hora em que acordava até quando ia dormir, e ninguém escapava das queixas”, revela Aline Silveira, 29 anos. “Você se torna chata, e as pessoas se afastam. Além disso, perde-se o ânimo, e parece que tudo dá errado”, conta a aluna de gestão financeira com experiência como auxiliar administrativo. A brasiliense reclamava no trabalho, mas, para garantir que o comportamento não a prejudicaria, se esforçava muito, o que a fez ser apelidada de ‘Severino’, por sempre ser um quebra-galho. “Por isso, as queixas não afetaram muito meu relacionamento com os colegas, mas a insatisfação contínua me levou à depressão”, diz. Em busca de um tratamento, ela fez um curso sobre inteligência emocional. “Foi um choque perceber o caos em que estava minha vida. O maior impulso para mudar foi perceber que meu filho estava se queixando muito, influenciado por mim”, lembra. Aline estipulou uma meta de passar 21 dias sem reclamar. “Perdi a conta dos dias, e não reclamar se tornou algo comum”, comemora. 

 

Aprendi a me contentar com o que tenho

 

Arquivo Pessoal
 

 

Vigilante numa empresa terceirizada, Evaldo Luiz da Silva, 45 anos, se deu conta de que o fato de se queixar constantemente afastou a equipe e lhe conferiu uma fama negativa. “Eu sempre achava um motivo para criticar. Meus colegas tinham uma impressão negativa de mim e não acreditavam no meu potencial, até porque, hoje, acredito que, quando reclamamos muito, não damos o nosso melhor”, conta. “Resolvi mudar há dois anos, quando percebi que a reclamação parecia uma doença. Como sou cristão, pedi a ajuda de Deus para enxergar o lado bom das coisas”, afirma. Ele sentiu o impacto da nova atitude ao passar a se dedicar a atividades, como o trabalho e reparos na própria casa, com alegria. No serviço, começou a aconselhar pessoas com palavras de ânimo. “A mudança foi incrível. Fui ignorante, reclamando de tudo sem motivos. A vida é boa quando se sabe viver, e a melhor forma é se contentar com o que tem, não se comparar com os outros, trabalhar com afinco e esperar dias melhores”, conclui.

 

Eu culpava os outros

 

Gabriela Studart
 

 

Elaine Costa, 32 anos, tinha uma loja de colchões magnéticos quando percebeu que havia algo errado com ela. “Tudo o que eu planejava fazer não saía do papel — pelo menos, eu pensava assim. Eu me achava azarada e não me dava conta de que minhas atitudes, reclamando de tudo e de todos, me levavam a essas frustrações”, lembra. Quando trabalhava como atendente comercial, Elaine percebeu que perdia vendas por causa do humor azedo. “Quem entra numa loja prefere um vendedor de melhor astral”, conta. A brasiliense buscou orientação para mudar a partir de um curso de inteligência emocional e, desde outubro do ano passado, está diferente. “Eu me responsabilizo pelo que acontece, deixando de ser vítima. Antes, eu culpava meus pais e a sociedade. Além disso, percebi que meus amigos me influenciavam a reclamar mais e me afastei deles. Todos os dias, troco a reclamação por um agradecimento”, afirma. Há uma semana, ela se tornou vendedora na loja de roupas íntimas Angel Store, no Taguacenter. “Eu fui indicada para a vaga e sei que foi por essa mudança. Hoje, sou mais positiva, consigo cativar a clientela e lidar com situações adversas. Acabei com o vitimismo. Consegui fazer a dieta que sempre quis, estou com outro corpo e um novo humor. No trabalho, tudo flui bem e planejo chegar à gerência”, diz animada.

 

Por mais gratidão

 

Gabriela Studart
 

 

Desde a adolescência, Silas da Silva, 22 anos, tem noção de que se queixa muito e percebeu isso a partir do feedback de amigos. “Quem reclama nunca se dá conta disso sozinho. Eu tive ajuda de pessoas próximas. Ainda bem! Acho que me tornei assim porque meu pai, que também tinha esse hábito, me influenciou. No entanto, percebi que a reclamação não resolve os problemas. Então, para que lamentar?”, questiona. O estudante de sistemas de informação resolveu mudar o comportamento em 2014. O paraense trabalhava como operador de telemarketing e ficava desanimado com as reclamações que tecia sobre a função. “Eu não me queixava na frente de todo mundo, apenas de alguns colegas. No círculo pessoal, porém, eu era conhecido pelas lamentações. Comecei a agradecer mais, acreditando que Deus pode mudar as situações ou me ajudar a tomar as atitudes certas”, revela. Depois de dois anos no serviço, Silas foi demitido. Na mesma semana, conseguiu um estágio no Supremo Tribunal Federal (STF), onde está até hoje. “Resolvi mudar para colher resultados positivos e percebi que, quando você troca de postura, coisas boas começam a acontecer. Por mais que amigos te deem um toque, a transformação só começa quando você toma uma decisão”, acredita.

 

Como perceber o problema?

 

 

 

Dificilmente alguém se torna um hater corporativo motivado por um desejo racional. O que acontece é que, sem autocontrole, a pessoa se deixa levar por insatisfações. Por isso, o hábito de maldizer pode fazer parte do comportamento do profissional sem que ele tenha noção disso. “É possível que o trabalhador não se dê conta de que é aquele cara que vive murmurando. No entanto, pode sentir que há algo errado ao se deparar com atitudes estranhas por parte de colegas. Quando chega a um lugar e alguém sai ou quando deixa de ser convidado para determinadas atividades, como happy hour ou almoço, por exemplo”, afirma a psicóloga Nathana Sateles. Analisar-se continuamente é uma forma de garantir que você não tem esse padrão de comportamento. “Não dá para depender só dos feedbacks dos outros. É muito importante desenvolver autocrítica. Pergunte a si mesmo: será que peguei pesado? Minha queixa é relevante?”, propõe Wilson Lima, gestor de RH na Youse. Para se transformar, o caminho não é apenas ficar calado diante de problemas, mas alcançar equilíbrio. “As insatisfações não podem ser desprezadas. O reclamão deve tomar atitude e resolvê-las, e a chave está no diálogo”, diz.


“O processo não será fácil, mas, a partir do momento em que a pessoa assume que age dessa forma, o caminho fica mais claro. Pedir ajuda aos colegas, que podem alertá-lo quando você estiver reclamando demais, é uma boa opção”, sugere Larissa Souza, do IEL. A equipe pode fazer parte da transformação do hater corporativo. Para isso, deve incentivá-lo a ver o lado positivo das situações e motivá-lo a propor soluções. “Quando você rebate a reclamação com um pedido de sugestão de mudança, ele começa a perceber que pode alterar o cenário”, afirma. Além disso, chefes têm papel crucial nesse processo. A função do gestor é conversar e propor uma autoavaliação, além de expor embaraços causados ao ambiente de trabalho. “Criar metas para o empregado é uma boa aposta”, aconselha a psicóloga Nathana Satales. O reclamão também pode estabelecer metas próprias. Vale a pena pensar duas vezes antes de se queixar de algo, ponderando se aquilo é importante.

 

Teste

Será que você é uma

 

pessoa reclamona?

Assinale as atitudes com as quais você se identifica:
(   ) Eu reparo em coisas que estão erradas
(   ) O sarcasmo é um tipo de humor com o qual me identifico
(   ) Não estou reclamando, só estou apontando os problemas a serem resolvidos
(   ) Pessoas que me conhecem bem costumam dizer que eu reclamo muito
(   ) Os outros não parecem ficar entusiasmados ou felizes ao me ver
(   ) Tenho fama de dar opiniões sem que ninguém peça
(   ) Costumo reparar nos defeitos das outras pessoas
(   ) Fico facilmente frustrado se não consigo o que quero da maneira que quero
(   ) Com frequência, as pessoas não atingem o alto padrão que espero
(   ) Não dou nota máxima a nada, porque sempre é possível melhorar.

Resultado
Cada ação marcada equivale a um ponto. Seu resultado foi de: ___ pontos



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Menos                                          Mais
provável                                      provável


0 ponto
Parabéns! Você nao tem
perfil de quem reclama.

Até 4 pontos
Atenção! Você tem uma
tendência a ser crítico com os
demais e consigo mesmo. Fique atento para que isso nao se torne um problema.

Acima de quatro pontos

Socorro! Você tem sido um ranzinza de marca maior! Implacável, crítico em excesso, negativo e até cruel. Você nunca está satisfeito, ninguém consegue te agradar e, em geral, você nem faz ideia do quanto pode agredir os outros. Na sua cabeca, você está apenas falando o óbvio e tentando ajudar. Não percebe o que está fazendo e, mesmo que queiram te ajudar e te digam sobre o defeito, você nao entende.

Fonte: Aline Marra, graduada em comunicação institucional e relações públicas e master coaching pela Federação Brasileira de Coaching Integral Sistêmico (Febracis)
 
Clima pesado
Eles tiveram de conviver com haters corporativos e contam como foi 
 
Experiência de chefe
 
 

Proprietário e gerente da academia 4Move, no Lago Sul, Beto Barros, 37 anos, sempre gostou de lidar com pessoas, mas considera um desafio gerir pessimistas. “Convivi com dois profissionais com esse perfil. Eles colocavam a equipe, de 16 pessoas, para baixo, o que afetava diretamente nosso potencial, visto que precisamos estar motivados para incentivar os alunos”, conta o educador físico. Os reclamões se queixavam sobre o desempenho dos clientes, a dificuldade de lidar com eles, atividades a serem feitas, horários a serem cumpridos e novas propostas. “Eles nunca assumiam a responsabilidade e culpavam os outros. Tudo que falávamos era encarado como marcação ou perseguição”, lembra. Apesar dos aborrecimentos, o brasiliense descobriu um lado positivo nisso: certas críticas eram úteis. “Muitas vezes, a opinião deles me alertava para pontos que eu não tinha pensado e ajudava a melhorar projetos e a evitar riscos”, revela. As reclamações, porém, deixaram a equipe desmotivada. “Todos chamavam essas pessoas de chatas, e o clima não era bom. Um dos murmuradores percebeu isso e se demitiu. O outro foi mandado embora. É incrível como o clima mudou depois disso.”
 
Colegas desagradáveis
 
 

Garçom no Restaurante Fogão Nativo há 18 anos, Manoel Pinheiro Rocha, 39, conviveu com murmuradores no trabalho. Segundo ele, a desmotivação da equipe é o maior prejuízo causado por esse tipo de profissional. “Eu me lembro de um caso em que um rapaz começou a reclamar de tudo e a criar intrigas e panelinhas na equipe. Fizemos reuniões com ele para tentar entender e resolver os motivos dos comentários maldosos. Ele foi repreendido, mas não deu resultado e foi dispensado. Ele era muito agressivo também”, conta. A conclusão de Manoel é que reclamações excessivas impedem as pessoas de alcançarem os próprios objetivos, e quem muda de atitude só tem a ganhar. “Trabalhei com um estagiário que se queixava muito por não ter aumento no salário, mas ele estava no restaurante havia apenas seis meses”, diz. O garçom orientou o estagiário a parar de resmungar e a se dedicar aos serviços, e foi o que ele fez. “Depois de um tempo, um gerente de outro restaurante me pediu uma indicação de churrasqueiro, e eu o encaminhei para lá. Ele foi contratado e, quando recebeu o primeiro salário, veio falar comigo porque ficou muito feliz”, afirma. 

 

 

 

 

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula