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Exclusão racial no topo

Negros são minoria nos cargos de chefia. Para especialistas, mudança deve envolver investimento na educação, aplicação efetiva das cotas raciais em concursos, mais rigor na punição a crimes de racismo e formulação de políticas públicas específicas

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postado em 19/03/2017 14:54 / atualizado em 19/03/2017 15:06

Por mais negros em cargos de chefia

 

Gabriela Studart

Eles são 54% da população, mas apenas 17% das pessoas mais ricas do país e 4,7% dos trabalhadores em funções executivas nas maiores empresas do Brasil. Realidade ainda é afetada por herança colonizadora, preconceito e falta de oportunidades

 

Estudo divulgado pelo Instituto Ethos e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) analisou a composição racial, social e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e concluiu que, quanto mais se sobe na pirâmide dos cargos, menos representativa se torna a presença de pretos e pardos. Eles correspondem a apenas 4,7% das posições executivas. A situação tem se alterado — em 2001, afrodescendentes ocupavam 2,6% desses postos —, mas a passos mais lentos que o necessário. E o pior: as direções das companhias não se preocupam muito com isso, pois mais de 80% das organizações analisadas não contam com ações afirmativas raciais em nenhum nível hierárquico. Para completar, a visão de gestores sobre o assunto é problemática: 48,3% dos chefes acreditam que a baixa proporção de negros em boas posições se deve à falta de qualificação profissional deles para os cargos e 10,3% atribuem a disparidade à falta de interesse pelos cargos (saiba mais no gráfico Números da desigualdade).


Os resultados se tornam ainda mais decepcionantes ao levar em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que reconhecem os afrodescendentes como 54% da população do país e apenas 17,4% dos mais ricos. “No Brasil, até negros com grande formação intelectual sofrem com a resistência para alcançar posições de direção. Muitas vezes, temos que provar 10 vezes mais a nossa competência”, relata Erivaldo Oliveira da Silva, presidente da Fundação Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) e a primeira instituição pública voltada à promoção da cultura afro-brasileira. Economista, administrador, especialista em gestão governamental e políticas públicas,  ele afirma que a melhoria na qualidade do ensino público, o estímulo à capacitação de jovens e à valorização da cultura afro são ferramentas essenciais para promover a ascensão social da população negra.

 

“Chega de achar que o negro está na sociedade apenas para o exercício do futebol e da música. Temos que ocupar cargos também no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, na diplomacia, nas universidades...”, defende. Marne José de Paula Farias, 34 anos, coordenador de Serviços de Tecnologia da Informação no Brasil da IBM, entende que é preciso vencer um pensamento arraigado na sociedade que faz com que a população afrodescendente seja aceita em determinados segmentos profissionais, mas não em outros. “Há uma suposição do senso comum de que o negro se ocupe com trabalho serviçal, seja bom no esporte e produza conteúdo artístico. Há ainda uma ideia de que ele não seja adequado para posições de liderança”, lamenta o graduado em tecnologia da informação.

Herança colonizadora

Na opinião de Selma Moreira, diretora do Fundo Baobá, organização que desde 2011 apoia projetos pró-equidade racial, a desigualdade reflete o passado escravagista do Brasil e reserva a pretos e pardos espaços subalternos, negando a eles o acesso a uma educação de qualidade, que poderia proporcionar melhores postos de trabalho. “A história nos mostra que o processo pós-abolição foi absolutamente excludente”, observa a administradora, especialista em gestão estratégica em comunicação organizacional e relações públicas com MBA executivo em gestão e empreendedorismo social. Ela destaca que a situação é ainda mais difícil para as mulheres, que sofrem as consequências de uma estrutura patriarcal e racista. Não chega a 0,4% a porcentagem de negras em cargos executivos, segundo o levantamento do Instituto Ethos e do BID.


Mesmo as poucas que ocupam posições mais altas na hierarquia das organizações sofrem mais dificuldades tanto para chegar lá quanto para serem aceitas nessas funções. Pesquisa dos professores Ashleigh Shelby Rosete, da Universidade Duke, e Robert W. Livingston, da Universidade Northwestern comparou a percepção de 228 pessoas sobre quatro grupos de líderes empresariais: mulheres (brancas e negras) e homens (brancos e negros). O resultado da experiência mostrou que profissionais pretas e pardas em postos de liderança enfrentam mais críticas quando os negócios vão mal ou quando elas cometem erros.  A conclusão dos pesquisadores é a de que, em momentos de dificuldade na companhia, empregados tendem a apoiar indivíduos que se enquadram no perfil mais típico de líder empresarial, em geral homem e branco. O estudo foi feito nos EUA, mas não é difícil imaginar, pelo passado escravagista, que os resultados poderiam ser replicados no Brasil.

 

Afroempreendedorismo em alta no país

 

Gabriela Studart
 

Com dificuldades para se firmar no mercado tradicional, sobretudo em postos de liderança, negros e negras têm buscado no empreendedorismo uma solução para desenvolverem habilidades e projetos. Segundo o levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2002 a 2012, houve um incremento de 27% na quantidade de pessoas pretas e pardas que montaram empresas próprias no país. Pela primeira vez, o número de empreendedores negros (50%) ultrapassou o índice de brancos (49%).


Um caso de sucesso no setor é o da administradora com habilitação em comércio exterior Ialê Garcia Melo, 48 anos, dona da marca Yalodê Moda Étnica  (saiba mais em bit.ly/2mMNWSI). Hoje, com uma trajetória profissional bem-sucedida, ela frisa que superar a discriminação racial é um desafio diário. “Inúmeras vezes, em entrevistas de emprego, não consegui passar pela etapa inicial do processo seletivo pela questão do preconceito”,disse.

 

Preconceito

 

Janine Moraes
 

 

Elizabete Braga, 38 anos, presidente da Abravídeos, produtora sem fins lucrativos voltada a desenvolver projetos culturais e educacionais, com sede em Brasília, conhece bem essa realidade. A graduada em produção audiovisual conta que é comum perceber a reação de surpresa dos participantes quando há reuniões de trabalho em que ela está no comando. Também se deparou com um episódio em que, após se apresentar para o responsável de uma empresa contratante, foi imediatamente questionada se tinha mesmo formação em comunicação. “Antes disso, ele só havia me dado ‘bom dia’”, recorda. Esses são apenas alguns dos casos de discriminação enfrentados por ela, que coordena projetos culturais e edição de material gráfico há 14 anos, chegando a liderar times de 30 pessoas.


Na visão de Elizabete, o preconceito é nítido, inclusive, em departamentos de recursos humanos, que deveriam se ater à competência na seleção dos profissionais, sem levar em conta as características físicas. “A pessoa negra é desqualificada por causa da aparência, da cor da pele, do cabelo crespo ou de um traço que demonstre que é adepta de alguma religião de matriz africana. Então, esse racismo institucional, negado por muitas empresas, priva pessoas pretas e pardas de mostrar todo o potencial para criatividade, gestão, liderança e tantos outros atributos necessários a um cargo de chefia”, acredita.


Em busca de mudança

 

Arquivo Pessoal
 

 

E quais seriam os caminhos para que negros e negras possam ter mais oportunidades de inserção no mercado e em melhores posições? Para a coordenadora do Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNU/DF), Jacira da Silva, a resposta está em um conjunto de fatores. Entre eles, ela destaca a formulação de políticas públicas específicas para o setor, aplicação efetiva das cotas raciais em concursos públicos, respeito ao Estatuto da Igualdade Racial e mais rigor na punição de crimes de racismo, com um sistema de denúncias eficiente que receba, registre e encaminhe queixas para os órgãos competentes.


“Um exemplo da gravidade do problema é que houve um aumento expressivo no ingresso da população negra no ensino superior nos últimos 10 anos graças a políticas de inclusão, mas isso não se refletiu diretamente em mudanças no mercado”, observa Jacira, que é jornalista. Dados do Instituto Ethos revelam que as matrículas de negros em universidades públicas e privadas cresceram 40% no país entre 2001 e 2013.