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Um empresário de coragem

Conheça a história do fundador da Microlins, empresa que ele vendeu por R$ 110 milhões. Há sete anos, concentra esforços na SMZTO Holding, aceleradora de franquias detentora de 10 marcas, que faturou R$ 660 milhões em 2016

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postado em 19/03/2017 15:28 / atualizado em 19/03/2017 15:33

Letícia Lopes
Histórias de sucesso no empreendedorismo, como a de José Carlos Semenzato, 48 anos, não dependem apenas de vontade: requerem boa dose de planejamento, determinação, dedicação e coragem. Filho de um mestre de obras e de uma dona de casa, o paulista de Cafelândia começou a trabalhar aos 13 anos, vendendo coxinhas produzidas pela mãe, dona Alzira. Em pouco mais de um ano, comprou uma bicicleta e, tempos depois, um fusca. Aos 16, começou a trabalhar numa copiadora e se tornou gerente de operação. Dali foi chamado para atuar em uma construtora, onde passava cerca de 14 horas desenvolvendo softwares. Dois anos depois, foi convidado pelo Instituto Americano de Lins para ser professor de computação para o ensino médio, sendo bastante requisitado para dar aulas de reforço aos fins de semana, encontros que ocorriam na padaria do sogro dele. Aos 23, trocou o emprego como professor pela vida de empreendedor ao abrir, em 1991, em Lins (SP), a primeira unidade da Microlins, no quintal de uma casa e  com apenas quatro computadores. No começo, era uma escola de computação que, ao longo do tempo, se transformou numa rede de franquia de cursos profissionalizantes, com 40 opções de capacitações.


Hoje, são mais de 555 unidades e 10 mil colaboradores, o que a deixa entre as 15 maiores franqueadoras do país, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). O negócio soma mais de 4 milhões de alunos capacitados, o que prova o sucesso da operação mesmo após a saída de José Carlos Semenzato do grupo, vendido por mais de R$ 110 milhões em 2010. No mesmo ano, ele abriu a SMZTO Holding de Franquias Multissetoriais, aceleradora com mais de 700 unidades que teve faturamento acima de R$ 660 milhões em 2016. A rede é sócia-detentora de Instituto Embelleze, que capacita mais de 150 mil cabeleireiras por ano; restaurante L’Entrecôte de Paris; Casa X e Espaçolaser, em parceria com a apresentadora Xuxa Meneghel; escola de idiomas LifeUSA, com Gustavo Kuerten; OdontoCompany; Oralsystem; PartMed; e Totallaser. Semenezato conseguiu tudo isso sem um diploma de ensino superior completo, com trabalho duro e dedicação.

Como surgiu o interesse por computação e por empreender nessa área?
Aos 15 anos, fui trabalhar em uma copiadora e, aos 16, fiz um curso de computação nos fins de semana. Comecei a fazer curso de técnico em processamento de dados. Depois de terminar essa formação, aos 18, fui convidado para ser professor. Essa oportunidade me despertou fortemente para esse setor de ensino de computação. Quando eu me casei, aos 21, decidi abrir meu primeiro negócio. Percebi que havia uma lacuna e que quem não aprendesse informática seria um analfabeto no futuro.

Que desafios você enfrentou?
O primeiro deles foi a falta de capital, então, fui em busca de dinheiro nos bancos. Montei 17 escolas próprias, todas financiadas. Em 1994, veio o plano Real, que congelou e deflacionou as mensalidades dos alunos enquanto as prestações dos computadores subiam desproporcionalmente. Foi uma catástrofe, tive que devolver todos os equipamentos. Em 1995, transformei as escolas em franquias, e o negócio começou a crescer. O momento da grande virada foi em 2001, quando passei de 80 para 700 franquias. Foi um crescimento vertiginoso, o mercado gritava muito. Sete anos depois, quando a empresa estava bastante grande, vendi 30% para a Faculdade Anhanguera. Depois, em 2010, vendi tudo.

A que você atribui o seu sucesso como empreendedor?
Eu acho que os grandes ingredientes foram sonhar alto e trabalhar muito. Nesses 35 anos, acredito que a minha rotina diária de dedicação não deve ter sido inferior a 12 horas, mas teve épocas em que trabalhei 18 horas por dia. O foco não deve mudar toda hora, pois a cada recomeço, você perde muito tempo. É preciso ter determinação nos objetivos. Além disso, sempre tive muita habilidade com as pessoas: na área comercial, eu tinha uma visão bastante profunda sobre gestão e administração, em razão de ter sido programador e pela experiência com a tormenta de 1994.

Por que você decidiu investir no formato de franquias?
Foi por necessidade, não por planejamento: ou eu transformava as minhas escolas em franquias ou terminava os meus sonhos ali. Eu não tinha ideia do que era aquilo, um consultor me apresentou esse modelo como um plano de salvação. Em 1994, transformei 16 das minhas 17 unidades, cada uma com 1 mil alunos, em franquias (a escola de Lins continuou como própria). Eu aprendi na prática, nesses anos todos, como trabalhar com esse modelo. Foco é algo importante para mim: desde o momento em que decidi fazer minha carreira voltada ao negócio de franquias, eu não faço nenhum investimento que não seja desse tipo.

Que dica você daria para quem pensa em abrir um negócio ou expandir neste período de crise?
A primeira coisa é analisar com bastante cautela o cenário em que se insere o negócio que se deseja abrir. A gente vem de um contexto de queda de consumo em que poucas áreas não sentiram o impacto. É fundamental que o investidor tenha 100% do capital para investir, pois no momento de altos juros que o mercado apresenta, é uma grande desvantagem ter de financiar todo o negócio. Se o interesse for em franquias, uma boa opção é conversar com quem opera no modelo, para vivenciar a experiência de como será o dia a dia da gestão e saber se agrada. Basicamente, são esses pilares os mais importantes. Além disso, quando se faz o que gosta, enfrenta-se as dificuldades com mais facilidades.

Que lição pode deixar para jovens que desejam ser empresários ou assumir posições de liderança?
O jovem tem que se capacitar, a qualificação é fundamental. A competição estará cada vez maior, tanto como empregado quanto como empreendedor. A dica é que profissionais no início da carreira não sejam imediatistas, que programem a carreira a médio e longo prazo. É comum haver uma ansiedade grande: muitas pessoas mais novas querem ficar ricas rapidamente. Só que, para construir uma carreira de sucesso, você leva pelo menos 10 anos.

 

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa