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Carreira na beleza regulamentada

Projeto de lei que regulamenta atividades e níveis de formação exigidos de profissionais de estética e cosmética tramita no Senado Federal. Aprovação da proposta trará mais segurança para trabalhadores e clientes do mercado de beleza, um dos setores da economia que mais crescem no país

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postado em 26/03/2017 13:24 / atualizado em 26/03/2017 13:31

Gabriela Studart

Técnicos em estética (que fizeram curso profissionalizante na área), esteticistas e cosmetólogos (que fizeram graduação tecnológica) estão a um passo de conquistar a regulamentação das atividades profissionais, reconhecidas pela Lei nº 12.950/2012. Após aprovação pela Câmara dos Deputados, em 10 de novembro de 2016, o Projeto de Lei (PL) nº 77/2016 está em análise na Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, sob a relatoria da senadora Ana Amélia (PP-RS). A matéria determina que trabalhadores do ramo tenham atribuições diferentes de acordo com a formação profissional. Caso o PL seja aprovado, o exercício de qualquer procedimento estético por profissionais sem a qualificação necessária passará a ser irregular. “Pessoas que procuram os serviços de um esteticista buscam qualidade de vida e saúde. Por isso, determinar a qualificação necessária do prestador de serviço evitará que quem não seja capacitado atue na profissão, evitando riscos à população”, afirma a deputada federal Soraya Santos (PMDB-RJ), autora do projeto.


A proposta nomeia como esteticistas e cosmetólogos pessoas com ensino superior em estética e cosmética, curso tecnológico com carga horária de 2 mil horas. Entre as competências dos graduados definidas pelo PL estão gerenciar e responsabilizar-se tecnicamente por clínicas, dirigir, coordenar, supervisionar e ensinar disciplinas que compreendem estudos em estética e prestar auditoria, consultoria e assessoria sobre cosméticos e equipamentos específicos. O título de técnico em estética será reservado aos diplomados em cursos técnicos no ramo, com duração mínima de 1.200 horas. As atribuições cabíveis a eles, que também podem ser exercidas pelos trabalhadores de nível superior, incluem elaborar programas de atendimento ao cliente e executar procedimentos estéticos faciais, corporais e capilares, utilizando produtos cosméticos, técnicas e equipamentos específicos.


Sandra Bovo, presidente da Federação Brasileira dos Profissionais Esteticistas (Febrape), acredita que o projeto de lei trará dignidade ao trabalhador da área e ajudará clientes, que poderão reconhecer de modo mais fácil quem é apto a prestar serviços desse setor. “O nosso país é um dos poucos que tem formação acadêmica na área, por isso o conhecimento dos trabalhadores da beleza têm evoluído muito para atender melhor o mercado. A sociedade precisa perceber o quanto estudamos e nos esforçamos para oferecer o melhor e, assim, escolher bem em quem confiar. O PL nos dará esse status de trabalhadores com carreira e graduação exigida”, diz Sandra, formada em estética pela Universidade Norte do Paraná (Unopar).


De acordo com o texto do PL, trabalhadores sem formação superior ou técnica, mas que tenham feito cursos livres e atuem na área há pelo menos dois anos poderão continuar a exercer as atividades na condição de técnicos em estética. “Várias profissões, quando foram regulamentadas, permitiram a continuidade de pessoas sem a qualificação determinada, mas que tenham experiência. Nossa intenção, ao permitir a atuação desse perfil, é incentivar a busca por mais estudo”, pontua a deputada federal Soraya Santos. A decisão, porém, preocupa a presidente da Febrape, Sandra Bovo. “Minicursos ou pós-graduações não qualificam para trabalhar no nosso ramo. Quem quer participar desse universo não deve fazer pequenas capacitações, mas, sim, se profissionalizar”, defende.

Dedicação constante
Com experiência de 16 anos no mercado de estética, Simone Santiago, 50, espera que a regulamentação impulsione mudanças reais no ramo. “Eu não quero que a lei seja uma teoria só para constar, mas que realmente mude nosso cenário, fazendo as pessoas que não são formadas buscarem capacitação. A exigência da formação vai trazer uma competitividade justa”, comenta. Simone afirma que o preço de procedimentos feitos por pessoas desqualificadas é menor do que o de um profissional. “Mas é um barato que sai caro”, lamenta. Ao longo da carreira, ela conheceu pessoas que sofreram por causa de trabalhos feitos por pessoas sem propriedade no assunto. “Recentemente, recebi uma senhora que teve complicações em um procedimento facial. Fiquei chocada. É preciso se conscientizar de que, na área da saúde e da beleza, o trabalho deve ser feito com cuidado e seriedade. Além disso, cada profissional deve fazer somente o que sabe”, diz.


Por influência da avó, que também trabalhava no ramo, e da sogra, na época cliente da matriarca, Simone iniciou a carreira com um curso livre, sem formação reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). Depois, fez um curso técnico em estética no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo (Senac-SP). Com o certificado em mãos, mudou-se para Brasília, para ficar mais perto da família do esposo, e abriu uma clínica própria, em 1996, na 309 Sul. “Depois disso, instalei meu negócio na academia Vip Training, onde fiquei por quatro anos. Agora, estou há nove anos no Sudoeste”, afirma Simone, que é gerente de um centro de estética que leva seu nome, onde coordena uma equipe de quatro massoterapeutas e uma biomédica. A empresária não pretende cursar ensino superior na área da beleza, mas procura constantemente atualizações por meio de cursos livres. “O que eu não faço é realizar um procedimento sobre o qual não estudei para fazer. Um exemplo disso é a criolipólise, que resfria e elimina células de gordura. Eu contratei uma biomédica e aluguei um equipamento para atender meus clientes com segurança”, conta.

 

Linha do tempo
Histórico da profissão

 

Câmara dos Deputados/Divulgação

 

 

Pessoas que procuram os serviços de um esteticista buscam qualidade de vida e saúde. Por isso, determinar a qualificação necessária do prestador de serviço evitará que quem não seja capacitado atue na profissão, evitando riscos à população” Soraya Santos, deputada federal (PMDB-RJ), autora do PL que regulamenta a área

 

A estética se tornou profissão a partir do momento em que os boticários descobriram como usar princípios ativos para melhorar aspectos externos do corpo, como pele e cabelo. A polonesa Helena Rubinstein criou o primeiro salão de beleza do mundo, em 1902, na cidade de Melbourne, na Austrália, a partir do aprendizado obtido com um boticário que a ensinou a desenvolver fórmulas inovadoras e unguentos com fins estéticos. Em 1947, a russa Anna Pegova inaugurou um instituto de beleza em Paris, com várias técnicas estéticas criadas por ela, como o peeling vegetal.


No Brasil, o ramo foi inaugurado por Anne Marie Klotz, brasileira filha de franceses. Após o nascimento dela, em 1914, em Natal (RN), Anne e a família retornaram à França. No país da Torre Eiffel, Klotz aprendeu procedimentos estéticos. Ela voltou ao Brasil em 1951 e abriu o Instituto de Beleza France-Bel, transformado em curso e laboratório de pesquisas entre 1954 e 1955. Anne criou ainda a primeira empresa de aparelhos de eletroterapia do país, o que trouxe independência a profissionais do Brasil, que não precisaram mais importar equipamentos.

 

Salários atrativos

Empresários e profissionais autônomos podem se filiar ao Sindicato dos Salões, Institutos e Centros de Beleza e Estética do Distrito Federal (Sincaab-DF). A instituição não estipula pisos salarial, como sindicatos de outras unidades da Federação; em que o valor varia de R$ 906 (Rio de Janeiro) a R$ 1.716 (Paraná). Segundo o Guia de profissões e salários da empresa de recrutamento on-line Catho, a remuneração média nacional de técnicos em estética é de R$ 1.041, e a de esteticistas com graduação é de R$ 2,5 mil.
Os empreendedores, que atendem em clínicas próprias, têm ganhos mensais
superiores a R$ 10 mil.

 

Mercado sem crise

O Brasil consumiu US$ 30,2 bilhões em produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos em 2015, segundo a empresa de pesquisas sobre mercado Euromonitor International, o que garantiu ao país a quarta posição no ranking mundial entre as nações que mais consomem produtos do ramo. Além disso, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) estimou que o consumo brasileiro em estética seja de US$ 50 bilhões em 2017.  

 

O que diz o PL

Confira atividades que poderão ser exercidas tanto por técnicos em estética  quanto por esteticistas, de acordo com o texto atual da proposta:


» Aplicação de procedimentos estéticos por meio de recursos terapêuticos manipulativos, energéticos e vibracionais e não farmacêuticos;


» Execução de procedimentos estéticos faciais, corporais e capilares, utilizando como recursos de trabalho produtos cosméticos, técnicas e equipamentos específicos;


» Elaboração do programa de atendimento ao cliente, de acordo com o quadro apresentado, estabelecendo as técnicas a serem empregadas e a quantidade de aplicações necessárias;
» Solicitação, quando julgar necessário, de parecer de outro profissional da área que complemente a avaliação estética.

 

Estude!

Segundo o MEC, cursos superiores de estética e cosmética são oferecidos por 268 instituições no país. Confira opções técnicas e de graduação no Distrito Federal

Ensino técnico
Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (CEP-Senac)
Carga horária: 1.320 horas
Valor: R$ 5.988, divididos em até 11 vezes no cartão de crédito
Local: 703/903 Sul
Informações: goo.gl/PPBmex

Ensino superior
Centro Universitário Iesb
Duração: cinco semestres
Mensalidade: R$ 1.282,26
Locais: Plano Piloto e Ceilândia
Informações: goo.gl/OVp9ci

Centro Universitário de Brasília (UniCeub)
Duração: cinco semestres
Mensalidade: R$ 638,53
Local: Asa Norte
Informações: goo.gl/x6Sb6Y

Faculdade Anhanguera
Duração: sete semestres
Mensalidade: não informada
Locais: Plano Piloto, Sobradinho, São Sebastião e Taguatinga
Informações: goo.gl/FEPezy

 

Raio X
80.800

Quantidade de profissionais de
estética no país

75.000
Número de
mulheres na área

5.800
Quantidade de
 homens na área

Fonte: Federação Brasileira dos Profissionais Esteticistas (Febrape) / Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
 (Pnad/IBGE), 2015

 

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa