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A tecnologia e as novas relações de trabalho ameaçam profissões que lutam para continuar no mercado. Conheça a história de funcionários das áreas e como se adequar às novas tendências

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postado em 02/04/2017 16:33 / atualizado em 02/04/2017 18:32

 

Na lista de extinção

 

Relojoeiros, carteiros, ascensoristas, laboratoristas de fotografia são profissões ameaçadas pelos avanços tecnológicos ou pelas novas relações de trabalho

 

Desde que chegou ao Brasil, em 1988, a internet trouxe avanços consideráveis que mudaram a comunicação e as formas de trabalho humanas. A ferramenta de e-mail, por exemplo, proporciona rapidez e substitui de maneira significativa o fluxo postal brasileiro. Tanto que, no Distrito Federal, o número de correspondências enviadas pelos Correios (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) diminuiu cerca de 10% nos últimos anos. A transição das cartas para o meio digital é algo que demonstra a transformação das relações de trabalho. Relojoeiros, ascensoristas e outros profissionais, assim como os carteiros, sentem a redução no mercado e precisam se adaptar às mudanças.


Para Edson Moraes, coach executivo da empresa Espaço Meio e mestre em Gerenciamento de Projetos pela George Washington University, “o que acontece é que o leque de opções está se abrindo e as profissões estão se modificando”. Esse fenômeno não é novidade. Profissionais como datilógrafos, armadores de pinos de boliche, acendedores de lâmpadas e despertadores humanos eram funções essenciais no passado e se tornaram obsoletas. A automatização substituiu cargos e tornou essencial um ajuste às novas tendências. “Os profissionais deverão se qualificar ainda mais, uma vez que vão ocupar uma função estratégica e menos braçal”, conclui.

 

Gabriela Studart
 

Cortes

Na visão de Tarsia Gonzalez, psicóloga especialista em gestão de carreiras, os impactos das mudanças podem ser mensurados, principalmente, nas universidades. “O número de novos cursos e especializações demonstra que as pessoas têm ferramentas diferentes e encontram novas formas para desenvolver seus talentos”, pondera. A mudança de pensamento também é um fator que influencia o mercado de trabalho. A consciência ambiental, por exemplo, gerou redução na quantidade de impressões, deixando carteiros e gráficas em risco, como acredita a especialista. O mercado se modifica para atender às demandas do consumidor, e, a partir do momento em que ferramentas operacionais são desenvolvidas, “o profissional adquire a percepção de que pode fazer coisas mais importantes, como criar”, completa.


Outro fator para mensurar essa redução é a alta taxa de desemprego no país, que atingiu 13,5%  no primeiro trimestre de 2017, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O desaquecimento econômico que o Brasil enfrenta nos últimos anos exige cortes de gastos. Profissionais perdem colocação e enfrentam dificuldades para voltar ao mercado. Segundo o IBGE,  280 mil pessoas estavam sem emprego no DF entre outubro a dezembro de 2016.

 

Cenário preocupante
Antônio de Pádua Lemos, 60 anos, viu muitos dos seus colegas serem demitidos. Atualmente funcionário do Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio, Conservação, Trabalho Temporário, Prestação de Serviços e Serviços Terceirizados no Distrito Federal (Sindiserviços), foi ascensorista durante 24 anos no prédio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). O ascensorista é responsável por operar elevadores em empresas, repartições públicas, edifícios comerciais e outros locais de atendimento públicos. “Acho que a profissão foi diminuindo. Eles querem automatizar tudo. Alguns elevadores são violentos na hora de fechar e mesmo assim, no nosso lugar, colocam o áudio de uma mulher falando”, conta Antônio. Atualmente, existem 2.500 ascensoristas no país, dos quais 500 estão na capital federal, segundo o Sindiserviços. O Guia de Profissões e Salários da Catho indica que a média salarial da profissão é de R$ 1.056,04.


O Secretário Adjunto do Trabalho do Distrito Federal, Thiago Jarjour, observa a importância da atualização para acompanhar os avanços. “Em uma sociedade que apresenta mudanças tão rápidas (em termos de avanços tecnológicos), quem estiver parado já estará em marcha a ré”. Para ele, as profissões na área de serviços serão as mais prejudicadas, tais como distribuição de bens, atividades bancárias e corretagem.  
Enquanto isso, outra área que sofre com a diminuição do quadro de funcionários é a dos carteiros, o cenário de contratação não é otimista. O último concurso foi realizado em 2011, e novos profissionais ingressaram na instituição apenas em 2013. Não há previsão de novos certames e a organização também promoveu, no final do ano passado, o Plano de Desligamento Incentivado visando a redução de gastos. O programa incentivou o desligamento de funcionários com mais de 55 anos de idade e 15 anos de serviço estatal. Quem aderir ao plano receberá o Incentivo Financeiro Diferido (IFD) por oito anos. O pagamento levará em conta o valor médio dos salários recebidos nos últimos 60 meses e tempo de serviço.


O plano teve a estimativa de desligamento de 8.200 trabalhadores, porém apenas 5.458 funcionários aderiram ao programa. Os Correios acumularam dívidas de aproximadamente R$ 4 bilhões, e, para sanar os problemas financeiros, medidas foram adotadas, como a suspensão das horas extras e das férias pelo período de 12 meses, como anunciado na última semana. Em nota, os Correios afirmaram que tais questões poderão ser revistas a partir do momento em que a empresa voltar ao equilíbrio.

 

Protegidos por lei

 A Lei 9.956, de janeiro de 2000, exige a contratação dos frentistas em postos de gasolina. Ao contrário do que ocorre em países europeus e nos Estados Unidos, no Brasil é proibido o funcionamento de bombas de autosserviço operadas pelo próprio consumidor nos postos de abastecimento de combustíveis.

 

Para não ficar para trás

O especialista Edson Moraes deu três dicas para driblar as mudanças e se realocar no mercado.

» Pare de procurar emprego e procure trabalho. Entenda que é muito importante gostar da profissão para cumprir suas demandas de forma satisfatória.

» Sempre se atualize, não pare de estudar. Procure conhecimento na sua função, em áreas similares ou em qualquer assunto que tiver interesse.

» Comece a estudar outras opções de carreira a partir da sua experiência e outras posições que você poderia ocupar na sua área.

 

 

A história de cada um

 

Gabriela Studart
 

 

Filme e fotografia
Filme e fotografia

Francisco João Magalhães, 45 anos, trabalha em laboratórios de revelação de fotos há mais de uma década. Aprendeu na marra, entrando de cabeça na profissão e conhecendo passo a passo do processo de revelação. Nunca chegou a fazer curso e nunca foi fotógrafo, mas passa a vida trazendo à tona as imagens de câmeras analógicas e digitais. O processo leva cerca de vinte minutos, uma máquina de revelação ocupa boa parte da sala e, após o filme ser posto na entrada do equipamento, Francisco percorre o local preparando uma nova leva de rolos que têm que ser revelados. “Acho que a foto digital perde um pouco a qualidade na hora de revelar. Na analógica há uma qualidade maior que os fotógrafos percebem”, conta, lembrando que em um mês chega a revelar em torno 120 filmes, enquanto que no começo da profissão o número chegava a 600. “Com a evolução da tecnologia não acho que a revelação será necessária, mas acredito que a fotografia vai perdurar e evoluir. O filme é que tende a desaparecer”. A média salarial da profissão é de R$ 1.201,02 e o morador da Cidade Ocidental, separado, sustenta os dois filhos de 21 e 16 anos.

 

Além dos botões

 

Ana Rayssa

 

“Uma máquina pode facilmente avisar em que andar o elevador está, porém, ela nunca substituirá a segurança que um ascensorista passa para o usuário”, afirma Rosemira Soares, 40 anos. A funcionária, que trabalha no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) há 9 anos, explica que a função do cargo é muito mais do que apertar botões. “Ser ascensorista é ter atenção com o usuário. A nossa função é, além de levar, informar. O passageiro sabe que ali ele está seguro e isso vai fazer falta se o cargo deixar de existir”, garante. Além de Rosemira, existem outros cinco ascensoristas no prédio do Tribunal de Justiça. Em outubro do ano passado, eram 21. A justificativa para a redução foi a necessidade de corte de gastos com terceirizados. A maranhense veio para Brasília em 2005 e logo começou a trabalhar como ascensorista do TJDFT.  Formada em magistério, a funcionária deseja passar em um concurso público para ter mais estabilidade. 

 

Lá vem o carteiro!

 

Ana Rayssa

 

A retração no número de correspondências não desencorajou Joisson Rocha da Silva, 65 anos, carteiro há 34 anos. Ele espera que a profissão não seja extinta. “Eu não acredito que nada é para sempre. O que ocorre é que, com a chegada da internet, vêm as encomendas. Elas balanceiam o pêndulo de demanda para os carteiros”, explica. Essa readaptação das correspondências continua exigindo funcionários para as entregas, que concorrem com os fretes particulares. O carteiro também se diz poeta e filósofo e já trabalhou como garçom de eventos no período noturno durante 20 anos para complementar a renda da criação dos dois filhos, que hoje já estão formados. Ele realiza as entregas nas quadras 18, 20 e 22 do Lago Sul, com ajuda da  bicicleta.


Os Correios estão fazendo uma série de cortes para  reduzir gastos. Além do plano de demissão voluntária para 5.500 empregados, a estatal estuda outras medidas, como autorizar os carteiros de não mais fazer entregas diárias, revisão de benefícios como plano de saúde e mais demissões.

 

Não vai desaparecer, não

 

Gabriela Studart
 

 

Relojoeiro desde 1982, Gilmar Alves Costa aprendeu o ofício com seus cinco tios e viu que era aquilo que levaria para a vida. Com 58 anos, casado e tendo três filhos, sempre sustentou a família com o salário da profissão e foi capaz de abrir a própria loja, optando por manter o negócio com o filho do meio. “Sinceramente não vejo diferença entre o número de clientes que recebo hoje e o que recebia antigamente. O que mudou é a quantidade de profissionais que encontramos”, conta, deixando claro que, para ser um bom relojoeiro, é necessário empenho e saber lidar com a parte do mecanismo de diferentes tipos de relógios, tanto os de parede quanto os analógicos e digitais. A falta de profissionais é algo que pode levar a extinção da carreira, mas jovens como Gilmar Júnior, 29 anos, estão se embrenhando nesse ramo e encontram oportunidades. “Desde criança tinha o interesse de mexer com mecanismos, desmontava carrinhos e tentava ver o que existia dentro deles” lembra Júnior. A média salarial da profissão é de R$ 1.102,99. 

 

*Estagiários sob a supervisão de Ana Sá