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Lição dos melhores do mundo

O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) está treinando 37 estudantes de educação profissional e instrutores da Rússia para participar de competição internacional

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postado em 02/04/2017 17:03 / atualizado em 02/04/2017 17:17

José Paulo Lacerda

Formar bons profissionais para o mercado de trabalho. Essa tem sido a missão do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) quando o assunto é educação técnica. Tanto que os consultores do centro receberam o desafio de treinar a delegação russa que se prepara para participar da 44ª edição do WorldSkills, a maior competição internacional de profissões técnicas. Desta vez, o evento ocorre em outubro na cidade de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.


A Rússia escolheu o Senai para melhorar posições no ranking da competição. Em 2015, quando o WorldSkills ocorreu em São Paulo, a equipe do Brasil conquistou, entre os outros 59 países participantes, o título de campeã do mundial. Os russos, que não conseguiram  medalha, esperam agora melhorar os resultados para a competição deste ano e alcançar o primeiro lugar em 2019, ano previsto para que a competição ocorra em Cazã, na Rússia.


Esse treinamento tem sido feito para 34 estudantes e profissionais russos em seis centros de referência da instituição do Brasil: Bauru (SP), Joinville (SC), Caxias (RS), Guaporé (RS), São Paulo e Brasília. A rotina deles começa cedo, com uma hora de exercícios físicos. Em Brasília, ocorre a preparação de quatro integrantes da ocupação web design. O treino físico é feito próximo ao hotel onde o grupo está hospedado, no Núcleo Bandeirante. Às 9h, no Centro de Treinamento do Senai, no Setor Gráfico, começa a parte técnica, onde os estudantes passam o dia em meio a capacitações e treinamentos para melhorar as habilidades. A alocação por cada cidade combina com o aperfeiçoamento das sete áreas em que os russos buscam preparação: mecatrônica, design gráfico, tecnologia da moda, web design, eletrônica, joalheria e manufatura integrada. Eles recebem o mesmo tipo de preparação feita para os estudantes brasileiros.


Vitaly Govor, 22 anos, de São Petersburgo, é um dos competidores e diz estar satisfeito com a preparação. “Na primeira semana, o treinamento foi difícil, mas aos poucos fomos nos adaptando. É muito interessante saber como os campeões do mundo são treinados”. Ele disse que deseja chegar ao nível de Giovanni Kenji, brasileiro que foi medalha de ouro da área na última competição.


O outro competidor é Konstantin Larin, 21, da cidade de Chelyabinsk. Ele avalia a experiência como extremamente proveitosa: “Um treinamento feito exclusivamente para nós e preparado pelos campeões, pelos melhores do mundo. Achei a estrutura muito confortável, tudo muito bem organizado”, disse.


Marcelo Strehl, supervisor do treinamento de web design, conta que o desempenho dos estudantes é positivo e que nas duas semanas foram capazes de atingir um bom nível de aproveitamento. Ele acredita que, com esse ritmo, a equipe que for representar a Rússia pode alcançar  bom desempenho. “Espero que, com a nossa ajuda, eles consigam chegar entre as cinco melhores delegações. Essa é a nossa meta”, diz.
Além do treinamento nos centros de referência do Senai, a preparação da delegação estrangeira foi iniciada no ano passado quando sete consultores do órgão foram à Rússia para fazer o diagnóstico da infraestrutura existente e das competências técnicas dos treinadores e dos competidores. Após o trabalho realizado aqui, os brasileiros vão realizar outras três semanas de preparação para os russos. Essa última etapa ocorre no outro país.

 

Competidores brasileiros
A última edição da WorldSkills foi realizada em 2015 na cidade de São Paulo. O torneio reuniu 1.190 competidores de 59 países divididos entre Américas, Europa, Ásia, África e Pacífico Sul. Na edição, o Brasil contou com 56 competidores, sendo que 27 deles foram premiados com medalhas, o que concedeu aos brasileiros o primeiro lugar e título de “TOP One” no torneio.


Desta vez, 48 estudantes se preparam para concorrer a uma vaga na delegação brasileira. Os finalistas vão realizar duas provas, uma em março e outra em agosto, para saber se têm os índices técnicos internacionais, último critério para seleção.


Confira um pouco de algumas modalidades e de quem está nessa disputa:

 

José Paulo Lacerda
 

 

Wisley Pereira — refrigeração e ar condicionado
Wisley Pereira, 20 anos, foi campeão nacional da modalidade “Refrigeração e Ar condicionado” em 2016. Nascido no município de Serra Dourada, na Bahia, decidiu se mudar para o Distrito Federal quando acabou o ensino médio, para trabalhar em uma empresa da família. Ele mora em Santa Maria com o irmão há três anos. E quando chegou aqui, escolheu fazer o curso de refrigeração no Senai Taguatinga. Ele relata que foi necessário muito esforço e garra para passar nas etapas anteriores. “Foram dois anos, de segunda a sábado. Acordava às 5h30, pegava ônibus, chegava a Taguatinga às 7h30 e começava a treinar. Parava para almoçar. Às 18h, voltava pra casa. Às vezes, enfrentava tudo isso aos domingo também”, lembra.
Mas reconhece que toda essa dedicação valeu a pena. Com bons resultados nos simulados, espera manter o desempenho na prova do Índice. “Estou trabalhando no dia a dia pra chegar lá pronto, para conseguir a medalha de ouro para o Brasil”, garante.


Caso seja selecionado, essa será a primeira experiência internacional de Wisley. Quando terminar o processo, ele espera estudar engenharia. Ainda vai decidir se elétrica ou mecânica.

 

José Paulo Lacerda
 

 

Rafael de Borba — Manutenção de aeronaves
Rafael de Borba, 19, é da cidade de Tijucas, SC. Concorre para a área de manutenção de aeronaves. O interesse pelo assunto veio quando ainda estava no ensino médio e decidiu que gostaria de ser piloto. Ao descobrir o curso técnico em uma cidade vizinha, Palhoça, fez a inscrição e começou a estudar o assunto. A chegada dele na competição se deu de uma maneira diferente: a primeira etapa, escolar, já havia ocorrido, mas um dos selecionados desistiu de continuar na disputa. Ele foi convidado para assumir o lugar e aceitou de imediato. Ao chegar na etapa estadual, ganhou a medalha de prata por ter empatado na última competição duas vezes, mas garantiu a medalha de ouro na final. No último ano, morou sozinho para ter mais tempo para os estudos. “Eu que lavava minha roupa, fazia comida, limpava o apartamento. E aí tinha que sobrar tempo pra treinar, estudar, e fazer à noite o curso técnico de manutenção de aeronaves”, disse. Mas também garante que está satisfeito com a dedicação. “Acho que eu não saberia onde eu estaria se não fosse pela olimpíada. As oportunidades para quem está aqui hoje são  inimagináveis”.

 

José Paulo Lacerda

 

Carla de Bona — Vice- campeã na modalidade Web Design em 2007
A designer Carla de Bona, 31, é uma das treinadoras da equipe russa. Ela participou da 39ª edição da WorldSkills em Shizouka, Japão. E foi premiada com medalha de prata da categoria Web design,  tornando-se a primeira mulher a ganhar uma medalha para o Brasil. Ela reconhece que ter participado da competição foi fundamental para conquistar boas oportunidades no mercado de trabalho. “Se fui convida para treinar os competidores da Rússia, se eu viajei pra lá pra fazer um diagnóstico do processo, é porque eu fui competidora lá atrás”. 

 

 

Jaqueline Cerqueira — Técnico em redes de computadores
Jaqueline Abreu, 19, fez curso técnico em redes de computadores em Itapecerica da Serra (SP). Para se dedicar à competição, ela decidiu largar a faculdade e diz que não pensou duas vezes antes de tomar a decisão.  Jaqueline é uma das quatro brasileiras que disputam uma vaga ao WorldSkills. Ela espera que mais meninas se interessem pela área, que é predominantemente masculina. A última competição, em 2015, foi a primeira em que houve uma mulher disputando dentro da modalidade.Jaqueline ainda vai passar por uma fase de desempate com outro competidor. Caso seja aprovada, realiza o exame de Índice para avaliar se está apta ao mundial.  Ela planeja, no futuro, abrir uma empresa especializada em telecomunicações. 

 

José Paulo Lacerda
 

 

Theodoro Cardoso e Guilherme Rabuske — Robótica
Diferente das outras áreas, a competição em robótica móvel ocorre em dupla. Nessa categoria, Theodoro Cardoso, 20, e Guilherme Rabuske, 19, que trabalham juntos desde o início do curso de aprendizagem industrial eletroeletrônica do Senai de Santa Cruz do Sul, dividem as atividades. Um é responsável pela programação do sistema, enquanto o outro cuida da parte de montagem. Os dois enfrentam uma das provas mais difíceis por conta da imprevisibilidade. O desafio é fazer um robô que seja capaz de identificar bolas de sinuca em um campo. No WorldSkills, 12 bolas serão jogadas de maneira aleatória, e o projétil deverá ser capaz de encontrar cinco específicas. Os objetos poderão cair em um campo de areia, o que exige uma adaptação em diferentes ambientes.


Theodoro, que trancou o curso de engenharia elétrica na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) para poder se dedicar ao treinamento, relata a experiência em Brasília: “Aqui, os trabalhos estão intensos. É uma imersão total no mundo da robótica. Não dá tempo de ligar tevê, navegar na internet, no facebook…Não dá tempo de fazer nada.”, disse.

 

*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá