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Angustiante espera

Cerca de 40% dos desempregados do Brasil buscam emprego há pelo menos um ano. Especialistas sugerem dicas do que fazer enquanto a vaga dos sonhos não aparece

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postado em 23/04/2017 13:50 / atualizado em 24/04/2017 14:03

Em quanto tempo conseguirei emprego?

 

Gabriela Studart
 

O fechamento de empresas e postos de trabalho e o aumento no número de desempregados, além de um mercado que não apresenta sinais de recuperação acelerada são, ao mesmo tempo, efeitos da crise e também fatores que contribuem para que ela perdure. Perdidos nesse cenário, estão 13,5 milhões de brasileiros em busca de recolocação profissional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com cada vez menos vagas e mais concorrentes, a morosidade para conseguir uma oportunidade pode ser bastante desanimadora. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Trimestral do IBGE mostram que esse intervalo tem se tornado consideravelmente longo. No último trimestre de 2016, mais da metade dos desocupados estavam em busca de um emprego há menos de um ano. Para uma parcela expressiva, porém, o problema é mais antigo: cerca de 20% dos participantes do estudo procuravam trabalho há pelo menos dois anos; e 19%, há pelo menos um ano.



Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, observa que a situação tem se acirrado. “No último trimestre de 2016, 50,9% procuravam trabalho há até um mês — praticamente o menor valor da série: esse percentual chegou a 55% em 2015 e em 2013. As faixas de tempo de procura menores estão se reduzindo, então as maiores, de mais de um ano, aumentam”, diz. “Isso é um reflexo da crise e, quanto mais gente na fila, mais o intervalo em busca de uma posição se dissipa”, explica. “É uma situação preocupante, pois mexe com a vida das pessoas. A taxa de desocupação brasileira era expressiva desde antes da recessão e aumentou com ela. O índice é elevado inclusive em comparação com o cenário internacional.” Segundo Azeredo, As dificuldades são ainda maiores para certos grupos, como mulheres, negros e jovens, além das pessoas com baixa escolaridade. No Distrito Federal, dos 228 mil desempregados, 22% estavam desocupados há pelo menos um ano e 28%, há pelo menos dois anos no período da pesquisa.

João Ricardo Carneiro, 34 anos, faz parte dessa estatística e tem enviado currículos há um ano e meio, “sem retorno”. Ele atuou como técnico-residente, prestando serviço de telefonia institucional, terceirizado na Câmara dos Deputados durante oito anos, mas perdeu a posição por causa de um corte de gastos. “Trocaram o efetivo mais antigo usando a renovação e a redução de custos como argumento”, lembra. Com um curso de administração incompleto, ele não teve condições de continuar a faculdade sem o salário. Enquanto busca uma recolocação, chegou a trabalhar, sem contrato formal, na área comercial de uma escola de inglês por dois meses, mas teve de sair depois que o estabelecimento trocou de dono. “Estou bastante desmotivado — afinal, as empresas não estão contratando, mas, sim, demitindo — e sou pessimista com relação às chances de a crise passar: acho que só haverá melhora em longo prazo”, opina ele, que vendeu o carro para se manter. “Está muito difícil encontrar trabalho e vejo pessoas com pós-graduação aceitando empregos em que vão ganhar apenas um salário mínimo”, conta. É por isso que João Ricardo tem pensado em outro tipo de saída e estuda a possibilidade de trabalhar no exterior.

“Não vejo muito futuro aqui. No Canadá e nos Estados Unidos, há mais oportunidades e retorno financeiro, mesmo que seja em trabalhos braçais”, compara ele, que fala inglês e pretende fazer um curso complementar para alcançar fluência. Para o consultor de carreira Emerson Weslei Dias, diretor de Liderança e Gestão de Pessoas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), é compreensível o desânimo de pessoas que estão há meses em busca de emprego. “A crise está aí e, quanto mais o tempo passa, mais as energias minguam”, comenta. Contador com MBA em gestão de pessoas e mestrando em gestão de negócios, Emerson pondera, porém, que se abater não é o caminho. “Toda crise, inevitavelmente, é cíclica. Vai passar, só não sabemos quando”, observa o autor da série de livros O inédito viável. “Tentar trabalhar no exterior pode dar certo, mas existe um risco, pois há muitas barreiras. Então é importante explorar territórios diferentes dentro do país e até considerar outras áreas de atuação, onde a competência do profissional pode ser útil, antes disso”, recomenda.

A gestora de carreira Madalena Feliciano, diretora da Outliers Careers e do Instituto Profissional de Coaching, garante que, mesmo num período crítico como o atual, “tem jeito de achar emprego, sim”. Administradora e master coach, ela cita a desmotivação e a baixa autoestima como fatores que podem prejudicar a recolocação. “Esta é a hora de ficar em dia com você mesmo. Acredite que existem oportunidades e descubra quais são os seus talentos”, estimula. Emerson Weslei Dias ressalta que, dificilmente, as maneiras de encontrar emprego se esgotam. “Tem gente que está desanimada, mas pensou em três ou quatro jeitos ou apenas mandou currículos e deixou por isso mesmo, sem fazer follow-up, ou seja, ligar de volta e perguntar sobre a possibilidade de uma vaga”, percebe. Carla Weisz, professora de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV) e autora do livro O dono da história, explica que há muito a fazer na jornada para encontrar um trabalho. “Procurar emprego é uma busca ativa e, para isso, a pessoa precisa ser protagonista. Não espere o emprego certo bater em sua porta, movimente-se, assuma a responsabilidade, crie oportunidades, leia, estude. Por fim, tenha clareza de seus propósitos e habilidades: eles ajudarão você a se orientar.”

Diagnóstico econômico
Apesar da alta taxa de desemprego, a Carta de Conjuntura nº 34, divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada  (Ipea) na última quarta-feira (19), aponta sinais de recuperação no mercado de trabalho a partir de microdados da Pnad Contínua do IBGE. Houve um incremento de 2,7% no percentual de pessoas que trabalham e não são chefes de família, um indício do ingresso de um ou mais membros do domicílio na força de trabalho, a fim de recompor a renda perdida com o agravamento da recessão. “À medida que a retomada da economia se consolide, a taxa de desemprego deve começar a cair lentamente no segundo semestre”, diz o texto assinado pelos pesquisadores Maria Andréia Parente Lameiras e Sandro Sacchet de Carvalho.

 

Três perguntas para / Carla Weisz

 

Arquivo Pessoal
 

 

Professora de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV) e autora do livro O dono da história, ela tem experiência como executiva em diversas organizações, é formada em marketing com MBA em gestão de negócios

Quais orientações você deixa para quem está em busca de trabalho há muito tempo?
Continuar motivado e ter a mente ocupada. Além disso, recomendo tomar dois tipos de ação. Primeiro, mantenha-se ativo, fortifique seus relacionamentos, converse, estude (existem muitos conteúdos que qualquer pessoa pode acessar na internet, basta ter disciplina). O segundo passo é ter um plano B, considerar realizar um trabalho que possa gerar renda, como dar aula, empreender e fazer consultoria. De repente, este é o momento para realizar um sonho deixado de lado por algum motivo. Em momentos como este, muitos empreendedores aparecem e acabam gerando empregos.

As pessoas são responsáveis pelo fato de não acharem trabalho? Ou elas podem atribuir o problema à crise, ao chefe que a demitiu etc.?
Com certeza, cada um é responsável pela própria história. Reclamar e culpar os outros (o mercado, o governo, o ex-chefe, o entrevistador) não adianta e nos imobiliza, pois nos deixa na posição de vítimas. Claro que não podemos desconsiderar o contexto, mas, em grande parte das situações, a pessoa contribuiu para aquilo de algum modo. É fato que a crise existe, mas o dono da história aprende a lidar com a situação e faz do limão uma limonada. É preciso pensar “O que eu ainda não fiz que aumenta a minha chance de ter resultado?” e “Como minha atitude contribuiu para esta situação?” A partir da autorreflexão, é preciso assumir as rédeas da sua vida, encontrar uma solução e aprender.

Buscar emprego durante o período de crise é mais difícil? O que muda nas seleções?
Sim. As oportunidades são reduzidas e os recrutadores se tornam mais exigentes, especialmente para posições mais seniores, pois precisam dos melhores profissionais a fim de resolver problemas e trazer soluções para lidar com a crise. Se errar na contratação em momentos normais custa caro, um equívoco em momentos de instabilidade econômica pode representar ao empregador um custo maior ainda, uma vez que um empregado que não atinge o esperado não resolve o problema que gerou a contratação.

 

NA LUTA »

 

 

Alternativa para contornar a crise

 

 

Talita de Souza* e Michael Rios*

 

Gabriela Studart
 

 

A psicóloga Priscyla Mayara Martins Melo, 24 anos, aluga uma sala para atender pacientes, mas a crise a fez pensar em outra possibilidade: deixar o próprio negócio e trabalhar na clínica de terceiros. “Eu quero um emprego com carteira assinada, assim terei mais estabilidade. Atendendo sozinha, tenho muitos gastos, além disso o convênio com planos de saúde deixa um lucro baixo para mim, o que piora a situação”, diz. Para alcançar o objetivo, a jovem envia currículos para vagas que encontra em blogs de psicologia ou em grupos de amigos. Em busca de aperfeiçoamento profissional, Priscyla concluiu, há duas semanas, uma pós-graduação no Instituto de Gestalt e Terapia de Brasília. “Espero que isso me ajude a me diferenciar”, conta. “Algo que torna as oportunidades na área mais escassas é a cultura do brasiliense. Muitos não costumam fazer terapia e, quando precisam ir a uma clínica, não gostam do preço. A crise e o grande número de profissionais no mercado pioram a situação”, diz.

 

Pelo primeiro emprego

 

Gabriela Studart
 

 

Alef Costa, 23, está desempregado há seis meses. Ele era jovem aprendiz no setor administrativo de uma loja de móveis. “Saí de lá com uma promessa de emprego, mas, por causa da crise, o dono teve prejuízos e acabei não sendo contratado”, explica ele, que concluiu o ensino médio em 2013. Morador de Taguatinga, Alef acrescenta que passa o período de busca por um novo emprego distribuindo currículos presencialmente e por meio de plataformas on-line. “Cadastrei meu perfil em sites de busca de empregos, mas nunca cheguei a ser chamado para uma entrevista”, diz. O jovem tem vontade de começar uma faculdade de relações internacionais e, para alcançar esse objetivo, está juntando dinheiro e pretende se tornar revendedor de cosméticos. “Isso me ajudará a não ficar parado”, diz.

"Cadastrei meu perfil em sites de empregos,
mas nunca cheguei a ser chamado para uma entrevista”

Alef Costa, desempregado, busca vaga administrativa

 

Em busca de uma posição melhor

 

 

Arquivo Pessoal
 


“Você pode ter um currículo recheado de cursos, mas, se não tiver alguém para te indicar, não conseguirá uma vaga”, acredita Adélio Barbosa, professor de língua portuguesa. Baiano com 16 anos de experiência em sala de aula, ele veio para Brasília em 2014 em busca de oportunidades. O graduado em letras fez cursos de vigilante, controladoria de estoque e agente de portaria, mas só conseguiu vagas temporárias. Para se manter, tentou ser revendedor de cosméticos, mas desistiu por receio de ter mais gastos do que lucros.

Depois de seis meses fora do mercado, conseguiu uma posição e precisou se distanciar da capital federal para isso: há dois meses, ele dá aulas em uma escola em Santo Antônio do Descoberto (GO). Entretanto está à procura de outra oportunidade. “Não estamos sendo pagos. Então, diariamente, envio currículos para vagas que encontro na internet e, quando dá, entrego pessoalmente”, diz. O baiano acredita que as chances de ser convocado a partir dessa estratégia são baixas. “O que dá mais resultado é a indicação. Só consegui meus dois últimos empregos porque conhecia gente da empresa”, pontua. Enquanto espera uma chance, o professor não fica parado. “Continuo a me aperfeiçoar, fazendo cursos”, conclui.



Desempregada sim, inativa nunca

 

 

 

Arquivo Pessoal
 

 

Desempregada há dois anos, Rossana Câmara, 50, é formada em secretariado executivo pelo Centro Universitário Internacional (Uninter) e tem procurado emprego dentro e fora de sua área. “Eu abri meu leque. Topo ser recepcionista, atendente, só preciso trabalhar. Compro o Correio todo domingo para checar as oportunidades”, diz. A brasiliense tem nove anos de experiência como secretária executiva e a última posição que ocupou foi como gerente operacional em um shopping. “Não fico sem fazer nada. Estou estudando para concurso, na minha casa mesmo. Sou contratada para cozinhar em jantares pequenos por amigos. Tenho pensado em vender conservas de berinjela e tomate seco. Não posso ficar parada nem consigo”, afirma. Rossana envia currículos diariamente e tem uma tática peculiar: coloca uma fotografia dela no documento para não ser prejudicada pela idade. “Muitos veem que tenho 50 anos e pensam ‘nossa, que velha’. Mas eu não sou nem pareço ser. Por isso, envio minha foto junto para não ser desclassificada na pré-seleção”, diz. A secretária executiva vê, na Lei da Terceirização (nº 13.429/2017), uma chance de retornar ao mercado. “A crise secou as oportunidades, mas, com essa nova legislação, acho que mais vagas serão abertas. É a minha esperança”, declara.

"Eu abri meu leque. Topo ser recepcionista,
atendente, só preciso trabalhar”

Rossana Câmara,
secretária executiva

 

 

Eu consegui!

 

 

 

Gabriela Studart
 

 

Motorista numa loja de carros desde janeiro, Carlos de Morais, 44, passou um ano desempregado após ser demitido da loja de automóveis em que trabalhou por pouco mais de nove anos, como motorista e vendedor de peças. “Depois de mim, demitiram muitos outros empregados. A crise foi o motivo”, lembra. O brasiliense nunca tinha passado tanto tempo sem trabalhar e tomou atitudes para amenizar as adversidades. “Deixei minha rescisão no banco, fui administrando aos poucos. Enviava e entregava currículos. Além disso, fiz bicos de garçom e manobrista. Também passei por um emprego temporário de reformador de cama box. É bom saber de tudo um pouco para não ficar sem opção na hora do aperto”, afirma.

O cargo que ele mais gosta de ocupar, porém, é o de motorista. “Recebi e recebo ainda ligações propondo empregos em vendas, mas não quero”, afirma. Ele conseguiu o emprego atual dois dias após sair de um bico malsucedido em uma empresa de logística. “Distribui currículos num dia. No dia seguinte, me ligaram chamando para a entrevista. Na outra semana, estava trabalhando. Acredito que quem está em busca de uma vaga não pode desistir, tem que correr atrás”, sugere.

 

 

* Estagiários sob supervisão de Ana Paula Lisboa

 

 

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