CAPACITAÇÃO »

O primeiro curso de extensão de doulas é do DF

IFB e associação ofereceram 100 vagas em formação para mulheres. As primeiras turmas terminam em maio

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 23/04/2017 14:45 / atualizado em 23/04/2017 14:48

Bruno Peres
O momento de dar à luz pode ser marcado por medo e sensação de desamparo em corredores de hospitais e maternidades. Para ajudar os pais nesse período é que existe a figura da doula, profissional que oferece apoio emocional, tira dúvidas, aplica medidas de conforto (como massagens e técnicas de relaxamento) e acompanha gestantes antes, durante e após o parto. Para formar mão de obra capacitada para esse nicho do mercado, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB), em parceria com a Associação de Doulas do Distrito Federal, criou o primeiro curso de extensão sobre a área do país. Na primeira edição, cujas aulas começaram em 15 de dezembro de 2016, foram oferecidas 100 oportunidades, exclusivamente para mulheres. “Trabalhamos com questões femininas que, às vezes, não cabem ao homem”, justifica Marilda Castro, presidente da Associação de Doulas do DF.

As vagas foram ocupadas por ordem de inscrição e o grupo foi dividido em duas turmas vespertinas de 50 alunas, cada uma; nos câmpus de São Sebastião e de Ceilândia. Totalmente gratuita, a formação une teoria (passada por professores do instituto e por monitoras da Associação de Doulas do DF) e prática, abordando conteúdos como primeiros socorros, saúde e informática. A aplicação dos conhecimentos é garantida por meio de trabalhos voluntários executados pelas alunas em hospitais. As primeiras turmas do curso de extensão de doulas serão encerradas no mês que vem: a entrega dos certificados está marcada para 28 de maio. “A nossa missão é levar educação de qualidade e excelência onde não há: o lado mais acadêmico é o que faltava para as doulas. É um curso inovador, modelo para outros”, afirma Nilzélia Oliveira, professora de serviço social e coordenadora do curso no IFB de São Sebastião. Diferentemente do que pode indicar o senso comum, doulas não são parteiras. Isso é ressaltado na formação oferecida pelo IFB. “O que elas fazem é auxiliar mulheres durante esse momento. Se a profissional faz o parto, ela está sendo antiética”, observa Nilzélia.

Marilda Castro, graduada em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP), ressalta a importância do curso para sanar lacunas de um mercado que vem crescendo na capital federal. “De cinco anos para cá, a doula teve uma evolução grande no DF. Hoje, somos mais de 700 atuando em Brasília”, relata. Formada em letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e mestre em educação pela Universidade de Brasília (UnB), Letícia Ribeiro é uma das professoras do curso e explica que cada disciplina que compõe o currículo contribui para a formação das participantes. “Em sala de aula, ministrando a matéria Leitura e produção textual, trabalhamos as memórias das alunas e fizemos rodas em que histórias de vida foram contadas. Elas reviveram situações boas e ruins relacionadas ao parto. Mesmo que a matéria tenha sido de língua portuguesa, o enfoque era voltado à temática do curso”, observa.

“As aulas têm mostrado a importância de as mulheres se unirem e se ajudarem. A turma tem crescido muito, criando laços que certamente se estenderão para além do curso”, conta Ednizia Ribeiro, coordenadora da formação de doulas no câmpus Ceilândia. Mestre e doutora em geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela também aprova a interação com mães nas aulas. “Algumas das gestantes acompanhadas pelas alunas deram à luz. Então essa experiência marcou profundamente as mulheres que estão se formando e serve como um estímulo para elas mesmas e para as colegas”, diz. O curso do IFB ainda não é reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) e, para ser oficializado, é necessário que as estudantes, após concluírem com êxito os estudos, se tornem profissionais que podem estender a atuação para hospitais e casas de parto. Ainda não se sabe quando ou se será ofertada uma nova turma do curso de formação de doulas, mas, segundo Marilda Castro, da associação do ramo, e Nilzélia Oliveira, do IFB, a intenção é que outras vagas sejam oferecidas no segundo semestre.

Experiências
Alzira Francisca dos Santos, 57 anos, concluiu o ensino médio na Escola de Jovens e Adultos de São Sebastião há três anos, tem dois filhos, de 26 e de 21 anos, descobriu as aulas por meio de uma rede social e quis aproveitar a oportunidade. Aos 17 anos, Alzira chegou a fazer o parto de uma sobrinha e essa aproximação com o nascimento e o processo de cuidar e trazer alento para gestantes foi o que a motivou a se matricular. “É uma área com a qual me identifico bastante. Quero me aprofundar e me dispor a trabalhar como voluntária para ser uma doula eficiente. Acredito que o mundo precisa de amor, de afeto e de um olhar amigo”, opina. A aluna mais jovem da classe de São Sebastião é Maria Júlia de Melo, 20. Estudante de psicologia da UnB, ela soube o que era uma doula acompanhando blogs e sites sobre o tema. Solteira e sem filhos, espera que, no futuro, possa proporcionar ajuda a quem precisa. “Sempre acompanhei a gravidez das minhas amigas e era angustiante. Percebi que a apreensão é comum durante o parto. Para mim, a gravidez por si só era dolorosa, mas, no curso, entendi que não precisa ser assim, que eu poderia ajudar para que não fosse”, ressalta.

Atribuições

O que a doula faz?
Explica termos e procedimentos, ajuda a mulher a se preparar para o nascimento do bebê. Auxilia a parturiente a encontrar posições mais confortáveis e a relaxar.

O que a doula não faz?
Não realiza procedimentos médicos ou clínicos, administra medicamentos ou monitora a saúde. Não substitui qualquer profissional de saúde. Não cabe à doula discutir procedimentos com a equipe médica ou questionar decisões. Fonte: Marilda Castro

Saiba mais

Curso de formação de doulas
Modalidade: extensão
Carga horária: 205 horas
Informações sobre turmas futuras: www.ifb.edu.br

Origem

A primeira a utilizar o conceito de doula foi a antropóloga americana Dana Raphael, ao observar mulheres que ajudavam novas mães nas Filipinas. Com o tempo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e os ministérios da Saúde de diversos países, entre eles o do Brasil, reconheceram a profissão.

Reconhecimento

A Lei Distrital nº 5.534/2015 regulariza a presença de doulas nos hospitais do DF. O texto afirma que é direito da mulher dispor de um acompanhante escolhido por ela durante o trabalho de parto.

 

 

* Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa