HISTóRIAS DE SUPERAÇÃO »

Meu sobrenome é garra

Segundo especialistas, origem familiar e social, conhecimento e talento não são determinantes para alcançar objetivos ambiciosos. Os ingredientes importantes para virar o jogo são visão de futuro, motivação, persistência e paixão

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 07/05/2017 15:04 / atualizado em 10/05/2017 18:40

 

 

Pessoas que saíram da pobreza, enfrentaram desafios e preconceitos até alcançarem as metas audaciosas no mundo do trabalho revelam o que as levou ao sucesso. Em geral, essa receita é composta por paixão, persistência, busca por conhecimento e uma boa dose de sacrifício

 

Gabriela Studart

 

Talyta Flores

 

Gabriela Studart

 

Gabriela Studart

 

Gabriela Studart

 

De morador de rua analfabeto a escritor, de empregada doméstica à servidora pública e advogada, de frentista a doutorando em patologia molecular, do subúrbio à posição de assessor de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de faxineira à juíza… Histórias de superação como essas ajudam a desmistificar os limites do ser humano e provam que não há barreiras que a força de vontade e a determinação não possam ultrapassar. Para Daniela do Lago, coach de carreira e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), o que separa quem se propõe a enfrentar qualquer desafio para alcançar um objetivo de quem desiste ou se acomoda está nas habilidades comportamentais. “Essa é a diferença das pessoas de sucesso. O conhecimento técnico ajuda, mas não é o que faz acontecer”, comenta.


Emerson Weslei Dias, coach e consultor de carreira concorda. “A paixão e a perseverança valem muito mais que o talento, como a Angela Duckworth (professora de psicologia na Universidade da Pensilvânia) ensina no livro Garra. Se você ama aquilo de fato, vá em frente (e será capaz de resistir a tudo em prol do seu objetivo). Caso contrário, esqueça, pois não terá a força necessária”, diz. Com MBA em gestão estratégica, ele estimula as pessoas a não terem uma visão negativa das adversidades. “É na dificuldade que o ser humano se desdobra. Isolado numa ilha deserta, Robinson Crusoe (personagem do romance do inglês Daniel Defoe) se aperfeiçoou em pesca, pecuária e construção. A necessidade o obrigou a isso”, considera.


Especialista em comportamento no trabalho e autora do livro UP! 50 dicas para decolar na sua carreira, Daniela do Lago cita, além da determinação, a visão de futuro como ingrediente essencial para vencer obstáculos. “Tem gente que está numa situação ruim e consegue enxergar que pode ter uma oportunidade melhor, mas não faz nada para chegar lá. Há também quem tenha muita disciplina e se esforce muito, mas, sem visão de futuro, só reage ao agora e não sabe aonde vai”, observa. “Para dar certo, é preciso haver uma combinação dos dois elementos. A pessoa precisa ter uma definição clara do que quer e arranjar, dentro de si, força para ir atrás”, diz.


Emerson Weslei Dias, autor da série de livros O inédito viável, defende que a motivação é um ingrediente essencial, mas só isso não basta. Certa dose de planejamento ajuda muito”, percebe. “Um plano de ação não é uma condição sine qua non: tem gente que fez tudo sem se organizar e deu certo. Só que uma programação é positiva para entender e se preparar para o que está por vir”, ensina ele, que é diretor de Liderança e Gestão de Pessoas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). “É necessário programar seus recursos (tempo e dinheiro) para cada fase. Por exemplo, se você quer ser juiz, analise o que precisa fazer antes: se preparar para o vestibular de direito, fazer o curso, adquirir experiência, estudar para o concurso… Fica mais fácil ir vencendo por etapas”, completa.

Críticas
Ao longo do caminho para alcançar uma meta que demanda muito esforço, é comum ouvir comentários desestimulantes. “Quando alguém se propõe a fazer algo diferente, inesperado para aquele meio, é mais natural ouvir que não vai conseguir. As pessoas que superam tudo, em algum momento, tendem a ficar isoladas: são rotuladas de diferentes, de doidas porque só estudam, por exemplo”, comenta o consultor Emerson Weslei Dias. O segredo está em não se deixar abalar. “Nem todo mundo vai comprar a sua visão e nem sempre essas falas vêm com má-intenção”, pondera a especialista em comportamento no trabalho Daniela do Lago.


“Há quem faça uma observação negativa pensando em evitar frustração ou sofrimento para você”, comenta. Lidar com os pontos de vista dos outros nem sempre é fácil, ainda mais se as discordâncias vêm de contatos próximos. “Existem comentários maldosos (use-os como trampolim para lhe dar mais força e não de tapete para escorregar). No entanto, não é preciso se fechar para o mundo, pois alguns feedbacks podem ser úteis”, orienta. “A questão é que existe um limite para perseguir uma meta, mas quem precisa estabelecê-lo é você.” Emerson Weslei Dias argumenta que desistir não pode ser uma opção caso aquilo seja uma paixão. “Se é um desejo ardente, você não pode abrir mão. Não é fácil e é preciso pagar um preço. Quem para no meio do caminho não queria tanto assim.”

Origem não é tudo

Pode gerar surpresa o fato de encontrar profissionais oriundos de famílias pobres e situações complicadas nas posições mais cobiçadas no mundo do trabalho, enquanto muitos indivíduos que nasceram em classes sociais abastadas não conseguem êxito na carreira. No entanto, Daniela do Lago cita uma pesquisa do instituto norte-americano Franklin Covey, a qual demonstra que a procedência não é fator determinante para a vitória. “75% dos líderes que mais contribuíram para o bem da humanidade vieram de lares desestruturados. Muitas vezes, o erro dos pais mais abastados é a superproteção, ao não deixar o filho lidar com as consequências dos próprios atos”, analisa. O coach Emerson Weslei Dias observa ainda que os contextos — não só o familiar — em que as pessoas estão inseridas tendem a ser limitadores. “A vida em sociedade, em família e o nosso medo de errar nos condiciona para o não e são poucos os que contestam isso”, diz.

 

Dicas para alcançar suas metas

 

» Aceite que a vida não é fácil
» Descubra o que você quer para a sua vida e o porquê disso
» O brilho no olhar e o entusiasmo devem ser constantes
» Concentre-se no seu objetivo sem se desviar
» Planeje os passos necessários para chegar lá e se prepare fase por fase
» Não sofra por causa de comentários maldosos sobre o seu sonho
» Foque no que você pode fazer para solucionar os problemas
» Estude e busque conhecimento
» Tenha humildade em tudo o que for fazer

Fontes: Daniela do Lago, Emerson Weslei Dias e Tathiane Deândhela

 

APRENDA COM QUEM CHEGOU Lá »

 

O frentista será doutor

 

 

Gabriela Studart
 

Em março de 2010, Agnelo Rodrigues de Souza Neto, 34 anos, realizava o sonho de começar um curso superior em ciências biológicas na Universidade de Brasília (UnB). Mais de sete anos depois, o mineiro de São Francisco não só terminou a graduação como também se tornou mestre em patologia molecular pela Faculdade de Saúde (FS/UnB) e, desde o ano passado, cursa doutorado na mesma área. A paixão pela vida acadêmica, por pesquisa e por lecionar é natural hoje, mas muitos duvidavam que ele, então frentista de posto de gasolina e ex-ajudante de pedreiro, conseguiria tudo isso. Um dos nove filhos de dois lavradores, Agnelo teve uma educação bastante irregular. Por ter reumatismo no sangue, teve de parar de estudar durante alguns anos para fazer tratamento médico. Nos períodos em que estudou, a escola sempre ficava muito distante. “Em uma das vezes, eram 10km. Saía de casa a pé às 9h para chegar à aula às 12h. Era muito sofrimento.”


Quando chegou à maioridade, Agnelo havia terminado a 6ª série do ensino fundamental. Em 2001, se mudou de vez para a capital federal e arrumou emprego como ajudante de pedreiro enquanto aguardava uma vaga na Educação de Jovens e Adultos (EJA), que só apareceu em 2004. “Em 2006, terminei o ensino médio, mas a qualidade da EJA era péssima. O professor sempre mandava pular as questões de vestibular, pois dizia que eram muito difíceis para nós”, relata. Ao começar a trabalhar como frentista no Lago Sul, os planos dele se voltaram para a UnB. “Eu vi o anúncio de um cursinho que dizia ‘Entre na Universidade de Brasília em seis meses e devolvemos seu dinheiro’ e me matriculei”, conta. Agnelo escolheu biologia por ter afinidade com bichos e plantas. O cursinho foi parcelado, mas a aprovação no vestibular do segundo semestre de 2007 não veio. “Fiquei estudando em casa e fiz todos as provas daí até o primeiro semestre de 2010, quando passei, no sistema de cotas para negros. Nesse meio tempo, eu assinava o Correio e respondia os simulados que eram publicados no caderno Eu, Estudante. Também foi por meio do jornal que eu soube de um cursinho gratuito”, revela.


Durante a graduação, ainda foi frentista por mais um ano. “No mesmo posto de gasolina em que eu trabalhava, teve um colega que clonou cartão e está preso até hoje. Já eu, clono genes”, diz, rindo. Quando conseguiu bolsas de auxílio e de pesquisa, Agnelo abandonou o emprego para se dedicar mais à faculdade. “Eu só aprendi o que precisava para passar no vestibular, mas havia muitas lacunas. Reprovei em algumas disciplinas e precisei estudar bastante”, conta. Na convivência com colegas, a discriminação apareceu algumas vezes, tanto pelo fato de ser cotista quanto pelas condições socioeconômicas. Como as bolsas oferecidas pela UnB eram baixas para ele manter a família (na época, estava separado e cuidava de uma filha), Agnelo complementou a renda trabalhando como entregador de pizzas até se formar, em 2014.


“Na graduação, eu recebia R$ 400 da universidade. No mestrado e no doutorado, a bolsa é maior.” Hoje, pai de duas meninas de 11 e de 4 anos e de um menino de 4 meses, Agnelo mora no Itapuã. “Ter filhos aumentou o meu senso de responsabilidade. Eu queria ser um exemplo e mostrar que eles podem ser o que quiserem. Se eu, que não tive uma boa educação na infância, cheguei até aqui, imagine eles”, analisa. Depois de se tornar doutor, Agnelo deseja ser professor — e não há dúvidas de que vai conseguir. “Coloco muita fé no que faço. Tudo que começo termino. Também ajuda o fato de eu ser muito alegre e não ser ganancioso”, resume. “A dica que posso deixar para quem tem uma meta a alcançar é não desistir: dificuldades vão existir sempre. Escolha o que você quer e persista, independentemente do que os outros digam.” E não foram poucos os comentários maldosos que ele ouviu. “Só que isso não me afeta, mas, sim, me dá mais força.”

 

Obsessão por conhecimento

 

Talyta Flores
Há três anos, a goiana Tathiane Deândhela, 31, fundou um instituto de treinamentos corporativos que leva o sobrenome dela. A organização tem escritórios em Goiânia e em Danbury, nos EUA. Oriunda de uma família pobre, ela diz que tudo foi conquistado com entusiasmo, dedicação e busca por educação. “Quando minha mãe engravidou, foi expulsa de casa e passou fome; meu pai biológico nunca me reconheceu. Com 7 anos, eu vendia amostras de perfumes na escola para ganhar um dinheirinho. Tive um pai de criação que foi um presente de Deus, mas tudo se complicou quando ele foi assassinado”, conta. Na época, com 11 anos, Tathiane se desdobrou para pagar contas (vendia bijuteria e chocolate).


Ela se formou em administração em turismo na Pontifícia Universidade Católica de Goiânia (PUC-GO),  período em que trabalhou como vendedora, recepcionista e secretária e contou com uma bolsa da OVG (Organização dos Voluntários de Goiás). Depois disso, se especializou em marketing e fez mestrado em liderança. “Dizem que sou viciada em estudar e é verdade. Depois da faculdade, investi mais de R$ 300 mil em cursos. Até hoje, tenho dó de gastar com roupa e com comida, mas com estudo não”, compara.


A carreira de Tathiane deslanchou depois de ela ter começado a trabalhar como vendedora num instituto de pós-graduação. “Entrei ganhando R$ 800 e, seis anos depois, como diretora nacional, faturava mais de R$ 50 mil”, conta. Para ela, a receita do sucesso está numa “chama interna” ou felicidade. “Eu podia passar fome que estava feliz: é um brilho nos olhos que vem do fato de eu ter sonhos.”

 

APRENDA COM QUEM CHEGOU Lá »

 

Transformação composta por fé, leitura e escrita

 

 

Gabriela Studart
 

Natural de Dois Irmãos (GO), Ivan da Matta, 55 anos, veio morar no DF com sete dias de nascido. A mãe, cozinheira, cuidava de nove filhos sozinha. “Com 6 anos, comecei a vender picolé. Aos 7, balas e exemplares do Correio Braziliense, além de engraxar sapatos”, diz. A mãe tentou fazer com que ele estudasse, mas como Ivan era gago, tinha dislexia, discalculia e dislalia, não se adaptava. “Eu fugia da escola. Passei a ficar cada vez menos em casa. A rua era, para mim, um refúgio de liberdade e foi onde fui viver, aos 8. Dormia em banheiros, no Conic, na Rodoviária.” Ivan acabou se envolvendo com drogas e álcool.


“Depois, arrumei trabalho numa empresa de dedetização e aluguei um quartinho. Aos 21, senti necessidade de procurar minha mãe e voltei a viver com ela, mas ainda não tinha largado as drogas”, conta. No ano seguinte, a vida dele passou por uma grande mudança. “Fui trabalhar com um empresário vendendo equipamentos de alumínio (como cuscuzeira e churrasqueira), expliquei que eu tinha dificuldade de falar, por ser gago, mas ele me aceitou mesmo assim. Esse chefe me convidou para conhecer a Igreja Assembleia de Deus que ele frequentava”, recorda. “Lá, perguntaram se eu tinha interesse em me ressocializar. Aí, pensei: ‘agora é minha oportunidade’. Foi então que virei crente, larguei as drogas, tirei documentos e fui me alfabetizar num mobral”, lembra. “Quando li meu primeiro livro, aos 22 anos, meu universo cognitivo começou a se abrir. Ler se tornou uma obsessão. Eu estudava tanto que as pessoas diziam que estava doido. Gastava meu dinheiro só com livros”, revela.


Ivan terminou o ensino médio em 1989 e nunca mais parou de estudar: fez faculdade de teologia e filosofia, pós-graduação em defesa teológica e em psicoterapia clínica. Ivan trabalhou como pastor durante muito tempo, ganhando um salário de R$ 600. Para arcar com as mensalidades das faculdades, vendia chocolates. “Comecei o curso superior em psicologia no Centro Universitário Iesb. Fiz todas as matérias, falta um estágio obrigatório para terminar”, revela. Durante as aulas, descobriu outra paixão. “Quando comecei a escrever, todos os mundos se abriram para mim.”


Há seis anos, o goiano deixou a carreira evangélica para focar na escrita: ele escreveu 26 livros, dos quais 10 foram publicadas em edição própria. Agora, analisa propostas editoras. “Entreguei meu cargo na igreja e parei de dar aula em seminário. Minha família me apoiou”, diz, referindo-se à esposa e aos três filhos de 27, 26 e 25 anos. “O mais velho fez teologia e hoje estuda direito; a do meio, casada e com uma filha de 9 anos, está terminando direito; e o caçula é músico e designer. Somos uma família estruturada, algo de que senti falta na infância. Hoje, sou muito realizado”, comenta, orgulhoso. “A parte mais difícil da minha vida foi viver às margens da sociedade, ser estigmatizado”, percebe. “O que eu posso dizer sobre a minha história é que não há limites, humanamente falando, que não possamos vencer ou superar. As pessoas têm capacidade, resiliência e uma força intrínseca — às vezes, só falta despertá-la.” Este ano, além de se formar como psicólogo, o escritor deseja começar um curso de sociologia. 

 

Do subúrbio do RJ ao STF

 

Gabriela Studart
 

O caminho para sair do subúrbio carioca até se tornar advogado, mestre e doutorando em direito processual pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), procurador público em Mauá (SP) e, por fim, assessor de Luiz Fux — ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — não foi fácil. Irapuã Santana, 30 anos, superou desafios com um perfil estudioso, dedicado e humilde.

 

Filho único de um maquinista aposentado e de uma dona de casa, o carioca estudou em escolas particulares graças ao esforço da família e às bolsas que conseguiu por bom desempenho. Aos 12, ele se mudou para Maricá, cerca de 60km distante da cidade do Rio de Janeiro. “Eu queria ser militar. Passei na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), mas não pude entrar, pois no exame admissional, descobri que tinha um pouco de miopia”, lembra.


Irapuã continuou estudando para concursos, foi ajudante de garçom e deu aulas particulares de matemática, física e química, mas não havia um curso superior que despertasse interesse. O jovem iniciou no direito por influência do pai. Aprovado por cotas na Uerj e na UFF (Universidade Federal Fluminense), escolheu a primeira pela tradição do curso. “O ritmo era pesado, até porque tinha o fator da distância: eu acordava às 4h, pegava ônibus às 4h30 para estar na universidade às 7h. Juntava a fome e o cansaço e ficava complicado, mas, no segundo ano da faculdade, eu passei a conseguir acompanhar melhor”, lembra.


Durante as aulas, se apaixonou pela área. “O professor Luís Roberto Barroso, hoje ministro do STF, me ajudou bastante e até recebi uma bolsa do escritório dele”, conta. Ele fez estágios na Defensoria Pública de Maricá e no escritório de advocacia Carboni onde foi efetivado. “Fiquei lá de 2006 a 2012. Fui o primeiro negro do corpo técnico do escritório”, relata. O advogado conciliava o trabalho com os estudos para concurso e para ingresso no mestrado da Uerj. “Eu precisava assistir a umas aulas como aluno especial, mas elas eram bem no horário do expediente. Conversei com meus pais e pedi ajuda para ficar um mês estudando até encontrar outro emprego.” Foi assim que ele conseguiu uma vaga de audiencista num escritório: a posição tinha horários flexíveis, que facilitaram a participação de Irapuã no mestrado (entre os oito aprovados, ele era o único negro e disputou a posição com 150 pessoas). “Audiencista não é um cargo muito valorizado, mas foi por meio dele que tive a ideia de escrever a minha dissertação que depois virou livro sobre o princípio da igualdade na mediação”, conta. Por isso, uma das dicas dele para alcançar objetivos é “aproveitar todas as oportunidades, mesmo que não pareçam atraentes.”


Sete meses depois de ser aprovado no no concurso da Procuradoria do Município de Mauá, foi convidado por Luiz Fux para assessorá-lo. Irapuã foi cedido para o STF e, atualmente, está lotado no TSE. “É uma responsabilidade enorme dar subsídios para que o ministro forme a convicção dele. É muito normal trabalhar 12 horas por dia. O Frei David, que conheci ao me engajar com a Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), certa vez me perguntou se eu já tinha pensado em desistir. Eu respondi: quase toda semana”, diz. Na ambiente jurídico, sofreu discriminação. “Já fui confundido com segurança e motorista”, revela.


O apoio dos pais e da mulher, advogada, foi importante em todas as conquistas, mas Irapuã cita ainda o fato de acreditar em Deus e a necessidade como ingredientes que o levaram a seguir em frente. “No meu ambiente, tudo ia contra: de um grupo de 40 amigos do Riog, tem apenas oito ou 10 vivos e livres. Quando você está ferrado, não dá para desistir”, revela ele, que foi o primeiro da família a fazer curso superior. No ano passado, Irapuã realizou o sonho de fazer um curso de um mês na Universidade Yale, nos EUA, e planeja voltar para um mestrado. No tempo livre, é consultor da Rádio Justiça e mentor do projeto Empodera e escreve artigos sobre a questão racial.

 

Futuro médico pela UnB

 

Michael Rios

 

 

“Tenho o sonho de ser médico desde pequeno. Eu via meu pai doente, com hérnia de disco, e queria ajudá-lo. Quando meu avô desenvolveu câncer de próstata, acompanhei o sofrimento até a morte dele. Tudo isso me tocou”, conta Danilo Ricardo Rodrigues, 17 anos, ex-aluno do Centro de Ensino Médio (CEM) 4 de Ceilândia. O jovem estudou em escolas públicas desde o 6º ano do ensino fundamental e cursará medicina também numa instituição mantida pelo governo: a Universidade de Brasília. O nome dele apareceu entre os aprovados pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) em janeiro, mas ele só começará o curso no segundo semestre do ano. Morador de Ceilândia, Danilo teve o apoio de bons educadores no CEM 4. “Sempre que eu precisava de algo ou tinha alguma dúvida, sabia que podia contar com os professores”, percebe.

 

Catequista na Igreja Nossa Senhora da Glória, ele dá aulas de inglês na Escola Castelinho do Pequeno Sábio, recebendo menos de um salário-mínimo. Filho de um vigilante e de uma dona de casa, o adolescente se tornará o primeiro médico da família e superou expectativas ao conquistar o segundo lugar entre os selecionados pelo sistema de cotas para alunos de escolas públicas para o segudo semestre do ano. Incentivado a estudar desde a infância, Danilo preferia ganhar livros a carrinhos e brinquedos. “Quando eu queria ler algo novo, meus pais faziam de tudo para me proporcionar”, relata ele que estudou inglês, francês e japonês. Entre as oportunidades marcantes da vida dele está a participação no programa Jovens Embaixadores, iniciativa da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Ele embarcou para Washington em janeiro do ano passado. Na visão de Danilo, basta acreditar em si mesmo para conquistar sonhos. “Quando você coloca na sua cabeça que é capaz de alcançar algo, mesmo que não haja alguém para te dar o incentivo necessário, passa a poder. Seu lado psicológico é muito importante para conseguir o que se almeja”, conclui.

 

Meu combustível é sonho

 

Gabriela Studart
 

Técnica em enfermagem, advogada e especialista em direito e advocacia empresarial, Alessandra Nogueira Lopes, 38 anos, concilia a função de servidora pública na Secretaria de Saúde (numa jornada de 40 horas) e a atuação num escritório de advocacia. Ela trabalha “desde que se conhece por gente”. Cresceu na roça em Posse (GO) e ajudava em serviços da casa. Aos 13, virou empregada doméstica. Aos 16, foi trabalhar em salão de beleza. Acabou largando a escola no 3º ano do ensino médio. Aos 20 anos, teve uma filha e, pensando em mudar de vida, ingressou num curso técnico em enfermagem. Alessandra insistiu com o patrão para que lhe desse um mês de férias a fim de estudar para o concurso da Secretaria da Saúde do Distrito Federal. “Ouvi um ‘não’, mesmo depois de oferecer alguém para ficar no meu lugar. Houve um dia em que fui para uma escada e comecei a chorar. Meu chefe viu, entendeu o quanto aquilo era importante para mim e voltou atrás na decisão”, conta.


O plano era passar no concurso nas últimas posições, para ter tempo de concluir o curso e o ensino médio antes de ser convocada. Deu certo e ela começou a trabalhar em 2003. Com um salário melhor, não parou de estudar. Cursou direito no Centro Universitário Iesb, após a conclusão, em 2012, precisou tentar a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) cinco vezes para passar. “Conciliar o cuidado com a família, a rotina no trabalho e os estudos não era fácil”, recorda. A pressão sobre os ombros dela aumentou por problemas pessoais, como o período em que a filha adoeceu. Em tudo que fez, nunca cogitou desistir.


“Não tinha tempo para pensar nisso. O ambiente ao meu redor fez com que eu tivesse de me mover. Eu não gostava de ser doméstica — tinha vergonha e, na escola, dizia que ficava na casa de uma tia quando estava no trabalho. Sempre quis mais, crescer e ter um objetivo maior na vida”, acrescenta. Moradora do Lago Norte, Alessandra ainda tem muitos planos para alcançar: o próximo é passar num concurso para procuradora. “É preciso insistir nos objetivos. Mesmo sendo pesadas, as marcas da vida são necessárias. Tudo pelo que passei me tornou mais forte. Acho que a gente deve correr atrás dos sonhos não por obrigação, mas é isso que faz a vida ter sentido, é um combustível”, revela.


APRENDA COM QUEM CHEGOU Lá »

 

Um juiz negro

 

Arquivo Pessoal
De Paranaíba (MS), Fábio Francisco Esteves, 37 anos, foi criado em Chapadão do Sul. A família vivia na roça: o pai era capataz e a mãe, além de cuidar de três filhos, cozinhava para 50 peões. “Fui alfabetizado aos 8 anos em uma fazenda, onde existiam poucos professores para muitos alunos”, lembra. Apesar de analfabeto, o pai de Fábio, se empenhou para que os filhos estudassem e, depois que esse morreu (na época, Fábio tinha 11 anos), a mãe foi trabalhar como empregada doméstica. Fábio sempre foi estudioso e, aos 15, pôs na cabeça a ideia de se tornar juiz. Aos 17, saiu de casa a fim de fazer cursinho para o vestibular. A distância compenso: ele fez direito na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e passou num concurso do Banco do Brasil para técnico bancário ainda durante a graduação.


A partir de uma permuta, mudou-se para Brasília. “Vim para a capital sem conhecer ninguém, passei por dificuldades, inclusive financeiras, por causa do custo de vida daqui”, conta. Na época, chegava a passar semanas sem comer carne, economizando. Outro desafio foi a solidão. Fábio ficaria dois anos e meio no DF estudando para o concurso da magistratura. No período, a mãe dele (hoje servidora numa creche no MS) teve muitos problemas de saúde, “todos de ordem emocional”. A situação se normalizou depois que Fábio conquistou o que tantos consideravam inimaginável para ele: a vaga de juiz no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), onde atua como titular na Vara Criminal. Hoje, ele é ainda juiz do Tribunal do Júri do Núcleo Bandeirante e, desde o ano passado, representa a categoria na capital federal como presidente da Associação dos Magistrados do Distrito Federal e Territórios (Amagis-DF).


Entre tantos desafios enfrentados, Fábio coleciona ainda situações em que sofreu preconceito por causa do tom da pele. “Minha maior dificuldade na vida continua sendo a desigualdade. Chegar à magistratura não significa que as coisas tenham melhorado completamente. As pessoas acham que porque sou juiz não posso discutir assuntos a respeito de cor, como se esses temas tivessem deixado de ser importantes por causa do meu cargo”, explica. “Não vivemos em uma sociedade totalmente democrática, pois ela discrimina e ainda trata desigualmente brancos e negros. Basta olhar as estatísticas: pretos e pardos estão na ponta dos menos favorecidas, são a maioria nos presídios — e isso é visto como normal”, critica. “Quando veem um negro em posição de destaque, há um estranhamento em algumas pessoas”, percebe. Morador do Sudoeste, o juiz é especialista e mestre em direito e o único professor negro da Escola da Magistratura do Distrito Federal. Ele define a receita para alcançar metas como a combinação entre acreditar em si mesmo e se esforçar sobremaneira. “É preciso ter uma dose de inocência e lutar demais. Sempre ache que ainda está lutando pouco para chegar aonde se quer”, finaliza.

 

 

Das faxinas à toga

 

Arquivo Pessoal
 

“Ninguém da minha família era da área jurídica, fui a única dos meus irmãos a concluir o ensino superior. Sempre acreditei que o estudo era capaz de mudar minha vida”, conta Adriana Queiroz, 38 anos, juíza titular da 1ª Vara Cível e da Vara da Infância e do Adolescente de Quirinópolis (GO) desde 2011. Os pais dela eram trabalhadores rurais do interior da Bahia e, em busca de oportunidades, se mudaram para Tupã (SP), onde ela nasceu. Depois de concluir o ensino médio, Adriana passou a fazer faxina na Santa Casa de Misericórdia. Na época, sofria preconceito. “As pessoas julgam pela cor da pele ou pelo contexto. Fui muito desacreditada quando dizia que queria fazer faculdade e me tornar juíza. Não era comum ver alguém com minhas características em um cargo visto como elitista”, conclui.


Ela passou no vestibular da Faculdade da Alta Paulista (FAP), mas não ganhava o bastante para as mensalidades e, numa conversa com o diretor da instituição, conseguiu uma bolsa parcial. Com a formatura, decidiu de vez se tornar juíza — plano que demorou sete anos para ser concretizado. Deixou a cidade pequena e foi morar sozinha em São Paulo, com dinheiro suficiente para passar apenas dois meses num pensionato. A busca por emprego se revelou árdua, mas ela conseguiu uma chance no cursinho Damásio, que concedeu à Adriana uma bolsa integral e a possibilidade de trabalhar como auxiliar de biblioteca. Casada há dois anos, ela espera passar aos filhos que tiver no futuro a mensagem de que é preciso lutar por seus objetivos e sempre valorizar a educação. Com pós-graduação em processo civil, penal e processo penal e em direito da criança e do adolescente, ela continua estudando. Começou o curso de letras  — português e inglês na Universidade Estadual de Goiás (UEG) em 2016. O gosto pelas palavras e a história de superação tomaram forma de livro lançado no fim de abril: Dez passos para alcançar seus sonhos — A história real da ex-faxineira que se tornou juíza de direito. “Tenham fé em si mesmos e em Deus. Com muito empenho, é, sim, possível realizar sonhos, não importa o contexto social”, orienta.

 

Dos sacos de pão à cadeira de magistrado

 

Arquivo Pessoal
 

Ex-entregador de pão, Rodrigo Terças, 37 anos, é juiz do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA) e do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA) desde 2010. O filho mais velho de uma pedagoga e de um gerente de padaria, aos 14 anos, levantava-se às 4h para distribuir sacos de pão em São Luís (MA). O trabalho terminava às 7h30, quando ele tomava banho e café para ir à escola. A rotina não prejudicou o desempenho escolar dele, que era aluno aplicado. “Meu pai sempre me disse que a solução para o pobre é estudar. Meu irmão caçula é juiz do Trabalho, enquanto o do meio se tornou neurocirurgião. O que se passou comigo e com meus irmãos se deve ao fato de sempre termos estudado. A solução para qualquer pessoa e qualquer nação está na educação e na insistência. Se você se esforça, não vai depender de ninguém para nada”, opina.


A vontade de trabalhar na Justiça não foi imediata. Ele fez o ensino médio integrado com curso profissionalizante em informática industrial no Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão (Cefet-MA). “Consegui um emprego de instalador de internet e visitava muitas casas, entre elas, algumas de juízes e advogados. Foi então que me interessei pela magistratura”, diz. Rodrigo se formou em direito pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e fez pós-graduação em processo civil pela Faculdade Integrada de Jacarepaguá (FIJ). A partir de 2000, passou a colecionar aprovações em concursos: foi auxiliar judiciário e oficial de Justiça no TJMA, analista judiciário do TRE, até se tornar juiz. Casado, Rodrigo tem uma filha de 4 anos e diz se sentir realizado profissionalmente.

 

 

Leia 

 

 

Garra, o poder da paixão e da perseverança
Autora: Angela
Duckworth
Editora: Intrínseca
336 páginas
R$ 44,90 (livro) ou
R$ 34,90  (e-book)

 

 

 

 

 

 

O inédito viável

Autor: Emerson Weslei Dias
Editora: D Livros
133 páginas
R$ 25

 

 

 

 

 

 

 

 

Up! 50 dicas para decolar na sua carreira
Autora: Daniela do Lago
Editora: Integrare
248 páginas
R$ 42,90

 

 

 

 

 

 

 

 

Robinson Crusoé
Autor: Daniel Defoe
Editora: Penguin
e Companhia
das Letras
405 páginas
R$ 27,90

 

 

 

 

 

 

 

O poder das adversidades —como as adversidades
podem nos levar ao

caminho da
resiliência
Autor: Ivan da Matta
Edição própria
252 páginas
R$ 46

 

 

 

 

 

 

A arte de superar o cárcere da dor
Autor: Ivan da Matta
Edição própria
224 páginas
R$ 38

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faça o tempo trabalhar para você
Autora: Tathiane
Deândhela
Editora: Ser Mais
184 páginas
R$ 29,90

 

 

 

 

 

 

 

 

Dez passos para alcançar seus sonhos — a história real da ex-faxineira que se
tornou juíza de direito

Autora: Adriana Maria Queiróz   
Editora: Talentos da
Literatura Brasileira
192 páginas
R$ 29,60

 

 

 

 

 

 

 

 

*Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa