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ENTREVISTA HENRIQUE LABELLA E AUGUSTO LABELLA »

Como é estudar em Michigan

Gêmeos formados na renomada universidade dos EUA falam sobre a experiência e deixam dicas para quem deseja fazer graduação no exterior

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postado em 14/05/2017 17:07

Arquivo Pessoal

 

A aprovação em uma instituição de ensino superior de ponta é motivo de alegria para qualquer família, ainda mais se ela vier em dose dupla. Os gêmeos paulistas Augusto Labella e Henrique Labella, 22 anos, fizeram o ensino médio no Colégio Etapa, em São Paulo, tiraram, respectivamente, 1.970 pontos e 2.060 pontos no SAT (Scholastic Aptitude Test), de um máximo de 2.400, e receberam as cartas de aceitação da Universidade de Michigan com três meses de diferença. A dupla deixou o país em 2013 para viver em Ann Arbor, no estado de Michigan, nos Estados Unidos. Eles colaram grau em 29 de abril. Augusto, o primogênito, se formou em economia. Já Henrique se tornou engenheiro químico.


A experiência foi custeada pelos pais, um professor universitário de marketing e a dona de uma consultoria de RH. Apenas as taxas da universidade custavam cerca de US$ 20 mil por semestre para cada um. Agora formados, os irmãos seguirão caminhos diferentes. O economista pleiteia uma vaga em uma instituição financeira em Nova York. O engenheiro químico está fazendo uma pesquisa sobre produção de asfaltenos (família de compostos orgânicos do petróleo) na universidade e retornará ao Brasil em agosto com planos de participar de um programa de trainee ou mestrado.
 
Por que vocês decidiram estudar nos EUA?
Augusto — Eu nem sempre quis isso. Tomei a decisão no 3º ano do colegial, em 2012, quando um cara que estudou fora deu uma palestra na minha escola. Isso me inspirou. Eu me interessei por tentar algo fora do Brasil principalmente pela oportunidade de fazer pesquisas com mais estrutura. Participei de processos seletivos do exterior enquanto fazia vestibulares por aqui. Passei nas universidades de São Paulo (USP) e na Estadual de Campinas (Unicamp), além de na Fundação Getulio Vargas (FGV). Antes de decidir de vez ir para Michigan, cursei um mês de economia na USP.


Henrique — Estudar fora era um sonho que eu tinha desde pequeno, pensando em ter acesso às pesquisas mais avançadas e aos melhores professores. Além disso, a vida de universitário é bem diferente lá: você sai da casa dos pais, mora com vários alunos e aprende a se virar. Participei da mesma palestra que o Augusto, e quando vi que ele tinha acordado para essa oportunidade, também fui atrás.

Como foi o processo seletivo da Universidade de Michigan?
Augusto — A preparação foi complicada. Conciliei os estudos para a Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular, responsável pela seleção da USP) e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), com SAT, Toefl (Test of English as a Foreign Language) e tudo mais. Foi um ano difícil, ainda mais porque meu colégio era puxado. Além de Michigan, eu me candidatei às universidades de Columbia, Brown, Yale, Harvard, Princeton, Chicago e Pensilvânia. Eu e o Henrique não ligávamos se iríamos juntos ou não, mas acabamos sendo aprovados no mesmo lugar. Uma coincidência boa. Principalmente para meus pais poderem visitar os dois de uma só vez e comprar móveis só para um (risos).


Henrique — Definitivamente, a preparação para estudar fora precisa ser maior do que para um vestibular, pois não há apenas uma prova. São muitas etapas, como SAT, entrevistas, redação, análise de boletim escolar. Atividades extracurriculares contam pontos. Eu tentei passar em Stanford e em universidades americanas da Ivy League. Também me candidatei para algumas no Canadá: as universidades de Toronto e de Colúmbia Britânica (UBC). Por fim, fui aprovado na UBC e em Michigan.

Que tipo de estudantes vocês foram no ensino médio?
Augusto — Eu era um bom aluno, tirava boas notas, especialmente no último ano, em que estudei muito mais que nos outros. No tempo livre, eu tocava contrabaixo numa banda cover do Pink Floyd e também tocava nas gincanas do colégio. Outras atividades extracurriculares que eu fiz foram trabalho voluntário (doando roupas para asilos) e o fato de ter ganhado uma medalha de prata na Olimpíada Brasileira de Linguística (OBL). Com certeza, vivências assim ajudam na seleção.
Henrique — Eu era um aluno mediano nos dois primeiros anos, mas, no terceiro, “acordei para a vida” e comecei a estudar de olho no SAT e na Fuvest. Nas horas vagas, tocava guitarra.

Como foi a adaptação para viver e estudar nos Estados Unidos?
Augusto — Ah, foi difícil no começo. Minhas notas não foram tão boas no início. Na Universidade de Michigan, o  sistema de pontuação é o GPA (Grade Point Average):  o rendimento, de 0% a 100%, em cada aula é convertido em uma letra de A a F. Depois, essa letra é convertida de volta em um número de 0 a 4 (o tal do GPA). Por 0,1% de diferença, duas pessoas com pontos semelhantes acabam com notas bruscamente diferentes. Entender esse sistema e tentar usá-lo a seu favor é trabalhoso.
Henrique — Os primeiros anos foram intensos. Era tudo extremamente incomum, incluindo o sistema de notas, pois existe uma curva: não importa se você foi bem ou não, importa como você se saiu em relação aos outros. Essa dinâmica é difícil e gera muita competição.

Quais as principais diferenças que vocês notaram entre estudantes norte-americanos e brasileiros?
Augusto — Os americanos são mais bem preparados para as aulas. Tem laboratórios em que o pessoal chega sabendo a matéria e só se reúne para discuti-la. Eles têm muito mais medo de tirar nota baixa.
Henrique — Os brasileiros têm um foco menor em nota. No Brasil, se você for mal, pode fazer dependência, recuperação ou prova substituta. Aqui, quase todos passam. Quem tem um desempenho ruim carrega isso para sempre no currículo e tem que explicar para empregadores o que aconteceu.

Quais são as vantagens de estudar fora?
Augusto — Para mim, são as oportunidades de trabalho.  Também posso citar como benefícios  a visão multicultural que você ganha e a maturidade adquirida. Henrique — A maior vantagem é poder trabalhar tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Em que tipo de atividades xtracurriculares vocês se engajaram?
Augusto — Fiz parte do Clube dos Estudantes Brasileiros e também da fraternidade Delta Chi. No último ano, fui presidente da Associação dos Estudantes Brasileiros (Brasa). Nas férias de verão, fiz estágios no Itaú-Unibanco, em 2015, e no Private Bank do Itaú, em 2016, ambos no Brasil.


Henrique — Também fui presidente da Brasa. Fiz parte de fraternidade e do Chemical Engineering Car Team, em que produzimos um carro movido a produtos químicos. Em São Paulo, estagiei na Ambev e no Itaú nas férias.

 

O Enem dos EUA
O Scholastic Aptitude Teste (Teste de Aptidão Escolar) é um exame utilizado pelas universidades americanas nos processos de admissão. Aplicado em escala nacional, assemelha-se ao Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) e avalia conhecimentos em matemática, língua inglesa, interpretação de textos e escrita.

 

Acesse
Saiba mais sobre a instituição em www.gobrasa.org. Sem fins lucrativos, a rede oferece programas de mentoria e outras formas de apoio a quem estuda ou quer estudar no exterior.

 

 

 

*Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa