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Cobradores em extinção

Em São Paulo, o prefeito João Doria pretende eliminar essa profissão do transporte público. Em Brasília, a ideia não foi discutida, mas a implantação da bilhetagem eletrônica, que começou em fevereiro, levanta dúvidas sobre a continuidade da carreira

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postado em 28/05/2017 13:59 / atualizado em 28/05/2017 14:14

Lanna Silveira

O prefeito de São Paulo (SP), João Doria (PSDB), promete retirar os cobradores do transporte público da maior metrópole brasileira até o fim do mandato. Segundo o empresário e político, o gasto com esse profissional é desnecessário, já que 92% das passagens são pagas por meio do bilhete único (ou seja, sem uso de dinheiro em espécie na entrada do ônibus ou do metrô). Ao eliminar o cargo do sistema, Doria pretende gerar uma economia de R$ 800 milhões por ano. Em Brasília, o Poder Executivo nunca manifestou intenção parecida, mas, em fevereiro deste ano, o Programa de Mobilidade do Governo do Distrito Federal (GDF) deu início à implantação do Sistema de Bilhetagem Automática, com validação das passagens por meio de um cartão que deve ser previamente abastecido.


A transição ainda não tem data marcada para acabar. Quando for concluída, os pagamentos para ingresso no transporte púbico serão efetuados antes da entrada. Nessas circunstâncias, surge a dúvida: será que os cobradores continuarão sendo mantidos no posto? Fontes de empresas que operam no transporte público do DF acreditam que a substituição completa do modelo tradicional deve alcançar todas as frotas brasilienses em um ano; a partir daí, a demissão ou a permuta desses trabalhadores para outras funções poderia se tornar realidade. A informação não é confirmada pela Secretaria de Estado de Mobilidade do Distrito Federal (Semob). A pasta afirmou, por meio de nota, que “dispensar cobradores de ônibus não é uma opção para o DF” e que a implantação do bilhete único “trará economia ao sistema e diversos benefícios para os usuários”. Questionado sobre como isso reduziria gastos se não haverá cortes de pessoal, o órgão não se manifestou.

 

Lanna Silveira
 

Marcos Junior Duarte, secretário de Imprensa do Sindicato dos Rodoviários do Distrito Federal, diz desconhecer qualquer iniciativa de retirar os cobradores de circulação. “Em nossas reuniões sobre o novo sistema, o governo falou das vantagens do bilhete único para a sociedade, mas não citou a possibilidade de extinção da carreira e expressou o desejo de não demitir ninguém”, observa. “Caso mudem de ideia e declarem que não haverá mais a profissão, batalharemos até o fim contra isso”, garante.


Paulo César Marques, doutor em estudos de transporte e professor da Universidade de Brasília (UnB), avalia que a adesão à bilhetagem eletrônica é uma tendência mundial. “O avanço tecnológico faz e fará com que, cada vez mais, exista redundância de funções, o que leva à extinção de alguns postos”, comenta. Ele pondera, porém, que talvez a capital federal não esteja preparada para a mudança. “Apesar da economia que se pode ter com o uso exclusivo das catracas e a eliminação dos gastos com os salários dos cobradores, hoje, os recursos tecnológicos em uso no DF não permitem abrir mão desse trabalhador. Mas tenho certeza de que isso vai ocorrer um dia”, pontua.

 

Gabriela Studart
 

Segundo a Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiro (Transit), Brasília tem 4,8 mil cobradores e os rendimentos desses profissionais representam de 30% a 40% do valor pago pelos usuários em forma de tarifa. A remuneração atual de trabalhadores nessa função é de R$ 1.220 mais benefícios, como tíquete-alimentação (R$ 513) e cesta básica (R$ 242). A Transit não quis comentar o futuro da profissão.

Outras cidades

Em São Paulo, Doria garantiu que a mudança não implicará em desemprego, pois a ideia é que cobradores sejam treinados para atuarem como motoristas ou como funcionários de setores administrativos. Em quatro cidades do país que implantaram o pagamento das passagens de transporte público por meio de leitor eletrônico de cartão, a posição do funcionário responsável por receber pagamentos e repassar trocos tem sido eliminada. É o caso de Goiânia, Curitiba, Campinas e Recife. A substituição não está completa nas três últimas.

A voz dos cobradores
“Desde a implantação da catraca eletrônica, eu sabia que um dia ficariam só os motoristas, mas eles sofrerão porque é pesado dirigir e administrar cerca de 115 passageiro”, comenta Afonso Corrêa da Fonseca, 47 anos, cobrador há 23. A rotina dele é marcada por estresse. “Nós, rodoviários, somos muito humilhados e pressionados. Quando estamos em dupla, dividimos essa pressão”, conta. O motorista Célio Alves da Fonseca, 47, trabalha com Afonso há três anos na linha 616.3 (Arapoangas - Eixo Norte e Sul) e diz que o cobrador é parte essencial do trabalho. “Sem ele, eu teria me envolvido em vários acidentes, pois me ajuda a controlar o carro nas ultrapassagens, vendo se a pista está liberada. Além disso, os usuários são hostis e, volta e meia, querem nos bater. Sem nosso auxiliar, ficaremos vulneráveis”, teme. Se a função de cobrador for extinta, Afonso não tem interesse em outro posto no sistema rodoviário. “Tentaria outro ramo”, afirma.


Cobrador há quatro anos, Daniel Bezerra, 35, tem o sonho de se tornar condutor. “Se nos derem a chance de dirigir, para mim, seria uma boa oportunidade. Sou motorista profissional, mas, para conseguir a vaga, é preciso ter experiência no transporte público, por isso virei cobrador”, relata. No entanto, ele acredita que tanto o profissional do volante quanto o da catraca são necessários. Michele Soares, 35, está na função há 13 anos e, há dois, atua na linha 0.115 (Rodoviária do Plano Piloto - L2 - W3 Norte). Diariamente lida com passageiros em busca de informações. “Não é fácil. É estressante e acredito que, com a superlotação do DF, não é possível retirar os cobradores.”


A empresa em que Michele trabalha ofereceu uma vaga no setor administrativo, mas ela recusou. “Fui contratada como cobradora, não como vendedora”, declara. Parceiro de Michele na linha, o motorista João Batista da Cruz, 46, afirma que o estresse aumentará se os trabalhadores que recebem pelas passagens forem retirados. “Se fico doido com cobrador, imagine sem”, desabafa. Já Hermes Marcos, 42, é motorista de ônibus zebrinha há seis anos e trabalha sem a companhia de um cobrador. “Estou acostumado e gosto disso. Para mim, é tranquilo. O problema seria tirar o emprego dos caras", comenta.

 

Visão da psicologia
Estresse necessário?


Mônica Silvestre Santos, psicóloga e consultora para a melhoria de ambientes de trabalho, observa que a ausência do cobrador dentro dos ônibus, por si só, não é um fator que pode causar mais estresse aos motoristas. “Isso é uma questão muito cultural. Em várias cidades o condutor trabalha sozinho sem problemas, inclusive em Ribeirão Preto, onde moro. Nos Estados Unidos, as pessoas estão acostumadas a fazer várias atividades ao mesmo tempo. No Brasil, existe uma dificuldade grande com relação a isso. Só que o mundo demanda cada vez mais trabalhadores multitarefas. Tudo que é novo provoca desconforto, assusta, mas, às vezes, é apenas falta de costume”, avalia. O estresse parece ser algo inerente à rotina dos rodoviários: grande quantidade de passageiros, barulho, situações de tensão e longas jornadas podem causar fadiga corporal e mental. A psicóloga afirma que isso deve ser visto de forma séria. “Profissionais estressados não dormem direito, ficam constantemente cansados e têm mais chances de ter doenças físicas e emocionais”, diz.


Para qualquer pessoa, perceber que sua profissão tem risco de acabar é preocupante. O que fará a diferença é o modo de lidar com isso. “Será estressante se o trabalhador ficar numa postura passiva. No entanto, se ele observar que o mundo está mudando e internamente se mobilizar para aprender outras atividades e buscar novas oportunidades, não precisará entrar num lugar de sofrimento. Quem não aceita as opções (como se tornar motorista ou trabalhar no setor administrativo) precisa criar alternativas. Não adianta nada apenas reclamar e criticar”, diz. Para as empresas que precisam coordenar equipes num momento de transição, o ideal é investir em transparência, ética, postura exemplar. “Quando a liderança é inspiradora (em vez de ameaçadora), ela ajuda o ambiente de trabalho a ficar mais saudável e agradável.”

 

Palavra do especialista 

Ponderações

A modernização do transporte público deve ocorrer de maneira gradual, pois há alguns pontos importantes que devem ser levados em conta. Primeiro, sabemos que o cobrador não apenas recebe pelas passagens: ele é abordado para dar informações sobre o trajeto, o que é extremamente importante. Uma falha do sistema de transporte do DF é não ter um guia completo que esclareça onde o passageiro está e para onde vai. Por isso, independentemente da substituição da função de cobrador, é preciso suprir essa falta de dados. Outro ponto a se considerar é o alto custo dos aparelhos de cobrança da passagem. Para não ter um impacto grande, o sistema novo de bilhetagem deve ser implementado com calma, não do dia para a noite. Mesmo assim, a solução trará economia, visto que, apesar de cara, é um gasto único para as empresas — já o salário dos cobradores é um gasto mensal sem prazo para acabar. Por último, é preciso ter em mente que o desemprego deve ser evitado. Para isso, o governo e as empresas devem fazer um planejamento cuidadoso para poupar o emprego desses profissionais. Todos devem ficar preocupados com o futuro dessa profissão: as empresas, o governo e a população em si.

Paulo César Marques, doutor em estudos de transporte pela Universidade de Londres e professor da Universidade de Brasília

 

Povo fala

Confira a opinião de passageiros do DF sobre a possível retirada dos cobradores de dentro dos ônibus

 

Gabriela Studart
Gilberto Costa, 46 anos, segurança, morador de Sobradinho 2


“O Brasil precisa abrir empregos, aí aparece essa ideia que
vai deixar mais gente desempregada? Se rolar essa mudança, o motorista vai ter que dar atenção para os passageiros e isso vai atrapalhar o desempenho dele, que é guiar,
dirigir, é a condução.” 

 

 

 

 

Gabriela Studart
Emily Souza, 31 anos, auxiliar administrativa, moradora 
do Guará


“O desemprego é preocupante, mas os cobradores não têm muita utilidade dentro do ônibus: eles nem estão bons em dar informações. Além disso, o cartão facilitará o processo na catraca. Acho que o motorista consegue lidar bem com o fato de dirigir e atender os usuários sozinho.”

 

 

 

 

Gabriela Studart
Iago Marçal, 18 anos, estudante, mora no Jardins Mangueiral


“A transição geraria uma confusão porque qualquer mudança no sistema rodoviário é muito lenta. A função do cobrador é importante. O motorista tem o estresse de dirigir e ter que se dividir entre isso e dar informações a passageiros piorará o quadro. Nos micro-ônibus que só têm o condutor, é uma bagunça.”

 

 

 

 

Gabriela Studart
Vera Lúcia Silva, 57 anos, dona de casa, moradora do Paranoá


“Seria horrível ter só o motorista no ônibus: teria muita fila porque a gente precisa de auxílio na catraca. O condutor tem que cuidar só de dirigir e o cobrador o ajuda. É preciso manter essa divisão de funções, assim é mais seguro e rápido o processo de ingressar no ônibus.”

 

 

 

 

 

 

*Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa