SIGA O
Correio Braziliense

PSIQUE »

Trauma x Trabalho

Como abalos emocionais afetam a carreira? Problemas de concentração, baixa produtividade, ansiedade e depressão podem atrapalhar durante o expediente, mas, segundo especialistas, abandonar a vida profissional pode fazer mais mal do que bem. É preciso, porém, ter cuidado para não fazer da profissão um refúgio e deixar de lado outras áreas da vida

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 11/06/2017 14:59 / atualizado em 11/06/2017 16:07

Como vencer um trauma - e seguir com a carreira?

 

Arquivo Pessoal
 

Perder entes queridos de forma trágica, ter sido abandonado pelos pais, situações de violência... São muitos os episódios que podem desencadear um trauma. A forma como cada um lida com esse tipo de choque é individual e, no ambiente de trabalho, o melhor que chefes e colegas têm a fazer é oferecer apoio. Segundo especialistas, é importante manter a rotina laboral depois de um evento de estresse, mas sem transformar o trabalho em compulsão

 

Dois personagens de histórias trágicas que marcaram o país voltaram aos holofotes nos últimos dias. Aos 29 anos, Andreas Albert von Richtofen, o irmão de Suzane (condenada pelo assassinato dos pais em conluio com o então namorado e o cunhado), foi encontrado em estado debilitado, por abuso de substâncias ilícitas, e internado. Pedro Júnior Rosalino Braule Pinto, o Pedrinho, 31, raptado na maternidade ainda bebê em 1986, se destaca como um dos advogados de Aécio Neves. No mesmo mês e ano em que a família de Albert se despedaçava, outubro de 2002, Pedrinho descobria que Vilma Martins Costa não era sua mãe biológica. O primeiro se formou em farmácia e se tornou doutor em química pela Universidade de São Paulo (USP). O segundo, casado e com um filho de 4 anos, estudou direito no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). As experiências traumáticas são encaradas de forma diferente por cada pessoa e fatos marcantes podem trazer consequências mesmo muitos anos depois.


O termo “trauma” tem origem grega e significa “ferida”. Quando se trata da psique, denomina um choque emocional causado por experiências radicais e pressupõe sofrimento. Situações de morte, abuso, violência, desastres naturais, privações, traições e desilusões podem causar esse tipo de abalo. No entanto, outros eventos diversos têm chance de desencadear o problema. “Traumas são feridas que não cicatrizaram, ainda trazem dor e e crenças limitantes que, se não forem ressignificadas, impedirão a pessoa de ter resultados significativos nas principais áreas da vida (pessoal, profissional, relacionamentos e qualidade de vida)”, observa Sandro Gomes, graduado em gestão de recursos humanos e especialista em terapia familiar.


Coach e fundador da empresa Ser melhor em coaching, ele cita ansiedade, depressão e sentimento de culpa como problemas desencadeados por abalos emocionais. Obstáculos ao lidar com a questão são tendência de se vitimizar, resistência a buscar ou aceitar ajuda, dificuldade de olhar para a solução e preconceito. Esse último, inclusive, é um dos agravantes que podem prejudicar o convívio no ambiente laboral. Decidir continuar ou não trabalhando é uma escolha individual, no entanto, buscar ajuda válido. “Quando a pessoa está muito traumatizada, pode não estar nas melhores condições de tomar essa decisão, sugiro que procure um psiquiatra e um psicólogo experiente para ter mais clareza”, orienta.

Nem oito nem oitenta
André Monteiro, graduado, especialista, mestre e doutor em psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), observa que o trauma pode gerar dificuldade de concentração no ambiente profissional. “Há pessoas que, sentadas no computador, sentem como se alguém fosse atacá-las, têm dor ou sensação de que não conseguem fazer o que precisam”, exemplifica. No entanto, abandonar a carreira pode trazer ainda mais prejuízos. “É importante preservar certa rotina. Interromper tudo pode ser desorganizador. Nosso trabalho é estruturante”, pondera. “É compreensível que, numa primeira etapa, a produtividade caia”, explica. Se, por um lado, largar o mundo laboral não é a saída, por outro, usá-lo para fugir da realidade é similarmente negativo.


“Cada pessoa administra o desconforto de um jeito. Às vezes, de maneira construtiva (cuidando da alimentação, fazendo meditação e exercício físico, desenvolvendo hobbies, conversando com amigos), às vezes, seguindo caminhos destrutivos (como bebida, droga, transtorno alimentar, compulsão por compras ou trabalho)”, informa. “Todas essas são estratégias de gestão do desconforto”, analisa. “Há quem faça do trabalho um refúgio, pois prefere o sacrifício e a distração dele a lidar com certas lembranças. É como se fosse dos males, o menor.” Essa atitude, porém, pode acarretar outros sintomas e problemas, como a quebra de vínculos sociais, pois a pessoa passa a ter menos tempo para a família, por exemplo.

 

A escolha de agradecer
Quem sofreu um trauma pode se distanciar do sentimento de gratidão. No entanto, o coach Sandro Gomes observa que ele tem tudo a ver com a superação de uma ferida emocional, pois “faz com que a pessoa olhe para o que tem e não somente para o que perdeu”. Segundo ele, há diversos benefícios de adotar uma atitude agradecida. “A neurociência explica que a gratidão ativa o sistema de recompensa do cérebro, fortalecendo a autoestima e trazendo sentimento de satisfação. Pessoas gratas são mais resilientes e superam melhor as adversidades”, diz.

 

Congresso temático
A crescente violência urbana e os impactos emocionais e traumáticos da exposição a esse problema social estarão em debate no Congresso Internacional Violência Urbana e Trauma em Países em Desenvolvimento — Pesquisa Básica, Intervenções Clínicas e Saúde Pública, que ocorre na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) entre 30 de junho e 1º de julho em Porto Alegre. As inscrições estão abertas pelo site www.pucrs.br/eventos/urbanviolenceandtrauma. I
ngressos: de R$ 300 a R$ 480.

 

Convivo com um  colega traumatizado, o que fazer? 

 

“Companheiros de trabalho e chefes devem agir com paciência, sabedoria e inclusão. É importante que a pessoa, aos poucos e no próprio tempo, seja inserida na normalidade da empresa. Por vezes, um encaminhamento para acompanhamento profissional deve ser orientado”, orienta o coach, gestor de pessoas e terapeuta familiar Sandro Gomes.

 

Feridas na alma - Profissionais com experiências traumáticas contam suas histórias

 

Remontando o quebra-cabeça

 

Lanna Silveira
 

A morte da estudante de psicologia e pedagogia Maria Cláudia Siqueira Del’Isola, então com 19 anos, marcou a cidade. A jovem foi assassinada, em 2004, pelo caseiro e pela empregada da família e enterrada na residência onde morava no Lago Sul. O funcionário queria estuprar a adolescente e a doméstica apoiou, por sentir inveja da estudante. A dor para a família foi muito grande. “Eu me tornei filha única. Num trauma como esse, inicialmente, a gente tem vontade de largar tudo. Mas, depois, percebe que é pior ficar sem rumo ou objetivo”, revela Maria Fernanda Siqueira Del’Isola, 34, irmã da vítima. Ela tinha 21 anos quando Maria Cláudia morreu e cursava arquitetura. “Eu queria ser arquiteta desde criança, estava no último ano do curso e me agarrei a isso, resolvi me dedicar a minha carreira. Desisti de fazer pós-graduação fora do país para não deixar meus pais sozinhos e emendei a faculdade numa especialização”, recorda. Hoje, ela faz um mestrado na área e, há sete anos, é professora de arquitetura e design de interiores do Centro Universitário Iesb.


Além disso, trabalha como arquiteta autônoma, projetando casas e espaços comerciais. Filha de professores, ela não pensava em dar aulas, mas acabou se apaixonando pela docência. “Quero continuar conciliando.” Ter uma vida profissional foi “reconfortante” e fazer terapia individual e familiar foi de suma importância para conseguir seguir em frente.. “No trauma, é como se você fosse um quebra-cabeça e, de repente, viessem e mexessem em todas as peças. Para remontar, a terapia é fundamental”, compara. “Não me prendi a raiva ou rancor e sempre internalizei memórias positivas dela.” Maria Fernanda recebeu consolo de colegas e até de desconhecidos. O namorado que conheceu alguns meses depois da tragédia e com quem continua até hoje também foi uma base de conforto. A união familiar também teve seu papel. “As pessoas têm formas diferentes de lidar com a dor. O jeito que eu lido é diferente do do meu pai e da minha mãe. Mas a gente se ajudou, cada um respeitando a forma particular do outro de passar por esse luto.”

 

“É uma batalha diária”

 

Lanna Silveira
 

“A dor do abandono é muito presente ainda em mim. Não consegui superar nem perdoar. O que tenho feito é aprender a conviver. Tem dias que me dói muito, tem dias que nem lembro. Não sei bem o que me prende a isso”, desabafa Maria Caroline Passarinho Chaves, 39 anos. A técnica em enfermagem e enfermeira foi adotada pela dona de uma escola e por um administrador com um mês de vida e sempre soube disso. “Minha mãe conta que, quando me pegou no Hospital de Base, foi para casa me contando que já me amava muito, que eu era filha do coração”, relata. Quando Maria Caroline era pequena, a mãe de criação escreveu, inclusive, um livro para explicar a história. “Era sobre uma galinha e seus ovinhos. Foi o jeito que ela encontrou para dizer que filho também pode nascer de fora da barriga”, lembra. “Tenho três irmãos mais novos, todos filhos biológicos dos meus pais. Minha família é linda, meus parentes são maravilhosos, não teria como escolher pessoas melhores”, diz.


Mesmo assim, ela sofre com a questão. “Fico me interrogando e não encontro explicação para o que minha mãe biológica fez. Isso me dá raiva. Vou fazer 40 anos e não consigo lidar com isso. É uma batalha diária”, explica ela que teve problemas com depressão, ansiedade e compulsão alimentar por causa do trauma.


A enfermeira também tem dificuldade de confiar em relacionamentos. A profissional de saúde nunca procurou pela progenitora biológica. “Nunca tive vontade nem curiosidade, mas sofri e ainda sofro para entender porque fui deixada no hospital. Eu tinha muita raiva e achava inaceitável — até hoje acho — o fato de ter sido abandonada”, confessa. No início da adolescência, ela passou a ter um sentimento de revolta. “Foi o período mais difícil, em que fiquei mais agressiva e comecei a comer compulsivamente. Nessa época, comecei na terapia, algo que continuo até hoje”, lembra. Na 8ª série, depois de reprovar três anos, ela parou de estudar. “Decidi que não era para mim. Minha mãe ficou muito chateada e decepcionada e me levou para trabalhar na escola com ela. Fui ser tipo auxiliar administrativa, com 16 anos. Foi aí que descobri que eu tinha que ter uma ocupação em vez de ficar parada.”


Aos 21 anos, ela decidiu engravidar. “Comecei a namorar um rapaz (com quem fiquei casada 11 anos). Quando engravidei, falei para mim mesma: agora tenho que arrumar minha vida.” Foi então que ela fez supletivo para terminar o ensino médio.


Depois do nascimento da única filha, de 17 anos, ela descobriu sua vocação. “Eu não tinha leite e, quando cheguei em casa, ela estava desnutrida e desidratada. Uma enfermeira, com a ajuda da minha mãe, salvou a vida dela. Foi então que me interessei por essa área”, revela. A partir daí, engatou uma bela carreira no ramo. Depois de terminar o curso técnico em enfermagem, Maria Caroline passou num concurso da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Ainda trabalhando em hospitais, fez a faculdade. Hoje, trabalhando 40 horas por semana num posto de saúde, acompanha de perto a filha que ainda está no ensino médio, mas já passou no vestibular para seguir os passos da mãe e cursar enfermagem. “Meu trabalho não é um refúgio, mas é onde me divirto, me realizo, é minha paixão. Quando estou lá, o mundo para. Faço com todo o prazer.” Maria Caroline é só elogios para a mãe de criação. “Hoje, acho que ela deve ter algum orgulho de ver a mulher que me tornei e que valeu a pena o investimento que ela fez em mim”, diz. Para lidar com o trauma, ela cita que a fé em Deus e o pensamento de que “tudo passa” foram importantes.

 

Gratidão e vontade de viver

 

Lanna Silveira
 

Vânia Borges Carvalho, 48 anos, perdeu o marido e os quatro filhos num acidente de carro em 2010. A família viajava de férias, a caminho de Fortaleza (CE). Ela mesma quase morreu, teve 70% do corpo queimado, mas se recuperou e encontrou forças para continuar vivendo. Formada em pedagogia e professora da rede pública, teve tudo para deixar a carreira, pois havia perdido parte dos movimentos dos braços e teve de passar por muitas cirurgias. “A perícia médica que me visitou no Hran (Hospital Regional da Asa Norte) queria me aposentar. Eu nem teria perda salarial, mas pedi para trabalhar. Não queria ficar em casa e me prostrar, queria voltar à escola. Não tive dúvidas, sentia saudade do ambiente”, conta. Ela permaneceu no mesmo colégio até hoje: o Centro de Ensino Fundamental (CEF) 5, no Guará 2, onde dá aulas de reforço na sala de atividades.


“Claro que teve momentos difíceis, pois meus filhos estudaram ali e todas as crianças me lembram eles. Mas foi importante estar envolvida com outras histórias, não para esquecer a minha, mas para me acalentar. Tem sido a melhor terapia”, revela. Além do trabalho, ela encontrou conforto na religião espírita e na esperança de um reencontro. “Tenho o que chamam de fé raciocinada. A doutrina me ajudou muito. Nunca procurei psicólogo ou psiquiatra nem tomei medicamento”, diz. O apoio de familiares dela e do marido foi outro conforto. Por fim, foi no papel, que ela achou a chance de colocar a dor para fora por meio do livro Pérolas no asfalto (R$ 27). Lançada em 2014, a obra, em que conta a própria história, chega à segunda edição com muitos retornos positivos. Agora, ela prepara um novo livro.


“A revolta nunca fez parte de mim. Sofro a ausência, sinto o vazio, mas procurei me resignar e me esforcei muito para aceitar, pois não poderia mudar o acontecido. Eu tive todos os motivos para dizer não à vida. Só me restava sofrer, mas optei por ser feliz”, diz. “Não existe receita para lidar com um trauma, cada um faz de um jeito. Mas diria que é preciso encontrar uma força em si mesmo, aquela fagulha, aquele grãozinho de mostarda lá dentro e se propor a mudar a si mesmo”, ensina. “Eu poderia ter caído numa depressão, num manicômio, no suicídio. Fatores mil eu tive. Mas quis ser grata e a gratidão é um elixir. Todos temos nossas dificuldades, mas as pessoas hoje desistem por muito pouco”, percebe a professora que, há um ano, voltou a morar na casa da família. Vânia não pensa em ter filhos e continua solteira. “Não está nos meus planos, mas, se Deus achar que mereço um novo companheiro, que seja tão maravilhoso quanto meu marido”, conclui.

 

HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO »

 

Módulo de pós sobre sequelas psicológicas 

 

Arquivo/Sistemica Consultoria
 

“Os traumas afetam muito mais do que a carreira e podem impedir o desenvolvimento para uma vida mais plena”, observa Miriam Coelho Braga, consultora organizacional e terapeuta corporal. Ela coordena o curso de especialização Sistêmica fenomenológica familiar, promovido pela Sistêmica Consultoria em parceria com a Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs) e reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). No fim deste mês, Franz Ruppert, psicoterapeuta, doutor em psicologia e professor da Escola Superior Católica de Munique, na Alemanha, que se especializou no assunto, ministrará o quinto módulo da pós-graduação, que será  sobre trauma. Ele trabalha com constelações familiares em ampla variedade de contextos e desenvolveu um método próprio. Segundo Ruppert, uma das principais razões que torna uma pessoa psiquicamente doente é a experiência de um trauma. A interação entre a parte traumatizada, o eu sobrevivente e o núcleo saudável da pessoa pode indicar o caminho da cura.


“O Franz Ruppert deixa claro que o que define a capacidade de alguém para superar ou aguentar um trauma está nos traumas que a pessoa sofreu na primeira infância (como ausência da mãe, perda financeira). Pois, no futuro, uma gota d’água naquele copo cheio pode perturbar tudo”, explica Miriam. Socióloga e especialista em RH na área de saúde, ela defende que as constelações familiares podem ajudar a resolver problemas nesse campo. Trata-se de um método psicoterapêutico desenvolvido pelo alemão Bert Hellinger. Diferentemente do que se possa pensar, a técnica não tem caráter esotérico ou religioso, mas, sim, de terapia com sustentação científica. “Uma analogia que fiz para um cliente para explicar a técnica certa vez envolve uma árvore. As raízes são nossos antepassados; o tronco, nossos pais; galhos, folhas, flores e frutos são filhos, netos, bisnetos… Se a raiz tem um problema, isso tem ressonância em todo o clã familiar”, observa.


“A constelação mapeia, não culpa ninguém, responsabiliza e dá a pessoa a chance de se liberar de padrões de comportamento que se repetem na família. É um trabalho transgeracional para fazer o indivíduo entender seu aqui e agora, reconhecendo os antepassados”, diz. A sistêmica fenomenológica familiar, apesar de compartilhar as teorias que embasam as constelações familiares, é mais ampla, pois abarca conhecimentos transdisciplinares que, além da psicologia, contemplam áreas como filosofia, teologia, ciências sociais e física quântica. Segundo Miriam, a herança familiar nos leva a fazer escolhas de carreira. “Conheço uma policial que foi abandonada pela mãe e criada por pais adotivos. Esse trauma de abandono a fez trabalhar justamente na proteção de crianças.”

 

Participe!
Franz Ruppert ministrará um módulo de 40 horas sobre trauma no curso de especialização Sistêmica fenomenológica familiar entre 28 de junho e 2 de julho. Qualquer um pode participar, mesmo que não tenha participado das etapas anteriores. Após análise curricular e de experiência profissional, o candidato será convidado para entrevista presencial ou virtual. As inscrições estão abertas pelo site www.sistemicaconsultoria.com. A participação em apenas um módulo custa R$ 2.679.

 

O que é flexível não se quebra

A resiliência é a capacidade do ser humano de passar pelas adversidades e aprender com elas. Há pessoas que são resilientes e crescem com os problemas. Nem todos são assim, mas a boa notícia é que essa competência pode ser aprendida e desenvolvida. Confira dicas do coach Sandro Gomes para aprimorar ou conseguir ter essa habilidade:
» Ter objetivos claros: saber onde se quer chegar é fundamental
» Agir apesar do medo, vencendo a procrastinação
» Às vezes, a decisão que está se deixando para depois é justamente a de pedir ajuda quando não se consegue seguir em frente sozinho
» É preciso decidir ser resiliente: nossas escolham representam 90% do nosso sucesso, as circunstâncias apenas 10%
» Ser humilde, aprender com os outros e as situações
» Ter foco na solução e não no problema
» Procurar acreditar em si mesmo, olhando para as conquistas que obteve

 

TRêS PERGUNTAS PARA »

 

André Monteiro, graduado, mestre, doutor e pós-doutor em psicologia 

 

Arquivo Pessoal
 

 

O que difere pessoas que superam traumas das que não conseguem fazer isso?
Uma das hipóteses é a de que as primeiras vivências (até o fim da adolescência) podem interferir para criar maior ou menor vulnerabilidade a estresse. O estudo Eventos Adversos de Infância (ACE, na sigla em inglês) é muito interessante, começou a ser desenvolvido por médicos nos Estados Unidos no fim dos anos 1990 — originalmente com mais de 17 mil participantes — e continua em andamento. Ele mostra o quanto pessoas que foram expostas a situações traumáticas (como violência doméstica, divórcio ou falecimento dos pais, presença de membro da família com transtorno psiquiátrico, abuso sexual), mesmo que não considerem aquilo um trauma, têm dificuldades na vida adulta. Identificaram que o maior número desses eventos adversos de infância está ligado não só a maior quantidade de doenças mentais, mas também de doenças físicas. O estudo levou em conta uma percepção mais geral de infância, indo até o fim da adolescência. Mas, segundo estudiosos de trauma, quanto mais precoce for o caso, piores as consequências, pois as crianças não dispõe de uma organização emocional e cognitiva para entender a situação.

Por que é difícil se desprender da lembrança do acontecimento traumático?
Eu utilizo uma abordagem norte-americana chamada EMDR (Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares) — que tem recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para o tratamento de trauma — que esclarece, na dimensão teórica, o quanto algumas memórias traumáticas são armazenadas de maneira disfuncional no cérebro. Seria uma vivência que se teve e, apesar de estar no passado, quando a pessoa se lembra dela, tem uma impressão de que aquilo aconteceu há pouco tempo. Só de relatar o que aconteceu, o indivíduo tem desconforto, até mesmo físico, como se as emoções sugerissem que aquilo está se passando de novo. Quando o passado fica muito próximo do presente, é um sinal de que o cérebro não desempenhou sua função do jeito que deveria, pois ele é uma máquina de selecionar informação: aquilo que é importante deve ficar na cabeça para nos deixar com mais probabilidade de sobrevivência e adaptação aos desafios do meio ambiente e aquilo que for negativo e não agrega aos poucos deve ser esquecido. No caso do trauma, é como se esse sistema de aprendizagem ficasse sobrecarregado e emperrasse, então a pessoa não consegue, apesar da passagem do tempo, deixar essa lembrança no passado. Essa memória adquire caráter intrusivo: mesmo sem pensar, a pessoa percebe vir à mente imagem, sentimento ou sensação física do que aconteceu. Isso atrapalha viver o presente. Por exemplo, várias crianças com diagnóstico de déficit de atenção ou hiperatividade estão sofrendo intrusões de memórias de episódios traumáticos. Do mesmo modo, no caso de certas atividades laborais, se a pessoa tem uma bagagem traumática significativa e não se conecta com o presente, a capacidade de concentração fica prejudicada. É como se, a todo momento, passasse um filme do passado e é preciso gastar uma energia grande para deixar aquilo fora da consciência.

Como um acontecimento se torna traumático?
Às vezes, não foi um evento que deixou trauma. Isso pode ter surgido posteriormente, por exemplo, no modo como a situação foi contada ou passada para a pessoa. O caso também não precisa virar trauma na hora: ele adquire característica traumática quando olhamos para trás e revisitamos isso.

 

Dicas para recuperar a vida

André Monteiro, pós-doutor em psicologia, dá orientações de como agir quando perceber que está sofrendo com um trauma

» Mantenha a sua rotina
» Procure algum tipo de suporte, que pode ser no contato com pessoas que oferecem conforto para você
» Tente escrever sobre o que aconteceu: ou seja, não deixe aquilo apenas preso na cabeça, libere no papel. É algo que pode ajudar.
» Entenda que não é preciso sofrer desnecessariamente: admite quando está no seu limite. Tenha a humildade de reconhecer quando está tendo prejuízos, como dificuldade para dormir, pesadelos repetitivos, perda de apetite, falta de vontade de se levantar e enfrentar o dia. Aí, é hora de procurar ajuda profissional, na psicologia, na psiquiatria ou nos dois.