HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO »

Ana Suely, arquivista, mestre e escritora, tem uma história de superação

De família humilde, a cearense Ana Suely foi empregada doméstica na adolescência e enfrentou muitas dificuldades. Morando em Brasília há 22 anos, é autora de quatro livros, biblioteconomista, arquivista, mestre em patrimônio cultural e futura doutora pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, com consolidada carreira na área

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postado em 25/06/2017 12:11 / atualizado em 26/06/2017 17:20

 

Ana Suely Pinho Lopes, 58 anos, nasceu em Madalena (CE) e, na época, a cidade tinha apenas uma rua. A terceira de 12 irmãos e filha de um agricultor e de uma dona de casa, desenvolveu cedo a paixão por estudar, ler e escrever. Saiu do interior para trabalhar como empregada doméstica aos 14 anos. A rotina era difícil e marcada por humilhações, mas os sonhos a motivaram a não desistir e transformar utopias em realidade.



A cearense tem currículo marcado por três instituições de ensino superior públicas: cursou biblioteconomia e documentação na Universidade Federal do Ceará (UFC), arquivologia na Universidade de Brasília (UnB) — instituição em que foi patrona de uma turma de graduação — e mestrado em patrimônio cultural na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Fez ainda MBA em gestão de projetos na Universidade Católica de Brasília (UCB) e um intercâmbio em Salamanca, na Espanha. Agora está pronta para o doutorado e embarca em julho para estudar na Universidade Fernando Pessoa, em Portugal.

Lanna Silveira

Trabalhou com tratamento e organização arquivísticos e bibliográficos. Hoje, aposentada, presta consultorias. Além disso, representa a classe profissional em eventos no Brasil e no exterior, colecionando passagens por países da Europa e da América do Sul. Ela é a coordenadora nacional do Encontro Latino-americano de Bibliotecas, Arquivos e Museus (Ebam).

O que dizer dos livros, a grande paixão de Ana Suely? Ela escreveu quatro: dois de poesias, um infantil e um de memórias.  Os principais amores são da família: o marido, Elson Damasceno Lopes Filho, 57, agrônomo e bancário; as três filhas, Lívia, 31, bióloga; Paloma, 28, arquivista; e Amanda, 27, estudante de letras-português; e a neta, Mel, 4. Todos veem em Ana Suely um grande exemplo. “Além do otimismo, a maior qualidade dela é a persistência”, descreve Elson. “Minha mãe teve uma infância difícil, sempre foi batalhadora e gostou de estudar. É uma mulher que inspira”, completa a primogênita.

Paloma, que seguiu os passos profissionais da mãe, também é só elogios para Ana Suely. “Ela é muito guerreira, agradecida pelo que tem, encara os problemas com leveza. Não se prende a tramas.” Entre os irmãos, a perseverança da cearense também é unanimidade. “A Ana é uma pessoa espetacular, batalhadora”, observa a pedagoga Idelzuite Pinho, 59, irmã mais velha. Solange Vieira Pinho, 51, historiadora, bancária e irmã mais nova, concorda. “Ela sempre foi uma pessoa muito guerreira e generosa.”

 

Depoimentos

Confira testemunhos sobre a autora

 

Rodrigo Buendia
Frei Betto, 72 anos, teólogo, religioso
dominicano e escritor

 “Ana Suely dedilha sensibilidade, navegando por mitos e nostalgias, amores e flores, sonhos e utopias. Este livro é um tratado de geografia da alma lancetada por aventuras que esbarram na finitude humana e, no entanto, gritam pelo Absoluto” (trecho retirado do prefácio do livro Encontros encantos)

 

 

 

 

 

Ana Rayssa
Antonio Miranda, 76, estudioso de ciência da informação, professor emérito da UnB, poeta, escritor, dramaturgo e escultor
 “Ana Suely é ativista cultural em tempo integral, bibliotecária de formação e poeta por dedicação ou decorrência de seu projeto de vida. Vive entre livros e leitores, promovendo a leitura e os autores. (...) Diga-se antes de tudo: Ana Suely é afável, generosa e seus textos necessariamente haveriam de expressar tanta vitalidade e altruísmo” (trecho retirado do prefácio do livro Entre… Céu e mar)

 

 

 

 

Adeilton Lima, 51, ator, diretor e professor de teatro e poesia, autor do livro Sempre diga eu te amo da boca pra dentro, doutorando em artes pela UnB, autor do prefácio do livro Vivências: um olhar para a vida...

 

Mangna Oliveira

 

 

A Ana Suely tem um olhar muito lírico e generoso. A poesia dela tem leveza, te leva para um lugar de tranquilidade. Mesmo a dor é transmutada. Trata-se de uma pessoa muito verdadeira e honesta, algo raro diante do cinismo do mundo.

 

 

 

Ponto a ponto / Ana Suely em relatos

 

Paixão por livros
Meus pais tiveram pouco estudo, mas sempre valorizaram a educação.  Papai colocou as quatro filhas mais velhas, a princípio, numa escola particular. Era um colégio de padres. Numa ocasião, precisávamos comprar roupa de gala, uma farda, para participar do desfile cívico de 7 de setembro. Não tínhamos dinheiro, então faltamos. O castigo foi passar uma semana sem merenda. Durante o recreio, eu e minhas irmãs fomos obrigadas a ficar na biblioteca. Era um momento angustiante, meio constrangedor, mas eu reverti. Foi ali que comecei a ler Alice no país das maravilhas, me interessei pelos livros e decidi que gostaria de trabalhar num lugar como aquele.

Escrita
Meu avô trocava cartas com filhos militares, eu lia e me emocionava. Uma tia-avó escrevia salmos e poemas nas paredes da casa dela. Eu era muito sensível e romântica e ficava encantada com isso. Ainda pequena, gostava de escrever poesias e cartas e oferecer para amigos. Adulta, comecei a manter diários. Colegas de trabalho diziam que eu era boa com as palavras e me pediam para escrever cartões de Natal. Até escrevi cartas para uma amiga mandar para o namorado. Por fim, comecei a escrever poesias, primeiro, só para mim. Depois, passei a mandar para uma amiga. Quando vi, tinha vários textos feitos. Sempre me destaquei em redação: tirei a nota máxima no vestibular.

Servidão
Papai adoeceu de diabetes muito cedo, quando eu tinha 7 anos. A partir daí, passamos muito sufoco. Meu avô dizia “leva essas meninas para trabalhar na roça”, mas ele respondia que preferia sacrificar a vida dele para nos dar estudo, pois era a coisa boa que podia deixar. Com 14 anos, fui para Fortaleza ser empregada doméstica, mas era tipo “escrava”: não tinha carteira assinada, ganhava muito pouco, mas, assim, continuei os estudos. Depois de um ano lá, voltei à Madalena, mas tinha a necessidade de voltar, dessa vez, para trabalhar para outra família. Quando fui me despedir do meu pai, ele estava muito debilitado, não conseguiu nem se levantar da rede. Foi a última vez que o vi. Na nova casa, tive dois anos muito ruins. Eu trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Dormia pouco, vivia cansada, chorava, me sentia humilhada, mas rezava muito, estudava e procurava fazer meu melhor. Foram muitas humilhações e tudo que eu pensava era “ainda bem que meus pais não estão vendo isso”.

 

Reunião familiar

 

 

 

Fui a primeira da família a sair de casa para trabalhar. Uns tempos depois, minha irmã mais velha, Sonia (que já morreu), também veio para Fortaleza. Quando éramos três irmãs na cidade, nos juntamos para morar num pensionato. Quando a quarta chegou, alugamos uma quitinete. Quando veio a sexta, fomos para uma casa. Com o tempo, vieram todos, inclusive minha mãe. Depois de deixar de ser empregada doméstica, meu primeiro emprego, aos 16 anos, foi como atendente numa clínica de psicologia e psiquiatria. Depois, comecei a trabalhar como digitadora no Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). Mais tarde, virei bibliotecária lá dentro.

Vestibular e faculdade
Estudei em escola particular apenas um ano, o resto foi todo na rede pública. Meu ensino médio era profissionalizante em administração. Fiz dois anos de cursinho pré-vestibular até passar para biblioteconomia na federal. Todos os meus irmãos fizeram curso superior. A graduação foi um tempo muito bom, participei de muitos eventos, conheci pessoas especiais como Frei Betto e Paulo Freire. A segunda graduação fiz mais tarde, me dividindo entre trabalho e cuidado com filhos. O mestrado terminei no ano passado. Foi um período custoso, viajando para Santa Maria (RS) toda semana.

Família
Quando eu era criança, dizia que queria me casar com um funcionário do Banco do Brasil, maior referência de profissional à época. Foi o que aconteceu. Quando nos conhecemos, ele ainda não trabalhava no banco e passou na seleção depois que nos casamos. Meu marido precisou ir trabalhar no interior, a 600km de Fortaleza. Passamos cinco anos morando longe. Mais tarde, a agência em que ele trabalhava fechou e era preciso escolher um novo lugar para trabalhar. Meu sogro, com muita visão, falou para irmos para Brasília. Chegamos à capital federal em 1995.

Carreira
Passei por quatro demissões, mas elas me levaram mais longe. As três primeiras vezes foram na mesma instituição: o Serpro. Fui mandada embora quando estava de dois meses de licença maternidade, depois que começou o governo Collor de Mello. O caso virou uma batalha judicial e fui trabalhar na administração pública do Ceará. Dois anos depois do impeachment, fui anistiada e retornei ao Serpro, onde continuei inclusive quando nos mudamos para Brasília. Aqui, entraram com recurso e cassaram minha vaga. Um mês depois, voltei graças a uma liminar. Após um ano, fui demitida mais uma vez. Eu não aguentava mais e parti para outra. Prestei consultoria, fui nomeada num cargo no Arquivo Público do DF, trabalhei na Funai (Fundação Nacional do Índio) e na CNI (Confederação Nacional da Indústria). Em 2011, com a troca da presidência da última instituição, por questões políticas, me demitiram. Eu estava com 53 anos e faltavam seis meses para me aposentar. Foi um baque sair de um cargo em que eu ganhava R$ 13 mil e encontrar seleções apenas para vagas com baixos salários. Claro que isso me puxou para baixo, mas, quando decidi parar de chorar, apareceram oportunidades de consultoria em organismos importantes, como a ONU (Organização das Nações Unidas), a última que eu fiz e também a minha melhor.

Dificuldades
Nos momentos difíceis da minha vida, a impressão que eu tinha é a de que eu estava no escuro. Mas sou muito resiliente, simples, humilde, sempre aceitei críticas para melhorar.  Tive muita determinação, garra, fé, coragem, otimismo... E paixão pelo que faço. Mas o fundamental é a minha base, eu tinha uma família estruturada e prometi a meu pai que seria doutora. Uma das minhas frases preferidas é “Se é possível sonhar, é possível fazer”, do Walt Disney. Sou muito querida e admirada e ainda vou fazer muita coisa. Ainda quero dar aula em universidades, escrever um livro sobre arquivos, dar mais consultorias, morar na Chapada dos Veadeiros e montar um centro cultural lá. Não carrego nem arrependimento nem trauma. Ouvi um guru que disse que fui bibliotecária em outras vidas. Se eu nascesse de novo, gostaria de ser bibliotecária, arquivista e escritora, tudo o que sou.