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Faculdade Dulcina de Moraes volta a oferecer pós-graduação

As especializações em história das artes visuais, direção teatral e gestão de espaços e projetos culturais têm inscrições abertas até 3 de agosto

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postado em 09/07/2017 16:22 / atualizado em 09/07/2017 16:35

Minervino Junior

 

 

A Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, a primeira a licenciar bacharéis em artes cênicas, plásticas e visuais no país, mostra sinais de que pretende recuperar o prestígio e a excelência de outros tempos para continuar contribuindo com a formação de artistas e estudiosos na capital federal. No próximo mês, a instituição volta a ofertar cursos de pós-graduação lato sensu. São as especializações em história das artes visuais, direção teatral e gestão de espaços e projetos culturais. Até 3 de agosto, graduados em qualquer área podem se inscrever nas formações.



“As graduações — bacharelado e licenciatura em artes cênicas e licenciatura em artes plásticas e artes visuais — também estão com inscrições abertas até a mesma data. Aberta há 35 anos, a escola tinha interrompido os programas de pós-graduação em 2011, quando se intensificaram problemas de gestão que culminaram numa intervenção do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que começou em 2013. Silvia Paes, diretora da instituição, conta que o “apelo da população” motivou a reabertura dos cursos. “As pessoas dizem que sentem falta”, conta.

Minervino Junior

 

 

“A importância desses cursos se dá pela valorização da área de conhecimento. E é interessante porque qualquer pessoa de qualquer área pode fazer”, afirma. “Quando eles eram oferecidos antes, eram bem reconhecidos.” E a intenção é que a credibilidade se mantenha. “A faculdade tem um nome a zelar. As aulas serão dadas por bons professores, da casa e convidados”, acrescenta. A demanda por formação na tradicional escola é alta, bem como a contribuição que ela presta à sociedade: 80% dos professores de artes da rede pública do DF se formaram pela Faculdade Dulcina de Moraes.

 

"O mercado artístico é muito complicado porque a gente trabalha com algo imaterial: o prazer e a alegria”
Débora Aquino, administradora judicial da faculdade, atriz e conselheira de Cultura do DF

Além da sala de aula, os egressos da escola podem trabalhar com arte em si. Silvia avalia que esse é um mercado difícil. Débora Aquino, administradora judicial da faculdade, nomeada pelo MPDFT, observa que falta conferir seriedade ao trabalho de quem não é famoso. “É muito complicado porque a gente trabalha com algo imaterial: o prazer e a alegria. O setor não é levado a sério, mas é lucrativo. Por alto, a gente sabe que a indústria criativa movimenta cerca de 1,5% do PIB, semelhante ao nível da indústria têxtil”, compara. Silvia acredita que a falta de investimento público é um grande problema. “Tudo ligado à arte coloca o ser humano em posição de reflexão e pensamento crítico, o que gera temor nos governantes”, defende.

Entenda o caso
O promotor Josué Arão de Oliveira, da 14ª Promotoria de Justiça de Apoio Operacional do MPDFT, explica que, devido a irregularidades na administração da fundação, iniciou-se um processo de intervenção. “A gestão foi afastada e uma direção provisória teve que ser nomeada”, diz. “Essa administração provisória é responsável só pelo dia a dia. Como há um processo, é necessário acompanhar a instituição com mais rigor”, conta.

Fundação cultural
A Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e o Teatro Dulcina (com 400 cadeiras), ambos no Conic, são os dois braços da Fundação Brasileira de Teatro (FBT). Por causa da natureza da instituição, a escola está sujeita à fiscalização do poder público, pois todo o dinheiro arrecadado deve ser investido no propósito da organização, no caso, cultura e educação.

"A importância dos cursos de pós-graduação se dá pela valorização da arte”
Silvia Paes, diretora da faculdade, graduada e mestre em artes cênicas

 

Escola pioneira 

 

 

Minervino Junior

 

Considerada pela crítica como a mais importante atriz de teatro brasileira no século 20, Dulcina de Moraes (1908-1996) foi ainda diretora, produtora e professora. A escola fundada por ela completou 35 anos em março e está localizada no coração de Brasília, em um prédio projetado por Oscar Niemeyer, no Conic. “A Dulcina, por proximidade e amizade com Juscelino Kubitschek, frequentava bastante Brasília na época da construção e topou a proposta do presidente de vir à capital e fazer a faculdade, que é o primeiro conjunto de instrumentos para a estruturação de uma carreira do artista”, explica Débora Aquino, administradora judicial da faculdade, nomeada pelo MPDFT.

Eduardo Jardim

 

Segundo ela, o grande ideal da diva do teatro era formar pessoas mais fortes. “A construção do humano passa pela arte. É impossível não reagir quando se está exposto a uma obra porque, quando você olha um quadro, a primeira coisa que diz é se gostou ou não. Depois, será preciso explicar o porquê. Aí vai ter feito o que a Dulcina queria estimular: o pensamento crítico”, afirma. A diretora Silvia Paes conta que tudo começou com um sonho que Dulcina teve sobre construir uma escola de artes onde a terra fosse vermelha. “Ela pensou: onde é isso? Quando pisou em Brasília e viu o a cor do barro, disse: esse lugar existe e é aqui.”

 

Decadência

No tempo de Dulcina, o teatro tinha um público mais fidelizado, que frequentava o local não só para assistir a espetáculos, mas também para participar de encontros e debates. “Ela foi a diva da dramaturgia em um momento em que o teatro era muito importante no Brasil”, observa Débora Aquino. Com a massificação de novos meios de comunicação, o teatro perdeu espaço. “Trata-se de uma arte muito rudimentar e tradicional e toda tecnologia que chega a ameaça. Ela sobrevive por causa do aspecto humano”, ressalta Débora. Silvia Paes percebe que a falta de investimento em cultura é a principal causa da falta de público. “Em um país de terceiro mundo como o nosso, a arte passa por um processo de desvalorização.”

 

Pratas da casa

 

 

Base para o sucesso

 

Arquivo Pessoal
 

 

“Essa faculdade, para mim, é superimportante. Foi lá onde tudo começou, onde fiz o primeiro teste da minha vida e, a partir disso, entrei na instituição”, lembra o ator brasiliense Murilo Rosa, 46 anos. “O tempo na Dulcina foi muito marcante. Foi uma experiência linda. Tenho um carinho muito grande por professores daquela época”, diz.

Murilo faz questão de rememorar uma frase dita pelo professor Humberto Pedrancini. “Ele me disse: ‘Murilo, se um dia você puder fazer alguma coisa pela arte, faça porque você tem talento’. Fiquei muito contente, foi um incentivo muito grande”, afirma o ator que tem mais de 20 anos de carreira e atuou em mais de 25 novelas, 18 filmes e 12 peças de teatro. Atualmente participa do reality musical PopStar da Rede Globo, que estreia neste domingo (9), às 13h.

 

Formação marcante

 

Arquivo Pessoal
 

 

A artista plástica Suzy Lima de Souza, 50 anos, professora do Centro Educacional 1 do Guará, estudou artes plásticas na Dulcina entre 1984 e 1988. “Uma vez, entrei no elevador e dei de cara com Eduardo Dusek (ator, cantor e compositor), quase morri. Gostava tanto da faculdade que nunca faltava”, lembra. Ela teve a oportunidade de fazer uma entrevista com a própria Dulcina de Moraes.

“Foi muito marcante. Ela tinha um perfume fortíssimo. Falava e parecia encenar uma peça”, conta. Pós-graduada em psicopedagogia clínica, acredita que Dulcina ajudou a fazer da capital federal um centro de cultura. O vínculo pessoal com a instituição se revela forte. “A faculdade foi a base de tudo que consegui na minha vida. O que eu sou e tenho devo a ela. Hoje em dia, consegui um lugar no mercado e é quase um sonho”, afirma.

 

O espetáculo não para

 

João P.Telles
 


A história do diretor de teatro Fernando Guimarães, 52 anos, está completamente ligada à da faculdade. Aos 18, começou a estudar na instituição. “Fui aluno da Dulcina e foi fantástico porque ela era uma pessoa impressionante. Desde então, tenho uma relação amorosa e profissional com a fundação. Por isso, acabei voltando”, conta o docente mais antigo ainda em ativa na escola — ele entrou em 1996.

“A aula dela era um espetáculo. Para mim, aquilo era ensina”, relembra. Ele explica que a fundação tem passado por muitas dificuldades, mas a importância dela prevalece. “A gente tem uma equipe docente e discente muito apaixonada e é isso que mantém a Dulcina firme. Nós nunca deixamos de trabalhar, mesmo sem receber.” Com o irmão, Adriano Guimarães, Fernando dirige peças.

 

 

 

* Estagiária sob a supervisão de Ana Paula Lisboa